                          Nicholas Sparks

            O Melhor de Mim
                 Para Scott Schwimer, um amigo maravilhoso.

                                   Arqueiro
                                    2012



                                      1

As alucinaes de Dawson Cole comearam depois da exploso na plataforma, o
dia em que ele poderia ter morrido.
Ele achava que tinha visto de tudo em seus 14 anos trabalhando em plataformas
de petrleo. Em 1997, testemunhara um helicptero perder o controle durante o
pouso. O gigante de ao cara no convs, transformando-se em uma violenta bola
de fogo, e Dawson sofrer queimaduras de segundo grau nas costas ao tentar
resgatar os passageiros. Treze pessoas morreram, a maioria delas passageiros do
helicptero. Quatro anos depois, quando um guindaste desmoronou em uma
plataforma, um destroo de ferro do tamanho de uma bola de basquete passou
zunindo perto de sua cabea, a milmetros de arranc-la. Em 2004, ele era um
dos poucos trabalhadores que ainda estavam na plataforma quando um furaco a
atingiu, trazendo ventos de mais de 150 quilmetros por hora e ondas to
grandes que ele pensou nos procedimentos de emergncia que devia seguir no
caso de a plataforma virar. Mas sempre houve outros perigos alm desses.
Pessoas escorregavam, peas se quebravam. Cortes e contuses eram rotina
naquele trabalho. Dawson presenciara muitos ossos quebrados, dois surtos de
intoxicao alimentar que afetaram toda a equipe e, dois anos antes, em 2007,
vira um navio de abastecimento comear a afundar logo depois de se afastar da
plataforma e seus tripulantes serem resgatados no ltimo minuto por uma lancha
da Guarda Costeira.
Mas a exploso foi diferente. Como no houve vazamento de petrleo - os
dispositivos de segurana evitaram uma catstrofe a histria mal chegou aos
noticirios, sendo esquecida em poucos dias. Porm, para as pessoas que estavam
no local, inclusive Dawson, foi um verdadeiro pesadelo. Era uma manh comum.
Ele estava monitorando as estaes de bombeamento quando, de repente, um
dos tanques de armazenamento explodiu. Antes que ele pudesse sequer entender
o que estava acontecendo, o impacto da exploso o lanou para um depsito ao
lado. Em seguida, o fogo tomou tudo. Coberta de graxa e leo, a plataforma
inteira logo se tornou um inferno de chamas. Duas outras exploses fortes
sacudiram a estrutura com mais violncia ainda. Dawson se lembrava de estar
arrastando algumas pessoas para afast-las do fogo quando uma quarta exploso,
mais forte que as anteriores, o arremessou longe novamente. Ele tinha uma vaga
lembrana de cair em direo  gua, uma queda que, para todos os efeitos,
deveria t-lo matado.
Como muitos outros, ele no tivera tempo de vestir um colete salva-vidas nem
de procurar um bote. Quando voltara a si, estava boiando no golfo do Mxico, a
cerca de 150 quilmetros da costa da Louisiana. Entre uma onda e outra,
conseguira avistar um homem de cabelos pretos acenando ao longe, como se
fizesse sinal para que Dawson nadasse at ele. Cansado e zonzo, comeara a dar
braadas na direo do homem, lutando contra as ondas. Acreditava estar se
aproximando, mas a ondulao do mar tornava impossvel saber ao certo. As
roupas e as botas o impeliam para baixo e, quando seus braos e pernas
comearam a perder as foras, ele teve certeza de que iria morrer. Foi quando
viu um colete salva-vidas em meio a alguns destroos. Ento, usando a pouca
energia que lhe restava, nadou at ele. Mais tarde, descobriria que estivera na
gua mais de quatro horas e que se afastara mais de um quilmetro e meio da
plataforma antes de ser resgatado por um navio de abastecimento que fora s
pressas para o local.
Ele foi levado a bordo e carregado para o convs inferior, com os demais
sobreviventes. Dawson estava trmulo por conta da hipotermia e bastante
desorientado. Embora sua viso estivesse embaada - depois descobriria ter
sofrido uma concusso leve pde perceber a sorte que tivera. Viu homens com
queimaduras graves nos braos e nos ombros, enquanto outros sangravam pelos
ouvidos ou tinham sofrido fraturas. Conhecia a maioria deles pelo nome. No
havia muitos lugares aonde ir na plataforma - ela era basicamente um vilarejo no
meio do oceano - e todos acabavam se encontrando no refeitrio, na sala de
recreao ou na academia mais cedo ou mais tarde.
Um homem, no entanto, lhe parecia vagamente familiar. Vestia um casaco azul
que algum tripulante do navio devia ter lhe emprestado e, da outra extremidade
do recinto abarrotado, encarava Dawson. Seus cabelos eram pretos e ele
aparentava uns 40 anos. Dawson achou que ele parecia deslocado ali, mais
lembrando algum que trabalhasse em um escritrio do que em uma plataforma
no mar. O homem acenou e o vulto que Dawson avistara na gua lhe veio 
cabea. Era ele. De repente, sentiu os pelos da nuca se eriarem. Antes que
pudesse identificar a origem daquela inquietude, um cobertor surgiu sobre seu
ombro e ele foi levado at um canto onde um mdico aguardava para examin-
lo.
Quando voltou a sentar, o homem de cabelos pretos havia desaparecido.
Ao longo da hora seguinte, mais sobreviventes foram levados a bordo, porm, 
medida que seu corpo voltava a se aquecer, Dawson comeou a imaginar o que
teria acontecido ao restante da tripulao. Homens com os quais havia
trabalhado por anos a fio continuavam desaparecidos. Mais tarde, descobriria
que 24 pessoas tinham morrido. Com o tempo, a maioria dos corpos foi
encontrada, mas no todos. Enquanto se recuperava no hospital, Dawson no
conseguia parar de pensar que algumas das famlias nem ao menos tiveram a
possibilidade de se despedir das pessoas que amavam.
Depois da exploso, ele comeou a ter dificuldade para dormir. No por causa de
pesadelos, mas porque no conseguia se livrar da sensao de estar sendo
observado. Ele se sentia... assombrado, por mais ridculo que parecesse. Dia e
noite, notava algum movimento com o canto do olho, mas, sempre que se virava,
no havia nada nem ningum. Comeou a achar que estava enlouquecendo. O
mdico achou que aquilo talvez pudesse ser algum tipo de estresse ps-
traumtico e que seu crebro talvez ainda no estivesse totalmente curado da
concusso. Aquilo fazia sentido, mas no convencia Dawson. Ele apenas assentiu
e o mdico lhe prescreveu plulas para dormir. Dawson nem se deu o trabalho de
compr-las.
Ele recebeu uma licena remunerada de seis meses enquanto as questes
jurdicas eram avaliadas. Trs semanas depois, a empresa em que trabalhava lhe
ofereceu um acordo e ele assinou os papis. A essa altura, um bando de
advogados j havia entrado em contato com Dawson - todos vidos por assumir
uma ao coletiva -, mas ele no queria se aborrecer. Apenas aceitou o acordo e,
no dia em que recebeu o cheque, o depositou.
Com dinheiro suficiente para que algumas pessoas o considerassem rico, logo
depois Dawson transferiu a maior parte do valor para uma conta nas ilhas
Cayman. Dali, o montante foi enviado para uma conta corporativa no Panam,
que tinha sido aberta quase sem burocracia, e ento transferido para seu destino
final. Como sempre, seria quase impossvel rastrear o dinheiro.
Ele ficou apenas com o suficiente para o aluguel e algumas despesas bsicas. No
precisava de muito. Nem queria muito. Morava em uma casinha simples no final
de uma estrada de terra nos arredores de Nova Orleans. Quem a visse
provavelmente acharia que seu maior mrito era no ter sido levada pelo furaco
Katrina, em 2005. O revestimento das paredes externas estava rachado e j sem
cor. O interior consistia em um banheiro, um quarto, uma sala de estar mnima e
uma cozinha em que mal cabia um frigobar. O isolamento trmico era precrio
e, com o passar dos anos, a umidade havia deformado o piso, o que dava a
impresso de se estar sempre andando em declives. O linleo da cozinha estava
rachado nos cantos, o carpete que cobria algumas reas estava pudo e a moblia
fora comprada em bazares. No havia uma s fotografia enfeitando as paredes.
Embora Dawson morasse ali fazia quase 15 anos, aquele era mais o lugar em que
ele dormia, tomava banho e fazia suas refeies do que propriamente um lar.
Apesar de velha, sua casa estava quase sempre to impecvel quanto as dos
bairros chiques da cidade. Dawson era - sempre fora - um tanto obcecado por
limpeza e organizao. Duas vezes por ano vasculhava tudo em busca de
rachaduras e frestas, que consertava para manter roedores e insetos longe.
Sempre que estava prestes a embarcar, esfregava com desinfetante o cho da
cozinha e o do banheiro e tirava dos armrios qualquer coisa que pudesse
estragar ou mofar. Durante sua ausncia, sobretudo no vero, qualquer coisa que
no fosse enlatada corria esse risco. Geralmente ele trabalhava por 30 dias,
depois ficava outros 30 de folga. Quando voltava, fazia outra faxina completa,
mantendo tudo bem arejado para se livrar do cheiro de mofo.
Era um recanto silencioso, e isso era tudo de que ele precisava. Ficava a quase
meio quilmetro da estrada principal e ainda mais distante de qualquer vizinho.
Depois de passar um ms na plataforma, essa tranqilidade era exatamente o que
ele queria. Uma das coisas com as quais nunca se acostumara no trabalho era o
barulho incessante. Um barulho anormal. Guindastes repondo suprimentos,
helicpteros voando, motores girando, o martelar ininterrupto de metal contra
metal - a cacofonia no parava nunca. As plataformas bombeavam petrleo 24
horas por dia, o que significava que a barulheira no tinha fim nem mesmo
quando Dawson estava tentando dormir. Ele fazia o possvel para ignor-la
quando estava embarcado, mas, sempre que voltava para casa, ficava
impressionado com o silncio quase impenetrvel mesmo nas horas em que o sol
estava alto no cu. Pela manh, conseguia ouvir os pssaros nas rvores e, ao cair
da noite, ficava escutando como as cigarras e os sapos s vezes cantavam em
sincronia.
Em geral, isso era relaxante, mas de vez em quando fazia com que ele se
lembrasse do lugar de onde viera. Quando isso acontecia, Dawson ia para dentro
de casa, forando-se a afastar a lembrana. Ele tentava se concentrar nas rotinas
simples que dominavam sua vida em terra firme. Comia, dormia, corria,
levantava peso e consertava seu carro. Pegava a estrada e fazia longas viagens
sem destino. Vez por outra, ia pescar. Lia todas as noites e, de vez em quando,
escrevia uma carta para Tuck Hostetler. Isso era tudo. No tinha televiso nem
rdio e, embora possusse um telefone celular, nos contatos s havia nmeros de
pessoas do trabalho. Fazia compras e passava na livraria uma vez por ms, mas,
fora isso, nunca passeava por Nova Orleans. Em 14 anos, nunca tinha ido 
Bourbon Street ou caminhado pelo Quarteiro Francs, jamais tomara um caf
no Du Monde, nem a famosa mistura de licor de rom, rum e suco de frutas do
Lafitte's. Em vez de ir a uma academia, malhava nos fundos da casa, sob uma
lona que havia pendurado entre a parede e duas rvores. No ia ao cinema e no
passava as tardes de domingo assistindo a jogos de futebol na casa de amigos.
Estava com 42 anos e no tinha uma namorada desde a adolescncia.
A maioria das pessoas no gostaria nem seria capaz de viver dessa forma, mas
elas no o conheciam, no sabiam quem ele tinha sido ou o que fizera. Dawson
preferia que as coisas continuassem assim.
Ento, em uma tarde quente de meados de junho, quando Dawson estava de
licena havia quase nove semanas, um telefonema inesperado fez com que suas
lembranas voltassem  tona. Pela primeira vez em quase 20 anos, finalmente
voltaria  sua cidade natal. A idia o deixava apreensivo, mas ele sabia que no
tinha escolha. Tuck era mais que um amigo: fora um verdadeiro pai para ele.
Em meio ao silncio, enquanto refletia sobre o ano que havia sido um divisor de
guas em sua vida, Dawson tornou a perceber um movimento com o canto do
olho. Quando se virou, no havia absolutamente nada ali. Mais uma vez se
perguntou se no estaria enlouquecendo.

Quem havia telefonado fora Morgan Tanner, um advogado da cidade de
Oriental, na Carolina do Norte, para lhe informar que Tuck Hostetler tinha
falecido.
- H algumas providncias que precisam ser tomadas pessoalmente - explicou
Tanner.
Assim que desligaram, Dawson agendou seu voo e reservou um quarto em uma
pousada da regio. Em seguida, telefonou para uma floricultura e encomendou
um buqu de flores.
Na manh seguinte, depois de trancar a porta, seguiu para os fundos da casa, em
direo ao galpo de zinco onde guardava seu carro. Era uma quinta-feira, 18 de
junho de 2009, e ele levava consigo seu nico terno e uma bolsa de viagem que
arrumara no meio da noite, enquanto no conseguia dormir. Abriu o cadeado e
rolou a porta para cima, observando a luz do sol banhar o carro que vinha
restaurando e consertando desde os tempos de escola. Era um Mustang 1969
esportivo, com carroceria contnua. O tipo de carro que fazia as pessoas pararem
para olhar quando Nixon era presidente e continuava causando o mesmo efeito
nos dias de hoje. Parecia ter acabado de sair da linha de montagem e, ao longo
dos anos, inmeros desconhecidos haviam mostrado interesse em compr-lo.
Dawson recusara todas as ofertas. " mais do que um carro", dizia a eles, sem dar
maiores explicaes. Tuck teria entendido perfeitamente.
Dawson jogou a bolsa no banco do carona e estendeu o terno sobre ela antes de
sentar ao volante. Girou a chave, fazendo o motor dar partida com um rugido
alto, e manobrou o carro at o caminho de cascalho, descendo em seguida para
trancar o galpo. Nesse meio-tempo, repassou uma lista em sua cabea para se
certificar de que no se esquecera de nada. Dois minutos depois, estava na
estrada principal e, meia hora mais tarde, parava o carro no estacionamento do
aeroporto de Nova Orleans. Detestava a idia de deix-lo ali, mas no tinha
escolha. Recolheu suas coisas e seguiu para o terminal, onde pegou a passagem
no balco da companhia area.
O aeroporto fervilhava. Homens e mulheres andavam de braos dados, famlias
iam visitar os avs ou a Disney, estudantes faziam o trajeto da universidade para
casa ou vice-versa, homens de negcios falavam ao celular enquanto arrastavam
suas malas de rodinhas. Ele foi para a fila de embarque, que se movia
lentamente, e esperou sua vez. Mostrou seus documentos e respondeu ao
questionrio bsico de segurana antes de receber o carto de embarque. Faria
uma escala de pouco mais de uma hora em Charlotte. No era ruim. Depois que
aterrissasse em New Bern e pegasse o carro que alugara, teria mais 40 minutos de
estrada pela frente. Se no houvesse atrasos, estaria em Oriental no fim da tarde.
S foi perceber quanto estava cansado quando sentou em seu lugar no avio. No
sabia bem a que horas finalmente pegara no sono - da ltima vez que havia
conferido, eram quase quatro da manh -, mas imaginou que fosse dormir
bastante durante o vo. Alm disso, poderia descansar um pouco mais quando
chegasse  cidade, uma vez que no teria muito o que fazer l. Era filho nico e
sua me o abandonara quando ele tinha 3 anos. O pai, por sua vez, fizera ao
mundo o favor de beber at morrer. Fazia anos Dawson no falava com algum
da famlia. No pretendia retomar os laos quela altura.
Seria uma viagem rpida, do tipo bate e volta. Ele no tinha inteno de se
demorar mais do que o necessrio, apenas cuidaria do que precisava ser feito.
Podia at ter sido criado em Oriental, mas nunca pertencera quele lugar. A
cidade que ele conhecia no se parecia em nada com a imagem que se vendia aos
turistas. Para a maioria das pessoas que passava uma tarde ali, Oriental devia
parecer uma cidadezinha pitoresca, apreciada por artistas, poetas e aposentados
que no queriam nada mais do que passar seus ltimos anos de vida velejando no
rio Neuse. Havia um centro comercial, com direito a antiqurios, galerias de arte
e cafs, assim como mais festivais do que parecia possvel para uma cidade com
menos de mil habitantes. Mas a verdadeira Oriental, a que ele conhecera, era
aquela das famlias que habitavam a regio desde o perodo colonial. Pessoas
como o juiz McCall e o xerife Harris, como Eugenia Wilcox e as famlias Collier
e Bennett. Eram elas que sempre tinham sido as donas da terra e das plantaes,
que vendiam a madeira e comandavam os negcios. Eram elas a poderosa
influncia oculta na regio que sempre lhes pertencera - e que mantinham do
jeito que desejavam.
Dawson sentira isso na prpria pele aos 18 anos e novamente aos 23, quando
finalmente fora embora dali. No era fcil ser um Cole em nenhuma parte do
condado de Pamlico, sobretudo em Oriental. At onde sabia, todos os Cole desde
seu bisav tinham passado pela priso em algum momento. Vrios tinham sido
condenados, por tudo o que se pudesse imaginar, desde roubo seguido de
agresso, passando por incndio criminoso e tentativa de homicdio, at
assassinato. A propriedade de solo rochoso e matas que abrigava a famlia e os
agregados era como um pas  parte, com leis prprias, e nela se espalhavam
cabanas decrpitas, casebres e celeiros entulhados de lixo. A menos que no
tivesse escolha, at o xerife evitava entrar nela. Caadores mantinham distncia,
supondo, com razo, que a placa que dizia INVASORES SERO RECEBIDOS  BALA
no era um simples alerta, mas uma promessa.
Da famlia Cole faziam parte contrabandistas de bebida, traficantes de drogas,
beberres, cafetes, assaltantes, homens que batiam nas esposas, pais e mes que
agrediam os filhos, mas, sobretudo, sua marca registrada era a violncia. Segundo
um artigo publicado em uma revista, era uma das famlias mais cruis e
vingativas da regio. O pai de Dawson no era exceo. Passara boa parte da
vida, dos 20 anos ao comeo dos 30, na cadeia devido a vrios crimes, inclusive
apunhalar um homem com um picador de gelo por ter ultrapassado seu carro na
estrada. Por duas vezes, ele havia sido julgado por assassinato e absolvido, depois
que as testemunhas desapareceram. At os parentes sabiam que era melhor no
irrit-lo. Como e por que sua me se casara com ele era algo que Dawson no
conseguia sequer imaginar. No a culpava de ter fugido. Quisera fazer o mesmo
durante a maior parte da infncia. Tambm no a culpava de no t-lo levado
junto. Os homens da famlia Cole eram estranhamente possessivos quanto a seus
filhos. Dawson no tinha dvidas de que o pai os teria caado e pegado o filho de
volta de qualquer forma. Ele chegara a dizer isso mais de uma vez, porm
Dawson no tivera coragem de perguntar o que o pai teria feito se ela se
recusasse a devolv-lo. J sabia a resposta.
Ele se perguntou quantos de seus parentes ainda estariam morando naquela
propriedade. Quando enfim fora embora, viviam ali, alm de seu pai, um de seus
avs, quatro tios, trs tias e 16 primos. quela altura, os primos j teriam os
prprios filhos, ento devia haver ainda mais gente l, mas ele no tinha a menor
vontade de descobrir. Aquele podia ter sido o mundo em que Dawson crescera,
mas, assim como Oriental, nunca fora o lugar ao qual pertencia. Talvez sua me,
seja l quem fosse, tivesse algo a ver com isso, mas Dawson no era como aquela
gente. Ao contrrio dos primos, ele tirava boas notas e nunca brigava na escola.
No se envolvia com drogas nem bebida e, na adolescncia, evitava sair com os
primos quando eles iam de carro at a cidade em busca de encrenca. Nessas
ocasies, geralmente lhes dizia que precisava cuidar da destilaria ou ajudar a
depenar um carro que algum da famlia roubara. Ficava na dele e fazia de tudo
para passar o mais despercebido possvel.
Era como andar em uma corda bamba. Os Cole podiam ser criminosos, mas no
eram burros. Dawson sabia instintivamente que deveria se esforar ao mximo
para no deixar que notassem quanto era diferente. Devia ser o nico aluno em
toda a histria de sua escola que fazia as provas tentando no acertar tudo ou que
adulterava o boletim para baixar as prprias notas. Descobrira como esvaziar
uma lata de cerveja s escondidas quando algum virava as costas, furando-a com
uma faca. Fazia sero at tarde no trabalho para ter uma desculpa para evitar os
primos. Isso deu certo por um tempo, mas logo comearam a surgir rachaduras
em sua fachada. Um professor comentou com um amigo de birita de seu pai que
ele era o melhor aluno da turma, tias e tios comearam a se dar conta de que,
entre todos os primos, ele era o nico que nunca infringira a lei. Ele era
diferente em uma famlia que valorizava a lealdade entre si e a conformidade
com os prprios padres acima de tudo o mais. No poderia haver pecado maior
do que esse.
Seu pai ficara furioso. Embora Dawson estivesse acostumado a apanhar desde
muito pequeno - quando o pai usava cintos e correias -, aos 12 anos as surras
comearam a piorar. Seu pai batia em suas costas e no peito at que ficassem
azulados, ento voltava uma hora depois, concentrando-se no rosto e nas pernas.
Os professores sabiam o que estava acontecendo, mas temiam pelas prprias
famlias e ficavam calados. At o xerife fingia no ver os hematomas e verges do
menino enquanto ele voltava caminhando da escola.
J o restante da famlia no via problemas no que estava acontecendo. Abee e
Ted, seus primos mais velhos, o agrediram mais de uma vez, surrando-o to feio
quanto seu pai. Abee porque achava que Dawson estava fazendo por merecer;
Ted, por pura diverso. Alto e corpulento, de punhos enormes, Abee era
violento e tinha pavio curto, porm era mais inteligente do que parecia. Ted, por
outro lado, era ruim de nascena. No jardim de infncia, golpeara um colega com
um lpis enquanto brigavam por uma menina. Antes de ser finalmente expulso,
no quinto ano, j havia mandado outro colega de classe para o hospital. Diziam
que tinha matado um viciado quando ainda era adolescente. Dawson calculara
que seria melhor no revidar. Em vez disso, aprendera a se proteger enquanto
levava os golpes, at que os primos se entediassem ou ficassem cansados.
Apesar de tudo, ele no participava dos negcios da famlia, e cada vez se
convencia mais de que nunca o faria. Debaixo da cada chuva de pancadas, ele
tentava imaginar a coragem que a me tivera ao cortar todos os laos com aquela
famlia. Com o tempo, descobriu que quanto mais gritava, mais o pai batia, ento
passou a ficar calado. Por mais violento que o pai fosse, no passava de um
valento, e Dawson sabia que valentes s entram em brigas que sabem que vo
vencer. Sabia tambm que chegaria uma hora em que ele seria forte o bastante
para revidar, em que no teria mais medo.
Ento se esforou ao mximo para acelerar esse processo. Amarrou a uma rvore
um saco cheio de trapos, que esmurrava por horas a fio. Usava pedras e peas de
motor como peso sempre que podia. Fazia barra, flexes e abdominais. Antes de
completar 13 anos, ganhara 4,5 quilos de msculos. Aos 14, ganhara outros nove.
Estava crescendo, tambm. Aos 15 anos, j era quase to alto quanto o pai.
Um ms depois de completar 16 anos, quando o pai quis atac-lo com um cinto
depois de uma noite de bebedeira, Dawson se levantou e o arrancou de sua mo.
Jurou ao pai que, se voltasse a tocar nele mais uma vez que fosse, ele o mataria.
Naquela noite, sem ter para onde ir, Dawson se refugiou na oficina de Tuck.
Quando ele o encontrou, na manh seguinte, o rapaz lhe pediu um emprego. O
homem limpou as mos no leno que mantinha no bolso de trs da cala,
analisando-o enquanto pegava um cigarro. Na poca, tinha 61 anos e era vivo
havia dois. Tuck no tinha motivo para ajudar Dawson, que, alm de um
estranho, era tambm um Cole. Quando falou, o hlito exalou um cheiro de
lcool e a voz saiu rspida por conta dos cigarros sem filtro que fumava desde
criana. Seu sotaque, como o de Dawson, era totalmente interiorano:
- Imagino que saiba desmontar carros, mas faz alguma idia de como mont-los
de volta?
- Sim, senhor - respondera Dawson.
- Tem que ir  escola hoje?
- Sim, senhor.
- Ento volte aqui depois da aula e verei o que posso fazer.
Dawson apareceu, conforme o combinado, e fez de tudo para provar seu valor.
Depois do expediente, choveu durante a maior parte da noite. Quando Dawson
voltou s escondidas para a oficina em busca de abrigo, Tuck esperava por ele.
O homem no falou nada. Em vez disso, deu uma longa tragada em seu cigarro,
estreitando os olhos em silncio. Depois de um tempo, voltou para dentro de
casa. Dawson nunca mais passou uma noite na propriedade da famlia. Tuck no
cobrava aluguel e o rapaz comprava a prpria comida.
Com o passar dos meses, pela primeira vez na vida, Dawson comeou a pensar
no futuro. Economizava o mximo que podia, permitindo-se apenas o luxo de
comprar um carro em um ferro-velho e, s vezes, ch em uma lanchonete. 
noite, depois do trabalho, consertava seu carro enquanto tomava o ch e sonhava
ir para a faculdade, algo que nenhum Cole fizera antes. Cogitou entrar para o
Exrcito, ou simplesmente alugar um canto s para ele, mas, antes que pudesse
tomar uma deciso, seu pai apareceu de repente na oficina. Veio acompanhado
de Ted e Abee. Ambos traziam tacos de beisebol e ele conseguiu ver o volume de
um canivete no bolso de Ted.
- Me d o dinheiro que voc ganhou - disse o pai sem rodeios.
- No - respondeu Dawson.
- Sabia que iria dizer isso, moleque. Voc pode me dar o que me deve por ter
fugido ou Ted e Abee podem lhe dar uma surra e pegar a grana. Dawson ficou
calado. O pai cutucou as gengivas com um palito de dente.
- Veja bem, tudo o que preciso para acabar com essa sua vidinha  que algum
cometa um crime l na cidade. Um arrombamento, talvez, ou um incndio.
Quem sabe? Depois,  s plantar umas provas, dar um telefonema annimo para
o xerife e deixar a lei fazer seu trabalho. Voc vai estar sozinho aqui a noite
inteira, sem nenhum libi, e por mim pode passar o resto da vida apodrecendo
em uma cela. No dou a mnima. Ento, por que no me passa a grana de uma
vez?
Dawson sabia que o pai no estava blefando. Mantendo o rosto impassvel, tirou
o dinheiro da carteira. Depois de contar as notas, seu pai cuspiu o palito no cho
e sorriu.
- Eu volto na semana que vem.
Dawson se virava com o que tinha. Conseguia separar um pouco do dinheiro que
ganhava para continuar a consertar o carro e comprar o ch, mas a maior parte
do salrio ia para o bolso do pai. Desconfiava que Tuck soubesse o que estava
acontecendo, mas o homem nunca abordou o assunto diretamente - no por
medo dos Cole, mas porque no era da sua conta. Em vez de tocar no assunto,
Tuck comeou a preparar comida de mais para um homem que jantava sozinho.
- Sobrou um pouco, se voc quiser - dizia, levando um prato at a oficina.
Geralmente, voltava para dentro de casa sem falar mais nada. Era assim que a
relao dos dois funcionava, e Dawson respeitava isso. Ele respeitava Tuck.  sua
maneira, aquele homem se tornara a pessoa mais importante de seu mundo, e o
rapaz no conseguia imaginar nada que pudesse mudar esse fato.
At o dia em que Amanda Collier entrou em sua vida.
Embora conhecesse Amanda havia muito tempo - existia apenas uma escola de
ensino mdio no condado de Pamlico e os dois tinham estudado juntos a vida
toda -, foi somente no ltimo ano que eles trocaram mais do que algumas poucas
palavras pela primeira vez. Ele sempre a achara bonita, mas no era o nico:
Amanda era popular, o tipo de garota que estava sempre cercada de amigas no
refeitrio enquanto os rapazes competiam por sua ateno. Alm disso, ela no
s era representante de turma, como tambm animadora de torcida. Para
completar, era rica e to inacessvel para Dawson quanto uma artista de tev. Ele
nunca havia lhe dirigido uma palavra, at que os dois acabaram se tornando
parceiros de laboratrio na aula de qumica.
Enquanto trabalhavam em tubos de ensaio e estudavam juntos para as provas do
semestre, Dawson percebeu que ela era totalmente diferente do que ele havia
imaginado. Primeiro, o fato de ela ser uma Collier e ele ser um Cole no parecia
fazer a menor diferena para Amanda. Seu riso era solto e desenfreado e, quando
ela sorria, havia algo de travesso em sua expresso, como se soubesse de algo de
que ningum mais suspeitava. Seu cabelo era louro, da cor do mel, e seus olhos,
azuis como um cu de vero. De vez em quando, enquanto os dois anotavam
frmulas em seus cadernos, ela tocava o brao de Dawson para chamar sua
ateno. A sensao de seu toque durava horas e horas. A tarde, trabalhando na
oficina, Dawson muitas vezes se via incapaz de parar de pensar em Amanda.
Demorou a primavera inteira para criar coragem e convid-la a tomar um
sorvete e, por volta do final do ano letivo, os dois j estavam passando cada vez
mais tempo juntos.
Isso foi em 1984 e ele tinha 17 anos. Quando o vero acabou, ele j sabia que
estava apaixonado e, quando o ar ficou mais fresco e as folhas de outono
comearam a cobrir o cho de vermelho e amarelo, no tinha dvidas de que
queria passar o resto da vida com Amanda, por mais louco que isso parecesse.
Eles continuaram juntos no ano seguinte: estavam cada vez mais unidos e
passavam todo momento que podiam ao lado um do outro. Com Amanda, era
fcil para Dawson ser ele mesmo. Pela primeira vez na vida, ele se sentia feliz.
Mesmo depois de tanto tempo, s vezes a nica coisa em que conseguia pensar
era naquele ltimo ano juntos. Ou, melhor dizendo, a nica coisa
em que ele conseguia pensar era Amanda.

Dawson se acomodou no avio. Pegara um lugar  janela, na metade traseira da
aeronave, ao lado de uma jovem: ruiva, 30 e poucos anos, alta, braos e pernas
longos. No fazia exatamente seu tipo, mas era bonita. A ruiva esbarrou nele
enquanto procurava o cinto de segurana e se desculpou com um sorriso.
Dawson meneou a cabea, mas, percebendo que ela estava prestes a puxar
assunto, olhou pela janela. Enquanto observava o carro de bagagens se afastar do
avio, deixou-se levar, como tantas vezes, por suas antigas recordaes de
Amanda. Lembrou-se das ocasies em que foram nadar no rio Neuse naquele
primeiro vero, seus corpos molhados roando um no outro; de como Amanda
costumava se empoleirar em um banco da oficina de Tuck enquanto ele
trabalhava em seu carro, abraando os joelhos e fazendo-o imaginar que tudo o
que queria era ficar ali, a observ-la para sempre. Em agosto, quando Dawson
finalmente conseguiu fazer seu carro funcionar, ele a levara  praia. L, os dois se
deitaram em toalhas, suas mos entrelaadas enquanto conversavam sobre seus
livros e filmes favoritos, sobre seus segredos e sonhos.
Eles tambm discutiam e, nessas ocasies, Dawson conhecia a personalidade
forte de Amanda. Os desentendimentos entre os dois no eram frequentes, mas
tampouco eram raros. O curioso era que, por mais depressa que os nimos se
exaltassem, eles quase sempre voltavam a se acalmar com a mesma rapidez. s
vezes uma bobagem os fazia brigar feio - Amanda podia ser muito teimosa -, mas
geralmente isso no dava em nada. Mesmo quando Dawson ficava irritado de
verdade, no conseguia deixar de admirar a franqueza dela, porque Amanda era
a pessoa que mais se importava com ele.
Alm de Tuck, ningum entendia o que ela teria visto em Dawson. Embora a
princpio houvessem tentando esconder o relacionamento, Oriental era uma
cidade pequena e as pessoas inevitavelmente comearam a fofocar. As amigas de
Amanda se afastaram uma a uma e foi apenas questo de tempo at que os pais
dela descobrissem o motivo. Ele era um Cole e ela, uma Colher, o que era mais
do que suficiente para causar espanto. No comeo, os pais de Amanda se
agarraram  esperana de que ela estivesse apenas passando por uma fase rebelde
e tentaram ignorar o assunto. Quando isso no deu certo, as coisas ficaram mais
difceis para ela. Eles confiscaram sua carteira de motorista e a proibiram de usar
o telefone. Durante o outono, ela passou semanas a fio de castigo e foi proibida
de sair nos fins de semana. Dawson nunca teve permisso de entrar na casa da
famlia e, na nica vez em que o pai de Amanda lhe dirigiu a palavra, foi para
cham-lo de "vagabundo imprestvel". A me de Amanda implorou a ela que
terminasse o namoro e, em dezembro daquele ano, o pai parou de falar com a
filha.
A hostilidade que cercava o casal s serviu para aproximar os dois ainda mais e,
quando Dawson comeou a segurar a mo da namorada em pblico, Amanda a
agarrava com fora, desafiando qualquer um a mandar que ela a largasse.
Mas Dawson no era ingnuo. Por mais que gostasse de Amanda, sempre teve a
sensao de que estavam apenas adiando o inevitvel. Tudo e todos pareciam
conspirar contra eles. Quando seu pai descobriu a respeito de Amanda, comeou
a perguntar sobre ela quando ia recolher o salrio do filho. Embora no houvesse
nada claramente ameaador em seu tom de voz, o simples fato de ouvi-lo dizer o
nome de sua namorada bastava para embrulhar o estmago do rapaz.
Em janeiro Amanda completou 18 anos, porm, por mais que estivessem furiosos
com o namoro, os pais no a expulsaram de casa. quela altura, ela j no se
importava com o que eles pensavam - ou pelo menos era isso que sempre dizia ao
namorado. s vezes, depois de mais uma discusso feroz com os pais, ela
escapava pela janela do quarto no meio da noite e ia para a oficina. Geralmente
Dawson estava esperando por ela, mas vez por outra acordava com Amanda
empurrando-o para o lado enquanto se juntava a ele na esteira em que dormia,
no cho. Eles ento caminhavam at o riacho, onde Dawson passava o brao ao
redor da namorada e os dois ficavam sentados em um dos galhos baixos de um
antigo carvalho. Ali, sob o luar, enquanto as tainhas saltavam na gua, ela
contava a discusso que tivera com os pais, s vezes com a voz trmula, mas
sempre tomando cuidado para no magoar Dawson. Ele a amava por isso, mas
sabia muito bem o que os pais dela pensavam a seu respeito. Certa noite em que
lgrimas escorriam dos olhos de Amanda, depois de outra dessas brigas, ele
sugeriu com brandura que talvez fosse melhor que os dois parassem de se ver.
-  isso que voc quer? - balbuciou ela, com a voz embargada.
Ele a puxou para si, envolvendo-a nos braos.
- Eu s quero que voc seja feliz - sussurrou.
Ela se apertou contra o corpo do namorado, descansando a cabea em seu ombro.
Enquanto a abraava, Dawson se odiou mais que nunca por ter nascido na
famlia Cole.
-  quando estou com voc que sou mais feliz - murmurou ela.
Mais tarde naquela noite, eles fizeram amor pela primeira vez. E, pelas duas
dcadas seguintes, e ainda depois, ele carregou dentro de si as lembranas e
aquelas palavras, sabendo que valiam para os dois.

Depois de aterrissar em Charlotte, Dawson jogou sua bolsa de viagem e o terno
sobre o ombro e atravessou o terminal, mal notando o burburinho  sua volta
enquanto remoa as recordaes de seu ltimo vero com Amanda. Na
primavera daquele ano, ela recebera uma carta dizendo que havia sido aceita na
Universidade Duke, seu sonho de infncia. O fantasma de sua partida, aliado ao
isolamento que sofria por parte da famlia e dos amigos, s aumentou o desejo
dos dois de ficar o mximo de tempo possvel juntos. Eles passavam horas na
praia e davam longos passeios de carro com o rdio no ltimo volume, ou
simplesmente ficavam  toa na oficina de Tuck. Juraram que nada mudaria
depois que ela fosse para a faculdade: ou ele iria de carro at Durham ou ela viria
visit-lo. Amanda no tinha dvidas de que eles dariam um jeito.
Seus pais, no entanto, tinham outros planos. Em uma manh de sbado de
agosto, pouco mais de uma semana antes de ela partir para Durham, eles a
puseram contra a parede antes que ela pudesse escapulir de casa. Sua me foi a
nica a falar, embora Amanda soubesse que o pai concordava com cada palavra
pronunciada por ela.
- Isso j foi longe demais - comeou a me, e em seguida, em um tom de voz
surpreendentemente calmo, disse que, se Amanda continuasse a se encontrar
com Dawson, teria de sair de casa e comear a pagar as prprias contas. Os pais
tambm no pagariam sua faculdade. - Por que deveramos gastar dinheiro com
seus estudos, se voc est jogando sua vida fora?
Quando Amanda comeou a protestar, a me a interrompeu na mesma hora:
- Ele ir arrast-la para a lama, Amanda, mas voc ainda  jovem demais para
entender isso. Ento, se quer ter a liberdade de uma adulta, ter de assumir as
responsabilidades de uma adulta. Pode ficar com Dawson e jogar sua vida no
lixo, ns no vamos impedi-la. Mas tambm no vamos ajud-la.
Amanda saiu correndo de casa, pensando apenas em encontrar Dawson. Quando
chegou  oficina, chorava to forte que no conseguia falar. O namorado a
abraou firme, deixando os fragmentos da histria virem  tona quando
finalmente os soluos de Amanda se aplacaram.
- Podemos morar juntos - disse ela, seu rosto ainda mido.
- Onde? - perguntou ele. - Aqui, na oficina?
- No sei. Ns vamos dar um jeito.
Dawson ficou calado, olhando para o cho.
- Voc precisa ir para a faculdade - disse ele enfim.
- Que se dane a faculdade! - protestou Amanda. - O que importa para mim 
voc.
Ele deixou os braos carem.
- E o que importa para mim  voc. E  por isso que no posso fazer com que
perca a faculdade.
Ela balanou a cabea, perplexa.
- Voc no est me fazendo perder nada. Meus pais, sim. Esto me tratando
como se eu ainda fosse criana.
-  por minha causa. Ns dois sabemos disso. - Ele chutou o cho. - Quando
voc ama uma pessoa, precisa libert-la, no ?
Pela primeira vez, um brilho surgiu nos olhos de Amanda.
- E, se ela voltar,  porque o destino quis assim?  isso que voc acha que est
acontecendo? Que nossa vida virou um clich? - Ela agarrou o brao de Dawson,
fincando os dedos em sua pele. - Ns no somos um clich - prosseguiu Amanda.
- Vamos encontrar uma maneira. Posso arranjar um emprego de garonete ou
coisa parecida, da podemos alugar um apartamento.
Ele manteve a voz calma, esforando-se para que ela no falhasse.
- Como? Acha que meu pai vai parar o que est fazendo?
- Podemos nos mudar daqui.
- Para onde? Com o qu? Eu no tenho nada. Ser que voc no entende isso? -
Ele deixou as palavras no ar e, quando ela no respondeu, prosseguiu: - S estou
tentando ser realista. E da sua vida que estamos falando. E eu... no posso mais
fazer parte dela.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que seus pais tm razo.
- Voc no est falando srio.
Ele escutou algo muito parecido com medo na voz de Amanda. Por mais que
quisesse abra-la, recuou um passo.
- Volte para casa.
Ela andou em sua direo:
- Dawson...
- No! - explodiu ele, afastando-se rapidamente. - Voc no est ouvindo.
Acabou, est bem? Ns tentamos, no deu certo. A vida continua.
Ela ficou plida, o rosto quase sem vida:
- Ento  assim?
Em vez de responder, ele se forou a lhe dar as costas e andar em direo 
oficina. Sabia que, se olhasse uma s vez para Amanda, mudaria de idia. No
podia fazer isso com ela. No faria. Enfiou-se debaixo do cap de seu carro e ali
escondeu dela suas lgrimas.
Quando Amanda finalmente foi embora, Dawson deslizou at o cho de
concreto empoeirado e ficou horas ali, at Tuck sair da casa e se sentar ao seu
lado. Durante um bom tempo, o homem ficou em silncio.
- Voc terminou com ela - disse enfim.
- No tive escolha. - Dawson mal conseguia falar.
-  - assentiu Tuck. - Tambm ouvi isso.
O sol estava alto no cu, banhando tudo com uma quietude que lembrava a
morte.
- Eu fiz a coisa certa?
Tuck enfiou a mo no bolso e sacou um mao de cigarros, ganhando tempo antes
de responder. Por fim, puxou um cigarro:
- No sei. No vou negar que parece haver certo encanto quando vocs esto
juntos. E esse encanto torna mais difcil esquecer as coisas. - Tuck lhe deu um
tapinha nas costas e se levantou para ir embora. Foi o mximo que jamais dissera
sobre Amanda.
Enquanto Tuck se afastava, o rapaz estreitou os olhos contra o sol e as lgrimas
voltaram a escorrer. Sabia que Amanda sempre seria a melhor parte dele, o "eu"
que Dawson passaria a vida inteira desejando conhecer.
O que ele no sabia era que no voltaria a v-la ou a falar com ela. Na semana
seguinte, Amanda se mudou para o alojamento da Universidade Duke e, um ms
depois, Dawson foi preso.
Ele passou os quatro anos seguintes atrs das grades.

                                          2

Amanda desceu de seu carro e correu os olhos pela cabana que um dia fora o lar de
Tuck. Havia passado trs horas dirigindo e era bom esticar as pernas. Seu pescoo e os
ombros continuavam tensos, um lembrete da discusso que tivera com Frank pela
manh. Ele no entendia sua insistncia em ir ao funeral e, pensando bem, talvez
tivesse razo. Em quase 20 anos de casamento, ela nunca mencionara o nome de Tuck
Hostetler. Se fosse o contrrio, provavelmente ela tambm ficaria irritada.
Mas a briga no tinha sido por causa de Tuck nem dos segredos dela, nem
mesmo se devia ao fato de que ficaria mais um fim de semana longe da famlia.
No fundo, os dois sabiam que no passava de uma continuao da mesma briga
que vinham tendo ao longo da maior parte dos ltimos 10 anos, e ela se
desenrolara da maneira habitual. No havia sido acalorada ou violenta - seu
marido no fazia esse tipo, graas a Deus - e, no final, Frank tinha at
murmurado uma desculpa seca antes de sair para o trabalho. Como sempre,
Amanda passara o restante da manh e toda a tarde se esforando ao mximo
para esquecer aquilo. Afinal de contas, no havia nada que pudesse fazer a
respeito e, com o tempo, aprendera a se anestesiar em meio  raiva e 
inquietao que passaram a ser marcas registradas do relacionamento dos dois.
Durante a viagem at Oriental, os telefonemas de seus dois filhos mais velhos,
Jared e Lynn, tinham sido momentos de distrao bem-vindos. Eles estavam de
frias e, no decorrer das ltimas semanas, a casa estivera repleta da algazarra
tpica dos adolescentes. O funeral de Tuck coincidira com o fim de semana que
ambos passariam fora - Jared com uma garota chamada Melody e Lynn
passeando de barco com uma amiga da escola e a famlia dela. J Annette - o
"maravilhoso acidente" do casal, como Frank a chamava - passaria duas semanas
em uma colnia de frias. Provavelmente tambm teria telefonado, se o uso de
celulares no fosse proibido por l - o que era uma boa coisa, porque, do
contrrio, a pequena tagarela sem dvida estaria ligando de manh, de tarde e de
noite.
Pensar nos filhos lhe trouxe um sorriso aos lbios. Apesar de seu trabalho
voluntrio no Centro de Oncologia Peditrica do hospital da Universidade Duke,
sua vida girava basicamente em torno dos trs. Desde o nascimento de Jared,
Amanda se tornara me em tempo integral e, embora tivesse aceitado de bom
grado a experincia e de modo geral a adorasse, parte dela nunca deixara de se
aborrecer com as limitaes que a funo impunha. Amanda gostava de se ver
como algo alm de esposa e me. Entrara para a faculdade para se tornar
professora e chegara inclusive a cogitar fazer ps-graduao, pensando em
lecionar em alguma das universidades da regio. Havia comeado a dar aulas
para o terceiro ano do ensino fundamental depois de se formar... mas ento a
vida de alguma forma mudara os planos. Agora, aos 42 anos, s vezes se
surpreendia dizendo de brincadeira que mal podia esperar para crescer e poder
decidir o que fazer da vida.
Alguns poderiam chamar isso de crise da meia-idade, mas Amanda tinha suas
dvidas sobre se era mesmo disso que se tratava. Ela no tinha vontade de
comprar um carro esportivo, fazer uma cirurgia plstica ou fugir para alguma
ilha no Caribe. Tambm no era uma questo de tdio, de jeito nenhum: os
filhos e o hospital lhe davam trabalho de sobra. Era mais uma sensao de que,
de alguma forma, ela havia perdido de vista a pessoa que um dia pretendera ser -
e no sabia bem se ainda teria oportunidade de reencontr-la.
Durante um bom tempo ela se considerara uma mulher de sorte, em grande
parte por causa de Frank. Eles tinham se conhecido na festa de uma fraternidade
durante seu segundo ano na Duke. Apesar do barulho da festa, os dois
conseguiram encontrar um canto sossegado, onde ficaram conversando at a
madrugada. Dois anos mais velho que Amanda, Frank era srio e inteligente e,
mesmo naquela primeira noite, ela no teve dvidas de que ele teria sucesso no
que quer que decidisse fazer. Isso bastou para a histria dos dois comear. Em
agosto, ele foi para a Escola de Odontologia da Universidade da Carolina do
Norte, em Chapei Hill, mas eles continuaram namorando pelos dois anos
seguintes. O noivado foi mera conseqncia e, em julho de 1989, poucas semanas
depois de Amanda se formar, os dois se casaram.
Depois de uma lua de mel nas Bahamas, ela comeou a dar aula em uma escola
de ensino fundamental da regio, mas, quando Jared nasceu, no vero seguinte,
Amanda tirou uma licena. Lynn veio 18 meses depois, e a licena se tornou
permanente. A essa altura, Frank conseguira um emprstimo que lhe permitira
abrir a prpria clnica e comprar uma pequena casa em Durham, o primeiro
imvel do casal. Foram anos difceis. Frank queria vencer sozinho e se recusava a
aceitar ajuda da famlia dos dois. Pagavam as contas essenciais, mas quase nunca
sobrava dinheiro suficiente para alugarem um filme no fim de semana.
Raramente jantavam fora e, uma vez, quando o carro quebrou, Amanda passou
um ms inteiro em casa, at juntarem a quantia necessria para o conserto.
Dormiam com vrios cobertores para economizarem na calefao. Por mais
estressantes e cansativos que aqueles anos pudessem ter sido, quando parava para
pensar na vida, Amanda sabia que aquele tambm fora o perodo mais feliz do
casamento.
A clnica de Frank cresceu gradativamente e, em muitos aspectos, suas vidas se
assentaram em um padro estvel. Frank trabalhava e ela tomava conta da casa e
dos filhos. Ento uma terceira criana, Bea, veio justamente na poca em que
eles venderam a primeira casa e se mudaram para uma maior, que haviam
construdo em uma rea mais bem localizada da cidade. Em seguida, a vida ficou
ainda mais corrida. Enquanto Frank comeava a ter sucesso com a clnica,
Amanda levava Jared  escola e Lynn a parques e festinhas, com Bea na
cadeirinha de beb, entre os dois. Foi nesse perodo que Amanda comeou
novamente a pensar em fazer uma ps-graduao. Chegou at a avaliar alguns
programas de mestrado, imaginando que talvez pudesse se matricular quando
Bea entrasse para o jardim de infncia. Mas, quando Bea morreu, suas ambies
sofreram um baque. Sem alarde, ela deixou de lado os livros que precisava
estudar para a prova de seleo e abandonou os formulrios em uma gaveta.
Quando ficou grvida de Annette, decidiu que no voltaria mais a estudar. A
gravidez no planejada na verdade serviu para renovar em Amanda a vontade de
se concentrar na reconstruo da vida familiar, fazendo com que se dedicasse
obstinadamente s atividades e rotinas dos filhos, nem que fosse apenas para
manter a dor longe. A medida que os anos passavam e as lembranas da
irmzinha Bea comeavam a desaparecer, a vida de Jared e Lynn voltava pouco a
pouco  normalidade e Amanda se sentiu grata por isso. Com seu jeito risonho,
Annette trouxe um novo tipo de alegria para a casa e, de vez em quando,
Amanda quase conseguia fingir que eles eram uma famlia completa e amorosa
nunca atingida pela tragdia.
No era to fcil fingir o mesmo em relao a seu casamento.
Amanda no tinha, nem nunca tivera, a iluso de que o casamento significava
felicidade e romance eternos. Pegue duas pessoas quaisquer, acrescente os
inevitveis altos e baixos da vida e d uma boa mexida nos ingredientes: pode ter
certeza de que haver algumas brigas feias, por mais que o casal se ame. O tempo
tambm traz seus desafios. O conforto e a familiaridade de um relacionamento
estvel so maravilhosos, mas entorpecem a paixo e o encantamento. Quando
existem previsibilidade e rotina,  quase impossvel haver surpresas. Em seu
casamento, j no havia histrias novas para contar. Um muitas vezes podia
terminar as frases do outro e tanto ela quanto Frank tinham chegado ao ponto
em que um s olhar dispensava palavras. Mas isso tinha mudado depois que
perderam Bea. No caso de Amanda, a morte da filha desencadeara um
comprometimento ferrenho com o trabalho voluntrio no hospital; Frank, por
outro lado, deixara de beber apenas socialmente para se tornar um verdadeiro
alcolatra.
Ela sabia a diferena, e nunca fora pudica em relao  bebida. Havia passado do
limite em vrias festas da faculdade e ainda gostava de uma taa de vinho
durante o jantar. s vezes at tomava uma segunda, o que quase sempre era
suficiente. Mas, no caso de Frank, o que comeara como uma maneira de
anestesiar a dor havia se transformado em algo incontrolvel.
Em retrospecto, ela s vezes achava que deveria ter previsto isso. Na Duke, ele
gostava de beber enquanto assistia a jogos de basquete com os amigos e, na escola
de odontologia, geralmente tomava duas ou trs cervejas para espairecer depois
das aulas. Mas, durante os meses sombrios em que Bea esteve doente, duas ou
trs cervejas por noite foram aos poucos se transformando em meia dzia.
Depois que a filha morreu, ele passou a consumir uma embalagem com 12.
Quando chegaram ao segundo aniversrio de morte da filha, com Annette j na
barriga, Frank estava bebendo em excesso mesmo quando precisava trabalhar na
manh seguinte. Nos ltimos tempos, isso vinha acontecendo quatro ou cinco
noites por semana - e na anterior no tinha sido diferente. Ele entrara
cambaleando no quarto depois da meia-noite, mais bbado do que nunca, e
comeara a roncar to alto que Amanda teve que dormir no quarto de hspedes.
Tinha sido a bebedeira, no Tuck, o verdadeiro motivo da discusso que tiveram
pela manh.
No decorrer dos anos, ela testemunhara todo o processo, desde a fala um pouco
enrolada na hora do jantar ou durante um churrasco at os desmaios de to
bbado no cho do quarto. Porm, como sempre pagava as contas, raramente
faltava ao trabalho e era considerado por todos um excelente dentista, Frank no
achava que tivesse um problema. Como nunca ficava agressivo ou violento, no
acreditava que tivesse um problema. Como geralmente era s cerveja,  claro que
no podia ser um problema.
Mas era, porque aos poucos Frank foi se tornando o tipo de homem com o qual
ela jamais teria imaginado se casar. Amanda perdeu a conta das vezes em que
havia chorado. Ou conversado com ele, insistindo em que pensasse nas crianas.
Ou implorado que fizessem terapia de casal, que buscassem uma sada. Ou se
enfurecido por causa do egosmo dele. Ela o ignorara por dias a fio, obrigara-o a
dormir semanas no quarto de hspedes e rezara ardentemente. Cerca de uma vez
por ano, Frank levava seus pedidos a srio e dava um tempo na bebida. Ento,
algumas semanas depois, tomava uma cerveja durante o jantar. S uma. E aquilo
no causava problemas naquela noite. Talvez nem mesmo na prxima vez em
que ele o fizesse. Mas aquela era a porta aberta para o Mal entrar e a bebida
sempre voltava a fugir ao seu controle. Ento ela se via fazendo a mesma
pergunta que fizera no passado. Por que, quando a vontade de beber vinha, ele
no conseguia simplesmente virar as costas a ela? E por que Frank se recusava a
admitir que isso estava destruindo o casamento dos dois?
Amanda no sabia. S o que sabia era que aquilo a estava esgotando. Na maior
parte do tempo, tinha a sensao de que era a nica adulta responsvel o
bastante para cuidar das crianas. Jared e Lynn j tinham idade para dirigir, mas
o que aconteceria se um deles sofresse um acidente e precisasse do pai quando
Frank estivesse bebendo? Ele seria capaz de correr at o carro, prender o cinto
de Annette no banco de trs e ir para o hospital? E se algum passasse mal? J
havia acontecido. No com as crianas, mas com ela. Alguns anos atrs, Amanda
ficara horas vomitando no banheiro por conta de uma intoxicao alimentar. Na
poca, Jared tinha apenas carteira provisria, que no lhe permitia dirigir 
noite, e Frank estava de porre. Por volta da meia-noite, quando ela j estava 
beira da desidratao, Jared acabou levando-a para o hospital, enquanto
Frank ficou sentado no banco de trs, fingindo estar mais sbrio do que de fato
estava. Apesar de estar quase delirante, Amanda percebeu que Jared olhava o
tempo todo para o retrovisor, com um mistura de decepo e raiva no rosto. s
vezes ela pensava que o filho perdera grande parte de sua inocncia naquela
noite: uma criana defrontando-se com as fraquezas dos pais.
Aquilo era uma fonte constante e exaustiva de inquietao e ela estava cansada
de ter de se preocupar com o que as crianas pensavam ou sentiam ao verem o
pai cambalear pela casa. Ou de ficar apreensiva com o fato de Jared e Lynn
parecerem ter perdido o respeito por Frank. Ou de se inquietar com a
possibilidade de, no futuro, Jared, Lynn ou Annette comearem a imit-lo,
buscando uma fuga constante na bebida, nos comprimidos ou s Deus sabe em
que mais, at destrurem suas vidas.
Ela tampouco encontrara muitas formas de ajudar. No precisava de um grupo
como o AA para saber que no havia muito que pudesse fazer para mudar a
situao de Frank. Que, enquanto o marido no admitisse ter um problema e se
concentrasse em melhorar, continuaria a ser um alcolatra. E o que isso
significava para Amanda? Que ela precisava fazer uma escolha. Que precisava
decidir se queria ou no continuar tolerando tudo aquilo. Que deveria pesar as
conseqncias e aceit-las. Na teoria, era fcil. Na prtica, contudo, isso s servia
para deix-la com raiva. Se o problema era dele, por que era ela quem deveria
assumir a responsabilidade? Por outro lado, se o alcoolismo era uma doena, isso
no significava que Frank precisava de sua ajuda, ou pelo menos de sua lealdade?
Como a esposa - a mulher que havia jurado ficar ao lado dele na sade e na
doena - poderia acabar com o casamento e desintegrar a famlia, depois de tudo
que haviam passado juntos? Isso faria dela ou uma me e esposa desalmada ou
uma covarde que facilitava a runa do marido, quando tudo o que queria era ter
de volta o Frank que conhecera.
Isso tornava cada dia um suplcio. Amanda no queria se divorciar dele e separar
a famlia. Por mais comprometido que o casamento dos dois estivesse, parte dela
ainda acreditava nos votos que tinha feito. Ela amava o homem que ele fora e
amava o homem que sabia que ele poderia ser, mas, naquele instante, parada em
frente  casa de Tuck Hostetler, sentia-se triste e sozinha e no podia deixar de
se perguntar como sua vida tinha chegado quele ponto.

Amanda sabia que sua me a aguardava, mas ainda no se sentia pronta para
encar-la. Precisava de mais alguns minutos e, quando a noite comeou a cair,
atravessou o quintal malcuidado em direo  oficina entulhada em que Tuck
costumava passar seus dias restaurando carros antigos. Havia um Corvette
Stingray estacionado l, um modelo dos anos 1960, imaginou Amanda. Enquanto
passava a mo sobre o cap, foi fcil imaginar que Tuck voltaria  oficina a
qualquer momento, a luz do pr do sol delineando a silhueta de seu corpo
arqueado. Ele estaria usando um macaco manchado, seus cabelos grisalhos e
ralos mal lhe cobrindo a cabea, as rugas em seu rosto to profundas que quase
pareceriam cicatrizes.
Apesar do interrogatrio que Frank fizera sobre Tuck naquela manh, Amanda
no tinha dito muita coisa: descrevera-o apenas como um velho amigo da
famlia. Essa no era toda a verdade, porm o que mais poderia dizer? Ela prpria
admitia que sua amizade com Tuck era estranha. Amanda o conhecera na poca
do ensino mdio, mas s voltara a encontr-lo seis anos antes, quando tinha 36.
Na poca, viera a Oriental para visitar a me e, enquanto tomava um caf no
Irvins Diner, entreouvira um grupo de idosos em uma mesa ao lado falar sobre
ele.
- Aquele Tuck Hostetler ainda faz mgica com os carros, mas sem dvida j est
doido de pedra - disse um deles, rindo e balanando a cabea. - Falar com a
mulher morta  uma coisa, mas jurar que ela responde  outra, completamente
diferente.
O amigo deu uma risada sarcstica:
- Ele sempre foi meio esquisito, isso sim.
Aquilo no se parecia em nada com o homem que ela conhecera e, depois de
pagar seu caf, Amanda entrou no carro e voltou at a quase esquecida estrada
de terra que levava  casa de Tuck. Acabaram passando a tarde inteira
conversando nas cadeiras de balano na varanda da frente. Desde ento, ela
criara o hbito de passar ali para visit-lo sempre que estava na cidade. No
comeo, ia l apenas uma ou duas ocasies por ano - Amanda no suportava ver
a me mais do que isso -, mas nos ltimos tempos ela ia a Oriental e visitava
Tuck mesmo quando a me estava fora da cidade. Geralmente tambm preparava
o jantar para ele. Tuck estava velho e, por mais que ela gostasse de dizer a si
mesma que estava apenas fazendo um pouco de companhia a um senhor de
idade, os dois sabiam o que realmente levava Amanda a voltar sempre.
De certa forma, os homens no restaurante tinham razo. Tuck havia mudado. J
no era mais a figura calada e misteriosa, s vezes grosseira, de que Amanda se
lembrava, mas tambm no estava louco. Sabia a diferena entre fantasia e
realidade, e tambm que a mulher morrera tempos atrs. Mas Tuck, decidiu ela
enfim, era capaz de transformar o que quisesse em realidade. Pelo menos para
ele mesmo. Quando Amanda finalmente lhe perguntou sobre as "conversas" que
vinha tendo com a esposa falecida, ele lhe disse, em tom casual, que Clara ainda
estava por ali e que sempre estaria. Ele no s conversava com ela, disse, como
tambm a via.
- O senhor est me dizendo que ela  um fantasma? - perguntou Amanda.
- No - respondeu Tuck. - S estou dizendo que ela no quer que eu fique
sozinho.
- Ela est aqui agora?
Tuck olhou por sobre o ombro.
- No estou vendo, mas d para ouvi-la zanzando pela casa.
Amanda parou para ouvir, mas escutou apenas o rangido das cadeiras
de balano nas tbuas do assoalho.
- Ela j estava por a... antes? Quando eu conheci o senhor?
Ele respirou fundo e, quando falou, sua voz soou cansada:
- No. Mas eu no tentava v-la naquela poca.
Havia algo de inegavelmente tocante, quase romntico, em sua convico de que
os dois se amavam o suficiente para encontrarem uma maneira de continuarem
juntos, mesmo depois de ela partir. Quem no teria achado isso bonito? Todo
mundo quer acreditar no amor eterno. Ela mesma havia acreditado, quando
tinha 18 anos. Mas sabia que o amor era difcil, assim como a vida. Sofria
reviravoltas impossveis de ser previstas ou mesmo entendidas, e deixava um
longo rastro de arrependimento pelo caminho. E, quase sempre, esse
arrependimento levava a perguntas do tipo "E se..." que nunca poderiam ser
respondidas. E se Bea no tivesse morrido? E se Frank no tivesse se tornado
alcolatra? E se ela tivesse se casado com seu verdadeiro amor? Ser que ainda
seria a mesma pessoa?
Recostada no carro, Amanda se perguntava o que Tuck teria achado de suas
reflexes. Ele, que comia ovos com farinha de milho no Irvin's toda manh e
jogava amendoim torrado nos copos de Pepsi que bebia.
Que havia morado na mesma casa por quase 70 anos e sado do estado somente
uma vez, quando convocado para servir durante a Segunda Guerra Mundial. Que
escutava rdio ou toca-discos, em vez de assistir  televiso, porque era o que
estava acostumado a fazer. Ao contrrio de Amanda, ele parecia aceitar de bom
grado o papel que o mundo lhe reservara. Ela reconhecia que aquela aceitao
inabalvel era provavelmente um tipo de sabedoria, mesmo que nunca fosse
capaz de alcan-la.
Mas Tuck tinha Clara, o que talvez tivesse algo a ver com essa aceitao. Eles
haviam se casado aos 17 e passado 42 anos juntos. Em suas conversas, Tuck aos
poucos narrara a Amanda a histria dos dois. Falando baixinho, ele lhe contara
sobre os trs abortos espontneos de Clara, sendo que o ltimo havia causado
graves complicaes. Segundo Tuck, depois que o mdico informara que ela no
poderia mais ter filhos, Clara passara quase um ano chorando antes de dormir.
Amanda tambm ficou sabendo que Clara tinha uma horta e certa vez uma
abbora cultivada por ela fora a maior de todas em uma competio estadual
(Amanda chegara a ver a medalha desbotada ainda presa no espelho no quarto).
Tuck lhe dissera que, depois que montou o prprio negcio, eles construram
uma pequena cabana s margens do rio Bay, perto da cidade de Vandemere - que
fazia Oriental parecer uma metrpole -, e passaram a ir l algumas semanas todos
os anos, pois Clara achava que era o lugar mais bonito do mundo. Descrevera
como Clara costumava cantarolar junto com o rdio enquanto limpava a casa e
revelara inclusive que de vez em quando a levava para danar no Red Lee's Grill,
um lugar que a prpria Amanda tinha freqentado quando adolescente.
Era uma vida simples, concluiu ela, em que a felicidade e o amor vinham nos
pequenos detalhes do cotidiano. Uma vida digna e honrada, no sem tristezas,
mas gratificante de uma maneira que poucas conseguiam ser. Ela sabia que Tuck
entendia isso melhor do que ningum.
- Com Clara, era sempre bom - resumira ele para Amanda certa vez.
Talvez fosse pelo fato de aquelas histrias serem to ntimas ou por Amanda se
sentir cada vez mais sozinha, mas Tuck logo se tornou uma espcie de
confidente, algo que ela jamais teria previsto. Foi com Tuck que ela
compartilhou a dor e a tristeza da morte de Bea e foi em sua varanda que pde
extravasar a raiva que sentia de Frank. Foi para ele que confessou suas
preocupaes em relao aos filhos e sua convico crescente de que, em algum
momento, tomara a direo errada na vida. Dividiu com Tuck histrias sobre os
inmeros pais atormentados e as crianas incrivelmente otimistas que conhecia
no Centro de Oncologia Peditrica e ele pareceu entender, mesmo que ela nunca
tivesse dito diretamente, que Amanda encontrava uma espcie de redeno
naquele trabalho. Na maioria das vezes, Tuck apenas segurava-lhe a mo entre
seus dedos nodosos e manchados de graxa, tranqilizando-a com seu silncio. No
final, ele havia se tornado seu amigo mais ntimo e Amanda passara a sentir que
Tuck Hostetler a conhecia melhor do que qualquer outra pessoa.
Mas agora seu amigo e confidente estava morto. Amanda correu os olhos pelo
Stingray, j sentindo a falta de Tuck, perguntando-se se ele teria imaginado que
aquele era o ltimo carro em que iria trabalhar. Ele nunca dissera nada
diretamente, mas, pensando melhor, ela achava que ele devia suspeitar disso. Em
sua ltima visita, Tuck lhe dera uma chave sobressalente da casa, dizendo-lhe
com uma piscadela: "No perca essa chave, ou pode acabar tendo que quebrar
uma janela." Amanda a enfiara no bolso, sem pensar muito no assunto, pois ele
tinha dito outras coisas estranhas naquela noite. Ela se lembrava de estar
revirando os armrios da cozinha em busca de algo para fazer para o jantar,
enquanto ele permanecia sentado  mesa, fumando um cigarro.
- Voc gosta de vinho tinto ou branco? - perguntou Tuck de repente, sem
nenhum motivo.
- Depende - respondeu ela, remexendo algumas latas. - s vezes tomo uma taa
de vinho tinto no jantar.
- Eu tenho vinho tinto - anunciou ele. - Bem ali, naquele armrio.
Ela se virou.
- Quer que eu abra uma garrafa?
- Nunca liguei muito para vinho. Prefiro continuar na minha Pepsi com
amendoins. - Ele bateu a cinza do cigarro em uma xcara de caf lascada. -
Sempre tenho bifes frescos, tambm. Peo para o aougueiro entregar todas as
segundas. Ficam na prateleira de baixo do congelador. A churrasqueira  l fora.
Ela deu um passo em direo  geladeira.
- Quer que eu lhe prepare um?
- No. Geralmente guardo os bifes mais para o final da semana.
Amanda hesitou, sem saber bem aonde ele queria chegar com aquilo.
- Ento...  s para eu ficar sabendo?
Quando ele assentiu e no falou mais nada, Amanda atribuiu o episdio  velhice
e ao cansao. Acabou fazendo ovos com bacon e arrumando a casa em seguida,
enquanto Tuck ouvia rdio sentado na poltrona ao lado da lareira com um
cobertor sobre os ombros. No pde deixar de notar como ele parecia franzino,
absurdamente menor do que o homem que conhecera na juventude. Enquanto
se preparava para ir embora, ela ajeitou o cobertor, pensando que ele havia
pegado no sono. Sua respirao estava pesada e difcil. Ela se inclinou e lhe deu
um beijo no rosto.
- Eu te amo, Tuck - sussurrou.
Ele se mexeu um pouco, provavelmente sonhando, e, quando Amanda se virou
para ir embora, ouviu Tuck expirar.
- Sinto sua falta, Clara - balbuciou ele.
Foram as ltimas palavras que ela o ouviu dizer. Havia nelas uma solido sofrida
e, de repente, Amanda entendeu por que Tuck acolhera Dawson por tanto
tempo: tambm se sentira sozinho.

Depois de telefonar para Frank para avis-lo de que tinha chegado (a voz do
marido j soava arrastada), Amanda desligou com algumas palavras breves e
agradeceu a Deus que os filhos tivessem outros compromissos para o fim de
semana.
Ela encontrou na bancada de trabalho a prancheta com o cronograma da oficina.
Perguntou-se o que fazer a respeito do carro. Uma rpida olhada revelou que o
Stingray pertencia a um jogador de hquei do Carolina Hurricanes. Fez uma
anotao mental para discutir o assunto com o advogado de Tuck. Ps a
prancheta de lado e de repente se surpreendeu pensando em Dawson. Ele
tambm fazia parte de seu segredo. Contar a Frank sobre Tuck envolveria falar
tambm em Dawson, e ela no queria fazer isso. Tuck sempre soubera que
Dawson era o verdadeiro motivo de suas visitas, sobretudo no comeo. Ele no
se importava: mais do que qualquer um, compreendia a fora das boas
recordaes. s vezes, quando a luz do sol atravessava a copa das rvores,
banhando o quintal de Tuck em uma nvoa suave de fim de vero, Amanda
quase conseguia sentir a presena de Dawson a seu lado. Esses momentos
serviam para lembr-la, mais uma vez, de que seu amigo podia ser tudo, menos
louco. Como no caso de Clara, o fantasma de Dawson estava em toda parte.
Embora soubesse quanto era intil ficar se perguntando como sua vida poderia
teria sido diferente se tivesse ficado com Dawson, nos ltimos tempos era cada
vez mais freqente que Amanda sentisse necessidade de voltar quela oficina. E
quanto mais ela o fazia, mais intensas as lembranas se tornavam e
acontecimentos e sensaes esquecidos havia tempos ressurgiam das profundezas
do passado. Ali era mais fcil recordar como ela ficava forte ao lado de Dawson e
como ele sempre fazia com que Amanda se sentisse especial e bonita. Lembrava-
se perfeitamente da certeza que tinha de que Dawson era a nica pessoa no
mundo que a entendia de verdade. Mas, acima de tudo, lembrava-se de como o
amava incondicionalmente e da paixo sincera que ele demonstrava por ela.
Do seu jeito sutil, Dawson a fizera crer que tudo era possvel. Enquanto andava
pela oficina, com o cheiro de gasolina e leo ainda pairando no ar, Amanda
sentia o peso das centenas de fins de tarde que passara ali. Ela correu os dedos
pelo banco em que costumava ficar horas sentada, observando Dawson
debruado sobre o cap aberto de seu carro, girando a chave inglesa de vez em
quando, suas unhas pretas de graxa. Mesmo naquela poca, no havia em seu
rosto nem sinal da leveza e da ingenuidade que ela via em outros jovens da idade
deles e, sempre que os msculos definidos do brao de Dawson se flexionavam
para pegar uma ferramenta, Amanda via o fsico do homem que ele j estava se
tornando. Como todos em Oriental, ela sabia que seu pai o espancara muitas
vezes e, quando ele trabalhava sem camisa, via as cicatrizes em suas costas - sem
dvida causadas pela fivela de um cinto. No sabia ao certo se Dawson ao menos
se lembrava daquelas marcas, o que de alguma forma tornava ainda mais
doloroso v-las.
Ele era alto e esbelto, com cabelos pretos que caam sobre olhos mais negros
ainda, e mesmo naquela poca Amanda sabia que ele ficaria mais bonito quando
fosse mais velho. No se parecia nem um pouco com os outros Cole e certa vez,
quando estavam sentados no carro vendo gotas de chuva bater contra o para-
brisa, ela lhe perguntara se ele se parecia com a me. O tom de voz dele, como o
de Tuck, era quase sempre suave e seus modos, tranqilos:
- No sei - respondeu ele, desembaando o vidro com a mo. - Meu pai queimou
todas as fotografias dela.
Quando j estava chegando ao fim o primeiro vero que passaram juntos, um dia,
bem depois do cair da noite, eles foram at o pequeno cais que havia no riacho.
Ele ouvira dizer que haveria uma chuva de meteoros e, depois de estender uma
manta sobre as tbuas do cais, os dois ficaram observando em silncio as luzes
que cruzavam o cu. Amanda sabia que seus pais ficariam furiosos se
descobrissem onde ela estava, mas naquele momento no se importava com mais
nada alm das estrelas cadentes, do calor do corpo de Dawson ao seu lado e do
carinho com que ele a abraava, como se no conseguisse imaginar um futuro
sem ela.
Ser que todo primeiro amor era assim? Por algum motivo, ela duvidava. Mesmo
depois de tanto tempo, aquele amor lhe parecia mais real do que qualquer outra
coisa que tivesse vivido. s vezes ficava triste ao pensar que nunca mais
experimentaria uma sensao como aquela, mas, por outro lado, a vida tinha o
hbito de extinguir paixes intensas. Amanda aprendera muito bem que o amor
nem sempre era suficiente.
Ainda assim, olhando para o quintal que se estendia para alm da oficina, ela no
pde deixar de imaginar se Dawson teria sentido novamente uma paixo to
grande e se ele era feliz. Queria acreditar que sim, mas a vida no era fcil para
um ex-presidirio. Pelo que ela sabia, Dawson poderia muito bem estar de volta
 cadeia, viciado em drogas ou at morto, mas no conseguia relacionar essas
imagens com a pessoa que havia conhecido. Em parte, era por isso que nunca
perguntara a Tuck a seu respeito. Tinha medo do que ele pudesse lhe contar - e
seu silncio apenas reforava as suspeitas de Amanda. Preferia a incerteza,
mesmo que fosse apenas porque ela lhe permitia lembrar-se de Dawson como ele
era. s vezes, no entanto, perguntava-se como ele se sentia quando pensava no
ano que os dois passaram juntos, se alguma vez se surpreendia com tudo o que
haviam compartilhado... e se ainda pensava nela.

                                        3

J era de tarde quando o vo de Dawson aterrissou em New Bern. Em seu carro
alugado, ele cruzou o rio Neuse at Bridgeton e pegou a Rodovia 55. Dos dois
lados da auto-estrada, viam-se casas de fazenda ao longe, intercaladas por antigos
galpes de tabaco em runas. A plancie resplandecia sob o sol de fim de tarde, e
ele tinha a sensao de que tudo continuava exatamente como anos atrs, no dia
em que ele partira - ou talvez mesmo como no ltimo sculo. Enquanto passava
por Grantsboro e Alliance, Bayboro e Stonewall, cidades ainda menores do que
Oriental, parecia-lhe que o condado de Pamlico era um lugar perdido no tempo,
nada alm de uma pgina esquecida em um livro abandonado.
Mas tambm era seu lar e, embora muitas das lembranas fossem dolorosas,
tinha sido ali que Tuck se tornara seu amigo e ele conhecera Amanda. Um a um,
comeou a reconhecer os pontos de referncia de sua infncia e, no silncio do
carro, perguntou-se quem ele teria se tornado caso Tuck e Amanda nunca
tivessem entrado em sua vida. Porm, mais do que isso, imaginou como sua vida
teria sido diferente se o Dr. David Bonner no tivesse sado para fazer sua
corrida habitual na noite de 18 de setembro de 1985.
O Dr. Bonner se mudara para Oriental em dezembro de 1984 com a esposa e os
dois filhos pequenos. A cidade passara anos sem um mdico. O ltimo havia se
aposentado e se mudado para a Flrida em 1980 e, desde ento, Oriental vinha
tentando substitu-lo. A necessidade era grande e a cidade oferecia vrios
incentivos, mas os bons candidatos  vaga acabavam desistindo de se mudar para
o que era, basicamente, um fim de mundo. Por sorte, Marilyn, a esposa do Dr.
Bonner, crescera ali e, como Amanda, era considerada praticamente da realeza.
Os pais dela, o Sr. e a Sra. Bennett, cultivavam mas, pssegos, uvas e mirtilos
em um grande pomar nos arredores da cidade. Assim, logo que terminou sua
residncia, David Bonner se mudou para a cidade natal da esposa e montou seu
consultrio.
Desde o incio ele trabalhou muito. Cansados da viagem de 40 minutos que antes
tinham de fazer at New Bern, os pacientes migraram aos bandos para o
consultrio do novo mdico, que, entretanto, nunca teve a menor iluso de que
ficaria rico. Isso simplesmente no seria possvel numa cidade pequena de um
condado pobre, por mais que seu consultrio ficasse cheio e sua famlia fosse
bem relacionada. Embora ningum na cidade soubesse, o pomar estava soterrado
em dvidas e, no mesmo dia em que David se mudara para a cidade, seu sogro lhe
pedira um emprstimo. Porm, mesmo ajudando os pais de Marilyn, o baixo
custo de vida da regio ainda lhe permitiu comprar uma casa em estilo colonial
com quatro quartos e vista para o crrego Smith - sem contar que a esposa ficara
muito feliz por estar de volta  terra onde nascera. Para ela, Oriental era o lugar
ideal para criar filhos - no que, em grande parte, ela estava certa.
O Dr. Bonner adorava atividades ao ar livre. Ele surfava, nadava, andava de
bicicleta e corria. Era comum v-lo animado fazendo jogging pela Broad Street
depois do trabalho - de vez em quando, ele chegava aos limites da cidade. As
pessoas buzinavam e acenavam para ele, que meneava a cabea, sem diminuir o
ritmo. s vezes, aps um dia particularmente cansativo, o Dr. Bonner s fazia
seu exerccio depois do cair da noite e, no dia 18 de setembro de 1985, foi
exatamente isso que aconteceu. Comeava a anoitecer quando saiu de casa. Ele
no sabia, mas as ruas estavam escorregadias. Chovera  tarde - uma chuva forte
o bastante para trazer  superfcie o leo acumulado no asfalto, mas no o
suficiente para retir-lo.
Ele comeou a fazer seu trajeto de sempre, que levava cerca de 30 minutos, mas,
naquela noite, no voltou para casa. Quando viu a lua alta no cu, Marilyn
comeou a ficar preocupada. Depois de pedir a um vizinho que vigiasse as
crianas, ela pegou o carro e saiu  sua procura. Logo depois de uma curva nos
limites da cidade, perto de um bosque, deparou com uma ambulncia. Notou
tambm a presena do xerife e de um grupo cada vez maior de pessoas. Tinha
sido ali, descobriu ela, que seu marido morrera, atropelado por algum que
perdera o controle do caminho que dirigia.
O caminho, disseram a Marilyn, pertencia a Tuck Hostetler. O motorista, que
logo seria acusado de homicdio culposo, tinha 18 anos e j estava algemado.
Seu nome era Dawson Cole.

A cerca de trs quilmetros dos limites de Oriental - e da curva que ele nunca
esqueceria -, Dawson viu o antigo desvio de cascalho que conduzia 
propriedade da famlia e se surpreendeu pensando no pai. Certo dia, enquanto
estava no presdio do condado aguardando julgamento, um guarda apareceu de
repente e o informou de que algum estava l para visit-lo. Um minuto depois,
seu pai surgiu, mascando um palito de dente.
- Voc resolve fugir de casa, namorar aquela riquinha, fazer planos... e onde vai
parar? Na cadeia.
Ele notou a alegria maliciosa na expresso do pai.
- Pensou que fosse melhor do que eu, mas no  - disse o pai. - Voc 
igualzinho a mim.
Dawson ficou calado no canto de sua cela, sentindo algo muito parecido com
dio enquanto o fuzilava com o olhar. Naquele instante, ele jurou que,
independentemente do que acontecesse, jamais voltaria a falar com aquele
homem.
No houve julgamento. Contrariando a recomendao do defensor pblico,
Dawson se declarou culpado e, contrariando a recomendao do promotor, o juiz
o condenou  pena mxima. Ele cumpriu a sentena em uma unidade
correcional em Halifax, na Carolina do Norte, onde trabalhou na plantao,
ajudando a cultivar milho, trigo, algodo e soja, suando debaixo do sol
inclemente durante a colheita ou congelando com os ventos frios do norte
enquanto arava a terra. Embora trocasse correspondncias com Tuck, no
recebeu uma s visita nos quatro anos que ficou l.
Ao fim daquele perodo, quando Dawson recebeu liberdade condicional, voltou
para Oriental. Passou a trabalhar para Tuck e, toda vez que precisava comprar
materiais na loja de auto-peas, ouvia as pessoas sussurrarem. Sabia que era um
pria, um Cole imprestvel que tinha matado o homem que no s era o genro
dos Bennett, como tambm o nico mdico da cidade. A culpa que sentia era
esmagadora. Quando ela apertava demais, Dawson ia  floricultura em New Bern
e, depois, ao cemitrio em Oriental, onde o Dr. Bonner fora enterrado. Deixava
as flores sobre o tmulo sempre no comeo da manh ou tarde da noite, quando
no havia muita gente por perto. s vezes ficava ali mais de uma hora, pensando
na esposa e nos filhos que o Dr. Bonner deixara. Fora essas ocasies, Dawson
passou aquele ano praticamente recluso, tentando ao mximo se manter fora de
vista.
Sua famlia, no entanto, ainda no estava disposta a deix-lo em paz. Quando o
pai apareceu na oficina para voltar a recolher o dinheiro de Dawson, levou Ted
junto. O pai estava armado com uma espingarda. Ted, com um taco de beisebol.
Mas foi um erro chegarem sem Abee. Quando Dawson lhes disse para irem
embora, Ted reagiu depressa, mas no o suficiente. Quatro anos trabalhando sob
o sol na lavoura haviam endurecido Dawson, que estava pronto para enfrent-
los. Usando um p de cabra, ele quebrou o nariz e a mandbula de Ted e
desarmou o pai antes de lhe quebrar algumas costelas. Com eles ainda no cho,
apontou a espingarda para os dois, alertando-os de que nunca mais voltassem.
Ted comeou a choramingar, gritando que Dawson iria mat-lo. Seu pai
simplesmente o encarou.
Depois daquele dia, Dawson passou a dormir com a espingarda a seu lado e a
raramente sair da propriedade. Sabia que os dois poderiam peg-lo a qualquer
momento, mas o destino  imprevisvel. Menos de uma semana depois, Ted
esfaqueou um homem em um bar e foi parar na cadeia. E, sabe-se l por que
motivo, seu pai nunca mais voltou. Dawson no quis saber o porqu. Em vez
disso, contou os dias at finalmente poder ir embora de Oriental. Quando sua
condicional acabou, embrulhou a espingarda numa lona, guardou-a numa caixa e
a enterrou ao p de um carvalho ao lado da casa de Tuck. Em seguida, encheu a
mala do carro, despediu-se de Tuck e pegou a estrada.
Acabou indo parar em Charlotte, onde arranjou um trabalho como mecnico
enquanto fazia um curso noturno de soldagem na faculdade comunitria. Dali,
foi para a Louisiana e conseguiu uma vaga em uma refinaria. Com o tempo, isso
levou ao emprego na plataforma de petrleo.
Desde que sara da priso, vinha levando uma vida discreta e passava a maior
parte do tempo sozinho. Nunca visitava amigos, pois no tinha nenhum. No
sara com ningum depois de Amanda porque, mesmo aps tanto tempo, era s
nela que conseguia pensar. Aproximar-se de algum significaria permitir que
essa pessoa descobrisse seu passado. S pensar nisso j o fazia tremer. Ele era um
ex-presidirio nascido em uma famlia de criminosos e matara um homem
ntegro. Por mais que tivesse cumprido sua pena e tentado se redimir, sabia que
jamais se perdoaria pelo que fizera.

Faltava pouco agora. Dawson estava se aproximando do local em que o Dr.
Bonner morrera. Percebeu de relance que as rvores perto da curva haviam sido
substitudas por um prdio baixo e atarracado com um estacionamento de
cascalho na frente. No desgrudou o olhar da estrada, recusando-se a virar a
cabea naquela direo.
Menos de um minuto depois, estava em Oriental. Passou pelo centro e cruzou a
ponte que se estendia sobre a confluncia dos crregos Greens e Smith. Quando
criana, sempre que queria ficar longe da famlia, ele se sentava prximo  ponte,
observando os veleiros e imaginando os portos distantes que eles deviam visitar e
os lugares ao quais gostaria de ir algum dia.
A paisagem o fez desacelerar, to cativado quanto no passado. A marina estava
cheia: pessoas iam e vinham nas embarcaes, carregando isopores e
desamarrando as cordas que as mantinham atracadas. Erguendo os olhos para as
rvores, pde ver pelo balanar dos galhos que havia vento suficiente para
manter as velas cheias, mesmo para os que quisessem chegar  costa.
Viu pelo retrovisor a pousada em que ficaria hospedado, mas ainda no estava
pronto para fazer o check-in. Em vez disso, estacionou o carro perto da ponte e
saiu, sentindo alvio ao esticar as pernas. Perguntou-se se as flores que
encomendara teriam chegado, mas imaginou que em breve descobriria. Virando-
se em direo ao rio Neuse, recordou que, quando chegava  baa de Pamlico, ele
j era o rio mais largo dos Estados Unidos, um fato que poucos conheciam.
Dawson ganhara muitas apostas por conta dessa curiosidade que Amanda lhe
contara - sobretudo na plataforma, onde quase todos achavam que fosse o rio
Mississippi. Mesmo na Carolina do Norte a informao no era do conhecimento
de todos.
Como sempre, Dawson pensou em Amanda: o que estaria fazendo, onde
moraria, como seria seu dia a dia. No tinha dvidas de que se casara e muitas
vezes tentara imaginar que tipo de homem ela teria escolhido. Por mais que
Dawson a tivesse conhecido to bem, no conseguia imagin-la rindo ou
dormindo com outro homem. Mas, no fim das contas, no fazia diferena. S 
possvel fugir do passado quando se encontra algo melhor, e ele calculava que
fosse isso que ela tivesse feito. Afinal, era o que todas as pessoas faziam. Todo
mundo cometia erros, todo mundo se arrependia. Mas o erro de Dawson era
diferente, estava entranhado nele para sempre. Mais uma vez ele pensou no Dr.
Bonner e na famlia que destrura.
Olhando para o rio, Dawson de repente se arrependeu de sua deciso de voltar.
Sabia que Marilyn Bonner ainda morava na cidade, mas no queria encontr-la,
nem por acaso. E, embora os familiares dele sem dvida fossem acabar sabendo
que ele estava ali, tampouco queria v-los.
No havia nada para ele em Oriental. Entendia por que Tuck pedira ao advogado
que o avisasse de sua morte, mas no conseguia compreender seu desejo expresso
de que Dawson fosse  sua cidade natal. Ele vinha remoendo essa questo desde
que recebera a notcia, mas nada fazia sentido. Tuck nunca lhe pedira que o
visitasse - mais do que qualquer outra pessoa, ele sabia por que Dawson tinha ido
embora. Tuck tambm nunca tinha ido  Louisiana e, embora Dawson lhe
escrevesse com freqncia, dificilmente recebia respostas. S lhe restava
acreditar que Tuck tivera l seus motivos, fossem quais fossem, mas no
conseguia imaginar quais.
Ele estava prestes a voltar para o carro quando, logo alm de seu campo de viso,
vislumbrou o movimento rpido que j lhe era familiar. Ele se virou, tentando
sem sucesso localizar sua origem, mas, pela primeira vez desde que fora
resgatado no dia do acidente, os pelos de sua nuca se eriaram. Dawson foi
invadido pela certeza de que havia algo ali, por mais que sua mente no
conseguisse identificar o que era. O sol poente reluzia na gua, o brilho intenso
forando-o a estreitar os olhos. Dawson levou a mo em concha acima deles
enquanto vasculhava a marina, assimilando a cena. Viu um senhor de idade com
a mulher puxando um veleiro at a vaga. No meio do cais, um homem sem
camisa olhava para dentro do compartimento do motor. Observou tambm
algumas outras pessoas: um casal de meia-idade andando ao acaso no convs de
uma embarcao e um grupo de adolescentes descarregando um isopor depois de
passar o dia velejando. Na extremidade oposta da marina, outro veleiro zarpava,
aproveitando a brisa de fim de tarde - nada fora do comum.
Ele estava prestes a se virar de volta quando notou um homem de cabelos pretos
e casaco azul olhando na sua direo. Estava parado  beira do cais e, como
Dawson, fazia sombra sobre os olhos. Quando Dawson baixou devagar a mo, o
homem de cabelos pretos o imitou. Ele deu um rpido passo para trs. O
estranho fez o mesmo. Dawson ficou sem flego e sentiu o corao esmurrar o
peito.
Isto no  real. No pode estar acontecendo.
O sol estava baixo atrs dele, o que tornava difcil discernir o rosto do estranho,
mas, apesar da luz, Dawson teve certeza de que aquele era o homem que tinha
visto primeiramente no mar e depois no navio de abastecimento. Piscou algumas
vezes, tentando focalizar melhor. No entanto, quando sua viso finalmente
clareou, tudo o que viu foi o contorno de um poste no cais, com suas cordas
pudas amarradas no topo.

A viso perturbou Dawson, que sentiu uma necessidade repentina de ir direto
para a casa de Tuck. Muitos anos atrs, ela havia sido seu refgio. Ele se recordou
imediatamente da paz que costumava encontrar l. A idia de ir fazer o check-in
e ficar jogando conversa fora no lhe agradava. Queria ficar sozinho para refletir
sobre a viso que tivera do homem de cabelos pretos. Ou sua concusso tinha
sido pior do que os mdicos imaginavam ou eles tinham razo quanto ao estresse
ps-traumtico.
Enquanto manobrava o carro de volta para a estrada, Dawson decidiu marcar
outra consulta com o mdico na Louisiana, embora suspeitasse de que ele fosse
lhe dizer o mesmo que antes. Afastou esses pensamentos angustiantes e baixou o
vidro da janela, sentindo o cheiro de carvalho e gua salobra enquanto a estrada
serpeava por entre as rvores. Poucos minutos depois, entrou na curva que
conduzia  propriedade de Tuck.
O carro foi sacolejando pela estrada de terra e, quando ele dobrou uma segunda
curva, a casa surgiu  sua frente. Para sua surpresa, havia um BMW parado ali.
Ele sabia que no era de Tuck. Para comear, porque o carro estava limpo
demais, mas, principalmente, porque Tuck jamais teria comprado um carro
importado - no por desconfiar da qualidade do veculo, mas porque no teria as
ferramentas adequadas para consert-lo, se precisasse. Alm disso, Tuck sempre
preferira caminhonetes, em especial as fabricadas antes de 1960. Ao longo da
vida, ele provavelmente tinha comprado e restaurado meia dzia delas, usando-
as por um tempo antes de revend-las para quem quer que fizesse uma oferta.
Para Tuck, o mais importante no era o dinheiro, mas a restaurao em si.
Dawson estacionou ao lado do BMW e saiu do carro, surpreso ao notar como a
casa no mudara quase nada. Seu exterior sempre tivera uma aparncia de
"inacabado e precisando de reformas", mesmo quando Dawson ainda morava ali.
Para dar um pouco de vida ao lugar, certa vez Amanda comprara uma jardineira
cheia de flores, que continuava no canto da varanda, embora as flores tivessem
murchado fazia muito tempo. Ele se lembrava de como ela havia ficado
empolgada ao entregarem o presente a Tuck, embora ele visivelmente no
soubesse muito bem o que fazer com aquilo.
Dawson correu os olhos pelo terreno, observando um esquilo que passeava pelo
galho de uma rvore. Do alto, um pssaro cantou um alerta, mas, fora isso, o
lugar parecia deserto. Ele comeou a contornar a casa, indo em direo  oficina.
Estava mais fresco ali, debaixo da sombra dos pinheiros. Quando fez a curva e
chegou  luz do sol, viu uma mulher parada bem na porta da oficina,
examinando o que provavelmente tinha sido o ltimo automvel clssico que
Tuck restaurara em vida. A primeira coisa que lhe passou pela cabea foi que ela
devia ser do escritrio de advocacia. Quando estava prestes a cumpriment-la
para chamar sua ateno, a mulher se virou. A voz de Dawson ficou presa na
garganta.
Mesmo de longe, ela era mais bonita do que Dawson se lembrava. Pelo que
pareceu uma eternidade, ele no conseguiu dizer nada. Ocorreu-lhe que poderia
ser apenas mais uma alucinao, mas, depois de piscar lentamente, percebeu que
estava enganado. Ela era real e estava ali, no refgio que um dia pertencera aos
dois.
Ento, enquanto Amanda olhava para ele depois de todos aqueles anos, Dawson
finalmente compreendeu por que Tuck Hostetler insistira em que ele voltasse a
Oriental.

                                       4

Embora a surpresa aos poucos se transformasse em reconhecimento, nenhum dos
dois conseguia falar nem se mover. O primeiro pensamento de Dawson foi sobre
como Amanda parecia muito mais real ali, na sua frente, do que em suas
lembranas. Seus cabelos louros refletiam a luz do fim de tarde como ouro polido
e, mesmo de to longe, seus olhos azuis pareciam faiscar. Contudo, enquanto ele
continuava olhando, comeou lentamente a perceber algumas diferenas sutis.
Dawson notou que seu rosto havia perdido a suavidade da juventude. As mas
estavam mais salientes e os olhos pareciam mais fundos, emoldurados por
pequenas rugas nos cantos. O passar do tempo tinha sido mais do que gentil com
Amanda, pensou ele: ela havia ganhado uma beleza madura e extraordinria
desde que a vira pela ltima vez.
Amanda tambm tentava absorver o que via. A camisa cor de areia de Dawson
estava enfiada de qualquer jeito em seu jeans desbotado, destacando o quadril
ainda anguloso e os ombros largos. O sorriso continuava o mesmo, mas os
cabelos pretos estavam mais compridos do que ele costumava usar na
adolescncia e com alguns fios grisalhos nas tmporas. Seus olhos negros
continuavam to arrebatadores quanto ela se lembrava, mas Amanda pareceu
notar uma cautela neles, a marca de algum cuja vida tinha sido mais dura do
que o esperado. Talvez fosse por v-lo ali, naquele lugar em que haviam
compartilhado tantas coisas, mas, em meio  onda repentina de emoes, ela no
conseguiu pensar no que dizer.
- Amanda? - perguntou ele enfim, comeando a andar em sua direo.
Ela notou a surpresa na voz de Dawson quando ele falou seu nome e foi isso,
mais do que tudo, que a convenceu de que ele era real. Ele est aqui, pensou, 
ele mesmo.  medida que ele diminua a distncia entre os dois,
ela sentia os anos ficarem lentamente para trs, por mais impossvel que
parecesse. Quando Dawson finalmente a alcanou, apenas abriu os braos e ela
se aninhou entre eles, como costumava fazer. Ele a puxou para junto de si,
abraando-a como se ainda fossem o casal de namorados de tanto tempo atrs.
Amanda se apoiou contra seu corpo, sentindo-se de repente uma jovem de 18
anos outra vez.
- Oi, Dawson - sussurrou.
Eles ficaram um bom tempo assim, abraando-se com fora sob a luz do sol que
sumia, e, por um instante, Dawson teve a impresso de senti-la tremer. Quando
eles finalmente se afastaram, ela pde sentir a emoo que ele tentava conter.
Ficou analisando-o de perto, notando as mudanas que o tempo trouxera. Ele era
um homem agora, com o rosto queimado de algum que passara muitas horas ao
sol e os cabelos um pouco mais ralos.
- O que voc est fazendo aqui? - perguntou Dawson, tocando seu brao como
se quisesse se certificar de que ela era real.
A pergunta a ajudou a se recompor, lembrando-a da pessoa que havia se tornado,
e ela deu um pequeno passo para trs.
- Devo estar aqui pelo mesmo motivo que voc. Quando chegou?
- Agora h pouco - disse ele, pensando no impulso que o levara a fazer aquela
visita no planejada  casa de Tuck. - No acredito que voc esteja aqui. Voc
est... linda.
- Obrigada. - Ela sentiu o sangue corar suas faces sem querer. - Como sabia que
eu estava aqui?
- No sabia - respondeu ele. - Tive vontade de passar por aqui e vi um carro na
entrada. Dei a volta e...
Quando ele deixou a frase pela metade, Amanda a terminou:
- E l estava eu.
- . - Ele assentiu, fitando seus olhos pela primeira vez. - E l estava voc.
O olhar de Dawson continuava to intenso quanto antes e ela recuou
mais um pouco, esperando que o espao entre os dois tornasse as coisas mais
fceis. Esperando que ele no tivesse a impresso errada. Ela gesticulou em
direo  casa.
- Voc pretende ficar aqui?
Ele estreitou os olhos, encarando a casa, antes de se voltar para ela.
- No, reservei um quarto em uma pousada na cidade. E voc?
- Vou ficar na casa da minha me. - Quando notou sua expresso intrigada, ela
explicou: - Meu pai faleceu 11 anos atrs.
- Sinto muito - falou ele.
Ela assentiu, sem dizer mais nada, e ele se lembrou de que, no passado, era assim
que costumava encerrar um assunto. Quando Amanda olhou para a oficina,
Dawson deu um passo naquela direo.
- Voc se importa? - perguntou ele. - H anos no vejo este lugar.
- No, claro que no - disse ela. - V em frente.
Ela o observou passar na sua frente e sentiu os ombros relaxarem, sem ter se
dado conta, at aquele momento, de como estava tensa. Ele parou por um
instante, correndo os olhos pela pequena oficina antes de passar a mo sobre a
bancada e pegar uma chave de roda j velha. Caminhando devagar, observou as
paredes de madeira, o teto de vigas nuas, o barril de lato no canto, onde Tuck
despejava os restos de leo. Um macaco hidrulico e um armrio de ferramentas
estavam encostados na parede dos fundos, com uma pilha de pneus na frente.
Uma lixadeira eltrica e equipamentos de soldagem ocupavam o lado oposto 
bancada. Havia um ventilador empoei- rado apoiado no canto perto das latas de
tinta em spray, lmpadas eltricas pendiam de fios e todo o espao restante era
ocupado por peas.
- Parece que no mudou nada - comentou ele.
Ela adentrou a oficina ainda um pouco trmula e tentando manter uma distncia
confortvel de Dawson.
- Provavelmente no mudou mesmo. Tuck era meticuloso quanto  arrumao
das ferramentas, principalmente nos ltimos anos. Acho que sabia que estava
comeando a perder a memria.
- Levando em conta a idade, mal posso acreditar que ele continuasse
trabalhando.
- Ele havia diminudo bastante o ritmo. Um ou dois carros por ano e, mesmo
assim, s quando tinha certeza de que conseguiria dar conta do trabalho.
Nenhuma grande restaurao nem nada parecido. Este  o primeiro carro que
vejo aqui em um bom tempo.
- Parece que voc passou muito tempo com ele.
- Nem tanto. Eu vinha aqui uma vez a cada dois meses, mais ou menos. Mas
fazia tempo que no nos vamos.
- Ele nunca disse nada sobre voc nas cartas que me mandou - comentou
Dawson.
Ela deu de ombros.
- Tambm nunca falou de voc para mim.
Ele assentiu e depois voltou a ateno para a bancada, em cuja ponta um dos
lenos de Tuck estava dobrado com capricho. Ao peg-lo, Dawson percorreu o
balco com os dedos:
- As iniciais que entalhei continuam aqui. As suas tambm.
- Eu sei - disse ela. Tambm sabia que, debaixo delas, estavam as palavras "para
sempre". Ela cruzou os braos, tentando no olhar para as mos de Dawson. Elas
eram grossas e fortes, mos de trabalhador, mas ao mesmo tempo finas e suaves.
- No consigo acreditar que ele se foi - falou Dawson.
- Eu sei.
- Voc disse que ele estava perdendo a memria?
- Nada de muito grave. Considerando a idade e quanto fumava, estava muito
bem de sade da ltima vez que o vi.
- Quando foi isso?
- Fim de fevereiro, eu acho.
Ele gesticulou indicando o Stingray.
- Sabe alguma coisa a respeito deste carro?
Ela balanou a cabea.
- S que Tuck estava trabalhando nele. Tem uma ordem de servio na prancheta
com algumas anotaes, mas, fora o nome do dono, no entendi nada. Est bem
ali.
Dawson encontrou a ordem de servio e correu os olhos pela lista antes de
analisar o carro. Amanda ficou observando enquanto ele abria o cap e se
inclinava para olhar debaixo dele, sua camisa se esticando, apertada, em volta
dos ombros. Ela desviou o olhar, no querendo que Dawson percebesse. Um
minuto depois, ele voltou sua ateno para as pequenas caixas na bancada. Ento
abriu as tampas, meneando a cabea enquanto revirava as peas, suas
sobrancelhas franzidas.
- Estranho - falou Dawson.
- O qu?
- No  um servio de restaurao. Ele estava trabalhando basicamente na parte
mecnica, nada muito complicado. Carburador, embreagem, mais uma coisa ou
outra. Meu palpite era que estava apenas esperando as peas chegarem. s vezes,
no caso desses carros antigos, pode demorar.
- E o que isso significa?
- Entre outras coisas, que no h a menor chance de o dono sair daqui dirigindo
este carro.
- Vou pedir ao advogado de Tuck que entre em contato com o dono. - Ela
afastou uma mecha de cabelo de cima dos olhos. - Tenho que falar com ele, de
qualquer maneira.
- Com o advogado?
-  - respondeu ela, assentindo. - Foi ele quem me ligou para falar sobre Tuck.
Disse que era importante que fizssemos uma reunio.
Dawson fechou o cap.
- O nome dele no seria Morgan Tanner, seria?
- Voc o conhece? - perguntou ela, espantada.
- S sei que tambm tenho uma reunio com ele amanh.
- A que horas?
- s onze. Imagino que na mesma hora em que voc, no?
Ela precisou de alguns segundos para captar o que Dawson j havia entendido:
Tuck planejara aquele reencontro desde o incio. Se no tivessem topado um
com o outro ali, na casa dele, teriam se encontrado no dia seguinte, de qualquer
maneira. A medida que isso ficava claro em sua cabea, Amanda se perguntava se
sentia mais vontade de brigar com Tuck ou de beij-lo.
Seu rosto deve ter entregado seus sentimentos, porque Dawson falou em seguida:
- Imagino que voc no fizesse idia do que Tuck estava tramando.
- No.
Um bando de pssaros saiu voando das rvores e Amanda observou enquanto
eles mudavam de direo e traavam figuras abstratas no cu. Quando voltou a
encarar Dawson, ele estava recostado na bancada, com metade do rosto
encoberta pelas sombras. Ali, naquele lugar onde tantas histrias os cercavam,
ela poderia jurar que ainda via o jovem Dawson, mas tentou se lembrar de que
eles eram pessoas diferentes agora. Dois estranhos, na verdade.
- Faz muito tempo - disse ele, quebrando o silncio.
- , faz.
- Eu tenho umas mil perguntas.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- S mil?
Ele deu uma risada, mas Amanda teve a impresso de ouvir um qu de tristeza
por trs dela.
- Eu tambm tenho - prosseguiu ela mas antes disso... voc precisa saber que sou
casada.
- Eu sei - falou ele. - Vi sua aliana. - Ele enfiou o polegar no bolso antes de
ajeitar o corpo contra a bancada e cruzar uma perna sobre a outra. - H quanto
tempo est casada?
- Vai fazer 20 anos no ms que vem.
- Tem filhos?
Ela fez uma pausa, pensando em Bea, sem saber ao certo o que responder.
- Trs - disse por fim.
Ele percebeu sua hesitao, mas no soube como interpret-la.
- E seu marido? Eu gostaria dele?
- Frank? - Amanda se lembrou das conversas angustiadas que tivera com Tuck
sobre Frank e se perguntou quanto Dawson j saberia. No por desconfiar de que
Tuck no guardasse segredo, mas por causa da sensao de que Dawson
perceberia na mesma hora se ela mentisse. - Ns estamos juntos h muito tempo.
Dawson pareceu avaliar sua escolha de palavras antes de finalmente se afastar da
bancada. Ele passou por Amanda e, movendo-se com a graciosidade de um
atleta, andou em direo  casa.
- Imagino que Tuck tenha lhe dado uma chave, no? Preciso beber alguma
coisa.
Ela pestanejou, surpresa.
- Espere um instante! Tuck lhe contou isso?
Dawson se virou, continuando a andar de costas.
- No.
- Ento como voc sabia?
- Porque ele no me mandou nenhuma, e um de ns precisa ter uma cpia.
Ela continuou parada, ainda tentando entender como ele teria deduzido aquilo,
ento finalmente o seguiu.
Ele subiu os degraus da varanda com um nico movimento suave, parando
diante da porta. Amanda pegou uma chave na bolsa, esbarrando nele enquanto a
enfiava na fechadura. A porta se abriu com um rangido.
Estava agradavelmente fresco l dentro e a primeira coisa que passou pela cabea
de Dawson foi que o interior da casa era uma extenso da mata do lado de fora:
madeira, terra e manchas naturais por toda parte. O piso e as paredes revestidas
de madeira tinham perdido o brilho e rachado com o passar dos anos e as
cortinas marrons no escondiam as infiltraes sob as janelas. Os encostos e o
estofamento do sof xadrez estavam desgastados. O cimento da lareira tinha
comeado a ceder e os tijolos ao redor da abertura estavam negros, vestgios
carbonizados de milhares de fogos crepitantes. Ao lado da porta havia uma
pequena mesa com uma pilha de lbuns de fotografias, uma vitrola que devia ser
mais velha do que Dawson e um frgil ventilador de ao. O ar tinha cheiro de
cigarros velhos.
Depois de abrir uma das janelas, Dawson ligou o ventilador, parando para ouvir
enquanto ele comeava a chacoalhar. Sua base sacudia um pouco. A essa altura,
Amanda j estava parada diante da lareira, olhando para a fotografia sobre o
console: Tuck e Clara, no dia de seu 25o aniversrio de casamento.
Dawson se aproximou de Amanda e parou ao seu lado.
- Eu me lembro da primeira vez que vi esta foto - disse. - Tuck s me deixou
entrar na casa depois de eu estar aqui fazia cerca de um ms. Olhei a foto e
perguntei quem era a mulher. Na poca, nem sabia que ele tinha sido casado.
Daquela distncia, Amanda conseguia sentir o calor que irradiava do corpo dele,
mas tentou ignor-lo.
- Como podia no saber uma coisa dessas?
- Eu no o conhecia. At aquela noite em que vim para c, nunca tinha falado
com Tuck na vida.
- Ento por que veio para c?
- No sei - respondeu ele, balanando a cabea. - E no imagino por que ele me
deixou ficar.
- Porque queria ter voc aqui.
- Ele lhe disse isso?
- No com todas as palavras. Mas, quando voc apareceu, no fazia tanto tempo
assim que Clara tinha morrido. Acho que voc era exatamente aquilo de que ele
precisava.
- E eu pensando que era s porque ele tinha bebido naquela noite. Na maioria
das noites, por sinal.
Ela vasculhou a memria.
- Mas Tuck no era de beber, era?
Ele tocou a fotografia na moldura de madeira simples, como se ainda tentasse
compreender um mundo em que Tuck no existisse.
- Foi antes de voc o conhecer. Ele gostava de usque naquela poca e s vezes
entrava cambaleando na oficina, com uma garrafa pela metade na mo. Secava o
rosto com o leno e me dizia que seria melhor eu encontrar algum outro lugar
para ficar. Deve ter falado isso todas as noites durante os primeiros seis meses
que dormi aqui. E eu passava a noite inteira torcendo para que, na manh
seguinte, ele tivesse se esquecido do que tinha dito. Ento, um belo dia, ele
simplesmente parou de beber e nunca mais tocou no assunto. - Dawson se virou
na direo de Amanda, seu rosto a poucos centmetros do dela. - Ele era um bom
homem.
- Eu sei - disse Amanda.
Dawson estava to perto que ela conseguia sentir seu cheiro. Uma mistura de
sabonete e colnia de almscar. Perto demais.
- Tambm sinto falta de Tuck - emendou Amanda. Ela se afastou, estendendo o
brao para mexer em uma almofada puda sobre o sof.
L fora, o sol baixava por trs das rvores, deixando a pequena sala ainda mais
escura. Ela ouviu Dawson pigarrear:
- Vamos tomar alguma coisa. Tenho certeza de que Tuck guardava um pouco de
ch na geladeira.
- Tuck no bebia ch. Mas deve ter uma Pepsi.
- Vamos ver - disse ele, encaminhando-se para a cozinha.
Amanda notou que Dawson se movia com a elegncia de um atleta. Balanou a
cabea de leve, tentando afastar esse pensamento.
- Ser que deveramos fazer isso?
- Tenho certeza de que era exatamente o que Tuck queria.
Como a sala de estar, a cozinha poderia estar numa cpsula do tempo, com
utenslios vindos diretamente da dcada de 1940, uma torradeira do tamanho de
um forno de micro-ondas e uma geladeira com puxador tipo alavanca. Manchas
de gua cobriam o balco perto da pia e a pintura branca dos armrios estava
lascada prximo s maanetas. As cortinas floridas - obviamente penduradas ali
por Clara - haviam adquirido um tom amarelo-acinzentado sujo, manchadas pela
fumaa dos cigarros de Tuck. Havia uma pequena mesa redonda para duas
pessoas, com um bolo de guardanapos de papel sob um dos ps, para evitar que
ela balanasse. Dawson abriu a geladeira e pegou uma jarra de ch. Quando
Amanda entrou, ele a estava pousando sobre o balco.
- Como voc sabia que Tuck tinha ch? - perguntou ela.
- Do mesmo modo como sabia que voc tinha as chaves - respondeu ele
enquanto tirava dois copos de geleia de dentro do armrio.
- Do que voc est falando?
Dawson encheu os copos.
- Tuck sabia que ns dois acabaramos vindo at aqui e se lembrou de que eu
gostava de ch. Ento fez questo de deixar um pouco na geladeira.
 claro. Exatamente como fizera com o advogado. Porm, antes que ela pudesse
refletir um pouco mais sobre a questo, Dawson estava lhe entregando o ch, e
ela voltou sua ateno para ele.
Seus dedos se tocaram quando ela pegou seu copo. Dawson ergueu o dele.
- A Tuck - disse ele.
Amanda bateu seu copo contra o de Dawson e, de repente, sentiu como se toda
aquela situao - a proximidade dos dois, o passado que a atraa, a maneira como
ela se sentira quando ele a abraara, o fato de estarem sozinhos naquela casa -
fosse mais do que ela poderia administrar. Uma pequena voz lhe sussurrou que
ela precisava ter cuidado, que nada de bom poderia sair daquilo, lembrando-a de
que tinha marido e filhos. Mas isso s tornava as coisas mais confusas.
- Ento... 20 anos, h? - disse Dawson enfim.
Ele se referia ao casamento de Amanda, mas ela estava to distrada que
demorou um pouco a entender.
- Quase. E voc? Chegou a se casar?
- Acho que o destino no quis.
Ela o fitou por cima da borda do copo.
- Ainda curtindo a vida de solteiro, ento?
- Na verdade, sou mais de ficar na minha.
Ela se recostou no balco, sem saber bem como interpretar aquela resposta.
- Onde voc mora?
- Louisiana. Numa comunidade perto de Nova Orleans.
- Voc gosta?
-  tranqila. S depois de voltar para c percebi como  parecida com Oriental.
Tem mais pinheiros por aqui e mais barbas-de-velho por l, mas, fora isso,
duvido que conseguisse notar a diferena.
- Exceto pelos crocodilos.
- . Exceto por eles. - Dawson abriu um sorriso discreto. - Sua vez. Onde  sua
casa?
- Durham. Fiquei por l depois que me casei.
- E vem aqui algumas vezes por ano para visitar sua me?
Ela assentiu.
- Quando meu pai era vivo, eles costumavam nos visitar para ver as crianas.
Mas, depois que ele morreu, ficou mais difcil. Mame nunca gostou de dirigir,
ento eu preciso vir at aqui. - Ela bebericou seu ch antes de menear a cabea
para a mesa. - Voc se importa se eu me sentar? Meus ps esto me matando.
- Fique  vontade. Eu vou ficar em p. Passei o dia inteiro dentro de um avio.
Ela se encaminhou para a mesa, sentindo o olhar dele acompanh-la.
- O que voc faz na Louisiana? - perguntou Amanda enquanto se sentava.
- Sou torrista numa plataforma de petrleo. Basicamente, dou assistncia ao
sondador. Ajudo a colocar e a tirar o tubo de perfurao do elevador, confiro se
as conexes esto em ordem, verifico as bombas para garantir que estejam
funcionando. E meio difcil explicar sem poder mostrar do que estou falando.
-  bem diferente de consertar carros.
- Na verdade,  mais parecido do que voc imagina. Eu mexo basicamente com
motores e mquinas. E ainda trabalho com automveis. Bem, no meu tempo
livre, pelo menos. O Mustang anda como se fosse zero.
- Voc ainda tem aquele carro?
Ele sorriu.
- Gosto dele.
- No - provocou ela -, voc ama aquele carro. Eu tinha que arrastar voc para
longe dele quando vinha aqui. E, na metade das vezes, no conseguia. No ficaria
surpresa se voc tivesse uma foto dele na carteira.
- Mas eu tenho.
- Srio?
- Brincadeira.
Ela riu, a mesma risada descontrada de tempos atrs.
- H quanto tempo voc trabalha embarcado?
- Catorze anos. Comecei como homem de rea, depois virei plataformista e hoje
sou torrista.
- Homem de rea, plataformista, torrista?
- Como vou explicar? So termos da profisso. - Ele cutucou distraidamente um
dos sulcos no tampo da mesa. - E voc? Trabalha? Lembro que queria ser
professora.
Ela bebericou seu ch, concordando com a cabea.
- Dei aulas durante um ano, mas ento tive Jared, meu filho mais velho, e quis
ficar em casa para cuidar dele. Depois Lynn nasceu e... vieram alguns anos em
que muitas coisas aconteceram, inclusive a morte do meu pai, e foi um perodo
bem difcil. - Amanda se deteve, percebendo quanto estava deixando de contar e
sabendo que aquele no era nem o lugar nem o momento para falar sobre Bea.
Ela se ajeitou na cadeira, mantendo a voz firme: - Tivemos Annette poucos anos
depois e, quela altura, j no havia mais motivo para voltar a trabalhar. Mas,
nos ltimos 10 anos, dediquei bastante tempo ao trabalho como voluntria no
hospital da Universidade Duke. Tambm organizo alguns almoos beneficentes
para eles. E difcil s vezes, mas me d a sensao de que estou fazendo alguma
diferena, por menor que seja.
- Quantos anos tm seus filhos?
Ela os contou um a um nos dedos:
- Jared faz 19 em agosto e acabou de terminar o primeiro ano da faculdade.
Lynn tem 17 e est comeando o ltimo ano do ensino mdio. Annette, que tem
9, acabou de terminar o terceiro ano fundamental. Ela  um doce de menina,
uma criana muito alegre. Jared e Lynn, por outro lado, esto naquela idade em
que acham que sabem tudo, enquanto eu, naturalmente, no sei absolutamente
nada.
- Em outras palavras, so mais ou menos como ns fomos.
Ela refletiu um pouco, sua expresso quase melanclica.
- Talvez.
Dawson se calou, olhando pela janela, e ela seguiu seu olhar. O riacho ganhara
um tom acinzentado, cor de ferro, e a gua que se movia lentamente refletia o
escurecer do cu. O velho carvalho perto da margem no tinha mudado muito
desde a ltima vez em que ele estivera ali, mas o cais havia apodrecido, restando
apenas as estacas.
- H muitas lembranas l - comentou ele com brandura.
Talvez tenha sido a maneira como ele pronunciou as palavras, mas Amanda
sentiu algo fazer "clique" dentro de si ao ouvi-las, como uma chave que girasse
em uma fechadura distante.
- Eu sei - disse por fim. Ela se deteve, passando os braos ao redor do corpo. Por
alguns instantes, o zumbido da geladeira foi o nico som na cozinha. A lmpada
no teto lanava um brilho amarelado nas paredes, projetando sombras dos perfis
dos dois. - Quanto tempo voc pretende ficar? - perguntou ela.
- Comprei minha passagem para segunda-feira de manh bem cedo. E voc?
- No muito. Disse a Frank que voltaria no domingo. Mas, se dependesse da
minha me, eu teria ficado em Durham. Ela disse que no era uma boa idia vir
para o funeral.
- Por qu?
- Porque ela no gostava de Tuck.
- Voc quer dizer que ela no gostava de mim.
- Ela nunca chegou a conhecer voc - falou Amanda. - Nunca lhe deu uma
chance. Sempre achou que soubesse exatamente o que eu deveria fazer da vida.
O que eu queria nunca importou. Mesmo agora, que sou adulta, ela ainda tenta
me dizer o que fazer. No mudou nada. - Ela passou os dedos pela umidade no
copo de gelia. - Alguns anos atrs, cometi o erro de lhe dizer que tinha vindo 
casa de Tuck. Foi como se eu confessasse um crime. Ela me passou um sermo,
quis saber o porqu da visita, perguntou sobre o que havamos conversado. Ficou
me dando bronca como se eu ainda fosse criana. Depois disso, simplesmente
parei de contar a ela que vinha aqui. Dizia que tinha ido s compras ou sado
para almoar com minha amiga Martha na praia. Martha e eu fomos colegas de
quarto na faculdade e ela mora em Salter Path. Ns ainda nos falamos, mas j faz
anos que no a vejo. No quero lidar com as perguntas intrometidas de mame,
ento simplesmente minto para ela.
Dawson misturou seu ch enquanto pensava no que Amanda tinha dito. Depois,
observou a bebida finalmente parar de girar.
- Enquanto estava vindo para c, eu no conseguia parar de pensar no meu pai e
em como tudo para ele era sempre uma questo de controle. No estou dizendo
que sua me seja igual a ele, mas talvez essa seja apenas a maneira dela de tentar
evitar que voc cometa erros.
- Voc est dizendo que visitar Tuck foi um erro?
- No para Tuck - disse ele. - Mas e para voc? Depende do que esperava
encontrar aqui, e s voc mesma pode responder a essa pergunta.
Amanda sentiu que comeava a ficar na defensiva, mas, antes que pudesse
retrucar, a sensao passou. Reconheceu que aquele era o tipo de conversa que
os dois costumavam ter: um dizia algo que provocava o outro e isso muitas vezes
acabava levando a uma discusso. Ela se deu conta de quanto sentira falta disso.
No das brigas, mas da confiana implcita que havia nelas e do perdo que
inevitavelmente vinha em seguida. Porque, no fim das contas, eles sempre
perdoavam um ao outro.
Parte de Amanda suspeitava de que Dawson a estava testando, mas ela deixou o
comentrio dele sem resposta. Em vez disso, surpreendendo a si mesma,
inclinou-se sobre a mesa e as palavras saram quase automaticamente de sua
boca:
- Onde vai jantar hoje  noite?
- No tenho nenhum plano. Por qu?
- Tem uns bifes na geladeira, se voc quiser comer aqui.
- E a sua me?
- Posso ligar e dizer que me atrasei.
- Tem certeza de que  uma boa idia?
- No - falou Amanda. - A esta altura, no tenho certeza de mais nada.
Ele esfregou o polegar contra o copo e no disse nenhuma palavra enquanto a
analisava.
- OK - falou Dawson, assentindo. - Vamos comer esses bifes. Desde que no
estejam estragados.
- Foram entregues na segunda-feira - disse ela, lembrando-se do que Tuck lhe
falara. - A churrasqueira fica l fora, se voc quiser ir comeando.
No instante seguinte, Dawson estava l fora. Sua presena, no entanto,
continuava a seu lado, mesmo quando ela pegou o celular na bolsa.

                                        5

Quando o carvo estava no ponto, Dawson voltou para pegar os bifes com Amanda,
que j os havia temperado. Ao abrir a porta, deparou com ela olhando para dentro do
armrio e segurando, distrada, uma lata de feijo com carne de porco.
- O que foi?
- Estou tentando encontrar algo para comermos com o bife, mas, fora isto - disse
ela, erguendo a lata -, no tem muita coisa.
- Quais so nossas opes? - perguntou ele enquanto lavava as mos na pia.
- Alm de feijo, temos farinha de milho, um vidro de molho para espaguete,
trigo, meio pacote de penne e cereal matinal. Na geladeira tem manteiga e
condimentos. Ah, e o ch,  claro.
Ele sacudiu as mos para tirar o excesso de gua.
- O cereal pode cair bem.
- Acho que prefiro o penne - disse ela, girando os olhos. - E voc no deveria
estar l fora grelhando os bifes?
- Imagino que sim - respondeu ele, e Amanda teve que conter um sorriso.
Com o canto do olho, ela o observou pegar a bandeja e sair, a porta se fechando
s suas costas com um estalo sutil.
O cu era de um violeta escuro e aveludado e as estrelas j brilhavam. O riacho
parecia uma fita negra para alm do vulto de Dawson e as copas das rvores
comeavam a emitir um brilho prateado  medida que a lua subia lentamente.
Ela encheu uma panela com gua, jogou um pouco de sal dentro e acendeu a
trempe do fogo. Em seguida, pegou a manteiga na geladeira. Quando a gua
ferveu, jogou nela o penne e passou os minutos seguintes procurando pelo
escorredor at finalmente encontr-lo no fundo do armrio ao lado do forno.
Assim que o macarro ficou pronto, ela o escorreu e depois o devolveu  panela,
acrescentando manteiga, alho em p e uma pitada de sal e pimenta. Ento
aqueceu rapidamente o feijo enlatado, terminando a parte que lhe cabia no
mesmo instante em que Dawson voltava carregando a bandeja com os bifes.
- O cheiro est timo - disse ele, sem se dar o trabalho de esconder sua surpresa.
- Manteiga e alho - comentou ela. - Sempre d certo. Como ficaram os bifes?
- Fiz um malpassado e outro no ponto. Gosto dos dois jeitos, mas no sabia como
voc prefere. Posso devolver um dos dois para a churrasqueira, se quiser.
- No ponto est timo - disse Amanda.
Dawson pousou a bandeja na mesa e remexeu nos armrios e nas gavetas,
pegando pratos, copos e talheres. Ela viu duas taas de vinho no aparador e se
lembrou do que Tuck dissera em sua ltima visita.
- Gostaria de uma taa de vinho? - perguntou.
- S se voc me acompanhar.
Ela fez que sim com a cabea, ento abriu o armrio que Tuck havia indicado,
revelando duas garrafas. Pegou o cabernet e o abriu enquanto Dawson terminava
de pr a mesa. Por fim, serviu duas taas e entregou uma a ele.
- Tem molho para carnes na geladeira, se voc quiser - disse ela.
Dawson pegou o molho enquanto Amanda despejava o macarro em uma tigela
e o feijo em outra. Os dois chegaram  mesa ao mesmo tempo e, enquanto
analisavam aquele pequeno jantar ntimo, ela notou o leve subir e descer do
trax de Dawson. Quebrando o transe do momento, ele pegou a garrafa de vinho
e Amanda balanou a cabea, sentando-se.
Ela bebericou seu vinho, o sabor se prolongando na boca. Depois que os dois
serviram seus pratos, Dawson hesitou, olhando para a prpria comida.
- Tudo bem? - perguntou Amanda, franzindo o cenho.
O som da voz dela o fez voltar a si.
- S estava tentando lembrar qual foi a ltima vez que tive uma refeio como
esta.
- Bife? - perguntou ela, cortando a carne e dando uma primeira garfada.
- Tudo. - Ele deu de ombros. - Na plataforma, eu almoo e janto no refeitrio
com um monte de homens e, em casa, como sou apenas eu, acabo fazendo coisas
simples.
- E quando voc sai? Tem um monte de restaurantes timos em Nova Orleans.
- Quase nunca vou  cidade.
- Nem quando sai para namorar? - insistiu ela entre garfadas.
- No costumo sair para namorar - disse ele.
- Nunca?
Ele comeou a cortar seu bife.
- No.
- Por que no?
Ele conseguia senti-la analisando-o enquanto tomava um gole de vinho,
esperando uma resposta. Dawson se remexeu em sua cadeira.
-  melhor assim - respondeu ele.
O garfo de Amanda parou a meio caminho da boca.
- No  por minha causa, ?
Ele manteve a voz firme.
- No sei bem o que voc espera que eu diga.
- Voc no pode estar dizendo que... - comeou ela.
Quando Dawson ficou calado, ela voltou a tentar.
- Voc est tentando me dizer que... que no namorou ningum depois que ns
terminamos?
Dawson continuou calado e Amanda baixou seu garfo. Ela notou um qu de
agressividade no tom da prpria voz.
- Est me dizendo que eu sou a causa da... da vida que voc decidiu levar?
- Novamente, no sei bem o que voc espera que eu diga.
Ela estreitou os olhos.
- Ento eu tambm no sei o que deveria falar.
- O que quer dizer com isso?
- Que, do jeito como voc fala, parece que  por minha causa que est sozinho.
Que ... que de alguma forma  minha culpa. Tem idia de como isso me faz
sentir?
- No tive inteno de magoar voc. S quis dizer que...
- Eu sei muito bem o que voc quis dizer - explodiu Amanda. - E sabe de uma
coisa? Eu o amei tanto quanto voc me amou naquela poca, mas, sabe-se l por
que motivo, no era para ser e teve um fim. Mas no foi o meu fim. E nem o seu.
- Ela espalmou as mos sobre a mesa. - Acha mesmo que quero sair daqui
pensando que voc vai passar o resto da vida sozinho? Por minha causa?
Ele a encarou.
- Nunca quis que tivesse pena de mim.
- Ento por que me contaria uma coisa dessas?
- Eu no contei praticamente nada - argumentou ele. - Nem respondi  sua
pergunta. Voc interpretou como quis.
- Ento eu me enganei?
Em vez de responder, ele pegou sua faca.
- Nunca lhe disseram que, se no quiser ouvir a resposta, no deve fazer a
pergunta?
Apesar de ele ter rebatido sua pergunta com outra, algo que sempre tinha sido
capaz de fazer, Amanda no conseguiu se conter.
- Bem, mesmo assim, no  culpa minha. Se voc quiser arruinar sua vida, v em
frente. Quem sou eu para impedi-lo?
Para sua surpresa, Dawson riu.
-  bom saber que voc no mudou nada.
- Mudei, sim. Acredite.
- No muito. Continua disposta a me dizer exatamente o que pensa, seja o que
for. Mesmo quando acha que estou arruinando minha vida.
- Est na cara que voc precisa que algum lhe diga isso.
- Ento talvez seja melhor tentar tranquiliz-la. Eu tambm no mudei. Estou
sozinho porque sempre fui sozinho. Antes de voc, eu fazia de tudo para manter
minha famlia bem longe. Quando vim para c, s vezes Tuck passava dias sem
conversar comigo e, depois que voc foi embora, fiquei anos preso. Quando
terminei de cumprir a pena, ningum nesta cidade me queria por perto, ento
fui embora. Depois acabei trabalhando durante vrios meses do ano em uma
plataforma no meio do mar, um lugar no exatamente propcio a
relacionamentos, digo por experincia prpria. Sim, existem casais que
conseguem sobreviver a esse tipo de separao constante, mas grande parte acaba
se magoando. Simplesmente me parece mais fcil assim e, alm do mais, estou
acostumado.
Ela avaliou sua resposta.
- Quer saber se eu acho que voc est dizendo a verdade?
- No.
Amanda riu sem querer.
- Ento posso fazer outra pergunta? No precisa responder, se no quiser.
- Pode perguntar qualquer coisa - disse ele, dando uma garfada no bife.
- O que aconteceu na noite do acidente? Fiquei sabendo de uma coisa ou outra
pela minha me, mas nunca me contaram a histria toda e eu no sabia em que
acreditar.
Dawson mastigou em silncio por alguns instantes antes de responder.
- No h muito o que contar - disse ele enfim. - Tuck havia encomendado um
jogo de pneus para um carro que estava reformando, mas, sabe-se l por que
motivo, eles acabaram sendo entregues numa loja em New Bern. Ele me
perguntou se eu poderia ir busc-los e eu fui. Tinha chovido um pouco e j
estava escuro quando eu voltei para a cidade.
Ele se deteve, tentando mais uma vez entender o ininteligvel.
- Veio um carro na direo oposta e o motorista estava correndo. Ou a
motorista. Nunca descobri. De qualquer forma, quem quer que estivesse no
veculo entrou na minha faixa bem na hora em que eu me aproximava. Tive que
girar o volante rpido para abrir caminho. O outro carro passou batido por mim
e metade da caminhonete ficou fora da estrada. Cheguei a ver o Dr. Bonner,
mas... - As imagens ainda estavam claras na sua cabea, sempre eram claras,
como em um pesadelo sem fim. - Foi como se tudo estivesse acontecendo em
cmera lenta. Pisei no freio at o fundo e puxei o volante para o outro lado, mas
o asfalto e a grama estavam escorregadios, ento...
Ele deixou a frase pela metade. No silncio, Amanda tocou seu brao.
- Foi um acidente - sussurrou ela.
Dawson ficou calado, mas ela em seguida perguntou o bvio:
- Por que voc foi preso, se no havia bebido nem estava correndo?
Quando ele deu de ombros, Amanda percebeu que j sabia a resposta.
Era to bvia quanto as letras de seu sobrenome.
- Sinto muito - falou ela, mas as palavras soaram inadequadas.
- Eu sei. Mas no tenha pena de mim - disse ele. - Tenha pena da famlia do Dr.
Bonner. Por minha causa, ele nunca voltou para casa. Por minha causa, os filhos
dele cresceram sem pai. Por minha causa, a esposa dele vive sozinha at hoje.
- Voc no tem como saber isso - contra-argumentou Amanda. - Talvez ela
tenha se casado novamente.
- No se casou - falou Dawson. Antes que Amanda pudesse perguntar como ele
sabia, ele tornou a mexer na comida. - Mas e voc? - perguntou ele de repente,
como se quisesse colocar uma pedra em cima do assunto anterior, o que fez
Amanda se arrepender de t-lo trazido  tona. - Conte o que fez da vida desde a
ltima vez que nos vimos.
- Eu nem saberia por onde comear.
Ele pegou a garrafa e serviu mais vinho para os dois.
- Que tal comear pela faculdade?
Amanda se rendeu e comeou a contar-lhe sua vida, a princpio em termos
gerais. Dawson ouvia com ateno, fazendo perguntas enquanto ela falava,
tentando conseguir mais detalhes. As palavras comearam a fluir com mais
facilidade. Ela contou sobre colegas de classe, as disciplinas e os professores que
mais a tinham inspirado. Admitiu que o ano que passou dando aulas no tinha
sido como ela esperava, talvez porque mal conseguisse entender o fato de j no
ser a aluna. Falou sobre quando conheceu Frank, mas dizer seu nome lhe deu
uma estranha sensao de culpa e ela no tornou a mencion-lo. Amanda lhe
contou um pouco sobre as amigas e algumas das viagens que fizera no decorrer
dos anos, mas se ateve basicamente aos filhos, descrevendo suas personalidades e
os desafios que enfrentavam e tentando no se vangloriar muito de suas
conquistas.
De vez em quando, ao concluir um raciocnio, Amanda perguntava a Dawson
sobre a vida que ele levava na plataforma, ou sobre como eram seus dias de folga,
mas ele geralmente conduzia a conversa de volta para ela. Parecia interessado de
verdade na sua vida e ela descobriu que lhe parecia estranhamente natural
cont-la a ele. Era quase como se os dois estivessem retomando um dilogo
interrompido muito tempo atrs.
Mais tarde, Amanda tentaria se lembrar da ltima vez em que ela e Frank
tinham conversado daquela forma, mesmo quando saam sozinhos. Nessas
ocasies, Frank costumava beber e era praticamente o nico a falar. Quando
conversavam sobre os filhos, era sempre avaliando como iam na escola ou algum
problema que tinham e qual seria a melhor maneira de resolv-lo. Suas
conversas eram prticas e objetivas e ele quase nunca perguntava sobre os
interesses de Amanda ou como fora seu dia. Parte disso, ela sabia, era inevitvel
em qualquer casamento de tantos anos: havia poucas novidades a contar. Mas,
por algum motivo, ela sentia que sua ligao com Dawson sempre tinha sido
diferente e se perguntou se, com o passar do tempo, a vida teria mudado o
relacionamento dos dois. Preferia achar que no, mas como poderia ter certeza?
Eles continuaram conversando enquanto a noite avanava, o brilho turvo das
estrelas atravessando a janela da cozinha. O vento ficou mais forte, soprando por
entre as folhas das rvores como ondas no mar. A garrafa de vinho foi esvaziada
e Amanda se sentia aquecida e relaxada. Dawson levou a loua para a pia e os
dois ficaram lado a lado enquanto ele lavava e ela secava. Vez por outra, Amanda
o pegava analisando-a ao lhe passar um dos pratos e, embora em vrios sentidos
uma vida inteira houvesse transcorrido nos anos que passaram longe um do
outro, ela teve a incrvel sensao de que, na verdade, nunca tinham perdido
contato.

Quando terminaram de arrumar a cozinha, Dawson gesticulou em direo 
porta dos fundos:
- Voc ainda tem alguns minutos?
Amanda olhou para o relgio e, por mais que j devesse estar de sada, se ouviu
dizer:
- Tenho, mas no posso demorar.
Dawson segurou a porta enquanto ela passava por ele, descendo os degraus de
madeira que rangiam. A lua estava finalmente alta no cu, emprestando 
paisagem uma beleza extica. Uma camada de orvalho prateado cobria o cho,
umedecendo os dedos dos ps de Amanda em seus sapatos abertos, e um cheiro
forte de pinho pairava no ar. Eles caminharam lado a lado, o som de seus passos
perdendo-se em meio ao canto das cigarras e o sussurrar das folhas.
A beira do rio, um carvalho antiqussimo estendia seus galhos baixos, sua
imagem refletida na gua. Parte da margem havia sido levada pela correnteza,
tornando quase impossvel chegar aos galhos sem se molhar, de modo que eles
pararam.
- Era ali que costumvamos nos sentar - disse ele.
- Era o nosso cantinho - concordou Amanda. - Principalmente quando eu
brigava com meus pais.
- Espere um instante. Voc brigava com seus pais naquela poca? - falou
Dawson, fingindo espanto. - No era por minha causa, era?
Ela o cutucou com o ombro.
- Engraadinho. Enfim, ns costumvamos subir nos galhos e voc passava seu
brao ao meu redor, ento eu chorava e gritava e voc simplesmente me deixava
desabafar e dizer como era tudo to injusto, at que eu me acalmava. Eu era bem
dramtica, no era?
- No que eu tenha notado.
Ela abafou uma risada.
- Voc se lembra de como as tainhas saltavam? s vezes eram tantas que
pareciam estar dando um espetculo.
- Sem dvida vo saltar esta noite tambm.
- Eu sei, mas no vai ser igual. Quando ns vnhamos para c, eu precisava v-
las. Era como se elas sempre soubessem que eu precisava de algo especial para
me sentir melhor.
- E eu acreditando que era a minha presena que fazia voc se sentir melhor.
- Eram as tainhas, com certeza - provocou Amanda.
Ele sorriu.
- Voc e Tuck vieram aqui alguma vez?
Ela balanou a cabea.
- O caminho era um pouco ngreme demais para ele. Mas eu vim. Ou pelo
menos tentei.
- Como assim?
- Acho que queria saber se ainda me sentiria da mesma forma neste lugar, mas
nunca cheguei at aqui propriamente. No porque tivesse visto ou escutado algo
no caminho, mas porque comecei a pensar que poderia ter algum andando pelo
bosque e a minha imaginao simplesmente... ganhou asas. Eu me dei conta de
que estava sozinha e percebi que, se alguma coisa acontecesse, no teria como
fazer nada. Ento dei meia-volta, fui para a casa de Tuck e nunca mais voltei.
- At agora.
- No estou sozinha agora. - Amanda ficou observando os redemoinhos na gua,
esperando que alguma tainha saltasse, mas nada aconteceu. -  difcil acreditar
que passou tanto tempo - murmurou ela. - Ns ramos to jovens!
- Nem tanto. - Sua voz saiu baixa, mas notavelmente segura.
- ramos crianas, Dawson. Podia no parecer na poca, mas sua perspectiva
muda quando voc tem filhos. Quero dizer, Lynn tem 17 anos e no consigo
imagin-la sentindo-se como eu me sentia. Ela nem tem namorado. E, se
estivesse fugindo pela janela do quarto no meio da noite, eu provavelmente
agiria como meus pais agiram.
- Se no gostasse do namorado dela, voc quer dizer?
- Mesmo que o achasse perfeito para ela. - Ela voltou o rosto para Dawson. -
Onde ns estvamos com a cabea?
- Em lugar nenhum - respondeu ele. - Ns estvamos apaixonados.
Ela o encarou, seus olhos capturando fragmentos do luar.
- Sinto muito por nunca t-lo visitado nem escrito uma carta, ao menos. Quero
dizer, quando voc foi preso.
- No tem problema.
- Tem, sim. Mas eu pensava no assunto, em ns, o tempo todo. - Ela estendeu a
mo para tocar o carvalho, tentado retirar dele as foras de que precisava para
continuar. -  s que, todas as vezes que me sentava para escrever, ficava
paralisada. Como eu iria comear? Deveria lhe contar sobre minhas aulas ou
sobre como eram minhas colegas de quarto? Ou perguntar como estavam sendo
seus dias? Todas as vezes que comeava a escrever, eu relia tudo e me parecia
errado. Ento eu rasgava o papel e prometia a mim mesma que recomearia do
zero no dia seguinte. Mas sempre acabava deixando para o dia seguinte. E,
quando percebi, j havia passado muito tempo. A...
- No tenho mgoas - falou ele. - E tambm no tinha na poca.
- Porque j tinha me esquecido?
- No - respondeu Dawson. - Porque, naquele tempo, eu mal conseguia me
encarar no espelho. E saber que voc havia tocado sua vida adiante significava
muito para mim. Queria que voc tivesse o que eu nunca teria sido capaz de lhe
dar.
- Voc no pode estar falando srio.
- Mas estou - disse ele.
- Ento  a que voc se engana. Todo mundo tem alguma coisa que gostaria de
poder mudar no passado, Dawson. Eu tambm. At parece que minha vida foi
perfeita!
- Quer conversar sobre isso?
Anos antes, ela teria contado tudo a Dawson e, embora ainda no estivesse
pronta para isso, teve a sensao de que seria apenas uma questo de tempo at
que estivesse. Essa certeza a assustou, por mais que admitisse que Dawson havia
despertado nela algo que no sentia fazia muito, muito tempo.
- Voc vai ficar chateado comigo se eu disser que ainda no estou pronta para
falar nisso?
- Nem um pouco.
Ela lhe deu um leve sorriso:
- Ento vamos apenas aproveitar este lugar por mais alguns minutos, OK? Como
antigamente. E to tranqilo aqui...
A lua continuava a subir devagar no cu, dando ao ambiente uma atmosfera
etrea. Afastadas do brilho dela, as estrelas cintilavam suavemente, como
pequenos prismas. Enquanto ficavam ali, lado a lado, Dawson se perguntou
quantas vezes Amanda havia pensado nele ao longo daqueles anos. Menos do
que ele havia pensado nela, sem dvida, mas ele tinha a impresso de que, cada
um a seu modo, ambos haviam sido pessoas solitrias. Ele era uma figura sozinha
em uma terra desabitada, enquanto ela era mais um rosto em uma multido de
desconhecidos. Mas no era assim que sempre fora, mesmo quando eram
adolescentes? Tinha sido isso que os unira e, de alguma forma, eles haviam
encontrado a felicidade um no outro.
Na escurido, ele ouviu Amanda suspirar.
- Tenho que ir - falou ela.
- Eu sei.
Amanda ficou aliviada com a resposta, mas tambm um pouco decepcionada.
Dando as costas ao riacho, eles voltaram em silncio em direo  casa, ambos
imersos nos prprios pensamentos. Dawson apagou as luzes enquanto ela
trancava a porta, depois os dois se encaminharam lentamente para seus carros.
Dawson estendeu o brao e abriu a porta para ela.
- Nos vemos amanh no escritrio do advogado - disse ele.
- s onze.
O cabelo de Amanda era como uma cachoeira prateada ao luar, e Dawson
resistiu  tentao de correr os dedos por ele.
- Gostei muito da noite de hoje. Obrigado pelo jantar - disse ele.
Parada ali diante de Dawson, um pensamento repentino e louco passou pela
cabea de Amanda: o de que ele fosse querer beij-la. Percebeu tambm que era
a primeira vez desde a faculdade que o olhar de outra pessoa a deixava sem
flego. Mas ela desviou a cabea antes mesmo que ele pudesse tentar.
- Foi bom rever voc, Dawson.
Amanda sentou-se ao volante, suspirando de alvio quando ele fechou a porta de
seu carro em seguida. Ela deu partida no motor e engatou a r.
Dawson acenou enquanto ela se afastava e fazia o retorno e ficou observando-a
descer o caminho de cascalho. As luzes vermelhas das lanternas traseiras foram
sacudindo at que o carro entrou numa curva e sumiu de vista.
Ele andou lentamente de volta  oficina. Ligou o interruptor e, quando uma
lmpada solitria se acendeu no teto, sentou-se sobre uma pilha de pneus. Estava
tudo em silncio, o nico movimento ali era o bater das asas de uma mariposa
em torno da luz. Enquanto observava o inseto se chocar contra a lmpada,
Dawson refletiu sobre o fato de Amanda ter tocado sua vida adiante. Quaisquer
que fossem as tristezas ou os problemas que ela estivesse escondendo - e ele sabia
que estava -, ainda havia conseguido construir a vida que sempre quisera. Tinha
um marido, filhos e uma casa na cidade grande, e agora suas lembranas eram
sobre todas essas coisas, exatamente como deveriam ser.
Sentado sozinho na oficina de Tuck, ele sabia que vinha mentindo para si mesmo
ao pensar que tambm tocara a vida adiante. No tinha feito isso. Sempre
imaginara que havia se tornado pgina virada na vida de Amanda, mas agora
tinha a confirmao disso. Em algum lugar no seu ntimo, sentiu algo balanar.
Fazia tempos que ele havia se despedido e sempre se forara a acreditar que
tinha feito a coisa certa. Mas ali, naquele instante, sob a luz amarela e silenciosa
de uma oficina longe do mundo, j no tinha certeza disso. Ele amara Amanda
no passado e nunca deixara de am-la. O fato de ter ficado mais algumas horas
com ela no mudava essa simples verdade. Porm, enquanto procurava por suas
chaves, Dawson tambm se deu conta de outra coisa, algo que no esperava.
Ele se levantou e apagou a luz, ento seguiu em direo a seu carro, sentindo-se
esgotado. Uma coisa era saber que o que sentia por Amanda no tinha mudado.
Outra, totalmente diferente, era encarar o futuro tendo a certeza de que jamais
mudaria.

                                         6

As cortinas da pousada eram finas e o sol acordou Dawson assim que raiou. Ele
se virou para o outro lado, na esperana de conseguir voltar a dormir, mas foi
impossvel. Levantou-se e passou alguns minutos alongando-se. Seu corpo
sempre doa de manh, principalmente as costas e os ombros. Ele se perguntava
por mais quanto tempo ainda conseguiria continuar trabalhando em plataformas.
Sua sade se desgastava e, a cada ano, as leses pareciam ficar piores.
Ele enfiou a mo na bolsa de viagem e pegou sua roupa de corrida. Vestiu-se e
desceu em silncio as escadas. A pousada era basicamente como ele esperava:
quatro quartos no andar de cima e cozinha, salas de jantar e de estar no trreo.
Os donos tinham escolhido um tema nutico para a decorao, o que no era
nenhuma surpresa. Havia veleiros de madeira em miniatura nas mesas de canto e
quadros de escunas enfeitavam as paredes. Em cima da lareira ficava um antigo
timo e pregado  porta havia um mapa do rio, com seus canais devidamente
marcados.
Os proprietrios ainda no tinham acordado. Na noite anterior, quando ele fizera
o check-in, eles lhe informaram que haviam deixado em seu quarto as flores que
ele encomendara e que o caf da manh seria servido s 8h. Isso lhe dava
bastante tempo para fazer o que precisava antes da reunio.
A manh j estava clara l fora. Uma fina camada de neblina pairava como uma
nuvem sobre o rio, mas o cu exibia um azul radiante e lmpido em todas as
direes. O ar j estava quente, indicando um calor ainda mais forte durante o
dia. Ele girou os ombros algumas vezes e comeou a correr antes mesmo de
chegar  estrada. Demorou alguns minutos para que seu corpo se soltasse e ele
entrasse em um ritmo mais confortvel.
Quase no havia movimento na estrada quando Dawson chegou ao pequeno
centro comercial de Oriental. Ele passou por dois antiqurios, uma loja de
ferragens e algumas imobilirias. Do outro lado da rua, o Irvin's Diner j estava
aberto, com um carro ou outro estacionado em frente a ele. A neblina do rio
comeava a subir e, respirando fundo, ele sentiu o cheiro forte de sal e pinho.
Antes de chegar  marina, passou em frente a uma cafeteria lotada e, poucos
minutos depois, com o corpo j quase totalmente solto, conseguiu aumentar o
ritmo. Enquanto deixava para trs uma pequena loja de iscas na marina, gaivotas
grasnavam e descreviam crculos no ar e pessoas carregavam isopores at seus
veleiros.
Passando pela igreja Batista, impressionou-se com seus vitrais e tentou recordar
se os havia notado quando criana. Ento foi procurando pelo escritrio de
Morgan Tanner. Ele conhecia o endereo e logo viu a placa em um pequeno
prdio de tijolos espremido entre uma farmcia e uma loja de moedas antigas. A
placa indicava tambm o nome de outro advogado, embora no parecesse que
eles dividissem o escritrio. Dawson se perguntou como Tuck escolhera Tanner.
At receber o telefonema do advogado, nunca tinha ouvido falar nele.
Quando o centro de Oriental ficou para trs, Dawson saiu da estrada principal,
dobrando em direo s ruas residenciais, sem destino.
No dormira bem, com os pensamentos se alternando sem parar entre Amanda e
a famlia Bonner. Na priso, a nica coisa em que conseguia pensar alm de
Amanda era Marilyn Bonner. Ela havia sido convocada para testemunhar em seu
julgamento. Dissera que Dawson no s a havia privado do homem que amava e
do pai de seus filhos como tambm deixara sua famlia sem condies de se
sustentar. Com a voz embargada, admitira no fazer idia de como iria manter os
filhos ou o que seria deles. O Dr. Bonner no tinha plano de previdncia nem
seguro de vida.
Marilyn Bonner acabou perdendo sua casa e teve de voltar a morar com os pais,
mas sua vida continuou sendo difcil. O pai j havia se aposentado e enfrentava
um enfisema pulmonar. A me era diabtica e os emprstimos que o casal havia
feito para manter sua propriedade consumiam quase toda a renda que obtinham
com as frutas que cultivavam. Com os pais necessitando de cuidados quase em
tempo integral, Marilyn s conseguia trabalhar meio expediente. Mesmo
juntando seu salrio com o que os dois recebiam da previdncia social, mal dava
para custearem as necessidades bsicas, s vezes nem isso. A velha casa de
fazenda em que moravam j dava sinais de deteriorao e, com o tempo, o
pagamento das prestaes dos emprstimos comeou a atrasar.
Quando Dawson saiu da priso, a situao da famlia Bonner j havia se tornado
desesperadora. Ele s soube disso quase seis meses depois, na ocasio em que foi
at a fazenda para se desculpar. Quando Marilyn atendeu a porta, ele mal a
reconheceu: seu cabelo estava grisalho e sua pele tinha adquirido um tom
amarelado. A mulher, no entanto, sabia muito bem quem ele era. Antes que
Dawson pudesse dizer uma nica palavra, comeou a gritar mandando-o
embora. Aos berros, disse que ele tinha arruinado sua vida, que havia matado seu
marido e que ela no tinha dinheiro nem sequer para consertar as goteiras do
telhado ou contratar os funcionrios de que a fazenda precisava. Gritou que os
bancos estavam ameaando tomar a propriedade e que ela chamaria a polcia
para retir-lo dali. Alertou-o para nunca mais voltar. Dawson foi embora,
porm, naquela mesma noite, retornou  fazenda e, caminhando pelas fileiras de
pessegueiros e macieiras, avaliou seus problemas. Na semana seguinte, depois de
receber seu pagamento, ele foi ao banco e, juntando seu salrio quase inteiro e
tudo o que havia economizado desde que sara da priso, providenciou para que
um cheque fosse enviado a Marilyn Bonner sem qualquer identificao ou
bilhete em anexo.
Nos anos que se seguiram, a vida de Marilyn foi melhorando. Depois da morte
dos pais, ela herdou a propriedade e, embora ainda passasse por momentos
difceis, aos poucos conseguiu arcar com as altas prestaes e fazer as reformas de
que a fazenda necessitava. J quitara as dvidas e era de fato dona de suas terras.
Alguns anos depois de Dawson partir da cidade, tinha comeado o prprio
negcio: vendia compotas caseiras pelo correio. Com a ajuda da internet, o
empreendimento crescera o suficiente para que ela no precisasse mais se
preocupar com as contas a vencer. Embora nunca tivesse voltado a se casar,
namorava um contador chamado Leo havia quase 16 anos.
Quanto s crianas, Emily havia se formado na universidade e depois se mudara
para Raleigh, onde era gerente de uma loja de departamentos. Provavelmente
assumiria o negcio da me algum dia. Alan morava na fazenda, em um trailer
que sua me comprara para ele. No havia feito faculdade, mas tinha um
emprego fixo e, nas fotografias enviadas para Dawson, sempre parecia feliz.
Uma vez por ano, as fotografias chegavam  Louisiana com breves notcias
atualizadas sobre as vidas de Marilyn, Emily e Alan. O detetive particular que
Dawson havia contratado sempre fora meticuloso, contudo nunca se excedia em
sua investigao.
Dawson s vezes sentia remorso por ter contratado algum para seguir a famlia
Bonner, mas precisava saber se tinha conseguido fazer alguma diferena positiva,
por menor que fosse, na vida daquelas pessoas. Era tudo o que desejava desde a
noite do acidente, o motivo que o levara a passar as duas ltimas dcadas
enviando-lhes cheques todos os meses, quase sempre a partir de contas bancrias
annimas no exterior. Ele era o responsvel pela maior perda que a famlia
sofrer e, enquanto corria pelas ruas silenciosas da cidade, mais uma vez teve
certeza de que continuava disposto a fazer tudo o que estivesse a seu alcance
para compens-los.

A febre embrulhava o estmago de Abee Cole e fazia seu corpo tremer. Dois dias
atrs, ele havia acertado seu taco de beisebol em um sujeito que o provocara, mas
o homem o surpreendera com um estilete. A lmina estava imunda e fizera um
corte horrvel em sua barriga. De manh cedo, ele havia percebido um pus
esverdeado brotando da ferida. Apesar dos remdios que Abee estava tomando,
ela fedia demais. Se a febre no cedesse logo, ele daria uma surra com seu taco no
primo Calvin, que havia jurado que os antibiticos que roubara da clnica
veterinria dariam conta do recado.
Enquanto pensava nisso, se distraiu ao ver Dawson correndo do outro lado da
rua. Imaginou o que deveria fazer a respeito. Ted estava dentro da loja de
convenincia da calada oposta e Abee se perguntou se teria visto Dawson.
Achava que no; do contrrio, teria sado correndo de l como um javali. Ted
estava esperando Dawson aparecer desde que ficara sabendo que Tuck tinha
batido as botas. Enquanto isso, provavelmente afiava suas facas, carregava suas
armas e conferia suas granadas e bazucas - ou fossem l quais armas escondesse
naquele muquifo em que morava com Ella, a piranha que chamava de esposa.
Ted no batia muito bem da cabea. Nunca tinha batido. Na verdade, ele no
passava de uma criatura irada. Os nove anos em que ficara na cadeia tampouco o
haviam ensinado a se controlar. Nos ltimos tempos, a coisa chegara a tal ponto
que era quase impossvel manter Ted na linha, mas, como Abee muitas vezes
conclua, isso nem sempre era ruim: a presena do irmo mais novo garantia que
todos os envolvidos na produo de drogas em sua propriedade seguissem as
regras de Abee. Ultimamente, Ted deixava qualquer um apavorado, mesmo que
fosse da famlia, o que lhe era muito conveniente. Ningum se metia em seus
negcios e todos cumpriam suas ordens. Por mais que no necessariamente se
importasse com o irmo caula, Abee o considerava til.
Mas agora Dawson estava de volta  cidade e era impossvel saber o que Ted faria
a respeito. Abee imaginara que Dawson fosse aparecer, por conta da morte de
Tuck, mas esperava que ele tivesse a sensatez de ficar apenas o tempo suficiente
para prestar suas condolncias e desse o fora antes que soubessem que ele
estivera ali. Era isso que uma pessoa com um pingo de bom senso teria feito.
Abee tinha certeza de que Dawson era esperto o bastante para saber que Ted
tinha vontade de mat-lo todas as vezes que se olhava no espelho e via o nariz
torto.
De qualquer forma, Abee estava pouco se lixando com o que pudesse acontecer a
Dawson. S no queria que Ted criasse problemas desnecessrios. J era bem
difcil manter seus negcios com os agentes federais, a polcia estadual e o xerife
se metendo. J se fora o tempo em que as autoridades tinham medo dos Cole.
Agora os tiras tinham helicpteros, ces, infravermelhos e agentes infiltrados por
todo lado. Ele precisava pensar nessas coisas e no contava com ningum mais
para isso.
A questo era que Dawson era muito mais inteligente do que os viciados em
metanfetamina com que Ted costumava lidar. Podiam dizer o que quisessem do
primo, mas o fato era que ele tinha arrancado o couro de Ted e do pai - e os dois
estavam armados. Isso significava alguma coisa. Dawson no tinha medo de Ted
nem de Abee e estaria preparado para enfrent-los. Podia ser impiedoso se
necessrio, e isso deveria bastar para que Ted segurasse a onda. Mas no bastaria,
porque Ted simplesmente era incapaz de manter a cabea no lugar.
A ltima coisa de que Abee precisava era que o irmo voltasse para a cadeia.
Com metade da famlia viciada e propensa a fazer besteiras, ele era mais do que
necessrio. Mas, se Abee no conseguisse evitar que Ted perdesse o controle ao
ver Dawson, era bem provvel que acabasse diante do juiz outra vez. Pensar
nisso fez seu estmago queimar, o que s piorou o enjo.
Abee se inclinou para a frente e vomitou na rua. Limpou a boca com as costas da
mo e observou Dawson finalmente dobrar a esquina e sumir de vista. Ted no
havia sado da loja. Abee ficou aliviado e decidiu no contar ao irmo o que
tinha visto. Voltou a tremer, a barriga pegando fogo. Deus, ele estava um trapo!
Quem poderia imaginar que aquele cara tivesse um estilete?
Ele nem pretendia matar o sujeito, s queria dar um recado a ele ou a qualquer
outra pessoa que pudesse estar pensando o que no devia sobre Candy. Mas da
prxima vez no correria riscos. Quando comeasse a bater com seu taco, seria
para no parar mais. Ele teria cuidado - sempre era cuidadoso quando podia
haver problemas com a lei -, mas todos precisavam entender que sua namorada
era "zona proibida". Aqueles caras no deveriam nem olhar para ela ou lhe
dirigir a palavra, quanto mais ficar achando que poderiam com-la. Candy
provavelmente ficaria irritada com isso, mas precisava entender que agora
pertencia a ele. E a ltima coisa que Abee queria era ter que estragar aquele
rostinho lindo para deixar isso claro.

Candy no sabia ao certo o que fazer a respeito de Abee Cole. Tinham sado
juntos algumas vezes e agora ele provavelmente achava que mandava nela. Mas
Abee era homem e Candy j havia sacado, muito tempo atrs, qual era a dos
homens, at mesmo os mais cabeas-duras como ele. Ela podia ter apenas 24
anos, mas se virava sozinha desde os 17 e j havia aprendido que, desde que
deixasse soltos seus longos cabelos louros e usasse aquele olhar, poderia levar os
caras a fazer praticamente qualquer coisa que quisesse. Sabia fazer um homem se
sentir fascinante, por mais chato que ele fosse. E, no decorrer dos ltimos sete
anos, isso havia sido muito til. Candy tinha um Mustang conversvel, cortesia
de um velho que conhecera em Wilmington, e uma pequena esttua de Buda,
supostamente de ouro, que deixava no batente da janela e tinha sido presente de
um chins encantador de Charleston. Ela sabia que, se dissesse a Abee que estava
ficando sem dinheiro, ele provavelmente lhe daria algum e se sentiria um rei por
isso.
Mas, por outro lado, isso talvez no fosse uma boa idia. Ela no era daquela
regio e no sabia quem eram os Cole ao chegar a Oriental, alguns meses atrs.
Quanto mais descobria a respeito da famlia, mais insegura se sentia quanto a
deixar Abee se aproximar. No por Abee ser um criminoso. Ela sara de uma
relao de alguns meses com um traficante de cocana em Atlanta levando quase
20 mil dlares e ele ficara to satisfeito com o acordo quanto ela. Parte do
problema era o desconforto que sentia quando Ted estava por perto.
Abee geralmente aparecia junto com o irmo e, francamente, Ted a assustava.
No s por conta da pele esburacada e dos dentes marrons, mas principalmente
pela sua... energia. Quando Ted sorria para ela, havia uma espcie de alegria
malvola em sua expresso, como se no conseguisse decidir se queria lhe dar
um beijo ou estrangul-la e achasse as duas opes igualmente prazerosas.
Ted lhe dava arrepios desde o incio, mas ela era obrigada a admitir que quanto
mais conhecia Abee, mais se preocupava com a possibilidade de os dois serem
farinha do mesmo saco. Abee andava um pouco... possessivo ultimamente, o que
estava comeando a assust-la. Para ser franca, Candy achava que j era hora de
seguir em frente. Pegar o carro e ir para o norte, para Virgnia, ou para o sul,
para a Flrida, tanto fazia. Se pudesse, iria embora no dia seguinte, mas ainda
no tinha dinheiro para a viagem. Nunca havia sido boa em economizar, mas
imaginava que, se desse um bom trato nos clientes do bar naquele fim de semana
e fizesse tudo direito, at domingo poderia ganhar o suficiente para dar o fora
dali antes mesmo que Abee Cole percebesse.

O carro de entregas saiu da faixa central para o acostamento e voltou enquanto
Alan Bonner tentava no derramar o caf no copo que prendia entre as pernas ao
mesmo tempo que tirava um cigarro do mao batendo-o contra a coxa. O rdio
tocava alto uma msica country sobre um homem que havia perdido seu
cachorro, ou queria um cachorro, ou sabe-se l o qu. A letra nunca era to
importante quanto a batida e aquela cano tinha uma batida e tanto. Somando-
se a isso o fato de ser sexta-feira - o que significava apenas mais sete horas de
trabalho antes de um longo e glorioso fim de semana -, ele j estava de bom
humor.
- No  melhor abaixar isso? - perguntou Buster.
Buster Tibson era o funcionrio recm-contratado da empresa e este era o nico
motivo para ele estar naquela van. O rapaz havia passado a semana inteira
fazendo perguntas ou reclamando. Era de enlouquecer.
- Por qu? Voc no gosta desta msica?
- O manual diz que ouvir o rdio alto pode distrair o motorista. Ron fez questo
de mencionar isso quando me contratou.
Esse era outro aspecto irritante em Buster. Ele era certinho at dizer chega.
Devia ser por isso que Ron o contratara.
Alan conseguiu tirar um cigarro do mao e o prendeu entre os dentes. A porcaria
do isqueiro estava bem no fundo do seu bolso e ele precisou prestar ateno para
no derramar caf enquanto tentava fisg-lo.
- No se preocupe. Hoje  sexta-feira, lembra?
Buster no pareceu satisfeito com a resposta e, quando Alan olhou em sua
direo, percebeu como a camisa do rapaz estava engomada. Sem dvida ele
havia se certificado de que Ron notasse isso. Provavelmente tambm entrara no
escritrio do chefe com um bloquinho e uma caneta na mo, para poder anotar
tudo o que ele dizia enquanto aproveitava para elogi-lo.
E que raio de nome era aquele? Esse era outro problema. Que tipo de pai
chamaria o filho de Buster?
A van tornou a passar no acostamento enquanto Alan finalmente conseguia
pegar seu isqueiro.
- Ei, onde voc arranjou esse nome, Buster? - perguntou ele.
-  um nome comum na minha famlia. Da parte da minha me - respondeu
Buster, fechando a cara. - Quantas entregas ns temos hoje?
Buster passara a semana inteira fazendo a mesma pergunta e Alan ainda no
tinha conseguido entender por que o nmero exato era to importante. Eles
entregavam biscoitos, amendoins, batatas fritas e vrios tipos de tira-gostos para
postos de gasolina e lojas de convenincia. O segredo era no fazer o trajeto
rpido demais, ou Ron simplesmente aumentaria a quantidade de trabalho. Alan
tinha aprendido isso no ano anterior e no voltaria a cometer o mesmo erro. Sua
rota j cobria todo o condado de Pamlico, o que significava dirigir sem parar ao
longo das estradas mais entediantes do mundo. At o momento, esse era de longe
o melhor emprego que Alan j tivera. Bem melhor do que construo civil,
jardinagem, lavar carros ou qualquer coisa que havia feito desde que terminara o
ensino mdio. Ali havia ar fresco soprando pela janela, msica to alta quanto
ele quisesse e nenhum chefe por perto. O salrio tambm no era ruim.
Alan fez uma concha com as mos, dirigindo com os cotovelos enquanto acendia
o cigarro. Soprou a fumaa pela janela aberta.
- Bastante. Teremos sorte se conseguirmos terminar.
Buster se virou para a janela do carona, falando baixinho:
- Ento talvez fosse melhor no demorarmos tanto no almoo.
Aquele moleque era um p no saco. E era isso que ele era, um moleque, mesmo
que fosse mais velho do que Alan. Bem, a ltima coisa que queria era que Buster
fosse falar com Ron que ele estava fazendo corpo mole.
- A questo no  o almoo - falou Alan, tentando parecer srio. - A questo 
atendermos bem os clientes. No d pra entrar nas lojas, deixar as caixas e sair
correndo. A gente tem que conversar com as pessoas. Nosso trabalho  garantir
que os clientes fiquem satisfeitos.  por isso que sempre sigo as regras tim-tim
por tim-tim.
- Fumando, por exemplo? Voc sabe que  proibido fumar nos carros de
entregas.
- Todo homem tem seu vcio.
- E quanto ao rdio no ltimo volume?
Ah! Aquele moleque obviamente tinha uma lista de reclamaes. Alan teve que
pensar rpido:
- Eu s fiz isso por voc. Como uma espcie de comemorao. Estamos no final
da sua primeira semana e voc fez um timo trabalho. E, quando terminarmos
hoje, com certeza vou dizer isso a Ron.
Ouvir o nome de Ron foi suficiente para calar Buster por alguns minutos, o que
no pareceu muito tempo, mas, depois de uma semana na estrada com aquele
cara, qualquer silncio j era lucro. Alan estava louco para que o dia acabasse. Na
semana seguinte, voltaria a ter a van s para ele, graas a Deus.
E quanto quela noite? Era sua chance de comear bem o fim de semana, o que
significava se esforar ao mximo para apagar Buster da mente. Iria ao
Tidewater, que ficava nos arredores da cidade e era basicamente o nico lugar
das redondezas que oferecia algum tipo de vida noturna. Beberia algumas
cervejas, jogaria um pouco de sinuca e, se tivesse sorte, talvez aquela garonete
gata at estivesse no bar. Ela usava uma cala jeans justa que destacava todos os
pontos certos e se inclinava exibindo o top minsculo sempre que lhe entregava
uma cerveja, o que a deixava com um sabor muito melhor. Alan faria o mesmo
nas noites de sbado e domingo, tambm, supondo que sua me tivesse planos
com Leo, seu namorado de longa data, e no passasse em sua casa, como havia
feito na noite anterior.
Alan no conseguia entender por que ela no se casava logo com Leo. Assim,
talvez tivesse mais o que fazer, alm de dar incertas no filho adulto. S no
queria que a me esperasse que ele lhe fizesse companhia no fim de semana, o
que simplesmente no iria acontecer. E da se ele estivesse meio de ressaca na
segunda-feira? A essa altura, Buster j estaria em seu prprio carro de entregas e,
se isso no era motivo para comemorar, ele no sabia o que seria.

Marilyn Bonner se preocupava com Alan.
No o tempo todo,  claro, e ela se esforava ao mximo para controlar essa
preocupao - afinal de contas, o filho era adulto. Marilyn sabia que ele tinha
idade suficiente para tomar as prprias decises. Mas ela era me. Acreditava que
o maior problema de Alan era ele sempre escolher o caminho mais fcil, que no
levava a lugar nenhum, em vez de tentar o caminho mais rduo, que teria
maiores chances de render bons frutos. Incomodava-lhe que ele levasse a vida
mais como um adolescente do que como um homem de 27 anos. Na noite
anterior, quando Marilyn passara em sua casa, ele estava jogando videogame e a
convidara para jogar com ele. Parada diante da porta, ela se perguntara como
aquela pessoa que parecia no conhec-la nem um pouco era seu filho.
Ainda assim, ela sabia que poderia ser pior. Muito pior. No fim das contas, no
tinha do que reclamar de Alan. Ele era gentil, tinha um emprego e nunca se
envolvia em problemas, o que j era muito bom nos dias de hoje. As pessoas
podiam dizer o que quisessem, mas ela lia os jornais e ouvia os boatos que
corriam pela cidade. Sabia que muitos dos amigos do filho - jovens que ela
conhecia desde crianas, alguns de famlias at melhores do que a sua - haviam
se afundado nas drogas, bebiam demais ou tinham ido parar na cadeia. Fazia
sentido, levando-se em conta o lugar em que moravam. Muitas pessoas
glorificavam o estilo de vida das cidades pequenas, mas a realidade era bem
diferente. Com exceo dos mdicos, dos advogados ou das pessoas que tinhas
seus prprios negcios, no havia empregos com bons salrios em Oriental, nem
em qualquer cidade pequena, por sinal. E, embora em vrios aspectos elas fossem
o lugar ideal para crianas, as perspectivas para os jovens eram poucas. No
havia, e nem nunca haveria, cargos de gerente de nvel mdio naquele tipo de
cidade, ou muito que fazer nos fins de semana, ou pessoas novas para conhecer.
Marilyn no conseguia entender por que Alan continuava morando ali, mas,
desde que ele estivesse feliz e se sustentasse, ela estava disposta a facilitar as
coisas para o filho - mesmo que isso significasse comprar um trailer para lhe dar
um empurrozinho.
No, ela no tinha iluses quanto ao tipo de cidade que Oriental era. Nesse
sentido, Marilyn no se parecia em nada com os outros "aristocratas" da cidade,
mas, por outro lado, perder o marido quando se  uma jovem me de dois filhos
costuma mudar a perspectiva de uma pessoa. Ser uma Bennett e ter cursado a
Universidade da Carolina do Norte no impedira que os banqueiros tentassem
executar a hipoteca da fazenda. Seu sobrenome ou seus contatos tampouco a
ajudaram a sustentar a famlia nas horas difceis. Seu belo diploma em economia
no a poupara de nada.
No fim das contas, era tudo uma questo de dinheiro. A nica coisa que
importava era o que uma pessoa fazia, no quem ela pensava que fosse, e por isso
Marilyn no conseguia mais engolir a pose de Oriental. Atualmente, ela
preferiria contratar um emigrante trabalhador a uma pessoa da alta sociedade
com diploma de uma universidade de renome, que acreditaria que o mundo lhe
deve uma boa vida. Essa simples idia provavelmente seria considerada blasfmia
por pessoas como Evelyn Colher ou Eugenia Wilcox, mas h tempos Marilyn via
Evelyn, Eugenia e sua laia como dinossauros, pessoas que se agarravam a um
mundo que j no existia. Recentemente, ela chegara a expressar esse
pensamento em uma reunio na Cmara Municipal. No passado, isso teria
causado enorme burburinho, mas o negcio de Marilyn era um dos poucos que
prosperavam na cidade e ningum estava em condies de dizer muita coisa -
mesmo Evelyn Colher e Eugenia Wilcox.
Nos anos que se passaram desde a morte de David, ela havia aprendido a dar
muito valor  sua to suada independncia. Aprendera tambm a confiar em seus
instintos e hoje gostava de estar no controle da prpria vida, sem as expectativas
de ningum para atravancar seu caminho. Imaginava ser esse o motivo de
sempre rejeitar os insistentes pedidos de casamento de Leo. Ele era de Morehead
City, trabalhava como contador, era inteligente e bem de vida. Marilyn gostava
de sua companhia e, o que era mais importante, Leo a respeitava e as crianas o
adoraram desde o incio. Emily e Alan no conseguiam entender por que ela
continuava a dizer no.
Mas Leo sabia que sua resposta no mudaria e no via problemas nisso, pois, na
verdade, a maneira como as coisas estavam era confortvel para ambos. Eles
provavelmente iriam ao cinema  noite no dia seguinte e, no domingo, Marilyn
iria  igreja e depois ao cemitrio visitar o tmulo de David, como fazia todos os
fins de semana havia quase 25 anos. Mais tarde, encontraria Leo para jantarem.
A sua maneira, ela o amava. Podia no ser um amor do tipo que as outras pessoas
entendessem, mas no importava. O que Marilyn e Leo tinham era bom o
suficiente para eles.

Do outro lado da cidade, Amanda tomava caf  mesa da cozinha e se esforava
ao mximo para ignorar o silncio da me. Ela estava esperando na sala quando
Amanda chegou na noite anterior e comeou um interrogatrio antes mesmo
que a filha pudesse se sentar.
Onde voc estava? Por que demorou tanto? Por que no telefonou?
Ela havia telefonado, disse Amanda para refrescar sua memria. Mas, em vez de
cair na armadilha da conversa incriminatria que a me obviamente planejava,
apenas murmurou que estava com dor de cabea e que precisava dormir. A julgar
pelo humor da me naquela manh, estava na cara que ela no havia gostado
nem um pouco daquilo. Alm de um rpido bom-dia quando Amanda entrara na
cozinha, ela no falara mais nada. Em vez disso, tinha ido direto para a
torradeira e, depois de pontuar seu silncio com um suspiro, enfiara duas fatias
de po no aparelho. Enquanto o po torrava, ela tornara a suspirar, s que um
pouco mais alto.
J entendi, Amanda teve vontade de dizer. Voc est chateada. Podemos parar
com isso agora? Em vez de falar, entretanto, bebericou seu caf. Por mais que sua
me tentasse irrit-la, ela no seria atrada para uma discusso.
Amanda ouviu o po saltar na torradeira. Sua me abriu a gaveta e pegou uma
faca, fechando-a ruidosamente em seguida. Comeou a passar manteiga nas
torradas.
- Est se sentindo melhor? - perguntou a me enfim, sem se virar.
- Estou, obrigada.
- Est pronta para me contar o que est acontecendo? Ou onde estava?
- Eu j disse, me atrasei para sair de casa. - Amanda se esforou ao mximo para
manter a voz tranqila.
- Tentei ligar para voc, mas caa direto na caixa postal.
- Minha bateria descarregou. - Essa mentira havia ocorrido a Amanda na noite
anterior, enquanto voltava para casa. A me era muito previsvel.
Evelyn pegou seu prato.
- Foi por isso que no ligou para Frank?
- Eu falei com ele ontem, mais ou menos uma hora depois que ele chegou do
trabalho - disse Amanda, apanhando o jornal da manh e correndo os olhos pelas
manchetes com uma casualidade calculada.
- Bem, ele tambm ligou para c.
-E ?
- Ficou surpreso que voc ainda no tivesse chegado - falou sua me, bancando a
detetive. - Disse que, pelo que sabia, voc tinha sado por volta das duas da tarde.
- Tive que resolver uma coisa antes de vir - disse ela. As mentiras estavam vindo
de um jeito fcil at demais, pensou, mas, por outro lado, Amanda tinha bastante
prtica.
- Ele me pareceu preocupado.
No, ele pareceu estar bebendo, pensou Amanda, duvidando de que Frank ao
menos se lembrasse da ligao. Ela se levantou e pegou um pouco mais de caf.
- Mais tarde eu ligo para ele.
Sua me se sentou.
- Eu tinha sido convidada para jogar bridge ontem  noite.
Ento essa era a questo, pensou Amanda. Ou pelo menos parte dela. A me era
viciada em bridge e jogava com o mesmo grupo de mulheres fazia quase 30 anos.
- A senhora deveria ter ido.
- No pude, porque sabia que voc estava vindo e achei que fssemos jantar
juntas. - Sua me se empertigou na cadeira. - Eugenia Wilcox teve que me
substituir.
Eugenia Wilcox vivia mais adiante naquela mesma rua, em outra manso
histrica to exuberante quanto a de Evelyn. Embora supostamente fossem
amigas (as duas se conheciam desde que nasceram), sempre houvera uma espcie
de rivalidade tcita entre as duas, uma disputa de quem tinha a melhor casa, o
melhor jardim e tudo o que se pudesse imaginar, incluindo qual delas fazia o
melhor bolo de chocolate.
- Desculpe, mame - disse Amanda, sentando-se de volta. - Eu deveria ter ligado
para a senhora.
- Eugenia no sabe nada sobre leilo e acabou com o jogo. Martha Ann j me
ligou para reclamar. Mas, enfim, eu disse a ela que voc estava na cidade, da
uma coisa levou a outra e ela nos convidou para jantar hoje  noite.
Amanda franziu a testa e largou a xcara de caf.
- A senhora no aceitou o convite, aceitou?
-  claro que sim.
A imagem de Dawson lampejou em sua cabea.
- No sei se vou ter tempo - improvisou ela. - Acho que vai haver alguma
cerimnia para Tuck mais tarde.
- Voc acha que vai haver uma cerimnia? Como assim? Ou vai haver ou no
vai.
- Quero dizer que no tenho certeza se vai haver ou no. O advogado no me
deu detalhes sobre o funeral quando ligou.
- Que estranho, no? Ele no falar nada.
Talvez, pensou Amanda. Mas no mais do que o fato de Tuck ter dado um jeito
para que Dawson e eu jantssemos na sua casa ontem  noite.
- Tenho certeza de que ele est fazendo o que Tuck queria.
Ao ouvir o nome de Tuck, sua me correu os dedos pelo colar de prolas que
usava. Amanda nunca a havia visto sair do quarto sem maquiagem e jias, e
aquela manh no era exceo. Evelyn Collier sempre fora o esprito aristocrata
em pessoa e sem dvida continuaria a ser at o dia da sua morte.
- Ainda no entendo por que voc veio at aqui para isso. At parece que
conhecia o falecido.
- Eu o conhecia, mame.
- Conheceu anos atrs. Quero dizer, se voc ao menos ainda morasse na cidade,
talvez eu at entendesse. Mas no havia o menor motivo para fazer uma viagem
s para isso.
- Eu vim prestar minhas condolncias.
- A reputao dele no era das melhores, sabia? Muita gente o achava louco. O
que vou dizer para as minhas amigas quando for explicar por que voc est aqui?
- No sei por que a senhora teria que dizer alguma coisa.
- Porque elas vo perguntar.
- E por que fariam isso?
- Porque acham voc interessante.
Amanda detectou algo no tom de voz da me que no entendeu muito bem.
Enquanto tentava decifrar o que era, acrescentou um pouco de creme a seu caf.
- No sabia que eu era um assunto to popular - observou ela.
- No  to surpreendente assim, se voc pensar bem. Voc quase nunca vem
aqui com Frank e as crianas. O que posso fazer se elas acham isso estranho?
- Ns j tivemos essa conversa antes - falou Amanda, incapaz de esconder a
irritao. - Frank trabalha e as crianas estudam, mas isso no significa que eu
no possa vir.  normal uma filha viajar para visitar a me.
- E, s vezes, no visitar.  isso que elas acham estranho, se voc quer saber.
- Do que a senhora est falando? - perguntou Amanda, estreitando os olhos.
- Do fato de voc vir a Oriental quando sabe que no vou estar na cidade. E de
ficar na minha casa sem nem ao menos me avisar. - Ela nem se deu o trabalho de
disfarar a hostilidade antes de prosseguir. - Voc achava mesmo que eu no
soubesse? Como quando fiz aquele cruzeiro no ano passado? Ou quando fui
visitar minha irm em Charleston no ano anterior? A cidade  pequena,
Amanda. As pessoas a viram. Minhas amigas. O que no entendo  por que voc
achou que eu no fosse descobrir.
- Mame...
- No - disse ela, erguendo a mo muito bem cuidada. - Eu sei muito bem por
que voc veio. Posso estar mais velha, mas no fiquei cega. Por que outro motivo
viria para o funeral? E bvio que veio encontr-lo. E foi isso que fez todas
aquelas vezes em que me disse que ia fazer compras, no foi? Ou quando disse
que ia visitar sua amiga? Voc mentiu para mim durante todo esse tempo.
Amanda baixou os olhos e ficou calada. No havia nada que pudesse dizer. Em
meio ao silncio, ouviu um suspiro. Quando a me finalmente voltou a falar, sua
voz havia perdido a rispidez:
- Quer saber de uma coisa? Eu tambm venho mentindo para voc, Amanda, e
estou cansada disso. Mas ainda sou sua me e voc pode conversar comigo.
- Sim, mame. - Ela ouviu o eco da adolescente petulante que tinha sido e
odiou-se por isso.
- Tem alguma coisa acontecendo com as crianas que eu deva saber?
- No. As crianas esto timas.
- Ento  com Frank?
Amanda girou a asa da xcara de caf para o outro lado.
- Quer conversar a respeito? - perguntou a me.
- No - respondeu Amanda em tom monocrdio.
- Posso ajudar de alguma forma?
- No.
- O que est havendo com voc, Amanda?
Por algum motivo, a pergunta a fez pensar em Dawson e, por um instante, ela se
viu de volta  cozinha de Tuck, desfrutando a ateno dele. Foi ento que
Amanda soube que s o que queria era v-lo novamente, quaisquer que fossem
as conseqncias.
- No sei - murmurou ela enfim. - Gostaria de saber, mas no sei.

Depois que Amanda subiu para tomar banho, Evelyn Collier ficou parada na
varanda dos fundos, observando a fina camada de neblina que pairava sobre o
rio. Desde a infncia, essa era uma de suas partes preferidas do dia. Naquela
poca, no morava  beira do rio, mas perto do moinho do pai, porm nos fins de
semana costumava caminhar at a ponte. s vezes passava horas sentada l,
observando o sol dissipar a neblina pouco a pouco. Harvey sabia que ela sempre
quisera morar  beira do rio, por isso havia comprado aquela casa poucos meses
depois do casamento. Naturalmente, ele a comprara do pai por uma mixaria - a
famlia Collier era dona de vrias propriedades na poca -, de modo que no foi
nenhum grande sacrifcio, mas isso no tinha importncia. O importante era que
seu marido lhe dava ateno.
Evelyn desejou que ele ainda estivesse vivo, nem que fosse apenas para
conversarem sobre Amanda. Quem poderia dizer o que estava acontecendo com
a filha ultimamente? Mas, por outro lado, Amanda sempre fora um mistrio,
mesmo quando criana. Era decidida e, desde que aprendera a andar, se mostrara
to teimosa quanto uma mula. Se a me lhe dissesse que ficasse por perto, ela ia
para longe na primeira oportunidade; se lhe pedisse que vestisse uma roupa
bonita, Amanda descia as escadas saltitante usando algo que achara largado no
fundo do armrio. Quando a filha era pequena, Evelyn e o marido ainda
conseguiam mant-la sob controle - afinal de contas, ela era uma Collier, as
pessoas tinham expectativas em relao a ela. Mas quando Amanda chegou 
adolescncia... Deus era testemunha! Foi como se o diabo tivesse entrado no
corpo da filha. Primeiro, ela se envolveu com Dawson Cole - um Cole! - e depois
comeou a mentir, a sair escondida de casa, a ficar emburrada o tempo todo e a
ter uma resposta na ponta da lngua sempre que a me tentava colocar um pouco
de juzo naquela cabea. O cabelo de Evelyn chegou a ficar grisalho de tanto
estresse e, embora Amanda no soubesse, no fosse por um estoque constante de
bourbon, ela no imaginava como teria conseguido suportar aqueles anos
terrveis.
Assim que eles conseguiram separ-la daquele garoto Cole e Amanda foi para a
faculdade, as coisas comearam a melhorar. Seguiram-se alguns anos bons,
estveis, e ela adorou ser av,  claro. O que aconteceu com a garotinha foi triste,
ela era apenas um beb e uma criatura linda, mas o Senhor nunca prometeu a
ningum uma vida sem atribulaes. Ora, a prpria Evelyn havia sofrido um
aborto um ano antes de Amanda nascer. Ainda assim, ela ficou feliz que Amanda
tivesse sido capaz de dar a volta por cima - Deus sabe como sua famlia precisava
dela - e at de se dedicar a um trabalho beneficente. Evelyn teria preferido algo
um pouco menos desgastante, como a liga infantil de beisebol, por exemplo, mas
o hospital da Universidade Duke era uma instituio louvvel e ela no se
importava de contar s amigas sobre os almoos que a filha organizava, ou
mesmo sobre o trabalho que ela realizava l.
Ultimamente, contudo, Amanda parecia estar voltando aos velhos hbitos,
mentindo como uma adolescente. As duas nunca tinham sido muito prximas e
fazia tempo que Evelyn j se resignara ao fato de que provavelmente nunca
fossem. A histria de que mes e filhas so sempre grandes amigas era mito, mas
a amizade era muito menos importante do que os laos familiares. Amigos iam e
viam; a famlia sempre estaria presente. No, elas no trocavam confidncias,
mas em geral trocar confidncias era apenas uma forma de reclamar, o que, na
maioria das vezes, era perda de tempo. A vida era complicada. Sempre fora e
sempre seria, era assim que a banda tocava. Ento, qual o sentido de reclamar?
Ou voc fazia algo a respeito ou no fazia - e, de qualquer forma, teria de viver
com a deciso que tomasse.
No era preciso ser nenhum gnio para perceber que Amanda e Frank vinham
tendo problemas. Evelyn no tinha visto Frank muitas vezes no ltimo ano, pois
Amanda quase sempre vinha sozinha. E Evelyn se lembrava de que o genro
gostava um pouco demais de cerveja. Por outro lado, o prprio pai de Amanda
adorava seu bourbon, e nenhum casamento era um mar de rosas. Houve alguns
anos em que ela mal conseguia ver a cara de Harvey, quanto mais querer
continuar casada com ele. Se Amanda tivesse perguntado, Evelyn teria
confessado isso, e tambm teria dito  filha que a grama do vizinho nem sempre
 mais verde. O que os mais jovens no entendiam era que a grama ficava mais
verde quando regada, o que significava que tanto Frank quanto Amanda
precisavam pegar seus regadores se quisessem consertar as coisas. Porm a filha
no havia perguntado nada.
Isso era uma pena, porque Evelyn poderia ter lhe dito que ela estava apenas
trazendo mais problemas a um casamento j abalado - e que mentir era parte
disso. Porque, se Amanda estava mentindo para a prpria me, no era difcil
supor que estivesse para Frank tambm. E quando as mentiras comeavam, at
onde podiam ir? Evelyn no sabia ao certo, mas Amanda estava claramente
confusa, e as pessoas cometem erros quando esto assim. O que significava, 
claro, que ela precisaria ficar muito alerta durante aquele fim de semana,
Amanda gostasse ou no.

Dawson estava na cidade.
Ted Cole estava sentado nos degraus da entrada de seu casebre, fumando um
cigarro e olhando preguiosamente para as rvores de carne. Era assim que ele as
chamava depois que os garotos voltavam da caa. Duas carcaas de veado, j sem
os rgos internos e o couro, estavam amarradas nos galhos envergados. Moscas
zumbiam e subiam pela carne enquanto as vsceras se amontoavam no cho.
A brisa matinal fazia as carcaas em putrefao girar um pouco e Ted deu outra
longa tragada em seu cigarro. Tinha visto Dawson e sabia que Abee tambm o
vira. Mas o irmo mentira a respeito, o que o deixava quase to irado quanto o
descaramento de Dawson de aparecer por ali.
Estava comeando a ficar cansado do irmo. Cansado de receber ordens, de se
perguntar para onde ia todo o dinheiro da famlia. Era uma questo de tempo at
Abee acabar do lado errado do cano de uma arma. Seu querido irmo andava
descuidado ultimamente. Aquele cara com o estilete quase o matara, algo que
nunca teria acontecido alguns anos antes. Ou mesmo agora, se Ted estivesse
presente, mas Abee no lhe dissera o que estava tramando, o que era apenas mais
um sinal de como seu irmo estava ficando relapso. Aquela namoradinha tinha
virado a cabea dele - Candy, ou Cammie, ou sabe-se l como se chamava. Sim, a
garota tinha um rosto bonito e um corpo que Ted no se importaria de levar um
bom tempo explorando, mas era mulher e as regras eram simples: se quisesse
alguma coisa delas, voc pegava; se elas criassem caso ou comeassem a ficar
abusadas, voc mostrava quem estava no comando. Talvez fosse preciso mais de
uma lio, mas, no fim das contas, todas entendiam o recado. Abee parecia ter se
esquecido disso.
E tinha mentido bem na cara dele. Ted atirou a guimba do cigarro para longe da
varanda, pensando que ele e Abee iriam ter uma conversa muito sria em breve,
sem a menor dvida. Mas primeiro o mais importante: Dawson tinha que pagar.
Fazia muito tempo que Ted esperava por isso. Por causa de Dawson, seu nariz
era torto e sua mandbula tivera que ser presa com arame. Por causa de Dawson,
um imbecil tinha feito uma piada sobre a situao de Ted que custara nove anos
de sua vida. Ningum o ferrava e saa impune. Ningum. Nem Dawson, nem
Abee. Ningum. Alm do mais, essa era a chance que ele vinha esperando havia
muito, muito tempo.
Ted se virou e voltou para dentro de casa. O casebre tinha sido construdo na
virada do sculo e a nica lmpada existente ali, que pendia de um fio no teto,
mal dissipava as sombras. Tina, sua filha de 3 anos, estava empoleirada no sof
velho em frente  tev, assistindo a algo da Disney. Ella passou andando pela
menina sem dizer nada. Na cozinha, uma camada grossa de gordura de bacon
incrustava a frigideira e Ella voltou a dar de comer para o beb, que gritava em
seu cadeiro com o rosto coberto de algo amarelo e pegajoso. Ella tinha 20 anos,
quadril estreito, cabelo castanho fino e muitas sardas. O vestido que usava no
escondia a protuberncia em sua barriga. Sete meses de gravidez e exausta. A
jovem estava sempre exausta.
Ela se virou para Ted assim que ele pegou as chaves na bancada:
- Vai sair?
- No se meta nos meus assuntos - disse ele.
Quando ela lhe deu de novo as costas, ele fez um carinho na cabea do beb e
seguiu para o quarto. Pegou uma pistola sob o travesseiro e a enfiou na cintura,
sentindo-se empolgado como se tudo estivesse certo no mundo. Estava na hora
de resolver aquilo de uma vez por todas.

                                       7

Quando Dawson voltou de sua corrida, vrios hspedes bebericavam caf na sala
de estar, lendo jornais. Enquanto subia as escadas at seu quarto, ele sentiu o
cheiro de bacon com ovos que vinha da cozinha. Depois de tomar um banho,
vestiu uma cala jeans e uma camisa de mangas curtas e desceu para tomar o caf
da manh.
Quando chegou  mesa, a maioria dos hspedes j havia comido, de modo que
no teve companhia. Apesar de ter corrido, no estava com muita fome, mas a
dona da pousada - uma sessentona chamada Alice Russell, que se mudara para
Oriental fazia oito anos, aps se aposentar - encheu seu prato. Dawson teve a
impresso de que ela ficaria desapontada se ele no comesse tudo. Alice tinha um
jeito de av, com direito a vestido e avental xadrez.
Enquanto Dawson comia, Alice explicou que, como muitas pessoas, ela e o
marido tinham se mudado para Oriental depois de aposentados para poderem
velejar. O marido, no entanto, se entediara e eles acabaram comprando aquela
pousada. Para surpresa de Dawson, ela o chamava de "Sr. Cole", sem dar nenhum
sinal de reconhec-lo, mesmo depois de ele ter mencionado que havia crescido
na cidade. Estava na cara que ainda era uma forasteira.
Mas a famlia dele continuava por l. Dawson tinha visto Abee em frente  loja
de convenincia e, assim que dobrara a esquina, ele se esgueirara por entre
algumas casas e voltara para a pousada, evitando a estrada principal sempre que
possvel. A ltima coisa que queria era arrumar problemas com a famlia,
principalmente com Ted e Abee, mas tinha a sensao inquietante de que aquele
assunto no estava resolvido.
De qualquer forma, ainda precisava fazer uma coisa. Assim que terminou de
comer, pegou as flores que havia encomendado na Louisiana e entrou no carro
alugado. Enquanto dirigia, ficou de olho no retrovisor, certificando-se de que
ningum o estivesse seguindo.
Como esperava, o cemitrio estava deserto. Foi passando pelas lpides
conhecidas, a caminho do tmulo do Dr. David Bonner. Deixou as flores na base
da lpide e fez uma pequena orao pela famlia. Alguns minutos mais tarde, j
fazia o percurso de volta  pousada. Ao sair do carro, olhou para cima. O cu azul
se estendia at o horizonte e j comeava a fazer calor. A manh estava bonita
demais para ser desperdiada, ento ele decidiu caminhar.
O sol refletia nas guas do rio Neuse e ele colocou seus culos escuros. Enquanto
atravessava a rua, correu os olhos pela vizinhana. Embora as lojas estivessem
abertas, as caladas estavam bastante vazias e Dawson se perguntou como os
lojistas conseguiam sobreviver.
Conferiu o relgio e viu que ainda faltava meia hora para seu compromisso. Mais
adiante, notou a cafeteria pela qual havia passado mais cedo, durante a corrida.
Embora no quisesse tomar mais caf, comprar uma garrafa d'gua seria uma boa
idia. Sentindo a brisa aumentar enquanto se dirigia para l, viu a porta da
cafeteria se abrir e ficou observando enquanto uma pessoa saa. Um sorriso
surgiu em seu rosto quase imediatamente.

Amanda estava diante do balco do Bean, acrescentando creme e acar a uma
xcara de caf. O Bean, que um dia fora uma pequena casa com vista para o cais,
oferecia agora cerca de 20 tipos de caf, alm de doces deliciosos, e ela gostava de
dar uma passada por ali sempre que visitava Oriental. Assim como o Irvin's,
aquele era um lugar em que os moradores se reuniam para saber tudo o que
estava acontecendo na cidade. s suas costas, dava para ouvir o burburinho das
conversas. Embora o horrio de pico matinal j tivesse passado, a loja estava mais
cheia do que ela esperava. A atendente de 20 e poucos anos atrs do balco no
tinha parado nem um segundo desde que Amanda chegara.
Ela precisava desesperadamente de caf. A discusso com a me a deixara
abatida. Enquanto estava no banho, por um instante chegara a cogitar voltar 
cozinha e tentar uma conversa de verdade. Porm, quando acabou de se secar, j
havia mudado de idia. Por mais que esperasse que Evelyn pudesse se
transformar na me compreensiva e encorajadora que ela tantas vezes desejara,
era mais fcil imaginar a expresso de espanto e decepo que faria ao ouvir o
nome de Dawson. E o sermo viria logo em seguida, sem dvida um replay de
todas as broncas indignadas que Amanda tinha ouvido durante a adolescncia.
Afinal, a me era uma mulher apegada aos valores tradicionais. As decises eram
boas ou ruins, as escolhas eram certas ou erradas e alguns limites nunca
deveriam ser cruzados. Havia regras de conduta inegociveis, sobretudo no que
dizia respeito  famlia. Amanda as conhecia muito bem, sabia desde sempre
quais eram as crenas da me. Ela dava muito valor  responsabilidade,
acreditava que suportar as conseqncias dos prprios atos era uma lio e no
tolerava lamrias. Amanda sabia que isso nem sempre era ruim. Havia adotado
um pouco dessa mesma filosofia com os filhos e acreditava que tivesse sido bom
para eles.
A diferena era que sua me sempre parecia totalmente segura a respeito de
tudo. Sempre se sentia confiante quanto a quem era e com relao s escolhas
que fazia, como se a vida fosse uma msica e ela s precisasse acompanhar o
ritmo, na certeza de que tudo seguiria conforme o planejado. Ela muitas vezes
pensava que a me no tinha um s arrependimento na vida.
Mas Amanda no era assim. Tambm no conseguia se esquecer da reao da
me  doena e  morte de Bea. Ela havia expressado sua solidariedade,  claro, e
tomado conta de Jared e Lynn muitas vezes enquanto a neta mais nova estava no
Centro de Oncologia Peditrica do hospital da Universidade Duke, e at chegara
a preparar-lhes uma refeio ou outra nas semanas que se seguiram ao funeral.
Mas Amanda nunca conseguiu entender como a me aceitara de forma to
resignada toda a situao, tampouco engolir o sermo que lhe passara trs meses
depois da morte de Bea, dizendo que Amanda precisava "dar a volta por cima" e
"parar de sentir pena de si mesma". Como se perder uma filha fosse to simples
quanto terminar um namoro. Ela ainda sentia a raiva invadi-la sempre que
pensava no assunto e s vezes se perguntava se a me seria capaz de sentir algum
tipo de compaixo.
Ela suspirou, tentando se lembrar de que o mundo da me era diferente do dela.
A me nunca tinha ido  faculdade nem morado em qualquer outro lugar que
no fosse Oriental. Talvez isso explicasse alguma coisa. Ela aceitava as situaes
porque no tinha com o que compar-las. E, a julgar pelo pouco que ela contara
a Amanda a respeito da prpria criao, a famlia da me havia sido tudo, menos
amorosa. Mas quem poderia saber? Sua nica certeza era que fazer da me sua
confidente causaria tantos problemas que no valeria a pena e, naquele
momento, ela no estava preparada para isso.
Enquanto Amanda colocava a tampa no copo de caf, seu celular tocou. Quando
viu que era Lynn, saiu em direo  pequena varanda e passaram os minutos
seguintes conversando. Depois, Amanda ligou para o celular de Jared,
acordando-o e ouvindo seus resmungos sonolentos. Antes de desligar, o filho
disse que estava louco para encontr-la no domingo. Ela desejou poder ligar para
Annette tambm, mas se consolou com a idia de que ela muito provavelmente
estaria se divertindo  bea na colnia de frias.
Aps alguns instantes de hesitao, tambm telefonou para o consultrio de
Frank. No tivera a chance de faz-lo antes, apesar do que dissera  me. Como
sempre, teve que esperar at que ele tivesse um minuto livre entre um paciente e
outro.
- Ol - disse ele ao atender.
Durante a conversa, Amanda deduziu que ele no se lembrava de ter ligado para
Oriental na noite anterior. De qualquer forma, parecia feliz em ouvir a voz da
esposa. Perguntou sobre a sogra e Amanda lhe disse que as duas jantariam juntas
mais tarde. Ele contou que planejava jogar golfe com o amigo Roger e que depois
talvez assistissem ao jogo de futebol americano no clube. A experincia dizia a
Amanda que esse programa inevitavelmente envolveria bebidas, mas ela tentou
conter sua raiva repentina, sabendo que provoc-lo no adiantaria nada. Frank
perguntou sobre o funeral e o que mais ela planejava fazer na cidade. Embora
tivesse respondido s perguntas de forma honesta - ela ainda no sabia ao certo -,
percebeu que estava evitando mencionar Dawson. Frank no pareceu notar nada
de estranho, mas, quando os dois terminaram de conversar, ela sentiu um claro
desconforto causado pela culpa. Junto com a raiva que j estava sentindo, isso
bastou para deix-la estranhamente inquieta.

Dawson esperou sob a sombra de uma magnlia at Amanda guardar seu celular
na bolsa. Achou ter notado um qu de preocupao em seu rosto, mas, enquanto
ela ajeitava a ala no ombro, sua expresso voltou a ficar indecifrvel.
Amanda usava uma cala jeans e a primeira coisa que ele notou ao caminhar em
sua direo foi que a blusa azul-turquesa destacava seus olhos. Imersa nos
prprios pensamentos, ela levou um susto quando o reconheceu.
- Oi - disse ela, abrindo um sorriso. - No esperava v-lo por aqui.
Dawson subiu at a varanda, observando-a passar a mo no rabo de cavalo bem
penteado.
- Estava indo comprar uma gua antes da nossa reunio.
- No quer um caf? - perguntou Amanda, indicando a loja atrs de si. -  o
melhor da cidade.
- J tomei no caf da manh.
- Voc foi ao Irvin's? Tuck adorava aquele lugar.
- No. Comi na pousada em que estou hospedado. O caf da manh est includo
e Alice j havia preparado tudo.
- Alice?
-  a dona, uma supermodelo que fica andando de mai o dia inteiro. Voc no
tem motivo para ficar com cime.
Ela deu uma risada.
- Sei. Como foi sua manh?
- Boa. Corri um pouco e dei uma olhada na cidade.
-E ?
-  como fazer uma viagem no tempo. Estou me sentindo como Michael J. Fox
em De Volta para o Futuro.
- E um dos encantos de Oriental. Quando voc est aqui,  fcil fingir que o
restante do mundo no existe e que todos os seus problemas vo simplesmente
desaparecer.
- Voc est parecendo uma propaganda da Secretaria de Turismo.
- Este  um dos meus encantos.
- Um de muitos, tenho certeza.
Quando Dawson falou isso, ela voltou a perceber a intensidade de seu olhar. No
estava acostumada a ser olhada daquele jeito - pelo contrrio, sentia-se
praticamente invisvel enquanto cumpria suas tarefas cotidianas. Porm, antes
que ela tivesse a chance de ficar realmente constrangida, Dawson meneou a
cabea em direo  porta.
- Vou comprar aquela garrafa d'gua, se no se importa.
Ele entrou e, de onde estava, Amanda notou a maneira como a bela atendente de
20 e poucos anos tentou no encarar Dawson enquanto ele se encaminhava para
a geladeira. Quando ele se aproximou dos fundos da loja, a moa conferiu a
prpria aparncia no espelho que havia atrs do balco e ento o cumprimentou
com um sorriso simptico diante da caixa. Amanda se virou depressa, antes que
ele a visse olhando.
Um minuto depois, Dawson saa pela porta, ainda tentando terminar sua
conversa com a atendente. Amanda teve que se esforar para no rir. Ento, sem
falar nada, ambos decidiram sair da varanda. Acabaram seguindo para um local
com uma vista melhor da marina.
- A garota no balco estava paquerando voc - comentou ela.
- Ela s estava sendo simptica.
- No, ela deixou bem claro que no era s isso.
Ele deu de ombros enquanto desenroscava a tampa da garrafa.
- Nem percebi.
- Como pde no perceber?
- Estava pensando em outra coisa.
Pela maneira como Dawson falou, ela percebeu que havia algo mais, ento
esperou. Ele estreitou os olhos na direo da fileira de barcos que balanavam na
marina.
- Vi Abee hoje de manh - disse ele enfim. - Durante a minha corrida.
Amanda ficou tensa ao ouvir aquele nome.
- Tem certeza de que era ele?
- Ele  meu primo, lembra?
- E o que aconteceu?
- Nada.
- O que  bom, certo?
- Ainda no sei bem.
Amanda ficou mais tensa.
- Como assim?
Ele no respondeu de imediato. Em vez disso, tomou um gole d'gua e Amanda
quase pde ouvir o som de engrenagens girando em sua cabea.
- Imagino que eu deva me esforar ao mximo para no ser visto. Fora isso, acho
que vou danar conforme a msica.
- Talvez eles no faam nada.
- Talvez - concordou Dawson. - At agora est tudo bem, no ? - Ele tampou a
garrafa, mudando de assunto: - O que voc acha que o Sr. Tanner tem a nos
dizer? Ele foi bem misterioso quando me telefonou. No quis me contar nada
sobre o funeral.
- Tambm no me disse muita coisa. Era exatamente sobre isso que eu estava
conversando com minha me mais cedo.
-  mesmo? E como vai sua me?
- Ela estava um pouco chateada por ter perdido seu jogo de bridge ontem 
noite. Mas, para compensar, teve a gentileza de me coagir a jantar na casa de
uma amiga dela hoje.
Ele sorriu.
- Ento... isso significa que voc est livre at a hora do jantar?
- Por qu? O que voc tem em mente?
- No sei. Vamos descobrir o que o Sr. Tanner tem a dizer primeiro. O que me
faz lembrar que j deveramos estar a caminho. O escritrio dele  aqui perto.
Amanda firmou a tampa de seu caf e os dois comearam a descer a calada, indo
de sombra em sombra.
- Voc se lembra de quando me convidou para tomar um sorvete? - perguntou
ela. - Daquela primeira vez?
- Eu me lembro de ter me perguntado por que voc aceitou.
Ela ignorou o comentrio.
- Voc me levou at a mercearia, aquela que tinha uma mquina de sorvete
antiga e um balco longo, e ns dois pedimos sundaes com cobertura de
chocolate. O sorvete era feito l mesmo, at hoje  o melhor que j tomei. No
acredito que aquele lugar acabou fechando.
- Alis, quando foi isso?
- No sei. Uns seis ou sete anos atrs, talvez? Um dia, durante uma das minhas
visitas, simplesmente percebi que ela no estava mais l. Fiquei triste. Costumava
levar meus filhos l quando eram pequenos e eles sempre se divertiam.
Dawson tentou visualizar as crianas sentadas ao lado de Amanda na mercearia,
mas no conseguia imaginar seus rostos. Ser que elas se pareciam com Amanda?
Ou com o pai? Ser que tinham o vigor da me, sua generosidade?
- Voc acha que seus filhos teriam gostado de crescer aqui? - perguntou ele.
- Quando mais novos, sim.  uma cidade linda, com muitos lugares rara brincar
e explorar. Mas, depois de crescidos, provavelmente a achariam pequena demais.
- Como voc?
-  - disse ela. - Como eu. Mal podia esperar para ir embora. No sei se voc se
lembra, mas eu me candidatei a universidades em Boston e em Nova York s
para ter a experincia de viver em uma cidade grande.
- Como eu poderia esquecer? As duas pareciam ficar to longe daqui - falou
Dawson.
- Sim, bem... meu pai estudou na Duke, eu cresci ouvindo histrias sobre a
universidade, assistia s partidas de basquete do time na tev. Acho que j estava
basicamente decidido que, se eu passasse, seria para l que acabaria indo. E, no
fim das contas, foi a escolha certa, porque era uma tima instituio. Fiz muitos
amigos e amadureci enquanto estudava l. Alm do mais, no sei se teria gostado
de morar em Nova York ou em Boston. No fundo, ainda sou uma garota do
interior. Gosto de ouvir as cigarras quando vou dormir.
- Ento gostaria da Louisiana.  a capital mundial dos insetos.
Ela sorriu antes de bebericar o caf.
- Voc se lembra da vez em que pegamos o carro e descemos o litoral, quando o
furaco Diana estava vindo? De como fiquei implorando que voc me levasse,
enquanto voc tentava me dissuadir da idia?
- Achei que voc estivesse louca.
- Mas me levou assim mesmo. Porque eu queria. O vento era to forte que foi
difcil at sair do carro. E o mar estava simplesmente... enfurecido. At o
horizonte, tudo o que se via eram as cristas brancas das ondas. E voc ficou
parado ali, me abraando, tentando me convencer a voltar para o carro.
- No queria que se machucasse.
- Quando voc est na plataforma, acontecem tempestades como aquela?
- Com menos freqncia do que voc imagina. Se estivermos no trajeto previsto,
geralmente somos evacuados.
- Geralmente?
Ele encolheu os ombros.
-s vezes os meteorologistas erram. J estive bem perto de alguns furaces e 
de dar medo. Voc fica  merc da natureza e tudo o que pode fazer  buscar
abrigo enquanto a plataforma balana, sabendo que ningum ir resgat-lo se ela
desabar. Vi alguns homens enlouquecerem nesses momentos.
- Acho que eu enlouqueceria tambm.
- Voc me pareceu bem tranqila quando o furaco Diana estava chegando -
observou ele.
- Isso foi porque voc estava l. - Amanda desacelerou o passo. Seu tom de voz
ficou srio. - Sabia que no deixaria acontecer nada comigo. Sempre me senti
segura ao seu lado.
- Mesmo quando meu pai e meus primos apareciam na casa de Tuck? Para pegar
o dinheiro deles?
- Mesmo nessas horas - respondeu ela. - Sua famlia nunca mexeu comigo.
- Voc teve sorte.
- No sei, no - disse Amanda. - Quando estvamos namorando, eu via Ted ou
Abee na cidade de vez em quando. s vezes seu pai. Bem, eles me olhavam com
aqueles sorrisos maliciosos quando passavam por mim, mas nunca me deixaram
nervosa. E mais tarde, depois que Ted foi preso, quando eu vinha para c durante
o vero, Abee e seu pai mantinham distncia. Acho que sabiam o que voc faria
se algo acontecesse comigo. - Ela parou debaixo da sombra de uma rvore e o
encarou. - De modo que no, nunca tive medo deles. Nem uma vez. Porque eu
tinha voc.
- Est me superestimando.
- Srio? Quer dizer que teria deixado sua famlia me fazer mal?
Dawson no precisou responder. Pela expresso de seu rosto, Amanda pde
perceber que estava certa.
- Eles sempre tiveram medo de voc, sabia? At mesmo Ted. Porque o
conheciam to bem quanto eu.
- Voc tem medo de mim?
- No  isso que eu quero dizer - falou ela. - Eu sabia que voc me amava e que
seria capaz de tudo por mim. E, em parte, foi por isso que sofri tanto quando
voc terminou comigo, Dawson. Porque, mesmo naquela poca, eu sabia como
esse tipo de amor  raro. S os mais felizardos chegam a conhec-lo.
Por um instante, Dawson pareceu ficar sem palavras.
- Sinto muito - disse enfim.
- Eu tambm - falou Amanda, sem se dar o trabalho de esconder a antiga
tristeza. - Eu era uma das felizardas, lembra?

Quando chegaram ao escritrio de Morgan Tanner, Dawson e Amanda se
sentaram na pequena sala de espera de piso de madeira desgastado, poltronas
pudas e mesas de canto cheias de revistas antigas. A recepcionista, que parecia
velha o bastante para viver h anos da previdncia social, lia um romance.
Pensando bem, no havia muito mais o que fazer. Durante os 10 minutos em que
eles aguardaram, o telefone no tocou uma s vez.
Finalmente a porta se abriu, revelando um senhor de idade com uma basta
cabeleira branca, duas taturanas grisalhas no lugar das sobrancelhas e um terno
amarrotado. Ele os convidou  sua sala com um gesto.
- Amanda Ridley e Dawson Cole, imagino? - Ele apertou as mos dos dois. - Sou
Morgan Tanner. Minhas condolncias. Sei que deve ser um momento difcil.
- Obrigada - disse Amanda.
Dawson apenas meneou a cabea.
Tanner os conduziu at duas cadeiras de couro de espaldar alto.
- Por favor, sentem-se. No devemos demorar muito.
O escritrio de Tanner no era nada parecido com a sala de espera. Tinha
estantes de mogno repletas de livros de direito bem arrumados e vista para a rua.
A mesa, antiga e em estilo rebuscado, tinha entalhes minuciosos e exibia o que
provavelmente era um abajur caro. Havia ainda uma urna de nogueira no centro
da mesa, bem em frente s duas cadeiras de couro.
- Peo desculpas pelo atraso. Fiquei preso em uma ligao, resolvendo alguns
detalhes de ltima hora. - Ele continuou falando enquanto revirava a mesa. -
Imagino que estejam se perguntando o porqu de tanto segredo, mas era assim
que Tuck queria. Ele era muito insistente e, quando colocava uma coisa na
cabea, no mudava de idia. - Ele os analisou por baixo das sobrancelhas
cerradas. - Mas suponho que j saibam disso.
Amanda lanou um olhar para Dawson enquanto Tanner se sentava e pegava a
pasta  sua frente.
- Tambm agradeo por terem conseguido vir. Pelo jeito como Tuck falava de
vocs dois, sei que ele tambm teria ficado feliz por isso. Estou certo de que tm
perguntas, ento comearei logo. - Ele abriu um breve sorriso, revelando dentes
surpreendentemente retos e brancos. - Como j sabem, o corpo de Tuck foi
descoberto na manh de quinta-feira por Rex Yarborough.
- Quem? - perguntou Amanda.
- O carteiro. Parece que ele fazia questo de ir l para ver como Tuck estava.
Quando bateu  porta, ningum atendeu. Mas ela estava destrancada e, ao entrar,
ele encontrou Tuck na cama. Telefonou para o xerife e, depois que foi
constatado que no havia ocorrido nenhum crime, o xerife ligou para mim.
- Por que ele ligou para o senhor? - perguntou Dawson.
- Foi Tuck quem pediu. Ele havia informado ao departamento de polcia que eu
era seu testamenteiro e que deveria ser contatado aps sua morte.
- Assim parece at que ele sabia que estava morrendo.
- Creio que tivesse alguma noo de que seu tempo era curto - falou Tanner. -
Tuck Hostetler tinha vivido bastante, no sentia medo de encarar a idade
avanada. - Ele balanou a cabea. - S espero que eu seja to organizado e
decidido quanto ele quando minha hora estiver chegando.
Amanda e Dawson voltaram a se entreolhar, mas no disseram nada.
- Insisti que ele lhes informasse seus ltimos desejos e planos, mas, por algum
motivo, ele preferiu manter segredo. Continuo sem saber explicar por qu. - O
tom de voz de Tanner era quase paternal. - Ele tambm deixou bem claro que
gostava muito de vocs.
- Sei que no  importante, mas como vocs se conheceram? - perguntou
Dawson, inclinando-se para a frente em sua cadeira.
Tanner assentiu, como se j esperasse a pergunta.
- Conheci Tuck 18 anos atrs, quando levei um Mustang clssico para ele
restaurar. Na poca, eu era scio de uma firma grande em Raleigh. Mas,
resumindo, passei alguns dias aqui para acompanhar a restaurao. S conhecia
Tuck de nome e no confiava o suficiente nele. Enfim, acabamos nos
conhecendo melhor e eu me dei conta de que gostava do ritmo de vida daqui.
Algumas semanas depois, quando finalmente voltei para pegar o carro, fiquei
boquiaberto com a qualidade do trabalho e Tuck me cobrou bem menos do que
eu esperava. Passaram-se 15 anos, eu estava me sentindo esgotado e ento resolvi
me mudar para c e me aposentar. S que no consegui. Mais ou menos um ano
depois, abri um pequeno escritrio. Nada de mais, basicamente testamentos e
uma ou outra venda de imvel. No preciso trabalhar, mas o escritrio me
mantm ocupado. E minha mulher adora o fato de eu passar algumas horas fora
de casa. Enfim, acabei topando com Tuck no Irvin's certa manh e lhe disse que,
se um dia precisasse de alguma coisa, era s pedir. Ento, em fevereiro passado,
para minha grande surpresa, ele apareceu aqui.
- Por que voc em vez de...
- Outro advogado da cidade? - perguntou Tanner, terminando a frase para
Dawson. - Tenho a impresso de que ele preferia algum que no tivesse muitos
vnculos em Oriental. No confiava muito no sigilo advogado-cliente, mesmo
quando lhe garanti que isso era incondicional. Algo mais que eu talvez no tenha
explicado?
Quando Amanda balanou a cabea, ele puxou a pasta para mais perto de si e
colocou seus culos de leitura.
- Ento vamos comear. Tuck deixou instrues quanto  maneira como queria
que eu cuidasse das coisas. Essas instrues incluam sua vontade de que no
houvesse um funeral tradicional. Em vez disso, ele solicitou que eu
providenciasse para que seu corpo fosse cremado e, conforme seu desejo em
relao ao momento em que isso seria feito, a cremao ocorreu ontem. - Tanner
apontou para a urna sobre a mesa, deixando claro que ela continha as cinzas de
Tuck.
Amanda ficou plida:
- Mas ns chegamos ontem.
- Eu sei. Ele pediu que eu resolvesse esse assunto antes da chegada de vocs.
- Tuck no queria que estivssemos presentes?
- Ele no queria que ningum estivesse presente.
- Por que no?
- Tudo o que posso dizer  que ele foi bastante claro em suas instrues. Mas, se
tivesse que arriscar um palpite, eu diria que Tuck considerava que seria
desagradvel para vocs ter de tomar qualquer uma dessas providncias. - Ele
pegou uma folha na pasta e a ergueu no ar. - Citarei as palavras que ele usou:
"No h o menor motivo para que minha morte seja um fardo para eles." -
Tanner tirou os culos e se recostou na cadeira, tentando avaliar as reaes dos
dois.
- Em outras palavras, no haver funeral,  isso? - perguntou Amanda.
- No sentido tradicional, no.
Amanda se virou para Dawson. Ento tornou a se voltar para Tanner:
- Ento por que ele quis que ns vissemos at aqui?
- Porque gostaria que fizessem outra coisa para ele, algo mais importante do que
a cremao. Basicamente, Tuck pediu que vocs dois espalhassem suas cinzas em
um lugar que ele considerava muito especial, um lugar que, aparentemente,
nenhum de vocs dois chegou a visitar.
Amanda levou alguns instantes para entender de que lugar ele estava falando.
- A cabana dele em Vandemere? - disse ela, por fim.
- Isso mesmo - confirmou Tanner. - Amanh seria ideal, no horrio que
preferirem. Naturalmente, se no se sentirem confortveis com isso, eu mesmo
cuidarei do assunto. Preciso ir at l, de qualquer forma.
- No, amanh est timo - falou Amanda.
Tanner pegou um pedao de papel.
- O endereo est aqui. Tomei a liberdade de imprimir um mapa. O local  um
pouco afastado, como vocs podem imaginar. E tem outro detalhe: ele me pediu
que lhes entregasse isto - falou Tanner, tirando trs envelopes lacrados de dentro
da pasta. - Como podem ver, dois deles trazem seus nomes. Tuck me pediu que
vocs primeiro lessem o contedo do envelope que est em branco, em algum
momento antes da cerimnia.
- Cerimnia? - repetiu Amanda.
- Quero dizer, antes de espalharem as cinzas - disse ele, entregando-lhes o mapa
e os envelopes. - E, naturalmente, sintam-se  vontade para acrescentar qualquer
coisa que queiram dizer durante a cerimnia.
- Obrigada - disse ela, pegando o material. Os envelopes pareciam
estranhamente pesados, carregados de mistrio. - Mas e quanto aos outros dois?
- Imagino que devam l-los mais tarde.
- O senhor imagina?
- Tuck no especificou nada quanto a isso. Disse apenas que vocs sabero
quando abrir as outras duas cartas depois de terem lido a primeira.
Amanda guardou os envelopes na bolsa, tentando digerir tudo o que Tanner lhes
dissera. Dawson parecia igualmente perplexo.
Tanner tornou a examinar a pasta sobre a mesa.
- Alguma pergunta?
- Ele disse onde exatamente em Vandemere queria que as cinzas fossem
espalhadas?
- No - respondeu o advogado.
- Como vamos saber, se nunca estivemos no local?
- Fiz essa mesma pergunta a ele, mas Tuck parecia estar seguro de que vocs
saberiam o que fazer.
- Ele tinha alguma hora do dia em mente?
- Tambm deixou a cargo de vocs. No entanto, enfatizou diversas vezes seu
desejo de que a cerimnia permanecesse restrita. Pediu que eu me certificasse,
por exemplo, de que os jornais no recebessem informao alguma a respeito de
sua morte, nem mesmo um obiturio. Tive a impresso de que ele no queria que
ningum, exceto ns trs, sequer ficasse sabendo de seu falecimento. E me
esforcei ao mximo para respeitar essa vontade. Naturalmente, a notcia se
espalhou, apesar de minhas tentativas, mas gostaria que soubessem que fiz tudo o
que estava a meu alcance.
- Tuck disse o porqu disso?
- No - respondeu Tanner. - E tambm no perguntei. quela altura eu j havia
entendido que, se ele no mencionasse algo por conta prpria, provavelmente
no iria me contar mesmo. - O advogado olhou para Amanda e para Dawson,
esperando para saber se os dois tinham mais perguntas. Como ficaram calados,
virou a primeira pgina da pasta. - Passando para a questo da propriedade, vocs
dois sabem que Tuck no tinha familiares vivos. Entendo que a dor de vocs
possa fazer crer que esta no  uma boa hora para falarmos sobre o testamento,
mas Tuck me pediu que aproveitasse a presena dos dois aqui e os informasse do
que pretendia fazer. Esto de acordo? - Quando ambos assentiram, Tanner
prosseguiu: - Tuck tinha uma quantidade razovel de bens. Possua terras, alm
de aplicaes em diversas contas bancrias. Ainda estou trabalhando nos
nmeros, mas o que quero que saibam  o seguinte: ele pretendia que vocs
pegassem tudo o que quisessem de seus bens pessoais, mesmo que fosse apenas
um item. Seu nico pedido foi que, se vocs estiverem em desacordo em relao
a qualquer coisa, a resolvam ainda aqui. Vou lhes entregar o inventrio dentro
de alguns meses, mas, basicamente, o restante dos bens ser vendido e o dinheiro
ser destinado ao Centro de Oncologia Peditrica do hospital da Universidade
Duke. - Tanner sorriu para Amanda. - Tuck achou que a senhora gostaria de
saber disso.
- Estou sem palavras. - Ela conseguia sentir que Dawson estava alerta, apesar de
calado. - Foi muita generosidade dele. - Amanda hesitou, mais abalada do que
gostaria de admitir. - Ele... Imagino que ele soubesse quanto isso significaria para
mim.
Tanner assentiu antes de folhear as pginas na pasta e finalmente deix-las de
lado.
- Creio que isso seja tudo, a no ser que consigam se lembrar de mais alguma
coisa.
No havia mais nada e, depois de se despedirem, Amanda se levantou, enquanto
Dawson pegava a urna de nogueira de cima da mesa. Tanner tambm se
levantou, mas no fez meno de acompanh-los. Amanda seguiu com Dawson
em direo  porta, notando sua expresso ficar carregada. Antes de os dois
sarem, ele parou e deu meia-volta.
- Sr. Tanner?
- Sim?
- O senhor disse algo que me deixou intrigado.
- O qu?
- Que amanh seria ideal.
- Exato.
- Pode me dizer por qu?
Tanner moveu a pasta para um dos cantos da mesa.
- Sinto muito - respondeu ele. - No posso.

- O que foi essa reunio? - comentou Amanda.
Eles estavam andando em direo ao carro dela, ainda estacionado em frente ao
caf. Em vez de responder, Dawson colocou a mo no bolso.
- Quais so seus planos para o almoo? - perguntou ele.
- No vai responder  minha pergunta?
- No sei o que dizer. Tanner no me deu uma resposta.
- Mas por que voc fez a pergunta, para incio de conversa?
- Porque sou uma pessoa curiosa - disse ele. - Sempre tive curiosidade a respeito
de tudo.
Ela atravessou a rua.
- No - falou Amanda enfim. - Eu discordo. Pelo contrrio, a vida inteira voc
se resignou a respeito de como as coisas so. Mas sei exatamente o que est
fazendo agora.
- E o que estou fazendo?
- Tentando mudar de assunto.
Dawson no se deu o trabalho de negar. Em vez disso, mudou a urna de posio
debaixo do brao.
- Voc tambm no respondeu  minha pergunta.
- Qual?
- Eu lhe perguntei quais eram seus planos para o almoo. Porque, se estiver
livre, conheo um lugar timo.
Ela hesitou, pensando nas fofocas tpicas de uma cidade pequena, mas, como
sempre, Dawson conseguiu ler seus pensamentos.
- Confie em mim - falou ele. - Sei exatamente aonde ir.

Meia hora depois, eles estavam na propriedade de Tuck, sentados  beira do rio
sobre uma manta que Amanda havia pegado num armrio. No caminho at l,
Dawson comprara sanduches no Brantlee's Village Restaurant, alm de garrafas
d'gua.
- Como voc sabia? - perguntou ela, retomando a velha forma de comunicao
entre os dois.
Amanda se lembrava de como Dawson entendia seus pensamentos antes mesmo
de eles serem expressos em palavras. Quando eles eram jovens, uma breve
olhadela ou o mais sutil dos gestos muitas vezes bastavam para demonstrar um
mundo de idias e emoes.
- Sua me e todo mundo que ela conhece ainda moram na cidade. Voc  casada
e eu sou algum que esteve no seu passado. No foi to difcil perceber que
talvez no fosse uma boa idia sermos vistos passando a tarde juntos.
Amanda ficou feliz por ele entender, mas, quando Dawson tirou dois sanduches
da sacola, no pde deixar de sentir uma pontada de culpa. Tentou se convencer
de que estavam apenas almoando juntos, mas sabia muito bem que a verdade
no era to simples assim.
Dawson no pareceu notar.
- Peru ou salada de frango? - perguntou ele, estendendo-lhe os dois sanduches.
- Tanto faz - respondeu Amanda. Ento, mudando de idia: - Salada de frango.
Ele lhe entregou o sanduche e uma garrafa d'gua. Amanda correu os olhos ao
redor, saboreando aquela paz. Nuvens finas cruzavam o cu e, perto da casa, ela
viu dois esquilos brincarem enquanto subiam um carvalho.
Uma tartaruga tomava banho de sol em um tronco na margem oposta do riacho.
Aquele era o tipo de ambiente em que Amanda havia sido criada, mas, depois de
tanto tempo, ele lhe parecia estranhamente alheio, o oposto do mundo em que
vivia agora.
- O que achou da reunio? - perguntou Dawson.
- Tanner me pareceu um bom homem.
- E quanto s cartas que Tuck escreveu? Alguma idia?
- Depois do que ouvi esta manh? Nem de longe.
Dawson assentiu enquanto desembalava seu sanduche e ela fez o mesmo.
- Centro de Oncologia Peditrica, h?
Ela meneou a cabea, pensando automaticamente em Bea.
- Eu disse que era voluntria no hospital da Universidade Duke. s vezes
tambm arrecado fundos para eles.
- Sim, mas voc no tinha dito em que parte do hospital trabalhava - respondeu
Dawson, seu sanduche fora da embalagem mas ainda intocado.
Ela percebeu a curiosidade na voz de Dawson e sabia que ele estava esperando
que dissesse mais alguma coisa. Girou, distrada, a tampa da sua garrafa d'gua e
falou:
- Frank e eu tivemos uma garotinha trs anos depois que Lynn nasceu.
- Ela se deteve, reunindo foras, mas sabendo que, de certa forma, dizer aquelas
palavras para Dawson no seria to embaraoso nem doloroso quanto costumava
ser com outras pessoas. - Descobrimos que havia um tumor no crebro de nossa
filha quando ela tinha 18 meses. Era inopervel e, apesar da dedicao de uma
equipe incrvel de mdicos e dos funcionrios do Centro de Oncologia
Peditrica, ela morreu seis meses depois.
- Amanda desviou o olhar para o riacho, sentindo a dor que conhecia to bem,
uma tristeza que iria durar para sempre.
Dawson estendeu a mo para apertar a sua.
- Como ela se chamava? - perguntou com brandura.
- Bea - disse Amanda.
Os dois ficaram um bom tempo calados, apenas ouvindo o som das guas do
crrego e o farfalhar das folhas das rvores. Amanda no sentiu necessidade de
dizer mais nada e Dawson tampouco esperava que ela o fizesse. Amanda sabia
que Dawson entendia perfeitamente o que ela estava sentindo e teve a sensao
de que ele tambm sofria, mesmo que fosse por no ter podido ajud-la.

Depois de comerem, eles cataram os restos do piquenique, pegaram a manta e
comearam a voltar para a casa. Dawson entrou junto com Amanda, observando-
a desaparecer dentro do quarto para guardar a manta. Ela parecia um pouco na
defensiva, como se tivesse medo de ter cruzado um limite. Dawson pegou dois
copos do armrio da cozinha e serviu um pouco de ch. Quando Amanda voltou,
ele lhe ofereceu um.
- Voc est bem? - perguntou.
- Estou - respondeu ela, pegando o copo. - Tudo bem.
- Desculpe-me se aborreci voc.
- No foi isso - disse Amanda. -  s que falar sobre Bea ainda  difcil para mim
s vezes. E este fim de semana est sendo... cheio de surpresas.
- Para mim tambm - concordou ele, apoiando-se no balco. - Como voc quer
fazer?
- Fazer o qu?
- Dar uma olhada pela casa. Para ver se tem algo que queiramos levar. Amanda
deu um suspiro e torceu para que seu nervosismo no fosse to bvio.
- No sei. Por algum motivo, me parece errado.
- No deveria. Tuck queria que nos lembrssemos dele.
- Eu vou me lembrar dele de qualquer maneira.
- OK, ento vou reformular meu pensamento: ele quer ser mais do que apenas
uma lembrana. Quer que tenhamos um pedao dele e deste lugar tambm.
Ela bebericou o ch. Dawson provavelmente tinha razo, mas, naquele
momento, a idia de revirar as coisas de Tuck para encontrar um suvenir era
estranha.
- Vamos esperar um pouco. Voc se importa?
- No. Quando voc estiver preparada. Quer sentar um pouco l fora? Ela
assentiu e o seguiu at a varanda dos fundos, onde se sentaram nas velhas
cadeiras de balano de Tuck. Dawson apoiou o copo na perna.
- Imagino que Tuck e Clara costumassem fazer isso bastante - comentou ele. -
Simplesmente sentar aqui e ficar observando o mundo passar.
-  bem capaz.
Ele se virou para Amanda:
- Fico feliz que voc viesse visit-lo. Detestava a idia de que ele ficasse sempre
sozinho aqui.
Ela sentiu a umidade do copo suado na mo.
- Voc sabe que ele via Clara? Depois que ela morreu...
Dawson franziu as sobrancelhas.
- Como assim?
- Ele jurava que Clara ainda estava por aqui.
Por um instante, Dawson se lembrou das imagens e dos movimentos que andava
vislumbrando.
- Ele via Clara? O que quer dizer com isso?
- Exatamente o que eu disse. Ele a via e conversava com ela - respondeu
Amanda.
Dawson pestanejou.
- Tuck acreditava estar vendo um fantasma?
- U, ele nunca contou para voc?
- Ele no falava sobre Clara comigo.
Amanda arregalou os olhos.
- Nunca?
- A nica coisa que ele me contou foi o nome dela.
Ento Amanda ps o copo de lado e comeou a narrar algumas das histrias que
Tuck lhe contara ao longo dos anos. Ele tinha largado a escola aos 12 anos e
conseguido um emprego na oficina do tio; havia conhecido Clara na igreja aos 14
anos e, no mesmo instante, tivera certeza de que iria se casar com ela; sua famlia
inteira, inclusive o tio, se mudara para o norte em busca de emprego no incio da
Grande Depresso e nunca mais voltara. Amanda falou dos primeiros anos do
casamento de Tuck com Clara, incluindo o primeiro aborto que ela sofrer, e
como o amigo trabalhara pesado para o pai de Clara na fazenda da famlia
enquanto construa  noite a casa em que eles estavam agora. Revelou que Clara
sofrer mais dois abortos depois da guerra e falou sobre quando Tuck abriu sua
oficina e, pouco a pouco, no comeo da dcada de 1950, comeou a restaurar
carros, incluindo um Cadillac cujo dono era um rapaz muito promissor chamado
Elvis Presley. Quando Amanda chegou  morte de Clara e a Tuck conversando
com seu fantasma, Dawson j havia tomado o ch e estava encarando o copo,
sem dvida tentando relacionar aquelas histrias ao homem que conhecera.
- No acredito que ele nunca tenha lhe contado nada disso - falou Amanda,
impressionada.
- Deve ter tido seus motivos. Talvez gostasse mais de voc.
- Duvido - disse ela. -  que eu o conheci no final da vida. Voc o conheceu
quando ele ainda estava sofrendo.
- Pode ser - falou Dawson, no muito convencido.
- Voc era importante para Tuck - prosseguiu Amanda. - Ora, ele o deixou
morar aqui. No uma vez, mas duas. - Quando Dawson finalmente assentiu, ela
largou o copo. - Mas posso fazer uma pergunta?
- Qualquer coisa.
- Sobre o que vocs conversavam?
- Carros. Motores. Cmbios. s vezes falvamos sobre o tempo.
- Devia ser fascinante - brincou ela.
- Voc nem imagina. Mas, na poca, eu tambm no era muito de conversar.
Ela se inclinou para perto dele, subitamente determinada.
- Bem, ento agora ns dois sabemos tudo sobre Tuck e voc sabe tudo sobre
mim. Mas ainda no sei nada sobre voc.
- Claro que sabe. Eu lhe contei ontem. Trabalho em uma plataforma de
petrleo, moro em uma casinha simples no interior, ainda tenho o mesmo carro,
no saio com ningum.
Com um movimento suave, quase sensual, Amanda jogou seu rabo de cavalo
sobre o ombro.
- Conte algo que ainda no sei - provocou ela. - Algo a seu respeito que
ningum saiba. Algo que me surpreenderia.
- No tenho muito o que contar - disse ele.
Ela o examinou com ateno.
- Por que ser que eu no acredito?
Eu nunca esconderia nada de voc, pensou Dawson.
- No sei - acabou dizendo.
A resposta fez com que Amanda se calasse e comeasse a remoer outro assunto.
- Ontem voc disse algo que me deixou curiosa. - Quando Dawson a encarou
com uma expresso intrigada, ela prosseguiu: - Como voc sabia que Marilyn
Bonner nunca mais se casou?
- Sabendo.
- Tuck contou?
- No.
- Ento como voc sabe?
Ele entrelaou as mos e se recostou na cadeira de balano. Se no respondesse
quela pergunta, Amanda simplesmente voltaria a faz-la. Nesse sentido, ela
tambm no havia mudado nada.
- Acho melhor comear do comeo - falou ele com um suspiro. Ento contou-
lhe sobre os Bonner, sobre a visita que havia feito  casa de fazenda decadente de
Marilyn tanto tempo atrs e sobre os anos de luta da famlia. Revelou tambm
que comeara a lhes mandar dinheiro de forma annima logo depois de sair da
priso. E, finalmente, contou que contratava detetives particulares para se
manter informado sobre a situao da famlia. Quando terminou, Amanda
permaneceu calada, visivelmente sem reao.
- Estou sem palavras - disse enfim.
- Imaginei que fosse dizer isso.
- Estou falando srio, Dawson - falou ela, a irritao clara em sua voz. - Quero
dizer, sei que h um lado nobre no que voc est fazendo e tenho certeza de que
isso fez diferena na vida da famlia. Mas tambm tem um lado triste. Voc no
consegue se perdoar por algo que foi um acidente. Todos cometem erros, mesmo
que alguns sejam piores do que outros. Acidentes acontecem. S que contratar
algum para segui-los... querer saber exatamente o que est acontecendo na vida
deles... isso  errado.
- Voc no entende... - ele comeou a falar.
- No, quem no entende  voc - interrompeu ela. - No acha que aquelas
pessoas tm direito a alguma privacidade? Tirar fotos, vasculhar suas vidas...
- No  assim que funciona - protestou Dawson.
- Ah, mas ! - exclamou Amanda, batendo no brao da cadeira. - E se eles um
dia descobrirem? Pode imaginar como isso seria terrvel? Como se sentiriam
invadidos? - Para surpresa de Dawson, ela colocou a mo em seu brao,
agarrando-o com firmeza, como se quisesse se certificar de que ele estava
ouvindo. - No estou dizendo que concordo com o que est fazendo com o
dinheiro, isso  problema seu. Mas e o resto? Essa histria de detetives? Isso tem
que acabar. Voc precisa me prometer que vai parar com isso, OK?
Dawson sentia o calor que irradiava do toque de Amanda.
- Est bem - falou por fim. - Prometo.
Ela o analisou, certificando-se de que estava dizendo a verdade. Pela primeira
vez desde que o reencontrara, Dawson parecia quase cansado. Havia um qu de
derrota em sua postura e, enquanto permaneciam sentados ali, Amanda se viu
imaginando o que teria acontecido a ele se ela no tivesse ido embora naquele
vero. Ou se o houvesse visitado na priso. Queria acreditar que ela talvez
tivesse feito alguma diferena, que Dawson pudesse ento ter levado uma vida
menos assombrada pelo passado. Que, se ele no chegasse a ser feliz, pelo menos
conseguiria encontrar alguma paz - algo que, para ele, sempre fora to difcil de
alcanar.
Mas, por outro lado, ele no era o nico naquela situao. Encontrar a paz no
era o que todos queriam?
- Tenho outra confisso a fazer - disse ele. - Sobre a famlia Bonner.
Amanda sentiu o ar deixar seus pulmes.
- Mais?
Ele coou um dos lados do nariz com a mo livre, como se quisesse ganhar
tempo.
- Levei flores ao tmulo do Dr. Bonner hoje de manh. Costumava fazer isso
depois que sa da priso. Quando tinha a sensao de que no ia agentar mais,
entende?
Amanda o encarou, imaginando se haveria outras surpresas, mas parecia que
no.
- Isso no est no mesmo nvel das outras coisas que voc vem fazendo.
- Eu sei. Mas achei que deveria mencionar.
- Por qu? Porque queria minha opinio?
Ele encolheu os ombros.
- Talvez.
Ela demorou um pouco para responder.
- No vejo problema quanto s flores - disse enfim. - Desde que voc no
exagere.  at... apropriado.
Dawson se virou para ela.
-  mesmo?
- Sim - falou Amanda. - Colocar flores no tmulo de Bonner demonstra que
voc se importa e no  um ato invasivo.
Ele assentiu, calado. Em silncio, ela se aproximou um pouco mais.
- Sabe em que estou pensando? - perguntou Amanda.
- Depois de tudo o que contei, estou quase com medo de tentar adivinhar.
- Acho que voc e Tuck so mais parecidos do que voc imagina.
Dawson tornou a se virar para ela.
- Isso  bom ou ruim?
- Eu ainda estou aqui com voc, no estou?

Quando o calor comeou a ficar insuportvel mesmo na sombra, Amanda
sugeriu que voltassem para dentro da casa. A porta de tela se fechou atrs dos
dois, batendo de leve.
- Preparada? - perguntou ele, correndo os olhos pela cozinha.
- No - respondeu Amanda. - Mas acho que no tem jeito. S para constar, isso
ainda me parece errado. Nem sei por onde comear.
Dawson atravessou a cozinha antes de virar-se para encar-la.
- OK, vamos fazer o seguinte: quando voc pensa na ltima vez que visitou Tuck,
qual  a primeira coisa que lhe vem  cabea?
- Foi igual a todas as outras vezes. Tuck falou sobre Clara, eu preparei o jantar
para ele. - Amanda encolheu os ombros. - Coloquei uma manta sobre seus
ombros quando ele pegou no sono na poltrona.
Dawson a levou at a sala de estar e meneou a cabea na direo da lareira.
- Ento talvez voc devesse levar a fotografia.
Ela balanou a cabea.
- Eu no poderia fazer isso.
- Prefere que ela acabe no lixo?
- No, claro que no. Mas  voc quem deveria lev-la. Conhecia Tuck melhor
que eu.
- No  verdade - falou Dawson. - Ele nunca me falou sobre Clara. E, quando
voc olhar para a fotografia, vai pensar nos dois, no s nele. Foi por isso que ele
lhe contou a respeito dela.
Amanda pareceu hesitante, ento Dawson foi at a lareira e pegou com cuidado
o porta-retratos no console.
- Ele queria que esta foto fosse importante para voc. Queria que eles dois fossem
importantes para voc.
Amanda estendeu a mo para pegar a fotografia, olhando fixamente para ela.
- Mas, se eu levar isso, o que vai sobrar para voc? Quero dizer, no tem muita
coisa aqui.
- No se preocupe. Vi uma coisa que gostaria de levar para mim. - Ele caminhou
em direo  porta. - Venha.
Amanda o seguiu descendo os degraus da varanda. Quando se aproximaram da
oficina, ela entendeu: se a amizade entre ela e Tuck havia se forjado dentro da
casa, fora na oficina que o lao entre Tuck e Dawson surgira. Antes mesmo que
Dawson pegasse o que queria, Amanda j sabia o que seria.
Ele levou uma das mos at o leno descolorido dobrado com capricho em cima
da bancada.
- Era com isso que ele queria que eu ficasse - disse.
- Tem certeza? - perguntou Amanda, estreitando os olhos para o quadrado de
tecido vermelho. - No  muita coisa.
-  a primeira vez que vejo um leno limpo por aqui, ento s pode ter sido
deixado para mim. - Ele sorriu. - Mas, sim, tenho certeza. Para mim, isto  o
Tuck. Acho que nunca o vi sem um leno. E sempre da mesma cor.
-  mesmo - concordou ela. - Tuck era assim, no era? O Sr. Gosto-Desta-Rotina?
Dawson enfiou o leno no bolso de trs da cala.
- Isso no  to ruim. Quando as coisas mudam, nem sempre  para melhor.
As palavras pareceram pairar no ar e Amanda no respondeu. Em vez disso, ao
v-lo se recostar no Stingray, algo se reacendeu em sua memria e ela deu um
passo na direo dele.
- Eu me esqueci de perguntar a Tanner o que fazer com o carro.
- Estava pensando em terminar o reparo. A Tanner poderia simplesmente ligar
para o dono e pedir que viesse buscar o veculo.
- Srio?
- Pelo que vi, todas as peas esto aqui - disse ele. - E tenho certeza de que Tuck
iria gostar se eu fizesse isso. Alm do mais, voc vai jantar com sua me, ento
no vou ter nada para fazer hoje  noite.
- Quanto tempo vai demorar? - perguntou Amanda, correndo os olhos pelas
caixas de peas sobressalentes.
- No sei. Algumas horas, talvez.
Ela voltou a ateno para o carro, percorrendo sua lateral antes de voltar a
encarar Dawson.
- Tudo bem - disse enfim. - Precisa de ajuda?
Dawson abriu um sorriso torto.
- Voc aprendeu a consertar motores desde a ltima vez em que nos vimos?
- No.
- Posso cuidar disto depois que voc for embora - falou ele. - No  nada de mais.
- Virando-se para o outro lado, ele gesticulou apontando para a casa. - Podemos
voltar l para dentro, se voc preferir. Est bem quente aqui fora.
- No quero que voc precise trabalhar at tarde - disse Amanda e, como se um
velho hbito voltasse, foi at o canto da bancada em que costumava ficar, tirou
do caminho uma chave de roda velha e subiu, ajeitando-se. - Teremos um longo
dia amanh. Alm do mais, sempre gostei de v-lo trabalhar.
As palavras de Amanda soaram como uma promessa e Dawson teve a sensao
de que os anos estavam retrocedendo at o ponto mais feliz de sua vida. Mas
ento desviou o olhar, lembrando a si mesmo que Amanda era casada. A ltima
coisa de que precisava eram as complicaes que podem surgir quando se tenta
reescrever o passado. Ele inspirou fundo e foi mexer em uma caixa na outra
ponta da bancada.
- Voc vai ficar entediada. Isto vai demorar um pouco - falou ele, tentando
esconder seus pensamentos.
- No se preocupe comigo. Estou acostumada.
- A ficar entediada?
Ela puxou as pernas para cima.
- A ficar horas sentada aqui esperando voc terminar para finalmente podermos
sair e fazer algo divertido.
- Voc deveria ter me falado.
- Quando no agentava mais, eu falava. Mas sabia que Tuck no ia me deixar
aparecer por aqui se tirasse voc do trabalho toda hora. Era por isso tambm que
no ficava puxando assunto com voc o tempo todo.
O rosto de Amanda estava parcialmente escondido pelas sombras, e sua voz era
um chamado sedutor. T-la sentada ali, como antes, falando com ele daquele
jeito, trazia muitas lembranas.
Ele pegou um carburador de dentro da caixa, examinando-o. Era
recondicionado, mas o trabalho tinha sido benfeito. Deixou-o de lado para
analisar a ordem de servio. Ento parou diante do carro, abriu o cap e se
reclinou para olhar l dentro. Quando ouviu Amanda pigarrear, virou-se para
ela.
- Bem, Tuck no est por aqui - disse ela. - Ento imagino que possamos
conversar quanto quisermos, mesmo que voc esteja trabalhando.
- OK. - Ele se ergueu e andou de volta  bancada. - Sobre o que voc quer
conversar?
Ela pensou no assunto.
- Est bem, que tal isto? Qual  sua lembrana mais forte do nosso primeiro vero
juntos?
Ele estendeu a mo para pegar um jogo de chaves inglesas, refletindo sobre a
pergunta.
- Eu me perguntando por que voc ficava comigo.
- Estou falando srio.
- Eu tambm. Eu no tinha nada e voc tinha tudo. Poderia ter namorado
qualquer garoto. E, por mais que fssemos discretos, mesmo naquela poca eu
sabia que s lhe causaria problemas. No fazia sentido para mim.
Ela descansou o queixo nos joelhos, abraando as pernas com mais fora.
- Sabe do que me lembro? Da vez em que fomos de carro at Atlantic Beach e
vimos todas aquelas estrelas-do-mar. Foi como se todas elas tivessem sido
trazidas pela mar de uma s vez e ns andamos por toda a praia devolvendo-as 
gua. E, mais tarde, dividimos um hambrguer com batatas fritas e ficamos
vendo o sol se pr. A gente deve ter passado umas 12 horas conversando sem
parar.
Ela sorriu antes de prosseguir, sabendo que ele tambm se lembrava daquele dia.
- Era por isso que eu adorava ficar com voc. Ns podamos fazer coisas simples,
como jogar estrelas-do-mar de volta na gua, comer um hambrguer e
conversar, mas, mesmo naquela poca, eu tinha noo da minha sorte. Porque
voc era o primeiro cara que no tentava me impressionar o tempo todo. Voc se
aceitava, mas, alm disso, me aceitava do jeito que eu era. Ento nada mais
importava, nem a minha famlia nem a sua, nem qualquer outra pessoa no
mundo. Bastvamos ns dois. - Ela se deteve. - No sei se j cheguei a me sentir
to feliz quanto naquele dia, mas, pensando bem, era sempre assim quando
estvamos juntos. Eu no queria que acabasse nunca.
Ele fitou os olhos de Amanda.
- Talvez no tenha acabado.
Foi ento que Amanda entendeu, com o distanciamento que os anos e a
maturidade trazem, quanto ele a amava naquela poca. E quanto ainda a amava
agora, algo sussurrou dentro dela. De repente, ela teve a estranha sensao de
que tudo o que tinham vivido eram apenas os primeiros captulos de um livro
ainda sem concluso.
Esse pensamento deveria t-la assustado, mas no foi o que aconteceu. Em vez
disso, ela correu a mo sobre o contorno de suas iniciais desgastadas gravadas na
bancada fazia tantos anos.
- Foi para c que eu vim quando meu pai morreu, sabia?
- Onde? Aqui? - Quando ela assentiu, Dawson voltou a pegar o carburador. -
Achei que voc tivesse dito que comeou a visitar Tuck fazia poucos anos.
- Tuck no ficou sabendo. Nunca contei a ele.
- Por que no?
- No pude. Foi a nica maneira que encontrei de no desmoronar. Queria ficar
sozinha. - Ela se interrompeu. - Foi cerca de um ano depois de Bea morrer e eu
ainda estava tentando me recuperar quando minha me me ligou dizendo que
papai tinha infartado. No fazia o menor sentido. Eles haviam nos visitado em
Durham na semana anterior. Quando me dei conta, estvamos colocando as
crianas no carro e indo para o funeral. Dirigimos a manh inteira e, ao
chegarmos, minha me estava toda bem-vestida e foi logo me informando da
reunio que teramos na funerria. Quero dizer, ela mal demonstrou emoo.
Parecia mais preocupada em encomendar as flores certas para a cerimnia e se
certificar de que eu tinha chamado todos os parentes. Foi um pesadelo. No fim
daquele dia, eu me senti to... sozinha. Ento sa da casa da minha me no meio
da noite e fui dar uma volta de carro. Por algum motivo, acabei estacionando
perto da estrada e vindo a p para c. No sei explicar por qu. Mas me sentei e
chorei pelo que pareceram horas.
Enquanto um turbilho de lembranas voltava  tona, ela deu um suspiro. Ento
prosseguiu:
- Sei que meu pai nunca lhe deu uma chance, mas ele no era m pessoa. Sempre
me dei melhor com ele do que com minha me e,  medida que fui ficando mais
velha, ns nos aproximamos cada vez mais. Ele adorava meus filhos...
principalmente Bea. - Ela ficou calada antes de finalmente dar um sorriso triste.
- Voc acha estranho? Quero dizer, eu ter vindo aqui quando ele morreu?
Dawson refletiu sobre a pergunta.
- No - falou ele. - Nem um pouco. Tambm vim para c depois que cumpri
minha pena.
- Mas voc no tinha mais para onde ir.
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Voc tinha?
Ele estava certo. Por mais que a casa de Tuck fosse um lugar de lembranas
felizes, tambm era o refgio ao qual ela sempre recorrera quando precisava
chorar. Ela voltou a puxar as pernas para perto, como se pudesse, assim, afastar
aquela lembrana. Ento se acomodou na bancada, observando Dawson comear
a remontar o motor.
Enquanto a tarde transcorria, eles conversaram sobre assuntos cotidianos,
passados e presentes, revelando partes de suas vidas um para o outro e trocando
opinies sobre tudo, de livros a lugares que queriam conhecer. Amanda foi
invadida por uma sensao de dj-vu ao ouvir os cliques familiares da chave
inglesa enquanto ele a encaixava no lugar. Ficou observando Dawson fazer fora,
contraindo a mandbula at finalmente afrouxar um parafuso, pondo-o de lado
em seguida. Exatamente como fazia quando eram jovens, ele com freqncia
parava o que estava fazendo para que ela tivesse certeza de que a estava ouvindo
com ateno. De sua forma sutil, Dawson deixava claro que ela era e sempre
seria importante para ele e isso a atingiu com uma intensidade quase dolorosa.
Mais tarde, ele parou um pouco para descansar e foi at a casa, retornando com
dois copos de ch. Foi quando, por um breve momento, Amanda foi capaz de
imaginar uma vida diferente que poderia ter sido sua - e que ela sabia que
sempre desejara.

Quando o sol j estava baixo sobre os pinheiros, Dawson e Amanda saram da
oficina caminhando lentamente em direo ao carro dela. Algo havia mudado
entre os dois no decorrer da tarde - acontecera um frgil renascimento do
passado, talvez - e a deixava ao mesmo tempo empolgada e com medo. J
Dawson ansiava por envolv-la em seus braos enquanto andavam lado a lado,
mas, percebendo como Amanda estava confusa, se conteve.
Amanda abriu um sorriso inseguro quando os dois finalmente chegaram  porta
de seu carro. Ela ergueu os olhos para Dawson, notando seus clios grossos e
cerrados, do tipo que qualquer mulher invejaria.
- Queria poder ficar - admitiu.
Dawson mudou de posio, apoiando-se no outro p.
- Tenho certeza de que vai se divertir com sua me.
Talvez, pensou ela, mas provavelmente no.
- Voc tranca tudo quando for embora?
- Claro - falou ele, notando a maneira como a luz do sol danava sobre a pele de
Amanda e alguns fios soltos de cabelo se moviam com a brisa suave. - Como quer
fazer amanh? Encontro voc em Vandemere ou prefere que a espere aqui e siga
seu carro?
Ela pesou as opes, indecisa.
- Acho que no h motivo para levarmos dois carros - disse por fim. - Por que
simplesmente no nos encontramos aqui umas onze da manh e vamos juntos?
Dawson assentiu e olhou para ela, ambos imveis. Ento deu um pequeno passo
para trs, quebrando o encanto, e Amanda sentiu que o ar fugia de seus pulmes.
S ento percebeu que estava prendendo a respirao.
Ele fechou a porta do carro depois que ela sentou ao volante. O sol poente
delineava a silhueta de Dawson, quase dando a Amanda a impresso de que ele
era um estranho. Constrangida, ela comeou a revirar sua bolsa em busca das
chaves. Suas mos tremiam.
- Obrigada pelo almoo - disse.
- Disponha - respondeu ele.
Olhando pelo retrovisor enquanto se afastava, Amanda viu que Dawson
permanecia parado no mesmo lugar, como se esperasse que ela mudasse de idia
e voltasse. Ento sentiu algo perigoso se agitar dentro de si, algo que vinha
tentando negar. Ele ainda a amava, Amanda agora tinha certeza, e isso a
inebriava.
Mas ela sabia que era errado. Tentou se obrigar a afastar o sentimento, mas
Dawson e o passado dos dois haviam tornado a criar razes. Ela j no podia
negar a simples verdade de que, pela primeira vez em anos, sentia que estava no
lugar a que pertencia.

                                       8

Ted ficou observando a animadorazinha de torcida sair da estrada que levava 
casa de Tuck. Era bonitona para a idade. Mas, na verdade, sempre tinha sido
gostosa. Ted muitas vezes pensara em dar um trato na garota, jog-la no carro,
fazer o que quisesse com ela e enterr-la onde ningum pudesse encontrar o
corpo, mas o papai de Dawson tinha se metido, dizendo que ningum devia
encostar na namoradinha do filho. Naquela poca, Ted achava que Tommy Cole
soubesse o que estava fazendo.
Mas Tommy no sabia de nada. Ted precisou ir preso para descobrir isso e,
quando foi libertado, seu dio por ele era quase to grande quanto o que sentia
por Dawson. O tio no fez nada depois que Dawson os humilhou. Eles viraram
motivo de piada. Foi por isso que Tommy Cole se tornou o primeiro da lista de
Ted assim que ele saiu da cadeia. No foi difcil forjar que ele havia bebido at
morrer. Tudo o que Ted precisou fazer foi dar uma injeo de lcool etlico
depois que o outro desmaiou e logo ele estava sufocado pelo prprio vmito.
E agora, finalmente, Dawson tambm seria riscado da lista de Ted. Enquanto
esperava Amanda ir embora, ele se perguntou o que os dois teriam ficado
fazendo l. Provavelmente compensando todos aqueles anos separados,
enroscando-se nos lenis e gritando o nome um do outro. Se fosse para arriscar
um palpite, Ted diria que ela era casada. Perguntou-se se o marido desconfiaria
do que estava acontecendo. Provavelmente no. No era o tipo de coisa que uma
mulher sasse alardeando, principalmente uma mulher que tinha um carro
daqueles. Devia ser casada com algum otrio cheio da grana e passar as tardes no
salo de beleza fazendo as unhas, igual  me. O marido devia ser mdico ou
advogado, o tipo vaidoso demais para sequer cogitar que a mulher pudesse pular
a cerca.
Por outro lado, ela devia ser boa em manter as coisas em segredo. Como a
maioria das mulheres. Ora, disso ele sabia muito bem. Casada ou solteira, no
fazia diferena para Ted: se elas oferecessem, ele aceitava. Tampouco importava
se fossem da famlia. Ele havia transado com metade das mulheres que moravam
na propriedade dos Cole, inclusive esposas de primos seus. Com as filhas deles
tambm. Fazia seis anos que ele se encontrava umas duas vezes por semana com
Claire, a mulher de Calvin, e ela nunca contara nada a ningum. Ella
provavelmente sabia o que estava acontecendo (j que lavava suas cuecas), mas
tambm mantinha o bico calado. Se fosse esperta, continuaria assim. Ningum
deveria se meter nos assuntos de um homem.
As lanternas traseiras do carro de Amanda piscaram e ele finalmente sumiu de
vista numa curva. No vira a caminhonete de Ted - o que no era surpresa, j
que ele havia parado fora da estrada, escondendo-a da melhor forma possvel no
mato. Preferiu esperar alguns minutos, s para se certificar de que ela no
voltaria. A ltima coisa que queria era uma testemunha, mas ainda estava
imaginando qual seria a melhor maneira de resolver aquela situao. Se Abee
tinha visto Dawson naquela manh, certamente Dawson tambm o vira. Ento
talvez ele estivesse esperando l dentro com uma espingarda no colo. Talvez
tivesse seus prprios planos para o caso de algum parente resolver aparecer.
Como da ltima vez.
Ted deu um tapinha na pistola que trazia encostada  coxa. A melhor sada era
surpreender Dawson. Chegar perto, atirar, jogar o corpo na caminhonete e
desovar o carro alugado em algum lugar da propriedade deles. Depois era s tirar
o nmero de identificao do veculo e tacar fogo no resto, at sobrar apenas
uma carcaa. Tambm no seria difcil se livrar do corpo. Era s prend-lo a um
peso e jog-lo no rio. A gua e o tempo completariam o servio. Ou talvez
enterr-lo em algum lugar na floresta, onde provavelmente ningum iria ach-
lo. Era difcil provar um assassinato sem que houvesse corpo. A animadorazinha
de torcida e at o xerife poderiam suspeitar dele, mas da a provarem alguma
coisa seria outra histria. Haveria certa confuso,  claro, mas logo as coisas
voltariam ao normal. Depois disso, acertaria as contas com Abee. Se o irmo no
tomasse cuidado, poderia acabar no fundo do rio tambm.
Ted estava pronto. Saiu do carro e seguiu em direo  floresta.

Dawson ps a ferramenta de lado e fechou o cap. O motor estava pronto. Desde
a sada de Amanda, ele no conseguia se livrar da sensao de estar sendo
observado. Na primeira vez que teve essa impresso, segurou a chave com fora
enquanto olhava ao redor, mas no havia ningum ali.
Agora, andando at a entrada da oficina, ele corria os olhos pelo terreno,
avaliando o entorno. Viu carvalhos e pinheiros com trepadeiras subindo por seus
troncos e notou que as sombras das rvores j comeavam a se alongar. Um
falco passou pelo cu, sua sombra atravessando o caminho que dava acesso 
casa, e pssaros menores cantaram nos galhos. Tudo o mais estava em silncio
em meio ao calor de comeo de vero.
Mas algum o observava. Havia algum l fora, Dawson tinha certeza. Lembrou-
se da espingarda que, tantos anos atrs, havia enterrado ao p do carvalho perto
da casa - no muito fundo, talvez a uns 30 centmetros de profundidade,
embrulhada em uma lona dentro de uma caixa, para que ficasse protegida. Tuck
tambm tinha armas na casa, provavelmente debaixo da cama, mas Dawson no
sabia se elas estavam legalizadas. Pelo que podia ver, no havia nada l fora, mas
foi ento que notou um borro se movimentar perto de um grupo de rvores do
outro lado do caminho de acesso.
Quando tentou enxergar mais nitidamente, no viu nada. Piscou, esperando por
algo mais, tentando decidir se teria sido apenas sua imaginao. Ento os pelos da
sua nunca comearam a se arrepiar.

Ted se movia com cautela. Seria tolice apressar-se. De repente desejou ter levado
Abee junto. Seria bom t-lo ali, aproximando-se por outra direo. Mas pelo
menos Dawson ainda estava no local - ou pelo menos Ted acreditava que
estivesse. Teria ouvido o barulho do carro se ele houvesse sado.
Ele se perguntava onde exatamente o primo estaria. Na casa, na oficina ou em
algum lugar do lado de fora? Esperava que no estivesse dentro da casa, porque
seria difcil chegar perto sem ser percebido. A casa de Tuck ficava em uma
pequena clareira, com o riacho nos fundos, mas havia janelas por todos os lados e
Dawson poderia v-lo se aproximando. Nesse caso, talvez fosse melhor ficar
escondido e esperar at que Dawson sasse. O nico problema era que ele
poderia sair pela frente ou pelos fundos e Ted no tinha como estar em dois
lugares ao mesmo tempo.
Ele precisava criar alguma distrao. Assim, quando Dawson sasse para ver o
que era, Ted poderia esperar at que ele estivesse perto o suficiente e ento
puxar o gatilho. Se estivessem a no mximo uns 10 metros de distncia, achava
que poderia confiar em sua arma.
Mas que tipo de distrao poderia criar? Essa era a grande pergunta.
Ele seguiu adiante, sorrateiro, evitando as pilhas que as pequenas pedras soltas
formavam  sua frente; o solo era pedregoso em toda aquela regio do condado.
Ento pensou em algo simples, porm eficaz. Era s jogar algumas delas no carro,
ou mesmo quebrar uma janela. Dawson sairia para ver o que estava acontecendo
e Ted estaria  sua espera.
Ele apanhou um punhado de pedras e as colocou no bolso.

Sem fazer barulho, Dawson se encaminhou ao local em que notara o movimento,
repassando mentalmente as alucinaes que vinha tendo desde a exploso na
plataforma e achando tudo aquilo muito familiar. Chegou ao limite da clareira e
olhou para dentro da mata, tentando acalmar o corao acelerado.
Ele se deteve, ouvindo os gorjeios de centenas de estorninhos que cantavam nas
rvores. Quando criana, sempre ficava fascinado ao v-los sair das rvores em
bando quando ele batia palmas, como se estivessem amarrados uns aos outros.
Agora, por algum motivo, eles estavam cantando.
Seria um alerta?
Dawson no sabia. Era como se a floresta tivesse vida prpria. O ar parecia
salgado, com um cheiro forte de madeira em decomposio. Antes de subirem ao
cu, os galhos dos carvalhos se espalhavam prximos ao cho. Trepadeiras e
barbas-de-velho deixavam o mundo s escuras poucos metros adiante.
Com o canto do olho, ele tornou a notar um movimento e se virou depressa,
prendendo a respirao. Um homem de cabelos pretos e casaco azul saa de trs
de uma rvore. Dawson conseguia ouvir o esmurrar do prprio corao. No,
pensou, aquilo no era possvel. No era real, no podia ser, e ele teve certeza de
que estava vendo coisas.
Ainda assim, Dawson afastou alguns galhos e seguiu mata adentro atrs do
homem.
Quase l, pensou Ted. Atravs da folhagem, ele viu o topo da chamin e se
agachou, pisando com cuidado. Nenhum barulho, silncio total. Esse era o
segredo da caa e Ted sempre tinha sido bom nisso.
Homem ou animal, no fazia diferena, se o caador fosse habilidoso o
suficiente.

Dawson se desviava das rvores e abria caminho pela vegetao rasteira. Sua
respirao ficava mais pesada  medida que tentava diminuir a distncia que o
separava do homem. Tinha medo de parar, porm ficava mais assustado a cada
passo.
Chegou ao ponto em que tinha visto o homem de cabelos pretos e seguiu em
frente, buscando algum sinal dele. Dawson suava em bicas, a camisa grudando s
suas costas. Ele resistiu ao impulso repentino de gritar pelo outro, embora no
soubesse ao certo se seria capaz de faz-lo.
O solo estava seco, as agulhas dos pinheiros estalando sob seus ps. Ao saltar por
sobre uma rvore cada, viu o homem de cabelos pretos abrir caminho pelos
galhos e agachar-se atrs de uma rvore. O casaco azul balanava ao vento.
Dawson comeou a correr.

Ted havia finalmente se esgueirado at a pilha de lenha que ficava no limite da
clareira. A casa se erguia logo atrs. Dessa posio, podia ver o interior da
oficina. A luz continuava acesa e Ted ficou aproximadamente um minuto
observando, procurando por algum movimento. Tinha quase certeza de que
Dawson estivera ali, trabalhando no carro, mas j havia sado. Tambm no
estava em nenhum lugar na parte da frente da casa. S podia estar l dentro ou
nos fundos.
Ted se agachou, retornando para a proteo da floresta antes de dar a volta em
direo aos fundos do terreno. Dawson tambm no estava ali. Refazendo os
prprios passos, voltou para trs da pilha de lenha. Ainda no havia sinal de
Dawson na oficina. Devia ter ido beber alguma coisa ou talvez tirar gua do
joelho. De qualquer forma, voltaria em breve.
Ele se acomodou para esperar.

Dawson viu o homem uma terceira vez, agora mais perto da estrada. Correu
mais, os galhos e arbustos aoitando seu corpo, mas parecia no conseguir
diminuir a distncia que havia entre os dois. Ofegante, foi diminuindo o ritmo
aos poucos at parar  beira da estrada.
O homem tinha desaparecido. Se  que em algum momento estivera na floresta -
de repente, Dawson j no tinha certeza. A sensao arrepiante de estar sendo
observado se fora, assim como o medo. Tudo o que restava eram o calor e o
cansao, alm da frustrao e do fato de estar se sentindo um idiota.
Tuck costumava ver Clara e agora Dawson estava vendo um homem de cabelos
pretos e casaco azul em pleno calor do comeo de vero. Ser que Tuck ficara to
louco quanto ele? Dawson ficou parado, esperando sua respirao voltar ao
normal. Estava seguro de que o homem o vinha seguindo, mas, mesmo que fosse
verdade, quem seria ele? E o que queria com Dawson?
Ele no sabia, mas quanto mais tentava se concentrar no que vira, mais a imagem
se dissipava. Como acontece com um sonho minutos depois do despertar, ela foi
desaparecendo at que Dawson j no tivesse certeza de nada.
Ele balanou a cabea, feliz por j estar quase terminando o conserto do
Stingray. Queria voltar para a pousada, tomar um banho e deitar-se para pensar
em tudo aquilo: o homem de cabelos pretos, Amanda... Sua vida vinha sendo
tumultuada desde o acidente na plataforma. Ele olhou na direo de onde viera e
resolveu que no fazia sentido voltar pela floresta. Seria mais fcil ir pela estrada
e simplesmente pegar o acesso de volta. Seguiu para o asfalto. Foi ento que
percebeu uma caminhonete velha estacionada fora da estrada, atrs de uns
arbustos.
Perguntou-se o que ela estaria fazendo ali. Com exceo da casa de Tuck, no
havia nada naquela parte da floresta. Os pneus no estavam vazios, mas, mesmo
que a caminhonete houvesse quebrado, o motorista provavelmente teria pegado
o acesso  casa, em busca de ajuda. Embrenhando-se nos arbustos, Dawson notou
que o veculo estava trancado. Ps a mo sobre o cap: morno, mas no quente.
Devia estar ali havia uma ou duas horas.
Tambm no fazia sentido que a caminhonete estivesse fora da estrada, parada
no mato. Se precisasse ser rebocada, teria sido melhor deix-la no acostamento.
Era como se o motorista no quisesse que percebessem o veculo ali.
Como se algum o tivesse escondido de propsito?
Ento tudo pareceu se encaixar, a comear pelo fato de ele ter visto Abee pela
manh. Aquela no era a caminhonete de Abee - pela qual havia passado
correndo mais cedo -, mas isso no significava nada. Cautelosamente, Dawson
deu a volta at o outro lado do veculo, parando ao notar alguns galhos afastados
para o lado.
Uma trilha.
Algum tinha passado por ali e seguira em direo  casa.
Cansado de esperar, Ted tirou um pedra do bolso. Se quebrasse uma janela com
Dawson l dentro, o primo poderia muito bem resolver no sair da toca. Mas
seria diferente se fosse apenas um barulho. Quando algo bate com fora na
parede da sua casa, voc sai para ver o que aconteceu. Dawson provavelmente
passaria bem em frente  pilha de lenha, a poucos metros de distncia. Seria
impossvel errar.
Satisfeito, ele espiou com cuidado por detrs da pilha de lenha. Ningum nas
janelas. Ento, levantando-se depressa, atirou a pedra com fora e j estava se
agachando de volta quando ela se despedaou contra a casa, o som alto e
estridente.
Atrs de Ted, um bando de estorninhos saiu voando ruidosamente das rvores.

Dawson ouviu um estalo abafado e uma nuvem de estorninhos se deslocou no
alto, pousando de volta alguns segundos depois. O barulho no tinha sido um
tiro, mas outra coisa. Ele desacelerou o passo, movendo-se em silncio em
direo  casa de Tuck.
Tinha certeza de que havia algum ali. Algum parente seu, sem dvida.

Ted estava nervoso, perguntando-se onde Dawson havia se metido. Era
impossvel que no tivesse ouvido o barulho, mas onde estava? Por que no saa
da casa?
Ele pegou outra pedra do bolso, atirando-a com toda a fora dessa vez.

Dawson parou no ato ao ouvir um segundo estampido, agora mais alto. Pouco a
pouco, ele se acalmou e se aproximou devagar, localizando a origem do barulho.
Ted, escondido atrs da pilha de lenha. Armado.
Estava de costas para Dawson e olhava por cima da pilha de lenha na direo da
casa. Estaria fazendo aquele barulho todo na esperana de que isso forasse
Dawson a sair de l?
De repente, Dawson desejou ter desenterrado a espingarda. Ou trazido algum
tipo de arma, pelo menos. Havia algumas coisas teis na oficina, mas seria
impossvel chegar l sem que Ted o visse. Cogitou voltar para a estrada, mas o
primo provavelmente no sairia dali, a no ser que tivesse um motivo. Ao
mesmo tempo, pela maneira como Ted no parava de se mexer, dava para
perceber que estava ficando inquieto, o que era bom. A impacincia era o pior
inimigo de um caador.
Dawson se agachou atrs de uma rvore, pensando, esperando por uma chance
de resolver o problema sem levar um tiro.

Cinco minutos se passaram, depois 10, e Ted ficava mais agitado. Nada,
absolutamente nada. Nenhum movimento em frente  casa, ou mesmo s janelas.
Mas o carro que estava no acesso  casa era alugado - havia um adesivo no para-
choque - e algum havia trabalhado na oficina. Sem dvida no tinha sido Tuck
nem Amanda. Ento, se Dawson no estava na frente nem nos fundos, ele s
podia estar dentro da casa.
Mas por que no tinha sado?
Talvez estivesse vendo tev, ouvindo msica, dormindo, tomando banho, ou s
Deus sabe o que mais. Qualquer que fosse o motivo, ele no devia ter ouvido
nada.
Ted ficou agachado por mais alguns minutos, irritando-se mais ainda, antes de
finalmente decidir que no iria simplesmente esperar. Saindo de trs da pilha de
lenha, seguiu depressa at a lateral da casa, sem se levantar, e espiou pela quina.
Quando no viu nada na frente, tornou a se mover, agora em direo  varanda.
Uma vez l, espremeu o corpo contra a parede entre a porta e a janela.
Tentou ouvir sons de movimento dentro da casa, sem sucesso. Nenhuma tbua
rangendo, nem barulho de televiso ou de msica. Quando teve certeza de que
no havia sido notado, espiou pela janela, colocou a mo na maaneta e a girou
lentamente.
Destrancada. Perfeito.
Ted preparou a arma.

Dawson ficou observando Ted abrir devagar a porta. Assim que o primo a fechou
atrs de si, ele disparou at a oficina, calculando que teria cerca de um minuto,
talvez menos. Apanhou a chave de roda na bancada e correu silenciosamente
para a frente da casa, supondo que quela altura Ted estivesse na cozinha ou no
quarto. Rezou para estar certo.
Ento saltou para a varanda e se espremeu no mesmo lugar em que Ted havia
parado, segurando firme a chave de roda e se preparando para o que viesse a
seguir. No demorou muito: logo ouviu Ted xingando enquanto voltava, pisando
firme, em direo  porta da frente. Quando ela se escancarou, Dawson
vislumbrou a expresso de pnico do primo ao perceber, com um segundo de
atraso, que ele estava ali.
Com um golpe certeiro, Dawson sentiu no brao a vibrao quando a chave de
roda quebrou o nariz de Ted. Enquanto ele cambaleava para trs, sangue
jorrando do rosto em um jato quente e vermelho, Dawson j partia para cima
dele. Ted caiu no cho e Dawson usou a chave de roda para golpear com fora
seu brao estendido, fazendo a arma cair de sua mo. Ao ouvir seus ossos se
partirem, Ted finalmente comeou a gritar.
Enquanto ele se contorcia no cho, Dawson pegou a arma e a apontou para o
primo:
- Eu avisei que era para no voltar.
Essas foram as ltimas palavras que Ted ouviu antes de seus olhos girarem nas
rbitas e ele desmaiar por conta da dor lancinante.

Por mais que odiasse a famlia, Dawson no conseguiu matar Ted. Ao mesmo
tempo, no sabia o que fazer com ele. Talvez devesse telefonar para o xerife, mas
sabia que, depois que fosse embora, no iria voltar mais  cidade, havendo um
julgamento ou no - ento nada aconteceria a Ted, de qualquer forma. E Dawson
ainda teria de ficar na delegacia por horas a fio prestando depoimento, e sem
dvida seria alvo de suspeitas. Afinal de contas, ele era um Cole e tinha ficha na
polcia. No, decidiu enfim, no queria se aborrecer.
Mas tampouco podia simplesmente deixar Ted ali fora. O primo precisava de
cuidados mdicos, mas lev-lo a uma clnica sem dvida tambm envolveria o
xerife. O mesmo aconteceria se chamasse uma ambulncia.
Ele remexeu nos bolsos de Ted e encontrou um celular. Depois de abri-lo,
acessou a lista de contatos. Dawson conhecia a maioria dos nomes ali. J dava
para o gasto. Tornou a remexer nos bolsos do primo e pegou a chave da
caminhonete, ento foi depressa at a oficina e escolheu algumas cordas e arame,
que usou para amarrar Ted.
Quando o sol j havia se posto, jogou o primo por sobre o ombro, carregou-o at
o veculo e o ps na carroceria. Em seguida, foi para o banco do motorista, deu
partida e seguiu para a propriedade em que havia sido criado. Dirigiu com os
faris apagados e parou diante de uma placa de ENTRADA PROIBIDA. Ento
arrastou Ted da carroceria e o recostou em um mouro.
Abriu o celular e selecionou o contato que dizia "Abee". O telefone tocou quatro
vezes antes que ele atendesse. Dawson ouviu msica alta ao fundo.
- Ted? - gritou Abee em meio ao barulho. - Onde voc se meteu?
- No  o Ted quem est falando. Mas voc precisa vir busc-lo. Ele est muito
ferido - respondeu Dawson. Antes que Abee pudesse dizer qualquer coisa,
Dawson lhe explicou onde encontrar o irmo. Depois de desligar, jogou o
aparelho no cho, entre as pernas do primo.
Voltou  caminhonete e pisou fundo, afastando-se depressa da propriedade.
Depois de jogar a arma de Ted no rio, decidiu passar pela pousada e pegar suas
coisas. Deixaria a caminhonete do primo no lugar em que ele a havia estacionado
e encontraria um hotel fora de Oriental onde finalmente pudesse tomar um
banho e comer antes de ir para a cama.
Dawson estava cansado. Tinha sido um longo dia. Era um alvio que tivesse
chegado ao fim.

                                       9

Abee Cole tinha a sensao de que algum estava marcando sua barriga com um
ferro quente. A febre tambm no havia baixado, o que o fez pensar que talvez
devesse mostrar o ferimento ao mdico da prxima vez que ele fosse ao quarto
dar uma olhada em Ted.  claro que provavelmente iriam querer intern-lo
tambm, mas Abee no aceitaria. Precisava evitar perguntas que no queria
responder.
Era tarde, quase meia-noite, e o movimento no hospital tinha finalmente
comeado a diminuir. Na penumbra, Abee olhou para o irmo. Dawson tinha
dado um belo trato nele. Exatamente como da ltima vez. Abee achou que ele
estivesse morto quando o encontrara - o rosto coberto de sangue, o brao
entortado - e s conseguia pensar que Ted tinha se descuidado. Ou isso, ou
Dawson estivera  espera dele - o que o fez pensar que talvez o primo tivesse os
prprios planos.
Abee sentiu a dor explodir em sua barriga, desencadeando ondas de enjo. Estar
no hospital no ajudava. Era um forno l dentro. Abee s no saa do quarto
porque queria estar ali quando o irmo acordasse, para descobrir se Dawson
estava tramando alguma coisa. Talvez fosse parania, ele podia no estar
pensando direito. Era melhor aqueles antibiticos fazerem efeito, e rpido.
Sua noite tinha sido uma droga, e no s por causa de Ted. Mais cedo ele
resolvera dar uma passada no Tidewater para ver Candy. Quando chegara l,
metade dos caras do bar j estava em cima dela. Abee s precisou olhar uma vez
para saber que ela estava aprontando. Candy usava uma camiseta que mostrava
tudo o que a mulher tinha a oferecer e um short to curto que mal cobria o
traseiro. Quando o viu chegar, ficou nervosa na mesma hora, como se tivesse
sido pega fazendo algo errado, e com certeza no pareceu nem um pouco feliz.
Sua vontade foi arrast-la do bar imediatamente, mas, com tantas pessoas por
perto, decidiu que no seria uma boa idia. Teriam uma conversa mais tarde e
Candy recobraria o juzo. Isso era certo, mas, primeiro, o melhor era descobrir
por que exatamente ela estava se sentindo to culpada. Ou seja, quem era o
motivo da culpa.
Porque estava na cara que era isso que estava acontecendo. Algum cara do bar,
sem dvida. Por mais que estivesse zonzo de febre e com a barriga pegando fogo,
ele iria descobrir.
Ento Abee se sentara para esperar e, pouco depois, havia identificado um cara
que poderia ser quem estava procurando. Um rapaz novo, de cabelos pretos,
flertando um pouco demais com Candy para que fosse apenas uma paquera
casual. Abee observou quando, ao levar a cerveja para ele, ela tocou o brao do
cara e lhe permitiu dar uma boa olhada em seu decote. Assim que Abee se
levantou para tomar uma atitude, seu telefone tocou e a voz de Dawson surgiu
do outro lado da linha. Quando se deu conta, estava esmurrando o volante a
caminho do hospital, com Ted esparramado no banco de trs. Mesmo enquanto
seguia a toda a velocidade para New Bern, ficou imaginando Candy com aquele
cara de pau desgraado, tirando a camiseta e gemendo nos braos dele.
quela altura, ela estaria saindo do trabalho. Pensar nisso o encheu de raiva.
Sabia muito bem quem a acompanharia at o carro e no podia fazer nada a
respeito. Agora precisava descobrir quais eram os planos de Dawson.

Ted ficou despertando e apagando a noite inteira, confuso quando acordava, por
causa dos remdios e dos ferimentos na cabea. Mas, na manh seguinte, tudo o
que conseguia sentir era raiva. De Abee, pois o irmo no parava de perguntar se
Dawson viria atrs dele; de Ella, porque sua mulher no parava de choramingar;
e dos parentes, que sussurravam no corredor, como se questionassem se ainda
deveriam ter medo dele. No entanto, deitado na cama e tentando entender o que
exatamente acontecera, a raiva de Ted se concentrava basicamente em Dawson.
A ltima coisa de que se lembrava era do primo em cima dele, e Ted levou um
bom tempo para compreender o que Abee e Ella lhe contaram. No final, os
mdicos tiveram que imobiliz-lo e ameaar chamar a polcia.
Ele ficara bem mais calmo desde ento, j que era a nica maneira de conseguir
sair dali. Abee estava sentado na cadeira e Ella estava ao seu lado na cama. A
mulher no parava de paparic-lo e Ted teve que conter a vontade de lhe dar um
tapa, embora estivesse amarrado  cama e no pudesse faz-lo, de qualquer
forma. Em vez disso, forou as correias novamente, pensando em Dawson.
Aquele desgraado iria morrer, isso era garantido, e Ted estava pouco se lixando
para a recomendao do mdico de que ele deveria ficar mais uma noite ali, em
observao, ou para seu alerta de que movimento em excesso poderia ser
perigoso. Dawson talvez sasse da cidade a qualquer momento. E, quando ele
ouviu Ella comear a soluar em meio s lgrimas, falou com os dentes cerrados:
- Saia daqui. Preciso falar com Abee.
Ella secou o rosto e saiu do quarto sem dar nem um pio. Depois que ela foi
embora, Ted se virou para Abee e viu como o irmo estava um trapo. Seu rosto
estava vermelho e ele suava. A infeco. Era Abee quem deveria estar internado,
no ele.
- Me tire daqui.
Abee fez uma careta enquanto se inclinava para a frente.
- Voc vai se vingar dele?
- Ainda temos contas a acertar.
Ele apontou para o gesso.
- E como pretende se vingar com o brao todo quebrado desse jeito, se no
conseguiu ontem, com os dois braos no lugar?
- Voc vai vir comigo. Primeiro vai me levar at em casa, para eu pegar outra
arma. Ento voc e eu vamos colocar um ponto final nessa histria.
Abee se recostou na cadeira.
- E por que eu iria querer fazer isso?
Ted o encarou firme, pensando no monte de perguntas ansiosas que seu irmo
havia feito antes.
- Porque a ltima coisa que ouvi antes de apagar foi Dawson dizendo que voc
era o prximo.

                                      10

Dawson estava correndo na areia compacta da orla, olhando sem muita ateno
as andorinhas-do-mar enquanto elas mergulhavam e emergiam das ondas.
Embora fosse cedo, a praia estava cheia de gente fazendo jogging e passeando
com seus cachorros e de crianas construindo castelos de areia. Para alm da
duna, os moradores estavam em suas varandas tomando caf, aproveitando a
manh, com seus ps apoiados no parapeito.
Ele tivera sorte de encontrar um quarto. Naquela poca do ano, os hotis na
praia costumavam estar lotados e foi s depois de muitos telefonemas que
conseguira uma vaga, por conta de um cancelamento. Suas opes eram achar
um hotel ali ou em New Bern. Mas, uma vez que o hospital ficava em New Bern,
decidiu que seria melhor ficar mais afastado. Teria que sumir por um tempo.
Suspeitava que Ted no fosse deixar aquilo passar em branco.
Por mais que se esforasse, no conseguia parar de pensar no homem de cabelos
pretos. Se no tivesse ido atrs dele, nunca teria descoberto que Ted estava 
espreita. O vulto - o fantasma - o chamara e ele o seguira, como havia feito no
mar depois da exploso da plataforma.
Os dois incidentes giravam incessantemente em seu crebro. Poderia ser iluso
pensar que algo tivesse salvado sua vida em uma ocasio, mas agora j eram duas.
Pela primeira vez, Dawson comeou a se perguntar se as visitas do homem de
cabelos pretos no fariam parte de um desgnio superior, como se ele tivesse sido
poupado por algum motivo, embora no soubesse ao certo qual.
Dawson apertou o passo tentando escapar desses pensamentos, sua respirao
ficando mais pesada. Tirou a camisa sem desacelerar e a usou como toalha no
rosto. Ento fixou o olhar no per ao longe e decidiu correr ainda mais rpido at
alcan-lo. Poucos minutos depois, sentia os msculos das pernas queimando.
Seguiu em frente, tentando se concentrar apenas em levar o corpo ao limite, mas
seus olhos no paravam de se desviar para os dois lados, inconscientemente
analisando os banhistas em busca do homem de cabelos pretos.
Chegou ao per, mas, em vez de desacelerar, manteve o ritmo at a frente do
hotel. Pela primeira vez em anos, terminou sua corrida sentindo-se pior do que
ao come-la. Estava to longe de qualquer resposta concreta quanto estivera
antes. Curvou-se para a frente, tentando recuperar o flego. No podia deixar de
notar uma mudana interior desde que chegara  cidade. Tudo ao seu redor
parecia diferente, mas de uma maneira inexplicvel. No por conta do homem
de cabelos pretos, de Ted ou da morte de Tuck. Tudo parecia mudado por causa
de Amanda. Ela no era mais uma simples lembrana. De uma hora para outra,
havia se tornado inegavelmente real - a verso viva e vibrante do passado que
Dawson nunca deixara para trs. Mais de uma vez, a jovem que ela fora o havia
visitado em sonhos, e ele se perguntava se isso mudaria. Como passariam a ser
seus sonhos com Amanda? No sabia ao certo. Tudo o que sabia era que estar
com ela o fazia sentir-se completo, de uma forma que poucas pessoas no mundo
poderiam compreender.
Aquele era o horrio mais calmo na praia. Os banhistas matinais voltavam para
seus carros e os turistas ainda no haviam chegado para estender suas toalhas na
areia. As ondas iam e vinham em um ritmo constante, emitindo seu som
hipntico. Dawson estreitou os olhos em direo  gua, seus pensamentos sobre
o futuro enchendo-o de desespero. Por mais que a amasse, precisava aceitar que
Amanda tinha marido e filhos. Havia sido muito difcil cortar laos uma vez.
Agora, a idia de tornar a faz-lo lhe parecia insuportvel. O vento ficou mais
forte, sussurrando no ouvido de Dawson que seu tempo com Amanda estava se
esgotando, e essa certeza o abateu. Ele caminhou para o saguo desejando com
todas as foras que as coisas pudessem ser diferentes.

Quanto mais caf Amanda bebia, mais fortalecida se sentia para lidar com a me.
Elas estavam na varanda dos fundos, que dava para um jardim. Sua me estava
sentada em uma cadeira de vime branca, com a postura ereta perfeita e vestida
como se estivesse  espera de uma visita do governador. Falava dos
acontecimentos da noite anterior e parecia sentir um imenso prazer em
descobrir crticas implcitas e conspiraes nos tons e palavras que as amigas
haviam usado durante o jantar e a partida de bridge.
Por causa do jogo, que se alongara bastante, em vez de passar uma ou duas horas
fora, Amanda tinha ficado l at quase as 22h30. E, mesmo quela hora, quando
ela j estava bocejando e no conseguia se concentrar no que a me falava,
nenhuma das outras mulheres queria ir embora. At o momento em que as
acompanhou, as conversas eram as que sempre havia por ali, ou em qualquer
cidade pequena, por sinal. O assunto variava entre os vizinhos, os netos, quem
estava dando aulas de catequese, qual a maneira adequada de pendurar
determinado modelo de cortina e como o preo da carne no parava de subir,
tudo isso temperado com uma pitada de fofocas inofensivas. Em outras palavras,
s trivialidades. Mas sua me sempre conseguia elevar a conversa ao nvel de um
debate de importncia nacional, por mais equivocada que estivesse. Era capaz de
encontrar defeitos ou tragdias at na arrumao de uma gaveta, e Amanda
sentia-se grata por ela s ter comeado sua ladainha depois que haviam tomado
uma xcara de caf.
No entanto, o fato de no conseguir tirar Dawson da cabea tornava mais difcil
se concentrar. Amanda tentava se convencer de que tinha tudo sob controle.
Mas por que no parava de visualizar os cabelos dele em destaque contra a gola
da camisa, ou de pensar em como ele ficava bonito de cala jeans, ou no fato de o
abrao dos dois assim que ele chegou ter sido to natural? Amanda estava casada
fazia tempo suficiente para saber que essas coisas no eram to importantes
quanto uma relao de amizade e confiana erguida com base em objetivos
comuns. Passar alguns dias juntos depois de mais de 20 anos no era o bastante
para que laos assim sequer comeassem a se formar. Leva tempo para construir
uma amizade verdadeira e a confiana se conquista passo a passo.
s vezes ela achava que as mulheres possuam uma tendncia a ver o que
queriam nos homens, pelo menos no comeo, e se perguntava se no estaria
cometendo esse erro. Enquanto refletia sobre essas perguntas irrespondveis, sua
me era incapaz de manter silncio. Em vez disso, tagarelava sem parar.
- Est me ouvindo? - perguntou a me, interrompendo seus pensamentos.
Amanda baixou a xcara.
-  claro que estou.
- Eu estava dizendo que voc deveria praticar seus lances.
- Fazia tempo que eu no jogava.
-  por isso que eu disse que deveria entrar para um clube ou fundar um -
incentivou ela. - Ou voc no escutou essa parte?
- Desculpe. Estou com muita coisa na cabea hoje.
- Ah, sim. A cerimoniazinha, no ?
Amanda ignorou a provocao, pois no estava a fim de discutir - o que, como
sabia muito bem, era exatamente o que a me procurava. Ela havia passado a
manh inteira se preparando para isso, usando as picuinhas imaginrias da noite
anterior como justificativa para a inevitvel intromisso.
- Eu lhe contei que Tuck queria que suas cinzas fossem espalhadas - explicou
Amanda, mantendo a voz calma. - A esposa dele, Clara, tambm foi cremada.
Talvez ele achasse que essa seria uma forma de se reencontrarem.
A me no pareceu lhe dar ateno:
- O que se deve vestir para uma ocasio dessas? Parece que faz tanta... sujeira.
Amanda se virou na direo do rio.
- No sei, mame. No pensei no assunto.
A expresso de sua me era to impassvel e artificial quanto a de um manequim.
- E as crianas? Como esto?
- No falei com Jared e Lynn esta manh. Mas creio que esteja tudo bem.
- E Frank?
Amanda bebericou seu caf para ganhar tempo. No queria falar nele. No
depois da discusso que haviam tido na noite anterior, a mesma que se tornara
quase parte do cotidiano dos dois, a mesma que ele muito provavelmente j teria
esquecido. A rotina era o que definia os casamentos, fossem eles bons ou ruins.
- Ele est bem.
A me assentiu, esperando por algo mais. Amanda ficou calada. Evelyn ajeitou o
guardanapo no colo antes de continuar:
- Ento, como vai ser? Voc vai simplesmente despejar as cinzas no lugar em que
ele pediu?
- Algo assim.
- No  preciso ter autorizao para isso? Eu detestaria pensar que as pessoas
podem fazer uma coisa dessas onde bem entenderem.
- O advogado no falou nada, ento acredito que j esteja tudo resolvido. De
qualquer forma, fiquei honrada por Tuck ter me includo nos planos dele.
A me se inclinou um pouco para a frente e abriu um sorriso irnico.
- Ah,  claro - disse. - Afinal, vocs eram muito amigos.
Amanda se virou, subitamente cansada de tudo aquilo: da me, de Frank, de
todas as mentiras que haviam passado a caracterizar sua vida.
- Sim, mame, ns ramos muito amigos. Eu gostava da companhia de Tuck. Ele
era uma das pessoas mais gentis que j conheci.
Pela primeira vez, a me pareceu desconcertada.
- Onde vai ser essa cerimnia?
- Por que quer saber? Est na cara que a senhora no aprova que eu faa isso.
- S estou puxando conversa - disse ela, fungando. - No precisa ser grosseira.
- Talvez eu soe grosseira porque estou sofrendo. Ou porque a senhora ainda no
disse nem uma palavra de solidariedade sobre toda essa situao. Sequer um
"Sinto muito pela sua perda. Sei como ele era importante para voc".  isso que
as pessoas costumam dizer quando uma pessoa morre.
- Talvez eu tivesse dito se soubesse sobre esse seu relacionamento, para incio de
conversa. Mas voc vem mentindo sobre o assunto desde o comeo.
- A senhora j parou para pensar que precisei mentir justamente por sua causa?
Sua me girou os olhos.
- No seja ridcula. No era eu quem ia l s escondidas e nunca coloquei palavras
na sua boca. A deciso foi sua, no minha, e toda deciso gera conseqncias.
Voc precisa aprender a assumir a responsabilidade pelas escolhas que faz.
- A senhora acha que no sei disso? - retrucou Amanda, sentindo o rosto ficar
vermelho.
- Acho - disse sua me, falando devagar - que s vezes voc  um pouco
egocntrica demais.
- Eu? - Amanda pestanejou. - A senhora acha que eu sou egocntrica?
-  claro - falou a me. - Todo mundo , at certo ponto. S estou dizendo que s
vezes voc abusa.
Amanda ficou olhando para o outro lado da mesa, pasma demais para dizer
qualquer coisa. O fato de a me - logo ela! - estar sugerindo aquilo s aumentava
sua indignao. No mundo de Evelyn, as outras pessoas nunca chegavam a ser
mais do que meros espelhos. Amanda escolheu as palavras seguintes com muito
cuidado:
- No acho que seja boa idia conversarmos sobre isso.
- Pois eu acho que  - retrucou a me.
- S porque eu no contei  senhora sobre Tuck?
- No - respondeu ela. - Porque acho que isso tem algo a ver com os problemas
que voc vem tendo com Frank.
Amanda sentiu que se encolhia de raiva por dentro e precisou de todas as foras
para manter o tom de voz e a expresso facial sob controle.
- O que faz a senhora pensar que estou tendo problemas com Frank?
A me manteve o tom de voz neutro, mas havia certa ternura nele:
- Conheo minha filha melhor do que parece e o fato de voc no ter negado s
prova que tenho razo. No fico chateada por voc preferir no falar sobre o que
est havendo. Isso  problema seu e de Frank e no h nada que eu possa fazer
ou dizer para ajudar. Ns duas sabemos disso. Casamentos so uma parceria, no
uma democracia. O que naturalmente nos leva a questionar o que voc vinha
fazendo na casa de Tuck todos esses anos. Se fosse para arriscar um palpite, diria
que voc no sentia apenas vontade de v-lo, mas uma necessidade de conversar,
de compartilhar algo com ele.
Evelyn deixou o comentrio no ar, sua sobrancelha um arco interrogativo, e
Amanda tentou em silncio absorver aquele impacto. A me ajeitou o
guardanapo mais uma vez e prosseguiu:
- Bem, imagino que voc ainda estar aqui no jantar. Prefere comer em casa ou
fora?
- Ento  assim? - explodiu Amanda. - A senhora despeja suas suposies e
acusaes e encerra o assunto?
A me entrelaou as mos no colo.
- No encerrei o assunto.  voc quem se recusa a falar sobre ele. Mas, no seu
lugar, eu pensaria sobre o que realmente quero, porque, quando voc voltar para
casa, vai ter que tomar algumas decises sobre seu casamento. Ou ele tem
salvao ou no tem. E, em grande parte, quem vai determinar isso  voc.
Havia uma verdade cruel em suas palavras. No fim das contas, o que estava em
questo no era ela e Frank, mas sim seus filhos. De repente, Amanda ficou
exausta. Largando sua xcara no pires, sentiu a raiva se esvair, deixando apenas
uma sensao de derrota.
- A senhora se lembra da famlia de lontras que costumava brincar perto do nosso
cais? - perguntou ela enfim, sem esperar por uma resposta.
- Quando eu era pequena? Papai me pegava no colo sempre que elas apareciam e
me levava para os fundos. Ns nos sentvamos na grama e ficvamos observando
as lontras nadarem e brincarem na gua. Eu achava que elas eram os animais
mais felizes do mundo.
- No entendo o que isso tem a ver com o assunto...
- Vi lontras de novo - continuou Amanda, atropelando a fala da me.
- Ano passado, quando fomos  praia nas frias, visitamos o aqurio de Pine Knoll
Shores. Eu estava louca para ver as novas lontras que estavam vivendo l. Devo
ter contado vrias vezes a Annette sobre as lontras que apareciam atrs da nossa
casa e ela mal podia esperar para v-las tambm, mas, quando finalmente
chegamos ao aqurio, no foi como quando eu era criana. As lontras estavam l,
 claro, mas ficaram s dormindo em cima de uma pedra. Passamos horas no
aqurio e elas nem ao menos se mexeram. Quando estvamos saindo, Annette
me perguntou por que elas no estavam brincando e eu no soube o que
responder. Mas depois me senti... triste. Eu sabia muito bem a resposta.
-E...?
Ela correu o dedo pela borda de sua xcara de caf antes de encarar a me.
- Elas no estavam felizes. As lontras sabiam que no estavam em um rio de
verdade. Provavelmente no compreendiam como aquilo havia acontecido, mas
pareciam entender que estavam em uma jaula e que no tinham como sair.
Aquela no era a vida que deveriam, ou queriam, levar, mas no havia nada que
pudessem fazer a respeito.
Pela primeira vez desde que elas haviam sentado  mesa, a me parecia no saber
bem o que dizer. Amanda afastou sua xcara antes de se levantar. Enquanto saa
da varanda, ouviu a me pigarrear. Ela se virou.
- Imagino que essa histria signifique alguma coisa, no? - perguntou Evelyn.
Amanda abriu um sorriso cansado.
- Sim - falou baixinho. - Significa.

                                       11

Dawson baixou a capota do Stingray e se recostou no porta-malas para esperar
por Amanda. O ar estava pesado e abafado, prenunciando tempestade para o
incio da noite, e ele se perguntou se Tuck no teria um guarda-chuva em algum
lugar da casa. Ele duvidava. Era to difcil imaginar Tuck usando um guarda-
chuva quanto imagin-lo de vestido, mas sabe-se l. Tuck era um homem cheio
de surpresas, como ele havia descoberto.
Uma sombra atravessou o cho e Dawson ficou observando uma guia-pescadora
descrever crculos lentos e preguiosos no cu at que o carro de Amanda
finalmente surgiu no caminho de acesso. O cascalho fazia barulho ao ser
esmagado pelos pneus enquanto ela estacionava na sombra perto dele.
Amanda saiu do carro, surpreendendo-se com a cala preta e a camisa branca
bem passada que Dawson estava usando, uma combinao que sem dvida
funcionava. Com o palet jogado casualmente sobre o ombro, ele estava quase
bonito demais, o que s tornava mais profticas as palavras de sua me. Ela
respirou fundo, perguntando-se o que iria fazer.
- Estou atrasada? - disse, andando em sua direo.
Dawson a observou se aproximar. Mesmo a alguns metros de distncia, os raios
de sol da manh faziam seus olhos azul-claros parecerem as guas de um lago
lmpido. Ela usava um terninho preto, blusa de seda e um medalho de prata.
- Nem um pouco - ele respondeu. - Cheguei cedo para garantir que o carro
estivesse pronto.
- E...?
- A pessoa que o consertou sabia muito bem o que estava fazendo.
Amanda sorriu enquanto se aproximava dele e ento, num impulso, lhe deu um
beijo no rosto. Dawson pareceu no saber como reagir e sua confuso se tornou
um reflexo da de Amanda quando ela tornou a ouvir o eco das palavras da me.
Tentando escapar dele, Amanda apontou para o carro.
- Voc baixou a capota?
A pergunta o fez voltar a si.
- Achei que poderamos ir nele.
- Mas o carro no  nosso.
- Eu sei - falou ele. - Mas preciso dar uma volta nele para ter certeza de que est
tudo em ordem. Acredite, o dono vai querer ter certeza de que o carro est
funcionando perfeitamente antes de sair com ele para uma noitada.
- E se ele quebrar?
- Isso no vai acontecer.
- Tem certeza?
- Absoluta.
Um sorriso brincou nos lbios de Amanda.
- Ento por que precisamos fazer um test drive?
Ele ergueu as mos, sem sada.
- Est bem, talvez eu s queira dirigi-lo.  praticamente um pecado deixar um
carro como este parado, sobretudo se levarmos em considerao que o dono no
vai saber e que as chaves esto bem aqui.
- E, deixe-me adivinhar, quando voltarmos, vamos ergu-lo em uns tijolos e
deix-lo em marcha a r, para a quilometragem retroceder, certo? Assim o dono
nunca ir desconfiar.
- Isso no funciona.
- Eu sei. Descobri depois de assistir a Curtindo a vida adoidado - disse ela com
um sorriso travesso.
Ele se inclinou um pouco para trs, vendo-a melhor.
- Voc est linda, por sinal.
Amanda sentiu o calor subir por seu pescoo e se perguntou se um dia iria parar
de ficar vermelha na presena dele.
- Obrigada - falou, colocando uma mecha de cabelo atrs da orelha enquanto o
analisava tambm, mantendo certa distncia entre os dois. - Acho que nunca vi
voc de terno.  novo?
- No, mas no costumo us-lo. S em ocasies especiais.
- Acho que Tuck teria aprovado - disse ela. - O que voc fez ontem  noite,
afinal?
Ele pensou em Ted e em tudo o que havia acontecido, inclusive a mudana para
a praia.
- Nada de mais. Como foi o jantar com sua me?
- Nem vale a pena comentar - respondeu Amanda. Ela estendeu a mo para
dentro do carro, correndo-a pelo volante antes de erguer os olhos para ele. - Mas
tivemos uma conversa interessante hoje de manh.
- Ah, ?
Ela assentiu.
- Me fez pensar sobre esses ltimos dias. Sobre mim mesma, sobre voc... sobre a
vida. Sobre tudo. E, enquanto estava vindo para c, percebi que estava feliz por
Tuck nunca ter lhe contado a meu respeito.
- Por que diz isso?
- Porque ontem, quando estvamos na oficina... - Ela hesitou, tentando encontrar
as palavras certas. - Acho que passei dos limites. Quero dizer, pela maneira como
agi. E quero pedir desculpas.
- Pelo qu?
-  difcil explicar. Quero dizer...
Ela no concluiu a frase, ento Dawson a observou por alguns instantes e, por
fim, se aproximou um passo.
- Voc est bem, Amanda?
- No sei - disse ela. - No sei de mais nada. As coisas eram muito mais simples
quando ns ramos jovens.
Ele hesitou.
- O que voc est tentando dizer?
Amanda tornou a erguer os olhos para ele.
- Voc precisa entender que no sou mais aquela adolescente - falou ela. - Agora
sou esposa e me e, como qualquer outra pessoa, no sou perfeita. Cometo erros,
questiono minhas decises, passo metade do tempo me perguntando quem sou
de verdade, ou o que estou fazendo, ou se minha vida tem algum sentido. No
sou nem um pouco especial, Dawson, e voc precisa saber disso. Precisa ver que
sou apenas... igual a todo mundo.
- Voc no  igual a todo mundo.
Ela parecia angustiada, mas no se deixou convencer.
- Sei que voc acredita nisso. Mas eu sou. E o problema  que no h nada de
simples nesta situao. No sei o que fazer. Mas gostaria que Tuck tivesse falado
sobre voc, para que eu pudesse estar preparada para este fim de semana. - Sem
perceber, Amanda tinha levado a mo ao medalho de prata. - No quero
cometer um erro.
Dawson se remexeu, jogando o peso para a outra perna. Entendia perfeitamente
por que ela estava dizendo aquilo. Era um dos motivos pelos quais ele sempre a
amara - mesmo que agora no pudesse dizer isso em voz alta. No era o que
Amanda queria ouvir. Em vez disso, ele manteve a voz o mais branda possvel.
- Ns conversamos, comemos, trocamos recordaes - assinalou ele. - Isso  tudo.
Voc no fez nada de errado.
- Ah, fiz sim. - Ela sorriu, mas no conseguiu esconder a tristeza. - No contei
para minha me que voc est aqui. Nem para meu marido.
- E quer contar? - perguntou ele.
Essa era a questo, no era? Sem nem ao menos se dar conta, sua me havia
perguntado a mesma coisa. Ela sabia o que deveria dizer, mas ali, naquele
momento, as palavras simplesmente no saam. Em vez disso, Amanda se viu
comeando a balanar lentamente a cabea.
- No - sussurrou por fim.
Dawson pegou sua mo, como se houvesse compreendido o medo que a invadira.
- Vamos at Vandemere - falou ele. - Prestar nossa homenagem a Tuck, OK?
Ela assentiu e se deixou levar pela gentileza do toque de Dawson, sentindo outra
parte de si mesma ceder, comeando a aceitar o fato de que, dali para a frente, j
no teria controle total sobre o que acontecesse.

Dawson a conduziu at o outro lado do carro e abriu a porta. Amanda se sentou,
sentindo-se zonza enquanto Dawson pegava no carro alugado a urna que
continha as cinzas de Tuck. Antes de entrar, ele a encaixou no espao atrs do
banco do motorista, junto com seu palet. Amanda pegou o mapa e colocou sua
bolsa atrs do prprio assento.
Dawson pisou em um dos pedais e girou a chave, fazendo o motor despertar com
um rugido. Ele acelerou o carro por alguns segundos, o giro do motor subindo e
o veculo vibrando de leve. Ento engatou a marcha, saiu de r da oficina e
seguiu devagar pela estrada principal, tendo o cuidado de evitar os buracos. O
som do motor diminuiu enquanto eles atravessavam Oriental e pegavam a
rodovia silenciosa.
Quando Amanda comeou a relaxar, percebeu que podia ver tudo o que
precisava com o canto do olho. Dawson estava com uma das mos no volante,
uma postura dolorosamente familiar para ela: era assim que se lembrava dele nos
passeios que costumavam fazer. E era nesses momentos que Dawson mais
relaxava. Amanda percebeu que ainda era assim que ele se sentia ao trocar as
marchas, os msculos do antebrao enrijecendo no movimento para em seguida
se soltarem.
 medida que o carro ganhava velocidade, o vento agitava o cabelo de Amanda,
ento ela o prendeu em um rabo de cavalo. O barulho era alto demais para
permitir que eles conversassem, mas isso no a incomodava. Sentia-se feliz por
estar sozinha com os prprios pensamentos, sozinha com Dawson. A cada
quilmetro que ficava para trs, sua ansiedade se dissipava um pouco, como se o
vento a soprasse para longe.
Apesar de a estrada estar vazia, Dawson manteve uma velocidade constante. No
estava com pressa. Ela tampouco. Amanda estava em um carro com o homem
que um dia amara, indo a um lugar que ambos desconheciam. Poucos dias atrs,
refletiu ela, a possibilidade dessa viagem teria lhe parecido absurda. Aquilo era
inimaginvel, uma loucura, mas tambm era empolgante. Por alguns instantes,
ela deixava de ser esposa, me ou filha e, pela primeira vez em anos, sentia-se
quase livre.
Mas Dawson sempre fizera com que ela se sentisse assim e, quando ele colocou
um cotovelo para fora da janela, Amanda lanou um olhar em sua direo
tentando pensar em algum que se parecesse ao menos um pouco com ele. Havia
um ar de inteligncia nele e dor e tristeza gravadas nas rugas que envolviam os
cantos de seus olhos. Ela se viu imaginando que tipo de pai Dawson teria sido.
Um dos bons, suspeitava. Era fcil imagin-lo jogando bola com um filho por
horas ou tentando fazer uma trana no cabelo de uma filha, mesmo que no
tivesse a menor idia de como faz-lo. Havia algo de estranhamente tentador e
proibido nesse pensamento.
Ento, quando Dawson lhe devolveu o olhar, Amanda teve certeza de que era
nela que ele estava pensando. Perguntou-se quantas noites ele teria feito o
mesmo na plataforma de petrleo. Dawson, como Tuck, era dessas raras pessoas
que s conseguem amar uma vez - e a nica coisa que a separao podia fazer
com esse sentimento era torn-lo mais forte. Dois dias atrs, pensar nisso teria
sido desconcertante, mas agora ela entendia que, para Dawson, essa tinha sido a
nica escolha. Afinal de contas, o amor sempre diz mais sobre quem o sente do
que sobre a pessoa amada.
Uma brisa comeou a soprar do sul, trazendo o cheiro do mar, e Amanda fechou
os olhos, entregando-se ao momento. Quando finalmente chegaram aos
arredores de Vandemere, Dawson desdobrou o mapa que Amanda lhe dera e
correu os olhos por ele antes de simplesmente menear a cabea.
Com seus cento e poucos habitantes, Vandemere estava mais para um vilarejo do
que para uma cidade. Amanda viu algumas poucas casas afastadas da estrada e
uma pequena mercearia com uma bomba de gasolina na frente. No minuto
seguinte, Dawson estava pegando um caminho de terra batida. Amanda no
imaginava como ele teria enxergado aquela trilha sulcada - a vegetao alta
tornava quase impossvel v-la da rodovia -, mas eles comearam a segui-la,
dobrando com cautela uma curva e depois outra, desviando de rvores
derrubadas por tempestades e atravessando o terreno ligeiramente ngreme. O
motor, que soava to alto na rodovia, parecia quase mudo agora, seu barulho
abafado pela vegetao densa que os rodeava. A trilha se estreitava ainda mais 
medida que eles seguiam em frente, os galhos baixos cobertos de barbas-de-
velho roando no carro ao longo do caminho. Com suas flores viosas e
indomadas, as azaleias competiam com as trepadeiras pela luz do sol,
obscurecendo a viso dos dois lados.
Dawson se inclinou para mais perto do volante, fazendo manobras sutis  medida
que seguia devagar, tomando cuidado para no arranhar a pintura. O sol havia
mergulhado atrs de outra nuvem, escurecendo o mundo verdejante ao redor.
Fizeram duas curvas consecutivas e ento a trilha se alargou um pouco.
- Que loucura - falou ela. - Tem certeza de que estamos indo na direo certa?
- De acordo com o mapa, sim.
- Por que to afastado da estrada principal?
Dawson encolheu os ombros, to intrigado quanto ela. Assim que dobraram a
ltima curva, ele freou o carro por instinto, ambos descobrindo subitamente a
resposta.

                                       12

O caminho terminava em uma pequena cabana antiga aninhada em um bosque
de carvalhos. Uma varanda de pedra emoldurava a construo e, subindo por
uma de suas colunas brancas, as trepadeiras ganhavam o telhado. A pintura tinha
comeado a descascar e os caixilhos das janelas, a escurecer. Havia uma cadeira
de metal em um dos cantos da varanda e, acrescentando cor quele mundo
verde, via-se um pequeno vaso de gernios.
Mas os olhos dos dois foram inevitavelmente atrados pelas flores silvestres.
Milhares delas num jardim multicolorido que se estendia quase at os degraus de
entrada da cabana - um mar de vermelho, laranja, prpura, azul e amarelo que se
erguia quase at a cintura de uma pessoa e tremulava  brisa suave, com centenas
de borboletas revoando, como uma onda de cores sob o sol. Quase invisvel em
meio aos lrios e palmas-de-santa-rita, uma cerca de ripas de madeira delimitava
o jardim.
Maravilhada, Amanda olhou para Dawson e tornou a olhar para as flores.
Parecia uma iluso, o paraso imaginrio de algum. Ela se perguntou como e
quando Tuck havia planejado aquele lugar, porm, mesmo naquele instante, teve
certeza de que ele havia plantado aquelas flores silvestres para Clara. Tuck as
plantara para expressar quanto a esposa era importante para ele.
-  incrvel - falou ela, sem flego.
- Voc sabia disto? - A voz de Dawson refletia seu deslumbramento.
- No - respondeu Amanda. - Isto era algo s deles dois.
Ao falar essas palavras, ela visualizou com nitidez uma imagem de Clara sentada
na varanda enquanto Tuck se recostava em uma coluna, deleitando-se com a
beleza inebriante do jardim de flores silvestres. Dawson finalmente tirou o p do
freio e o carro seguiu adiante em direo  casa, as cores se mesclando como
gotas de tinta vivas banhadas pelo sol.
Depois de estacionarem perto da cabana, eles desceram do carro e continuaram a
assimilar a cena. Podia-se ver um caminho estreito e sinuoso em meio s flores.
Fascinados, os dois adentraram aquele oceano de cores sob o cu salpicado de
nuvens. O sol ressurgiu por trs de uma delas e Amanda pde sentir seu calor
espalhar o perfume ao redor. Todos os seus sentidos pareciam aguados, como se
aquele dia tivesse sido criado especialmente para ela.
Enquanto andavam lado a lado, Dawson pegou a mo de Amanda. Ela permitiu,
pensando em como aquilo parecia natural. Sentindo sua pele, ela imaginou os
anos de trabalho que estavam gravados em seus calos. Pequenos cortes haviam
deixado cicatrizes nas palmas de suas mos, mas seu toque era
surpreendentemente suave, e de repente Amanda teve certeza de que Dawson
tambm teria cultivado um jardim como aquele para ela, se soubesse que isso a
deixaria feliz.
Para sempre. Era o que ele havia entalhado na bancada de Tuck. Uma promessa
adolescente, nada mais que isso, porm, de alguma forma, ele havia conseguido
mant-la viva. Amanda sentia a fora daquelas palavras agora, preenchendo a
distncia entre os dois enquanto eles passavam pelas flores. Uma trovoada
roncou muito longe e ela teve a estranha sensao de que o barulho a estava
chamando, incitando-a a ouvir.
Seu ombro roou o dele, fazendo seu pulso acelerar.
- Ser que estas flores crescem sozinhas todos os anos ou ele precisava seme-las?
- ponderou Dawson.
O som da voz dele resgatou Amanda de seu devaneio.
- Algumas crescem, outras precisam ser plantadas - respondeu ela, sua voz
soando estranha aos prprios ouvidos. - Conheo algumas dessas espcies.
- Ento ele veio aqui este ano? Para plantar mais flores?
- Deve ter vindo. Estou vendo alguns mios-maiores. Minha me os plantava l
em casa e eles morrem no inverno.
Eles passaram os minutos seguintes caminhando pela trilha enquanto Amanda
apontava as flores sazonais que conhecia: amarelinhas, liatris, ipomeias e steres,
intercaladas por outras perenes, como no-te-esqueas-de-mim, chapus-
mexicanos e papoulas-orientais. No parecia haver uma organizao formal no
jardim: era como se Deus e a natureza estivessem decididos a deix-lo como
queriam, quaisquer que fossem os planos de Tuck. De alguma forma, no entanto,
isso s aumentava sua beleza. E,  medida que atravessavam aquela aquarela
catica, tudo em que Amanda conseguia pensar era na felicidade que sentia por
Dawson estar ao seu lado compartilhando aquele momento.
O vento ficou mais forte, esfriando o ar e atraindo mais nuvens. Ela observou
Dawson olhar para o cu.
- Vai chover - comentou ele. -  melhor eu levantar a capota do carro.
Amanda assentiu, mas no largou sua mo. Parte dela temia que Dawson no
fosse voltar a peg-la, que a oportunidade no tornasse a surgir. Mas ele tinha
razo: as nuvens estavam escurecendo.
- Encontro voc l dentro - disse ele, parecendo to relutante quanto Amanda ao
soltar lentamente seus dedos.
- Voc acha que a porta est destrancada?
- Eu apostaria que sim - falou Dawson, sorrindo. - J volto.
- Pode trazer minha bolsa?
Ele assentiu e, enquanto Amanda o observava se afastar, lembrou-se de que,
antes de namorar e amar Dawson, havia se apaixonado por ele. Tudo tinha
comeado como uma paixonite infantil, do tipo que a fazia escrever o nome dele
nos cadernos da escola, quando deveria estar fazendo o dever de casa. Ningum
sabia, talvez nem mesmo Dawson, que eles no tinham se tornado parceiros de
laboratrio na aula de qumica por acidente. Quando o professor mandou que os
alunos formassem duplas, ela pediu para ir ao banheiro e, quando voltou,
Dawson era, como sempre, o nico que restava. Suas amigas lanaram-lhe
olhares de piedade, mas ela estava empolgada por poder passar algum tempo com
aquele garoto calado e enigmtico que, de alguma forma, parecia maduro demais
para a idade.
Agora, enquanto ele baixava a capota do carro, era como se a histria se repetisse
e Amanda sentia aquela mesma empolgao. Havia algo em Dawson que se
comunicava somente com ela, uma conexo da qual Amanda havia sentido falta
durante os anos que os dois passaram separados. E ela sabia que, em certo
sentido, havia esperado por ele, assim como Dawson a esperara.
No conseguia imaginar nunca mais voltar a v-lo, no poderia permitir que
Dawson se tornasse apenas uma lembrana. O destino - na forma de Tuck -
interviera e,  medida que comeava a andar em direo  cabana, Amanda teve
certeza de que havia um motivo. Tudo aquilo precisava significar algo. Afinal de
contas, o passado ficara para trs. S lhes restava o futuro.

Conforme Dawson previra, a porta da frente estava destrancada. Ao entrar na
pequena casa, a primeira coisa que passou pela cabea de Amanda foi que aquele
havia sido o espao de Clara.
Apesar de ter o mesmo piso desgastado, as mesmas paredes de madeira e no geral
se parecesse com a casa de Oriental, ali havia almofadas de cores vivas em cima
do sof e fotografias em preto e branco dispostas com esmero pelas paredes. As
tbuas do revestimento das paredes tinham sido bem lixadas e pintadas de azul-
claro e as janelas grandes permitiam que a luz natural inundasse o ambiente.
Havia duas estantes brancas embutidas, repletas de livros e entremeadas com
bibels de porcelana, algo que Clara obviamente colecionara ao longo dos anos.
Uma colcha detalhada feita  mo fora posta sobre o encosto de uma poltrona e
no havia um s vestgio de poeira nas mesas de canto rsticas. Abajures de p se
erguiam em dois lados da sala e uma verso menor da fotografia de aniversrio
de casamento estava perto do rdio em um dos cantos.
s suas costas, Amanda ouviu Dawson entrar na cabana. Ele ficou parado em
silncio na porta, segurando seu palet e a bolsa de Amanda, aparentemente sem
palavras.
Ela tambm no conseguia esconder o prprio espanto.
- Impressionante, no?
Dawson aos poucos assimilou o que via.
- S tem uma coisa: ser que estamos na casa certa?
- No se preocupe - disse ela, apontando para a fotografia. -  aqui mesmo. Mas
est na cara que este era o cantinho de Clara, no dele.  que Tuck nunca mudou
nada aqui.
Dawson dobrou o palet sobre o espaldar de uma cadeira, pendurando nela a
bolsa de Amanda.
- No me lembro de ter visto a casa de Tuck to limpa assim. Imagino que Tanner
tenha contratado algum para arrumar o lugar para ns.
 claro que sim, pensou Amanda. Ela se lembrou de Tanner mencionando os
planos de ir at l e as instrues de que eles s fizessem a viagem no dia
seguinte  reunio. A porta destrancada apenas confirmava suas suspeitas.
- J viu o resto da casa? - perguntou ele.
- Ainda no. Estava ocupada demais tentando descobrir onde Clara deixava que
Tuck se sentasse para fumar.  bvio que no era aqui dentro.
Ele apontou com o polegar por cima do ombro, na direo da porta aberta.
- O que explica a cadeira na varanda. Devia ser ali.
- E ser que continuou assim mesmo depois que Clara morreu?
- Ele provavelmente tinha medo de que o fantasma dela aparecesse e lhe desse
uma bronca se ele acendesse um cigarro dentro de casa.
Ela sorriu e eles foram conhecer o restante da cabana, esbarrando-se ao
atravessarem a sala de estar. Como na casa em Oriental, a cozinha ficava nos
fundos, com vista para o rio, mas, diferentemente da outra, tudo nesta lembrava
a esposa de Tuck, desde os armrios brancos e os arabescos intricados at o
pequeno mural de azulejos azuis e brancos na parede da pia. Havia uma chaleira
no fogo e um vaso de flores silvestres na bancada, obviamente colhidas do
jardim da frente. Uma mesa estava encostada na parede sob a janela e ali havia
duas garrafas de vinho, um branco e outro tinto, alm de duas taas impecveis.
- Ele est comeando a ficar previsvel - comentou Dawson ao ver as garrafas.
Amanda deu de ombros.
- No  o pior dos defeitos.
Eles admiraram a vista do rio Bay pela janela, nenhum dos dois dizendo mais
nada. Enquanto ficavam parados ali, Amanda se deleitou com o silncio e o
conforto que a familiaridade com Dawson lhe dava. Era possvel notar o ligeiro
subir e descer do peito dele  medida que respirava e ela precisou se conter para
no pegar sua mo. Ento, ainda calados, ambos deram as costas para a janela e
continuaram a percorrer a casa.
O quarto ficava logo em frente  cozinha e havia uma aconchegante cama com
dossel no centro dele. As cortinas eram brancas e a cmoda no lembrava em
nada os mveis com riscos e marcas que Tuck tinha em Oriental. Havia dois
abajures de cristal idnticos, um em cada criado-mudo, e um quadro
impressionista pendurado na parede oposta ao armrio.
Junto ao quarto, havia um toalete com uma banheira com ps de garra, do tipo
que Amanda sempre quisera ter. Um espelho antigo pendia sobre a pia e ela viu
seu reflexo ao lado do de Dawson. Era a primeira vez que via uma imagem dos
dois juntos desde que tinham voltado a Oriental. Ocorreu-lhe que, durante todo
o tempo de namoro na adolescncia, eles nunca haviam tirado uma foto juntos -
tiveram a idia, mas nunca chegaram a concretiz-la.
Amanda se arrependia agora, mas e se houvessem tirado uma foto como
lembrana? Ser que ela a teria guardado em uma gaveta e se esquecido de sua
existncia, para reencontr-la de tempos em tempos? Ou ser que a teria
mantido em algum lugar especial, que s ela conhecesse? Amanda no sabia,
mas, quando viu o rosto de Dawson ao lado do seu no espelho do banheiro, teve
uma inconfundvel sensao de intimidade. Havia tempos ningum fazia com
que se sentisse atraente, mas era assim que ela se sentia naquele momento. Sabia
da atrao que havia entre os dois. Deleitava-se com a maneira como o olhar
dele viajava pelo seu corpo e com a fluidez graciosa dos movimentos de Dawson.
Percebia, com toda a clareza, que eles se entendiam de forma quase instintiva.
Por mais que tivessem se reencontrado fazia poucos dias, Amanda confiava nele
e sabia que poderia lhe contar tudo. Sim, eles tinham discutido durante o jantar
naquela primeira noite e tambm a respeito da famlia Bonner, mas existia uma
honestidade pura e simples em tudo o que diziam. No havia significados ocultos
nem tentativas veladas de julgar o outro. Com a mesma rapidez com que
surgiram, os desentendimentos tinham passado.
Amanda continuou a analisar Dawson pelo espelho. Ele se virou e notou seu
olhar no reflexo. Sem deixar de encar-la, estendeu a mo e, com um toque
suave, afastou uma mecha de cabelo que cara sobre os olhos dela. E ento saiu,
deixando-a com a certeza de que, quaisquer que fossem as conseqncias, sua
vida j havia sido irrevogavelmente alterada, de uma maneira que ela jamais
poderia ter imaginado.

Depois de pegar sua bolsa na sala, Amanda foi encontrar Dawson na cozinha. Ele
havia aberto uma garrafa de vinho e servido duas taas. Entregou-lhe uma e os
dois se encaminharam em silncio para a varanda. As nuvens negras no
horizonte tinham se aproximado, trazendo consigo uma leve neblina. No aclive
cercado de rvores que conduzia ao rio, a folhagem assumia um tom de verde
escuro e vibrante.
Amanda ps o vinho de lado e mexeu em sua bolsa, retirando dois envelopes.
Entregou a Dawson o que trazia o nome dele e apoiou o outro, que deveria ser
lido antes da cerimnia, no colo. Dawson dobrou o dele e o enfiou no bolso de
trs da cala.
Amanda lhe estendeu o envelope em branco.
- Est pronto?
- Na medida do possvel.
- Quer abrir? Devemos ler antes da cerimnia.
- No, abra voc - disse ele, aproximando sua cadeira. - Eu leio daqui. Amanda
levantou a beirada do lacre e abriu com cuidado o envelope. Ao desdobrar a
carta, ficou impressionada com os garranchos na pgina. Aqui e ali, as palavras
estavam riscadas e as linhas tortas exibiam um tremor que refletia a idade de
Tuck. A carta era longa - trs folhas, frente e verso - e ela se perguntou quanto
tempo Tuck teria demorado escrevendo-a. Era datada daquele ano, 14 de
fevereiro, Dia dos Namorados no pas. De certo modo, parecia apropriado.
- Vamos? - perguntou ela.
Quando Dawson assentiu, Amanda se inclinou para a frente e os dois comearam
a ler.
Amanda e Dawson,
Obrigado por virem. E obrigado por fazerem isto por mim. No saberia a quem
mais pedir.
No sou muito de escrever, ento imagino que a melhor maneira de comear seja
dizendo a vocs que esta  uma histria de amor. Minha e de Clara, quero dizer,
e, embora eu pudesse aborrec-los dando todos os detalhes de nosso namoro e
dos primeiros anos do casamento, nossa verdadeira histria - aparte que vocs
vo querer ouvir - comeou em 1942. quela altura, estvamos casados fazia trs
anos e j havamos perdido nosso primeiro beb. Eu sabia quanto Clara sofria
com isso, e eu tambm sofria, pois no havia nada que pudesse fazer. As
dificuldades afastam alguns casais. Outros, como ns, aproximam-se mais ainda
por conta delas.
Mas estou divagando. Acontece bastante quando se fica mais velho, por sinal.
Um dia vocs iro descobrir.
Como disse, o ano era 1942 e, para comemorar nosso aniversrio de casamento,
fomos assistir a Idlio em d-r-mi, com Gene Kelly e Judy Garland. Nenhum de
ns dois tinha ido ao cinema antes, e precisamos ir at Raleigh para isso. Quando
tudo acabou e as luzes se acenderam, ns simplesmente continuamos sentados,
pensando no filme. Duvido que vocs o tenham visto, e no pretendo aborrec-
los com os detalhes, mas  sobre um homem que se mutila para no ser mandado
 Primeira Guerra Mundial e ento precisa reconquistar a mulher que ama, que
passa a consider-lo um covarde. Na poca, eu tinha recebido uma convocao
do Exrcito, ento me identifiquei com algumas partes da histria, porque
tambm no queria deixar minha esposa e partir. Mas nenhum de ns dois
queria pensar no assunto. Em vez disso, ficamos conversando sobre a cano
principal do filme, "For Me and My Gal". Ns a cantamos durante todo o
percurso de volta para casa. Uma semana depois, eu me alistei na Marinha.
 meio estranho, j que, como eu disse, o Exrcito havia me chamado e, sabendo
o que sei agora, talvez tivesse sido melhor, levando em conta meu trabalho e o
fato de que no sabia nadar. Talvez eu acabasse indo parar na oficina, fazendo
manuteno dos caminhes e jipes que rodariam pela Europa. Afinal de contas, o
Exrcito no pode fazer muita coisa se seus veculos no estiverem funcionando,
certo? Mas, embora no passasse de um rapaz do interior, eu sabia que o Exrcito
colocava voc onde fosse preciso, no aonde voc quisesse ir, e quela altura
todos sabiam que era apenas uma questo de tempo at atacarmos a Europa de
vez. Iriam precisar de homens em terra e, por mais empolgante que fosse a idia
de enfrentar Hitler, a perspectiva de entrar para a infantaria simplesmente no
me agradava.
Na seo de alistamento, havia um pster da Marinha mostrando um homem
sem camisa recarregando um canho. Algo naquela imagem repercutiu em mim.
Posso fazer isso, pensei com meus botes. Ento, em vez de ir at a mesa do
Exrcito, fui at a da Marinha e me alistei. Quando voltei para casa, Clara chorou
por horas afio . Depois me fez prometer que voltaria vivo. E eu prometi.
Passei pelo treinamento bsico e, em novembro de 1943, fui mandado para o
USS Johnson, um destrier que estava no Pacfico. Nunca acreditem se algum
lhes disser que  mais perigoso estar no Exrcito ou nos Fuzileiros Navais do que
na Marinha. Ou mais aterrorizante. Na Marinha, sua capacidade no adianta de
nada, porque voc fica  merc do navio. Se ele afundar, voc morre. Se voc
cair no mar, morre - ningum vai se arriscar a parar para resgat-lo. No h para
onde correr ou como se esconder e, depois que a idia de que voc no tem
controle sobre nada entra na sua cabea, ela no sai mais. Nunca senti tanto
medo na vida. Bombas e fumaa por toda parte, incndios no convs. Enquanto
isso, os canhes eram disparados, um barulho que no se parecia com nada que
eu tivesse ouvido antes, umas 10 vezes mais forte que uma trovoada, mas talvez
nem isso seja suficiente para descrev-lo. Nas grandes batalhas, os caas
japoneses metralhavam o convs sem parar e os disparos ricocheteavam por todo
lado. No meio disso tudo, tnhamos que continuar fazendo nosso trabalho, como
se nada estivesse acontecendo.
Em outubro de 1944, estvamos perto da ilha de Samar, preparando-nos para a
invaso das Filipinas. Tnhamos 13 embarcaes, o que pode parecer muito, mas,
tirando o porta-avies, nossa frota era composta basicamente de destrieres e
navios de escolta, de modo que no contvamos com muito poder de fogo. E
ento, no horizonte, vimos o que parecia ser a Marinha japonesa inteira vindo
em nossa direo. Quatro encouraados, oito cruzadores e 11 destrieres
dispostos a nos mandar para o fundo do oceano. Mais tarde ouvi algum dizer
que foi como Davi contra Golias, exceto por no termos a atiradeira. E foi
basicamente isso mesmo. Nossas armas nem sequer conseguiam alcan-los
quando eles abriram fogo. Ento o que deveramos fazer, sabendo que no
tnhamos a menor chance?
Ns partimos para o combate. Fomos direto para cima deles. O nosso foi um dos
primeiros navios a comear a disparar, o primeiro a lanar bombas e torpedos, e
afundamos um cruzador e um encouraado. Fizemos bastante estrago em outros
tambm, mas dois cruzadores inimigos se aproximaram e comearam a disparar.
Como estvamos na linha de frente, no resistimos e fomos os primeiros de nossa
frota a ir a pique. Havia 327 homens a bordo e naquele dia 186 morreram -
alguns deles, grandes amigos meus.
Aposto que esto se perguntando o porqu de eu contar isso. Devem estar
pensando que divaguei de novo, ento talvez seja melhor ir direto ao ponto. No
bote salva-vidas, com toda aquela batalha acontecendo ao nosso redor, percebi
que no sentia mais medo. De repente, tive a certeza de que ficaria bem, porque
sabia que minha histria com Clara ainda no havia terminado, e fui invadido
por uma sensao de paz. Podem chamar de trauma de guerra se quiserem, mas
sei do que estou falando e, naquele momento, debaixo de um cu que era s
exploses e fumaa, lembrei-me do nosso aniversrio de casamento e comecei a
cantar "For Me and My Gal", exatamente como Clara e eu tnhamos feito no
carro voltando de Raleigh. Simplesmente cantei a msica a plenos pulmes,
como se no tivesse absolutamente nada com que me preocupar, pois sabia que,
de alguma forma, Clara iria me ouvir e entender que podia ficar tranqila. Eu
havia feito uma promessa a ela e nada, nem mesmo naufragar no Pacfico, me
impediria de cumpri-la.
 loucura, eu sei. Mas, como disse, fui salvo. Acabei sendo transferido para um
navio de transporte de tropas. Quando me dei conta, a guerra tinha acabado e eu
estava em casa. No falei sobre a guerra depois de voltar. No conseguia. Nem
uma s palavra. Era simplesmente doloroso demais e Clara entendia isso, de
modo que, pouco a pouco, voltamos a nossas vidas. Em 1955, comeamos a
construir esta cabana. Fiz tudo praticamente sozinho. Uma tarde, logo depois de
encerrar os trabalhos do dia, me aproximei de Clara quando ela estava tricotando
 sombra. Ela cantava "For Me and My Gal".
As lembranas da batalha invadiram minha mente e eu congelei. Nunca contara
 minha esposa o que tinha acontecido na balsa naquele dia e fazia anos que no
pensava naquela cano. Mas Clara deve ter notado algo em mim, porque ergueu
os olhos e disse: "Do nosso aniversrio, lembra? Nunca lhe contei, mas uma
noite, quando voc estava na Marinha, eu tive um sonho."Ento voltou a tricotar
e acrescentou: "Eu estava em um campo de flores silvestres e, embora no
conseguisse ver voc, eu o ouvia cantar essa msica para mim. Quando acordei,
no sentia mais medo. At ento, eu tinha muito medo de que voc no
voltasse."
Eu fiquei parado ali, abismado. "No foi um sonho", falei enfim. Clara apenas
sorriu e eu tive a sensao de que ela j esperava por aquela resposta. "Eu sei.
Como disse, ouvi voc cantar", falou. Depois disso, a idia de que Clara e eu
tnhamos uma ligao especial e muito forte - espiritual at, alguns diriam -
nunca me abandonou.
Alguns anos mais tarde, decidi fazer o jardim e a trouxe aqui no nosso
aniversrio para mostr-lo a ela. No era grande coisa na poca, nada parecido
com o que  agora, mas ela jurou que era o lugar mais bonito do mundo. No ano
seguinte, eu arei um pouco mais de terra e plantei mais sementes, o tempo todo
cantarolando nossa msica. Fiz a mesma coisa todos os anos, at o dia em que
Clara faleceu. Ento eu espalhei suas cinzas aqui, no lugar que ela amava.
Mas fiquei arrasado depois que ela se foi. Tinha raiva de tudo, bebia demais e me
perdia aos poucos. Parei de arar a terra, de seme-la ou de cantar porque Clara
estava morta e eu no via motivo para viver. Odiava o mundo e no queria
continuar nele. Mais de uma vez, pensei em me matar. Mas ento Dawson
apareceu. Foi bom t-lo por perto. De certa forma, ele me ajudou a lembrar que
eu ainda pertencia a este mundo, que minha misso aqui no havia terminado.
Mas a ele tambm foi tirado de mim.
Foi quando, depois de anos, voltei a este lugar. No era a poca certa, mas
algumas flores continuavam abertas e, embora at hoje no saiba bem o porqu,
quando cantei nossa msica meus olhos se encheram de lgrimas. Eu chorei por
Dawson, imagino, mas tambm chorei por mim. Porm, acima de tudo, chorei
por Clara.
Naquela mesma noite, tudo comeou. Quando voltei para casa, vi Clara pela
janela da cozinha. Embora o som fosse baixinho, pude ouvi-la cantarolando
nossa cano. Mas sua imagem era indistinta, como se no estivesse exatamente
ali, e quando sa ela j havia desaparecido. Ento voltei para a cabana e
recomecei a arar a terra. E tornei a ver minha esposa, dessa vez na varanda. Dali
a poucas semanas, depois que plantei as sementes, ela passou a vir com
freqncia e consegui me aproximar mais um pouco antes que sua imagem
desaparecesse. Quando as flores desabrocharam, fui para o jardim e caminhei por
entre elas. Naquele dia, ao voltar para casa, eu a vi com toda a nitidez. Clara
estava parada na varanda, esperando por mim, como se perguntasse por que eu
havia demorado tanto para entender o que estava acontecendo. E, desde ento,
tem sido assim.
Ela  parte das flores, entendem ? Suas cinzas as ajudaram a crescer e, quanto
mais elas cresciam, mais minha esposa retornava  vida. Enquanto eu
continuasse a cultiv-las, Clara conseguiria encontrar uma maneira de voltar
para mim.
Ento  por esse motivo que vocs esto aqui e que lhes peo que faam isso por
mim. Este  o nosso lugar, um cantinho do mundo onde o amor torna tudo
possvel. Acho que vocs dois entendero isso melhor do que ningum.
Agora chegou o momento de eu me unir a Clara, de cantarmos juntos
novamente. Chegou a minha hora e no tenho arrependimentos. Estou junto de
minha esposa outra vez e este  o nico lugar em que desejaria estar. Espalhem
minhas cinzas ao vento e sobre as flores e no chorem por mim. Em vez disso,
sorriam por ns, sorriam de alegria por mim e pelo meu amor.
Tuck

Dawson se inclinou para a frente, apoiando os antebraos sobre as pernas.
Tentava imaginar Tuck escrevendo aquela carta. No se parecia em nada com o
homem lacnico e bronco que o acolhera. Aquele era um Tuck que Dawson
nunca havia conhecido, uma pessoa totalmente estranha.
A expresso no rosto de Amanda era de ternura quando ela dobrou novamente a
carta, tomando todo o cuidado para no rasg-la.
- Conheo essa cano - disse ela depois de guardar a carta na bolsa. - Cheguei a
ouvir Tuck cant-la uma vez, sentado em sua cadeira de balano. Quando lhe
perguntei a respeito dela, ele no respondeu nada. Em vez disso, colocou-a para
tocar.
- Na casa dele? Ela assentiu.
- Lembro-me de ter pensado que era o tipo de msica que ficava na cabea, mas
Tuck s fechou os olhos e pareceu... perdido nela. Quando acabou, ele se
levantou e guardou o disco. Na poca eu no soube o que pensar daquilo, mas
agora entendo. - Ela se virou para Dawson. - Ele estava chamando Clara.
Dawson girou devagar sua taa de vinho.
- Voc acredita? Que ele via Clara?
- Antes, eu duvidava. No acreditava totalmente, pelo menos. Agora j no tenho
certeza.
Uma trovoada ressoou ao longe, lembrando-os novamente do que tinham ido
fazer ali.
- Acho que est na hora - falou Dawson.
Amanda se levantou e, juntos, eles desceram em direo ao jardim. O vento no
mudara, mas a neblina estava ainda mais espessa. A manh cristalina dera lugar a
uma tarde que refletia o peso melanclico do passado.
Assim que Dawson buscou a urna, eles pegaram o caminho que conduzia ao
centro do jardim. Os cabelos de Amanda ondulavam ao vento e Dawson a
observou correr os dedos por eles, tentando mant-los sob controle. Eles
chegaram ao meio do jardim e pararam.
Dawson sentia o peso da urna nas mos.
- Deveramos dizer alguma coisa - murmurou ele.
Quando Amanda assentiu, ele comeou a falar primeiro, fazendo um tributo ao
homem que lhe dera abrigo e amizade. Amanda, por sua vez, agradeceu a Tuck
por ser seu confidente e disse que havia passado a am-lo como a um pai.
Quando terminaram, quase como se aproveitasse a deixa, o vento ficou mais
forte, e Dawson abriu a tampa da urna.
As cinzas saram voando, rodopiando sobre as flores, e, enquanto observava a
cena, Amanda no pde deixar de pensar que Tuck estava procurando por Clara,
chamando-a uma ltima vez.

Eles voltaram para a casa e ficaram alternando momentos de silncio com
comentrios de suas lembranas de Tuck. L fora, a chuva havia comeado a cair.
Era firme, mas no muito forte: uma delicada chuva de vero que parecia uma
bno.
Quando ficaram com fome, decidiram enfrentar a chuva, pegando o Stingray e
voltando at a rodovia pela trilha sinuosa. Poderiam ter retornado para Oriental,
mas preferiram seguir para New Bern. Encontraram um restaurante chamado
Chelsea perto do centro histrico. Estava quase vazio quando chegaram, mas, ao
sarem, no havia uma nica mesa livre.
Assim que a chuva parou por alguns instantes, eles foram passear pelas caladas
silenciosas da cidade, visitando as lojas que ainda estavam abertas.
Enquanto Dawson dava uma olhada nos livros de um sebo, Amanda aproveitou
para telefonar para casa. Conversou primeiro com Jared e Lynn antes de falar
com Frank. Ligou tambm para a me, deixando uma mensagem na secretria
eletrnica avisando que talvez se atrasasse e pedindo-lhe que deixasse a porta
destrancada. Ela desligou ao ver que Dawson se aproximava, sentindo uma
pontada de tristeza ao pensar que aquele dia estava quase chegando ao fim.
Como se lesse seus pensamentos, ele lhe ofereceu o brao e Amanda se apoiou
nele enquanto os dois retornavam lentamente para o carro.
Quando voltaram  estrada, a chuva caa novamente. Assim que atravessaram o
rio Neuse, a neblina ficou mais espessa, esgueirando-se alm da floresta. Os
faris mal iluminavam a estrada e as rvores pareciam absorver a pouca luz que
restava. Em meio  escurido mida e nebulosa, Dawson seguiu dirigindo mais
devagar.
A gua caa em um ritmo constante sobre a capota e Amanda se viu pensando
naquele dia. Mais de uma vez durante o jantar, havia surpreendido Dawson
olhando para ela, porm, em vez de ficar constrangida, desejou que ele no
parasse.
Ela sabia que isso era errado. Sua vida no permitia esse tipo de desejo; a
sociedade tampouco o tolerava. Amanda poderia tentar v-lo como uma
conseqncia de outros acontecimentos em sua vida, mas sabia que no era
verdade. Dawson no era um estranho que ela havia encontrado por acaso: era
seu primeiro amor, o nico verdadeiro e o mais duradouro de todos.
Frank ficaria arrasado se soubesse o que ela estava pensando. E, apesar dos
problemas que tinham, ela sabia que amava o marido. No entanto, mesmo que
nada acontecesse - mesmo que Amanda fosse para casa  noite -, ela sabia que a
presena de Dawson continuaria a assombr-la. Embora seu casamento estivesse
atribulado fazia anos, no era uma questo de ela estar em busca de consolo em
outra pessoa. Era Dawson - e o ns que existia sempre que estavam juntos - que
tornava tudo aquilo ao mesmo tempo natural e inevitvel. No conseguia deixar
de pensar que a histria dos dois ainda estava inacabada, que ambos estavam
esperando para escrever o final.
Depois de passarem por Bayboro, Dawson desacelerou o carro. A prxima curva
na direo sul levava a Oriental. Mas, caso continuassem em linha reta,
voltariam a Vandemere. Dawson estava prestes a fazer a curva, e,  medida que
se aproximavam do cruzamento, cada vez mais ela tinha vontade de lhe dizer
que seguisse em frente. No queria acordar no dia seguinte imaginando se
voltaria a v-lo algum dia. Essa idia era aterrori- zante, mas, por algum motivo,
as palavras no saam de sua boca.
No havia mais ningum na estrada. gua escorria do asfalto em direo s valas
rasas dos dois lados da rodovia. Quando chegaram ao cruzamento, Dawson pisou
de leve no freio e, para surpresa de Amanda, parou o carro.
Os limpadores do para-brisa jogavam a gua de um lado para outro. Gotas de
chuva cintilavam sob a luz dos faris. Com o motor em ponto morto, Dawson se
virou para ela, o rosto coberto pelas sombras.
- Sua me deve estar esperando por voc.
O corao de Amanda batia cada vez mais rpido.
- Sim - assentiu ela, sem dizer mais nada.
Dawson passou um bom tempo somente olhando para ela, analisando-a, vendo
toda a esperana, o medo e o desejo nos olhos que fitavam os seus. Ento, com
um breve sorriso, virou o rosto de volta para o para-brisa. O carro recomeou
lentamente a seguir rumo a Vandemere e nenhum dos dois teve vontade - ou foi
capaz - de impedir que isso acontecesse.

No houve nenhum constrangimento quando chegaram de volta  porta da
cabana. Amanda foi at a cozinha enquanto Dawson acendia as luzes. Ela tornou
a encher suas taas de vinho, sentindo-se ao mesmo tempo inquieta e
secretamente entusiasmada.
Na sala de estar, Dawson girou o seletor do rdio at encontrar um jazz antigo e
deixou o volume baixo. Pegou um dos velhos livros da prateleira acima do rdio
e estava folheando suas pginas amareladas quando Amanda se aproximou dele
com o vinho. Devolvendo o livro a seu lugar na prateleira, Dawson pegou a taa
e a seguiu at o sof. Ficou observando enquanto ela tirava os sapatos.
-  to silencioso - falou Amanda. Pousando a taa na mesa de canto, ela puxou
as pernas para cima e abraou os joelhos. - D para entender por que Tuck e
Clara queriam ficar aqui.
A luz tnue da sala de estar emprestava um qu de mistrio aos seus traos, e
Dawson pigarreou.
- Voc acha que vai voltar aqui algum dia? - perguntou ele. - Depois deste fim de
semana, quero dizer?
- No sei. Se tivesse certeza de que continuaria desta forma, sim. Mas sei que no
vai, porque nada dura para sempre. E parte de mim quer se lembrar deste lugar
como ele est hoje, com todas as flores desabrochadas.
- Isso sem falar na casa limpa.
- Isso tambm - concordou ela, pegando o vinho e girando-o na taa. - Mais cedo,
quando as cinzas estavam se espalhando, sabe no que fiquei pensando? Na noite
que passamos no cais observando a chuva de meteoros. No sei por qu, mas de
repente foi como se eu estivesse l. Pude ver ns dois deitados na manta,
sussurrando um para o outro e escutando as cigarras, aquele eco perfeito,
melodioso. E, acima de ns, o cu estava to... vivo.
- Por que est me contando isso? - perguntou Dawson em um tom de voz gentil.
A expresso no rosto de Amanda era de melancolia.
- Porque foi naquela noite que descobri que o amava. Que estava completa e
perdidamente apaixonada. E acho que minha me percebeu que isso tinha
acontecido.
- Por que diz isso?
- Porque, na manh seguinte, ela me perguntou a seu respeito e, quando lhe
contei como eu me sentia, ns acabamos brigando. Foi uma briga feia, das piores
que j tivemos. Ela chegou at a me dar um tapa. Fiquei to chocada que no
soube como reagir. E, durante toda a discusso, ela ficava me dizendo como meu
comportamento era ridculo e que eu no sabia o que estava fazendo. Queria dar
a impresso de que o problema era voc, mas hoje sei que ela teria ficado irritada
mesmo se fosse qualquer outra pessoa. Porque o problema no era voc, ou ns
dois, ou mesmo a sua famlia. O problema era ela. Minha me sabia que eu estava
crescendo e tinha medo de perder o controle. No sabia como lidar com isso
naquela poca e no sabe at hoje. - Amanda tomou um gole de vinho e baixou a
taa, girando a haste entre os dedos. - Hoje de manh ela disse que sou
egocntrica.
- Ela est errada.
- Eu tambm achei - disse ela. - No incio, pelo menos. Agora no tenho certeza.
- Por qu?
- No estou agindo exatamente como uma mulher casada, estou?
Sem deixar de observ-la, ele manteve silncio, dando-lhe tempo para refletir
sobre o que dizia.
- Quer que eu a leve de volta? - perguntou por fim.
Ela hesitou antes de balanar a cabea.
- No - respondeu Amanda. - Essa  a questo. Quero ficar aqui, com voc.
Mesmo sabendo que  errado. - Seus olhos estavam abaixados, os clios negros
em destaque contra a pele. - Isso faz algum sentido?
Dawson correu um dedo ao longo das costas da mo de Amanda.
- Quer mesmo que eu responda?
- No - respondeu ela. - Acho que no. Mas ... complicado. O casamento, quero
dizer.
Dawson traava desenhos delicados em sua pele.
- Voc gosta de estar casada? - perguntou ele, a voz hesitante.
Em vez de responder de imediato, Amanda tomou outro gole de vinho,
recompondo-se.
- Frank  um bom homem. Na maior parte do tempo, pelo menos. Mas estar
casado no  exatamente como as pessoas pensam. Elas querem acreditar que
todo casamento  um equilbrio perfeito, mas no  assim. Uma pessoa sempre
ama mais do que a outra. Sei que Frank me ama e eu tambm o amo... mas no
tanto quanto ele. E nunca amei.
- Por que no?
- Voc no sabe? - disse ela, encarando-o. - Por sua causa. Mesmo quando
estvamos na igreja e eu me preparava para fazer meus votos, lembro-me de ter
desejado que fosse voc ali na minha frente, no ele. Porque no s eu ainda o
amava, como meu amor por voc no tinha limites, e mesmo naquele momento
eu suspeitei que nunca fosse me sentir da mesma forma em relao a Frank.
Dawson sentiu a boca ficar seca.
- Ento por que se casou com ele?
- Porque pensava que o que tnhamos seria suficiente. E tinha esperanas de
poder mudar. De que, com o tempo, talvez passasse a sentir por Frank o mesmo
que sentia por voc. Mas isso no aconteceu e, com o passar dos anos, imagino
que ele tenha percebido isso tambm. Eu sabia que isso o magoava, porm,
quanto mais Frank tentava me mostrar que eu era importante para ele, mais
sufocada eu me sentia. E eu odiava isso. E o odiava tambm. - Ela se encolheu ao
ouvir as prprias palavras. - Sei que devo parecer uma pessoa horrvel.
- Voc no  uma pessoa horrvel - falou Dawson. - S est sendo honesta.
- Deixe-me terminar, ento - disse ela. - Preciso que voc entenda isso. Voc
precisa saber que amo meu marido e dou muito valor  nossa famlia. Frank 
apaixonado pelas crianas. Sua vida gira em torno delas e acho que foi por isso
que perder Bea foi to difcil para ns. Voc no faz idia de como  terrvel ver
sua filha ficar cada vez mais doente e saber que no h nada que se possa fazer
para ajud-la. Voc acaba em uma verdadeira montanha-russa de emoes, sente
raiva de Deus, questiona a injustia de tudo aquilo, at que no fim se sente
devastado, um fracasso total. Mas acabei conseguindo sobreviver  dor. Frank,
por outro lado, nunca se recuperou. Porque, por trs de todos aqueles outros
sentimentos, o que existe  um desespero sem fim e ele simplesmente... esgota a
pessoa. Deixa um buraco onde antes ficava a alegria. Bea era isso. Ela era a
alegria em pessoa. Ns costumvamos brincar dizendo que ela j havia nascido
sorrindo. Mesmo quando beb, quase nunca chorava. E isso jamais mudou, ela
ria o tempo todo. Para Bea, qualquer novidade era uma descoberta empolgante.
Jared e Lynn costumavam competir pela ateno da irm. D para imaginar uma
coisa dessas?
Sua voz estava ficando mais embargada e ela se deteve um pouco antes de
prosseguir:
- E ento as dores de cabea comearam e ela passou a trombar nas coisas
enquanto andava. Ns consultamos uma srie de especialistas e, um por um, eles
foram dizendo que no podiam fazer nada. - Amanda engoliu em seco. - Depois
disso... as coisas s pioraram. Mas ela continuou sendo quem era, entende?
Simplesmente feliz. Mesmo perto do fim, quando mal conseguia se sentar
sozinha, ela ainda ria. Sempre que ouvia aquela risada, eu sentia meu corao se
partir um pouco mais.
Dawson esperou quando o olhar de Amanda vagou distrado em direo  janela
e ela se calou por um momento.
- No fim, eu passava horas deitada com Bea na cama, simplesmente abraando-a
enquanto ela dormia e, quando ela acordava, ns continuvamos deitadas,
olhando uma para a outra. Eu no conseguia desviar os olhos dela, queria
memorizar seu nariz, seu queixo, seus cachinhos. E quando ela voltava a dormir,
eu a abraava forte e s chorava, por causa da injustia daquilo tudo.
Lgrimas escorriam pelo rosto de Amanda, que piscou, aparentemente sem
perceb-las. No fez meno de sec-las, e Dawson tambm no. Em vez disso,
ele permaneceu imvel, atento a cada palavra.
- Depois que ela morreu, parte de mim tambm se foi. E, durante muito tempo,
Frank e eu mal conseguimos olhar um para o outro. No por raiva, mas porque
isso nos fazia sofrer. Eu via Bea nele e ele a via em mim e isso era... insuportvel.
Por pouco no desmoronamos, embora Jared e Lynn precisassem de ns mais do
que nunca. Comecei a beber duas ou trs taas de vinho todas as noites, tentando
me anestesiar, mas Frank bebia mais ainda. Depois de um tempo, percebi que
aquilo no estava me ajudando, ento parei. Mas, para Frank, no foi to fcil.
Uma lembrana das dores de cabea que sentia na poca ecoou na mente de
Amanda e, por instinto, ela parou de falar e apertou a ponte do nariz entre o
polegar e o indicador.
- Ele no conseguia parar - prosseguiu ela. - Achei que ter outro filho talvez
pudesse ajud-lo a vencer o sofrimento, mas estava enganada. Frank  alcolatra
e, ao longo dos ltimos 10 anos, tem levado uma vida pela metade. E eu cheguei
a um ponto em que no sei mais como devolver a ele a parte que falta.
Dawson engoliu em seco.
- No sei o que dizer.
- Eu tambm no. Queria poder me convencer de que isso no teria acontecido se
Bea estivesse viva. Mas a me pergunto se tambm no tenho minha parcela de
culpa. Porque venho fazendo Frank sofrer h anos, mesmo antes do que
aconteceu a Bea. Ele sabia que eu no o amava da mesma forma como ele sempre
me amou.
- A culpa no  sua - falou Dawson. Mas, at aos seus ouvidos, as palavras soaram
inadequadas.
Ela balanou a cabea.
-  gentileza sua dizer isso e, superficialmente, sei que tem razo. Mas, se a
bebida ainda  uma fuga para Frank, provavelmente  de mim que ele est
fugindo. Porque sabe da minha raiva e da minha decepo e que no poderia
apagar 10 anos de arrependimento, por mais que se esforasse. Quem no fugiria
de uma coisa assim? Sobretudo quando ela tem relao com a pessoa que voc
ama? Quando tudo o que voc quer, na verdade,  que ela ame voc tanto quanto
voc a ama?
- No faa isso - disse ele, fitando-a nos olhos. - Voc no pode assumir a culpa
dos problemas dele e torn-los seus.
- Voc est dizendo isso porque nunca foi casado - retrucou Amanda com um
sorriso torto. - Tudo o que sei  que quanto mais tempo a pessoa fica casada, mais
percebe que poucas coisas so preto no branco. E no estou dizendo que eu seja
culpada de todos os problemas do meu casamento. Sei que nem Frank nem eu
somos perfeitos.
- Isso parece algo que um analista diria.
- E talvez seja mesmo. Alguns meses depois da morte de Bea, passei a fazer
terapia duas vezes por semana. No sei como teria conseguido sobreviver sem a
ajuda da minha analista. Jared e Lynn tambm se trataram com ela, mas no por
tanto tempo. Imagino que as crianas se recuperem com mais facilidade.
- Eu no saberia dizer.
Ela descansou o queixo nos joelhos, a expresso em seu rosto refletindo sua
agonia.
- Nunca contei a Frank sobre ns dois.
-No?
- Ele sabia que eu havia namorado algum na escola, mas nunca falei sobre como
tinha sido srio. Acho que nem mesmo cheguei a dizer a ele o seu nome. E meus
pais,  bvio, fizeram de tudo para fingir que nada havia acontecido. Tratavam o
assunto como um segredo de famlia. Minha me,  claro, ficou aliviada quando
contei que estava noiva. No  que ela tenha se emocionado, porque ela no se
emociona com nada. Provavelmente acredita que est acima disso. Mas, se serve
de consolo para voc, tive que lembrar a ela o nome de Frank. Duas vezes. J o
seu...
Dawson riu, mas calou-se logo em seguida. Ela tomou um gole de vinho,
sentindo o calor da bebida descer pela garganta e mal notando a msica que
ainda tocava baixinho ao fundo.
- Tanta coisa aconteceu, no? Desde a ltima vez em que nos vimos - disse ela
com um fiapo de voz.
- A vida aconteceu.
- No foi s a vida.
- Do que voc est falando?
- De tudo isto: estar aqui, reencontrar voc. Faz pensar numa poca em que eu
ainda acreditava que todos os sonhos pudessem se tornar realidade. Faz muito
tempo que no me sinto assim. - Ela se virou para Dawson, seus rostos a
centmetros de distncia. - Voc acha que ns poderamos ter dado certo? Se
tivssemos sado daqui e comeado uma vida juntos?
-  difcil dizer.
- Mas e se tivesse que arriscar um palpite?
- Sim. Acho que teramos dado certo.
Ela assentiu, sentindo algo se quebrar dentro de si.
- Tambm acho.
L fora, uma ventania comeou a jogar rajadas de chuva contra a janela, como se
atirasse pedras. O rdio tocava msicas de outra poca, o som se misturando ao
ritmo da chuva. A quentura da sala a tornava um ninho, quase fazendo Amanda
acreditar que nada mais existisse.
- Voc era tmido - murmurou ela. - Mal falava comigo quando comeamos a
trabalhar em dupla na escola. Eu ficava jogando verde, esperando que voc me
convidasse para sair e me perguntando se um dia voc faria isso.
- Voc era bonita demais - falou Dawson, encolhendo os ombros. - Eu no era
ningum. Ficava nervoso ao seu lado.
- Ainda deixo voc nervoso?
- No - respondeu ele, pensando um pouco mais em seguida. Um sorriso discreto
surgiu em seu rosto. - Talvez um pouco.
Ela ergueu uma sobrancelha.
- Posso fazer alguma coisa quanto a isso?
Ele pegou a mo de Amanda e a virou de um lado para outro nas suas, notando
como elas pareciam se encaixar perfeitamente e lembrando-se mais uma vez do
que havia deixado para trs. Uma semana antes, ele estava contente. No
completamente feliz - talvez sentindo-se um pouco isolado mas contente. Sabia
quem era e qual seu lugar no mundo. Estava sozinho, mas por uma escolha
consciente e da qual, mesmo quela altura, no se arrependia. Sobretudo quela
altura. Porque ningum poderia ter substitudo Amanda, ningum jamais a
substituiria.
- Quer danar comigo? - perguntou ele afinal.
Ela respondeu com um sorriso tmido:
- Sim.
Ele se levantou do sof e, com delicadeza, a ajudou a fazer o mesmo.
Ela se colocou de p, suas pernas tremendo um pouco  medida que eles seguiam
juntos para o centro da pequena sala. A msica parecia preencher o ambiente de
nostalgia e, por um instante, nenhum dos dois soube o que fazer. Amanda
esperou, observando Dawson se virar para ela com uma expresso insondvel no
rosto. Por fim, colocando uma das mos no quadril de Amanda, ele a puxou para
perto. Seus corpos se encontraram e ela se apoiou nele, sentindo a solidez do
trax de Dawson  medida que seus braos enlaavam sua cintura. Bem devagar,
os dois comearam a dana.
Senti-lo to perto era delicioso. Amanda sorveu seu cheiro, to limpo e real -
exatamente como se lembrava. Percebia as pernas de Dawson encostando nas
suas e a rigidez de seu abdome contra seu corpo. Fechando os olhos repleta de
desejo, pousou a cabea no ombro dele, pensando na primeira noite em que
fizeram amor. Ela tremera naquela noite e tremia agora.
A cano terminou, mas eles continuaram abraados at que a msica seguinte
comeasse. Amanda sentia a respirao de Dawson contra seu pescoo e ouviu
quando ele soltou o ar como em um suspiro de alvio. Ele aproximou o rosto e
Amanda inclinou sua cabea para trs, entregando-se, desejando que aquela
dana durasse para sempre. Que eles dois durassem para sempre.
Os lbios de Dawson percorreram primeiro seu pescoo, ento roaram de leve
seu rosto e, embora pudesse ouvir um eco de alerta ao longe, ela se rendeu
quele toque delicado.
Eles ento se beijaram, hesitantes a princpio, depois mais apaixonadamente,
tentando compensar uma vida inteira separados. As mos dele percorriam o
corpo de Amanda e, quando eles finalmente se afastaram, ela se deu conta de
quanto tempo havia ansiado por aquilo. Encarou Dawson com os olhos
semicerrados, desejando-o por completo e naquele instante. O desejo que ele
sentia tambm estava claro e, com um gesto que pareceu quase coreografado,
Amanda beijou Dawson uma vez mais antes de lev-lo para o quarto.

                                     13

Abee se sentia morto. O dia tinha sido uma merda. Havia comeado uma merda,
depois a tarde e a noite foram uma merda e at o clima estava uma merda. Fazia
horas que chovia e sua camisa estava encharcada. Para completar, por mais que
se esforasse, no conseguia impedir os acessos de tremedeira e suor que vinham
um atrs do outro.
Dava para notar que Ted no estava muito melhor. Ao sair do hospital, mal
conseguira chegar ao carro sem cair. Mas isso no o impedira de ir direto para o
quarto dos fundos de seu barraco, onde guardava todas as armas. Eles as haviam
colocado na caminhonete antes de seguirem para a casa de Tuck.
O nico problema era que no havia ningum ali. Dois carros estavam
estacionados em frente  casa, mas no se via nem sinal de nenhum dos donos.
Abee sabia que Dawson e a mulher iriam voltar. No tinham alternativa, j que
os carros estavam ali. Ento ele e Ted se separaram e se acomodaram para
esperar.
E esperar. E esperar.
Eles tinham chegado no mnimo duas horas antes de a chuva comear a cair.
Depois de uma hora debaixo d'gua, Abee comeara a sentir calafrios. Todas as
vezes que vinha um tremor, a dor em sua barriga parecia que ia faz-lo desmaiar.
Por Deus, parecia mesmo que estava morrendo. Tentou pensar em Candy para
passar o tempo, mas isso s serviu para faz-lo se perguntar se o tal cara estaria
no bar naquela noite. Isso o enfureceu, fazendo-o tremer ainda mais e
recomeando todo o processo. Ele se perguntou onde Dawson haveria se metido
e o que estaria fazendo, para comeo de conversa. Nem sabia ao certo se
acreditava ou no no que Ted dissera a respeito do primo - na verdade, tinha
quase certeza de que duvidava -, mas resolvera ficar quieto quando notara a
expresso no rosto de Ted. Ele no iria desistir. E, pela primeira vez na vida,
Abee teve medo do que o irmo poderia fazer se ele dissesse para irem para casa.
Enquanto isso, Candy e o tal cara provavelmente estariam no bar. Os dois s
gargalhadas, distribuindo sorrisos um para o outro. S de imaginar, sua pulsao
disparava de raiva. Ento Abee sentiu outro lampejo de dor e, por um instante,
teve certeza de que desmaiaria. Ele iria matar aquele sujeito. Deus era
testemunha. Da prxima vez que o visse, iria mat-lo e depois se certificar de
que Candy aprendera as regras. S precisava resolver aquele assunto de famlia
antes, para que Ted pudesse ajud-lo. Afinal, no tinha a menor condio de
cuidar daquilo sozinho.

Outra hora se passou e o sol desceu mais um pouco no cu. Ted sentia vontade
de vomitar. Todas as vezes em que se movia, sua cabea parecia pronta para
explodir e seu brao j coava tanto debaixo do gesso que ele queria arrancar
aquela porcaria. No conseguia respirar direito por conta do inchao no nariz e
tudo o que queria era que Dawson aparecesse para que pudesse acabar de uma
vez por todas com aquela histria.
Pouco lhe importava se a animadora de torcida estivesse ou no com ele. No dia
anterior, havia se preocupado em no deixar testemunhas, mas a essa altura do
campeonato as coisas tinham mudado. Simplesmente esconderia o corpo dela
tambm. Talvez as pessoas acabassem deduzindo que os dois tinham fugido
juntos.
Mesmo assim, onde Dawson teria se metido? Onde poderia ter passado a droga
do dia inteiro? E chovendo, ainda por cima. Ted com certeza no se preparara
para isso. Abee tambm parecia estar com o p na cova. O cara estava
praticamente verde, mas Ted no poderia fazer aquilo sozinho. No com um
brao s e tendo a sensao de que o crebro estava solto dentro do crnio. Pelo
amor de Deus, s de respirar ele sentia dor. E, quando se movia, ficava to tonto
que precisava se escorar para no cair.
 medida que a noite caa e a nvoa chegava, Ted repetia para si mesmo que eles
voltariam a qualquer momento, mas estava ficando mais difcil se convencer
disso. Ele no comia nada desde o dia anterior e a tonteira aumentava.
s dez da noite, ainda no havia sinal deles. s onze tampouco. E nem mesmo 
meia-noite, com as estrelas se espalhando entre as nuvens como um manto de
luzes cintilantes no cu.
Ele estava com cibras e sentindo frio quando comeou a ter nsias de vmito.
Gelado, tremia descontroladamente.
Uma da manh e ainda nada. s duas, Abee finalmente se levantou, mal
conseguindo se manter de p. A essa altura, at Ted sabia que o casal no iria
voltar naquela noite, de modo que os dois se arrastaram em direo 
caminhonete. Ted mal se lembrava da viagem de volta ou de como Abee e ele
tiveram que se escorar um no outro enquanto percorriam aos tropeos o acesso 
casa de Tuck. Ao desabar na cama, a nica coisa que recordava era a raiva que
sentia. E, depois disso, tudo apagou.

                                       14

Quando acordou na manh de domingo, Amanda precisou de alguns segundos
para reconhecer onde estava e se lembrar da noite anterior. Pssaros cantavam l
fora e a luz do sol entrava pela pequena fresta entre as cortinas. Ela rolou
devagar na cama e ento descobriu que o espao ao seu lado estava vazio. Sentiu
uma pontada de decepo, seguida quase imediatamente por uma sensao de
perplexidade.
Sentando-se na cama, ela puxou o lenol contra o corpo enquanto olhava para o
banheiro e se perguntava onde Dawson poderia estar. Ao perceber que as roupas
dele no estavam ali, envolveu-se com o lenol e foi at a porta do quarto.
Espiando pelo vo, pde v-lo sentado nos degraus da varanda da frente. Voltou
para dentro, vestiu-se s pressas e entrou no banheiro. Penteou rapidamente os
cabelos e seguiu a passos leves em direo  porta da frente. Precisava conversar
com Dawson e certamente ele precisava conversar com ela.
Ele se virou ao ouvir a porta se abrir com um rangido. Sorriu para ela, a barba
por fazer emprestando-lhe um ar travesso.
- Ol - falou ele, um copo de isopor aninhado no colo, enquanto entregava outro
a ela. - Imaginei que fosse precisar de um pouco de caf.
- Onde comprou isso? - perguntou Amanda.
- Na loja de convenincia. Fica mais adiante na estrada. At onde sei,  o nico
lugar em Vandemere que vende caf. Mas no deve ser to bom quanto o que
voc tomou na sexta de manh.
Dawson ficou observando-a enquanto ela pegava o copo e se sentava ao seu lado.
- Dormiu bem?
- Dormi - respondeu ela. - E voc?
- No muito. - Ele encolheu de leve os ombros antes de desviar o olhar, voltando
a se concentrar nas flores. - A chuva finalmente parou - comentou.
- Eu percebi.
-  melhor eu lavar o carro quando voltarmos  casa de Tuck - disse ele. - Posso
ligar para Morgan Tanner, se voc quiser.
- No, eu ligo - falou ela. - Devemos nos falar, de qualquer maneira. - Amanda
sabia que aquela conversa sem sentido era apenas uma maneira de evitar o bvio.
- Voc no est bem, est?
Ele encurvou os ombros, mas ficou calado.
- Est chateado - sussurrou ela, sentindo um aperto no corao.
- No - respondeu ele, surpreendendo-a. Ento passou o brao ao seu redor. -
Nem um pouco. Por que estaria? - Dawson se inclinou para mais perto, beijando-
a com ternura antes de recuar lentamente.
- Olhe - comeou ela -, sobre ontem  noite...
- Sabe o que eu encontrei? - interrompeu ele. - Enquanto estava sentado aqui?
Ela balanou a cabea, confusa.
- Um trevo de quatro folhas - falou Dawson. - Bem aqui em frente aos degraus,
logo antes de voc acordar. - Ele lhe entregou a planta delicada dentro de um
pedao dobrado de papel. -  sinal de sorte. Pensei muito sobre isso esta manh.
Amanda notou uma inquietude na voz de Dawson e teve um mau
pressentimento.
- Do que voc est falando? - perguntou ela baixinho.
- De sorte, fantasmas, destino.
Suas palavras no diminuram em nada a confuso que Amanda sentia e ela ficou
observando enquanto ele tomava outro gole de caf. Dawson baixou o copo e seu
olhar se perdeu ao longe.
- Eu quase morri - disse ele enfim. - No sei. Talvez devesse ter morrido. A queda
em si deveria ter me matado. Ou a exploso. Droga, eu provavelmente deveria
ter morrido dois dias atrs...
Ele deixou a frase no ar, imerso em pensamentos.
- Voc est me assustando - disse ela enfim.
Dawson ajeitou a coluna, voltando sua ateno para Amanda.
- Houve um incndio na plataforma na primavera - comeou ele.
Ento lhe contou tudo: sobre o fogo que se transformara em um inferno no
convs, a queda na gua e o homem de cabelos pretos; que o estranho o
conduzira em direo ao colete salva-vidas, reaparecera usando o casaco azul e
em seguida sumira no navio de abastecimento. Falou de tudo o que havia
acontecido ao longo das semanas seguintes: a sensao de estar sendo vigiado e a
nova apario do homem na marina. Por fim, descreveu seu encontro com Ted
na sexta-feira, incluindo o inexplicvel surgimento (e subsequente
desaparecimento) do mesmo homem de cabelos pretos na mata.
Quando ele terminou, Amanda sentia seu corao acelerado enquanto tentava
compreender o que ouvira.
- Est me dizendo que Ted tentou matar voc? Que foi at a casa de Tuck com
uma arma para ca-lo e que voc no sentiu necessidade de sequer mencionar
isso ontem?
Dawson balanou a cabea com o que pareceu indiferena.
- J tinha resolvido o assunto.
Amanda notou que a prpria voz ficou mais alta.
- Voc larga seu primo na antiga propriedade da famlia e liga para Abee. Pega a
arma e desaparece com ela. Isso  resolver o assunto?
Ele parecia cansado demais para discutir.
- A famlia  minha - disse ele. -  assim que resolvemos as coisas.
- Voc  diferente.
- Eu sempre fui um deles - falou Dawson. - Sou um Cole, lembra? Eles vm, ns
brigamos, eles voltam depois. No sabemos fazer outra coisa.
- O que est dizendo? Que ainda no acabou?
- Para eles, no.
- Ento o que voc vai fazer?
- O mesmo de sempre. Tentar ao mximo me manter fora de vista, fazer de tudo
para ficar longe do caminho deles. No vai ser muito difcil. Alm de lavar o
carro e talvez dar outra passada no cemitrio, no tenho motivos para ficar por
aqui.
Um pensamento repentino, vago e indistinto a princpio, comeou a se cristalizar
na mente de Amanda, gerando os primeiros sinais de pnico.
- Foi por isso que no voltamos ontem  noite? - exigiu saber. - Porque voc
achou que eles poderiam estar na casa de Tuck?
- Tenho certeza de que estavam - falou ele. - Mas no, no  por isso que estamos
aqui. Nem pensei neles ontem. S passei um dia perfeito ao seu lado.
- No est com raiva deles?
- No muito.
- Como consegue fazer isso? Se desligar desse jeito, mesmo sabendo que eles esto
 sua procura? - A adrenalina invadia o corpo de Amanda. -  alguma idia louca
sobre seu destino por ser um Cole?
- No - respondeu ele, balanando a cabea de forma quase imperceptvel. - Eu
no pensei neles porque estava pensando em voc. E, desde que voc entrou na
minha vida, tem sido sempre assim. Eu no penso neles porque amo voc. No
h espao para as duas coisas.
Ela baixou o olhar.
- Dawson...
- No precisa dizer nada.
- Preciso, sim - insistiu Amanda, aproximando-se de Dawson, seus lbios
encontrando os dele.
Quando se separaram, as palavras saram to naturalmente quanto sua
respirao:
- Eu te amo, Dawson Cole.
- Eu sei - falou ele, deslizando o brao em volta da cintura de Amanda. - Eu
tambm te amo.
A tempestade havia arrancado a umidade do ar, deixando para trs um cu azul e
o doce perfume das flores. Um ou outro pingo d'gua ainda caa do telhado,
aterrissando nas samambaias e trepadeiras e fazendo-as cintilar sob a suave luz
dourada. Dawson continuava com o brao ao redor de Amanda, que saboreava a
presso do prprio corpo contra o dele.
Depois que Amanda embrulhou o trevo de volta e o guardou em seu bolso, eles
se levantaram e passearam pela propriedade, caminhando abraados.
Contornando o jardim - o caminho que haviam usado no dia anterior estava
lamacento -, eles deram a volta at os fundos. A casa ficava em cima de um
pequeno barranco. Para alm dele, estendia-se o rio Bay, quase to largo quanto
o Neuse.  beira do canal, eles viram uma gara-azul atravessando com suas
pernas altas a parte rasa e, um pouco mais adiante, um grupo de tartarugas que
tomava banho de sol em um tronco.
Eles ficaram ali por um tempo, absorvendo a cena, antes de voltarem devagar em
direo  casa. Na varanda, Dawson a puxou para perto, beijando-a mais uma
vez. Amanda o beijou invadida pela certeza de seu amor por ele. Quando enfim
se separaram, ela ouviu o som distante do toque de um celular. Era o seu
telefone, lembrando-a da vida que ela ainda tinha fora dali. Ao ouvir o som,
Amanda baixou a cabea, relutante, e Dawson fez o mesmo. Suas testas se
encontraram enquanto o toque persistia, e Amanda fechou os olhos. Depois do
que pareceu uma eternidade, o telefone silenciou. Ela abriu os olhos e encarou
Dawson, esperando que ele entendesse.
Ele assentiu e estendeu a mo para a porta, abrindo-a para ela. Amanda entrou
na casa, virando-se ao entender que ele no iria segui-la. Depois de observ-lo
sentar-se no degrau, forou-se a ir em direo ao quarto. Pegou sua bolsa e fisgou
o celular. Havia dezenas de chamadas perdidas.
Sentiu-se enjoada imediatamente, sua cabea a mil por hora. Foi para o banheiro,
arrancando as roupas no caminho. Por instinto, fez uma lista mental do que
precisava fazer, do que iria dizer. Ligou o chuveiro e vasculhou os armrios em
busca de xampu e sabonete, felizmente encontrando os dois. Entrou debaixo
d'gua, tentando se livrar da sensao de pnico. Em seguida, enxugou-se e
tornou a vestir suas roupas, secando os cabelos da melhor forma possvel. Por
fim, aplicou com cuidado a pouca maquiagem que sempre carregava consigo.
Andou depressa pelo quarto, arrumando-o. Fez a cama e colocou os travesseiros
de volta no lugar. Depois pegou a garrafa de vinho, derramou o resto do
contedo na pia e a jogou na lixeira. Parou, pensando em peg-la de volta e lev-
la, mas a deixou onde estava. Apanhou as taas quase vazias de cima das mesas
de canto. Enxaguou-as, depois as secou e guardou no armrio da cozinha.
Ocultando as provas.
Mas ainda havia os telefonemas. As chamadas perdidas. As mensagens.
Ela teria que mentir. Contar a Frank onde havia passado a noite estava fora de
questo. No conseguia suportar a idia do que seus filhos poderiam pensar. Ou
sua me. Amanda precisava consertar aquilo. De certa forma, precisava consertar
tudo, no entanto, por trs desse pensamento, uma voz persistente sussurrava a
seguinte pergunta: Viu o que voc fez?
Vi. Mas eu o amo, respondia outra voz.
Parada ali, tomada de emoo, Amanda teve vontade de chorar. E talvez tivesse
chorado, se, no instante seguinte, prevendo sua angstia, Dawson no entrasse
na pequena cozinha. Ele a tomou nos braos e sussurrou novamente que a
amava. Ento, por um breve instante, por mais impossvel que parecesse, ela
sentiu que tudo daria certo.

Os dois ficaram calados durante o trajeto de volta a Oriental. Dawson percebia a
ansiedade de Amanda e sabia que era melhor no dizer nada, mas segurava com
fora o volante.
A garganta de Amanda parecia irritada, mas ela sabia que era s nervosismo. O
fato de Dawson estar ao seu lado era a nica coisa que a impedia de desmoronar.
Sua mente ia de lembranas e planos a sentimentos e preocupaes, um
caleidoscpio que mudava a cada curva da estrada. Imersa em pensamentos, ela
mal notava os quilmetros que ficavam para trs.
Chegaram a Oriental pouco depois do meio-dia e passaram pela marina. Em
alguns minutos, estavam pegando o acesso  casa de Tuck. Amanda notou
vagamente que Dawson havia ficado tenso, inclinado sobre o volante enquanto
vasculhava as rvores que ladeavam a trilha. Cauteloso, at. Os primos, pensou
ela. Mas, quando o carro comeou a desacelerar, o rosto de Dawson assumiu uma
expresso de incredulidade.
Acompanhando seu olhar, Amanda se virou em direo  casa. Ela e a oficina
pareciam estar como antes e os carros continuavam estacionados no mesmo
lugar. Porm, quando viu o que Dawson j havia notado, ela percebeu que no
sentia quase nada. Sabia, desde o incio, que isso poderia acontecer.
Dawson diminuiu a velocidade e parou o carro. Amanda se virou para ele com
um sorriso frgil, tentando assegurar que poderia dar conta daquilo.
- Ela deixou trs mensagens - falou Amanda, encolhendo os ombros com
impotncia.
Dawson assentiu, entendendo que ela precisaria enfrentar aquilo sozinha. Depois
de respirar fundo, Amanda abriu a porta e saiu do carro, nem um pouco surpresa
ao ver que a me parecia ter se dado o trabalho de se vestir de acordo com a
ocasio.

                                      15

Dawson ficou observando Amanda seguir direto para a casa, permitindo que a
me a seguisse se quisesse. Evelyn pareceu no saber o que fazer. Era bvio que
nunca havia estado na casa de Tuck antes - e no seria seu destino ideal se voc
estivesse com terninho creme e colar de prolas, principalmente depois de uma
tempestade. Hesitante, ela olhou na direo de Dawson. Encarou-o firme, o
rosto impassvel, como se reagir  sua presena fosse indigno dela.
Por fim, deu meia-volta e seguiu a filha at a varanda. A essa altura, Amanda j
tinha sentado em uma das cadeiras de balano. Dawson voltou a dar partida no
carro e seguiu lentamente em direo  oficina.
Uma vez l, saiu do veculo e se recostou na bancada. No podia imaginar o que
Amanda diria  me e, de onde estava, j no conseguia v-las. Enquanto corria
os olhos pela oficina, algo atiou sua memria, algo que Morgan Tanner tinha
falado durante a reunio em seu escritrio. Ele dissera que Amanda e Dawson
saberiam quando ler as cartas que Tuck lhes escrevera. De repente, ele teve
certeza de que o amigo iria querer que ele lesse a sua naquele momento.
Provavelmente havia previsto o desenrolar dos acontecimentos.
Enfiando a mo no bolso de trs da cala, Dawson pegou o envelope. Passou o
dedo sobre seu nome ao desdobr-lo. O garrancho trmulo era o mesmo que ele
e Amanda haviam notado na carta que leram juntos. Virou o envelope e o abriu.
Diferentemente da carta anterior, aquela ocupava apenas a frente e o verso de
uma pgina. No silncio da oficina que um dia fora seu lar, Dawson se
concentrou nas palavras e comeou a ler.

Dawson,
No sei como exatamente comear esta carta, a no ser dizendo-lhe que, ao
longo dos anos, passei a conhecer Amanda muito bem. Gostaria de pensar que
ela no mudou desde a primeira vez em que a vi, mas no posso afirmar isso.
Naquela poca, vocs dois eram bastante reservados e, como a maioria dos
jovens, paravam tudo o que estivessem fazendo quando eu aparecia. Isso no me
incomodava, por sinal. Clara e eu tambm ramos assim. Duvido que o pai dela
tenha sequer ouvido minha voz antes de nos casarmos, mas essa  outra histria.
O que quero dizer  que no sei quem ela era, mas sei quem ela  hoje em dia, e
digamos apenas que agora entendo por que voc nunca conseguiu esquec-la.
Amanda  uma pessoa muito bondosa. Tem muito amor, muita pacincia, alm
de ser inteligente que s e uma das coisas mais bonitas que j andaram pelas ruas
desta cidade, isso eu garanto. Mas acho que  sua gentileza que mais me encanta,
pois estou neste mundo h tempo suficiente para saber como essa  uma
qualidade rara.
Duvido que esteja dizendo algo que voc no saiba, mas, durante os ltimos
anos, passei a consider-la uma filha. Isso significa que devo falar com voc
como talvez o pai dela tivesse falado, pois um pai no serve de muita coisa se no
se preocupar um pouco. Principalmente com ela. Acima de tudo, voc precisa
entender que Amanda est sofrendo - e acredito que esteja sofrendo h muito
tempo. Percebi isso na primeira vez em que ela veio me visitar e torci para que
fosse apenas uma fase, porm, quanto mais ela vinha, pior parecia estar. De vez
em quando eu acordava e a via zanzando pela oficina, ento comecei a entender
que voc era parte do que fazia com que ela ficasse daquela forma. Amanda
estava sendo assombrada pelo passado, assombrada por voc. Mas acredite
quando digo que nossas lembranas so curiosas. s vezes so fiis, mas outras
vezes se transformam no que queremos que sejam. E acho que,  sua maneira,
Amanda estava tentando descobrir o que o passado realmente significava para
ela. Foi por isso que me dei o trabalho de armar este fim de semana. Tinha um
palpite de que rever voc seria a nica maneira de Amanda encontrar a sada
dessa escurido.
Mas, como disse, ela est sofrendo. E se aprendi algo nesta vida  que, quando as
pessoas sofrem, nem sempre conseguem ver as coisas com a clareza que
deveriam. Amanda chegou a um momento da vida em que precisa tomar
algumas decises e  a que voc entra. Vocs dois tm que resolver o que vai
acontecer a seguir, mas no se esquea de que talvez ela necessite de mais tempo
do que voc. Talvez at mude de idia algumas vezes. Mas, quando finalmente se
decidir, ambos precisam aceitar essa deciso. E, se por algum motivo as coisas
no derem certo entre vocs, ento voc no poder mais olhar para trs. Seno,
no fim das contas, isso vai destru-lo. E a Amanda tambm. Nenhum de vocs
pode seguir adiante arrependido, pois o arrependimento suga a vida de qualquer
pessoa. S de pensar nisso, sinto meu corao se partir. Afinal, se passei a
considerar Amanda uma filha, tambm passei a consider-lo um filho. E, se
tivesse direito a apenas um desejo antes de morrer, seria saber que vocs dois,
minhas duas crianas, encontraro uma maneira de ficar bem.
Tuck

Amanda ficou observando a me testar as tbuas deterioradas do assoalho da
varanda como se temesse que elas fossem ceder sob seus ps. Evelyn tornou a
hesitar diante da cadeira de balano, avaliando se haveria realmente necessidade
de se sentar. Amanda sentiu o cansao de sempre ao v-la baixando o corpo com
cuidado at a cadeira.
Evelyn se ajeitou no assento de modo a toc-lo o mnimo possvel. Uma vez
acomodada, virou-se para encarar a filha, aparentemente disposta a esperar que
ela falasse primeiro, mas Amanda ficou quieta. Sabia que nada do que dissesse
poderia tornar aquela conversa mais fcil, de modo que manteve o olhar
afastado, observando o sol tremeluzir ao atravessar a copa das rvores.
Finalmente, sua me girou os olhos.
- Francamente, Amanda. Pare de agir como criana. No sou sua inimiga. Sou sua
me.
- Eu sei o que a senhora vai dizer - replicou Amanda em tom monocrdio.
- Pode at ser, mas, ainda assim,  responsabilidade dos pais alertar os filhos
quando eles cometem erros.
-  isso que a senhora acha que est acontecendo? - perguntou Amanda com
rispidez, estreitando os olhos em direo  me.
- O que mais seria? Voc  uma mulher casada.
- A senhora acha que no sei disso?
- Certamente no est agindo como se soubesse - disse ela. - Voc no  a
primeira mulher no mundo a ficar infeliz com o casamento. E nem a primeira a
reagir a essa infelicidade. A diferena  que continua a achar que a culpa  de
outra pessoa.
- Do que a senhora est falando?
As mos de Amanda apertaram com fora os braos da cadeira de balano.
- Voc culpa as pessoas, Amanda. - falou a me, torcendo o nariz. - Culpa a mim,
a Frank e, depois de Bea, culpou at Deus. Busca em toda parte a causa dos
problemas em sua vida, exceto no espelho. Em vez disso, anda por a se sentindo
uma mrtir. "Pobre Amanda, lutando contra tudo e contra todos em um mundo
to cruel." A verdade  que o mundo no  fcil para ningum. Nunca foi e
nunca ser. Mas, se fosse honesta consigo mesma, voc entenderia que tambm
no  completamente inocente nessa histria toda.
Amanda cerrou os dentes.
- E eu aqui tendo esperanas de que a senhora fosse capaz do mnimo de empatia
e compreenso. Parece que me enganei.
-  isso mesmo que acha? - perguntou Evelyn, puxando um fio imaginrio da
roupa. - Ento me diga: o que eu deveria lhe falar? Deveria segurar sua mo e lhe
perguntar como est se sentindo? Mentir dizendo que tudo vai ficar bem? Que
no haver conseqncias, mesmo que consiga manter Dawson em segredo? -
Ela se deteve. - Sempre existem conseqncias, Amanda. Voc tem idade mais
do que suficiente para saber disso. Preciso mesmo lembr-la?
Amanda obrigou-se a manter a voz firme:
- A senhora no est me entendendo.
- Quem no est me entendendo  voc. No me conhece to bem quanto pensa.
- Eu conheo a senhora, mame.
- Ah, sim, claro. E eu sou incapaz do mnimo de empatia ou compreenso. - Ela
tocou o brinco de diamante em sua orelha. - Sendo assim, deveramos nos
perguntar por que eu acobertei voc na noite passada.
- O qu?
- Quando Frank telefonou. Na primeira vez, fingi que no suspeitava de nada
enquanto ele falava sobre alguma coisa envolvendo golfe que ele pretendia fazer
no dia seguinte com um amigo chamado Roger. Ento, mais tarde, quando ele
tornou a ligar, falei que voc j estava dormindo, quando sabia muito bem o que
havia tramado. No tive dvidas de que voc estaria com Dawson e, na hora do
jantar, tive certeza de que no voltaria mais para casa.
- Como pde saber disso? - perguntou Amanda, tentando mascarar sua surpresa.
- J percebeu como Oriental  pequena? No h muitos lugares para se hospedar
na cidade. No meu primeiro telefonema, falei com Alice Russell na pousada.
Tivemos uma conversa muito agradvel, por sinal. Ela me disse que Dawson j
havia feito o check-out, mas o simples fato de saber que ele estava na cidade
bastou para que eu entendesse o que estava acontecendo. Imagino que seja por
isso que estou aqui, em vez de esperando por voc em casa. Achei que, se
pulssemos a parte das mentiras e negaes, esta conversa ficaria um pouco mais
fcil para voc.
Amanda se sentiu quase zonza.
- Obrigada - balbuciou. - Por no contar a Frank.
- No cabe a mim contar nada ao seu marido ou falar qualquer coisa que possa
complicar ainda mais seu casamento. O que voc vai dizer a Frank  problema
seu. At onde sei, no aconteceu absolutamente nada.
Amanda engoliu o gosto ruim em sua boca.
- Ento por que a senhora est aqui?
Sua me suspirou.
- Porque voc  minha filha. Pode no querer conversar comigo, mas espero que
me oua.
Amanda notou um qu de decepo no tom de voz da me.
- No quero ouvir os detalhes srdidos sobre o que aconteceu na noite passada -
continuou Evelyn. - Nem como foi terrvel da minha parte no ter aceitado
Dawson, para comear. Tambm no pretendo discutir seus problemas com
Frank. O que quero fazer  lhe dar um conselho. Como me. Afinal, voc 
minha filha e eu me importo com o seu bem-estar, independentemente do que
voc pense. A questo : voc est disposta a ouvir?
- Estou - respondeu Amanda, a voz quase inaudvel. - O que eu devo fazer?
O rosto da me perdeu a fachada de rigidez e sua voz soou surpreendentemente
branda.
-  muito simples, na verdade - falou ela. - No siga meus conselhos. Amanda
esperou que ela dissesse algo mais, mas a me ficou calada, sem acrescentar nada
ao comentrio.
- Est me dizendo para deixar Frank? - sussurrou ela enfim, sem saber ao certo
como interpretar aquilo.
- No.
- Ento eu deveria tentar me acertar com ele?
- Tambm no disse isso.
- No entendi.
- No tente encontrar muito sentido.
Evelyn se levantou ajeitando a roupa. Ento se encaminhou para os degraus.
Amanda pestanejou, ainda tentando entender o que estava acontecendo.
- Espere... A senhora j vai? Mas no falou nada. Ela se virou.
- Pelo contrrio. Falei tudo o que interessa.
- No seguir seus conselhos.
- Exatamente - disse a me. - No siga meus conselhos. Ou os de qualquer outra
pessoa. Confie em si mesma. Para o bem ou para o mal, na alegria ou na tristeza,
a vida  sua. E voc sempre foi e sempre ser a nica a decidir o que fazer com
ela. - Colocou o sapato de couro no primeiro degrau, fazendo-o ranger, e seu
rosto voltou a se tornar uma mscara. - Enfim, suponho que ainda nos veremos
hoje, quando voc for buscar suas coisas em casa, no?
- Sim.
- Ento vou preparar alguns canaps e umas frutas.
Com isso, voltou a descer os degraus. Quando chegou ao carro, notou Dawson
parado dentro da oficina e o analisou por alguns instantes antes de lhe dar as
costas. Uma vez atrs do volante, deu a partida no motor e ento, de repente, no
estava mais ali.

Deixando a carta de lado, Dawson saiu da oficina e fixou o olhar em Amanda.
Ela encarava as rvores, mais composta do que ele esperava, mas isso foi tudo o
que conseguiu interpretar de sua expresso.
Enquanto ele andava em direo  varanda, ela lhe ofereceu um sorriso fraco
antes de afastar o olhar. O medo se instalou em algum lugar no fundo do
estmago de Dawson, que se sentou na cadeira de balano e se inclinou para a
frente, juntando as mos e mantendo silncio.
- No vai me perguntar como foi? - perguntou por fim.
- Imaginei que voc me contaria mais cedo ou mais tarde - respondeu ele. - Se
quisesse falar a respeito, quero dizer.
- Sou to previsvel assim?
- No.
- Sou, sim. Minha me, por outro lado... - Ela mexeu na orelha, ganhando tempo.
- Se um dia eu lhe disser que entendo minha me, me lembre do que aconteceu
hoje, OK?
- Pode deixar - respondeu ele, assentindo.
Amanda respirou fundo, devagar. Quando enfim falou, sua voz soou
estranhamente distante.
- Quando a vi subindo at a varanda, tive certeza de que sabia como seria nossa
conversa - falou ela. - Ela exigiria que eu lhe contasse o que estava fazendo e me
diria que erro terrvel eu estava cometendo. Em seguida, me daria o sermo de
sempre sobre expectativas e responsabilidades, ento eu a cortaria dizendo que
ela no entendia nada a meu respeito. Eu lhe diria que amei voc a vida inteira e
que Frank j no me faz feliz. Que queria ficar com voc. - Amanda se virou para
ele, implorando que Dawson entendesse. - Eu conseguia me ouvir dizendo essas
palavras, mas ento...
Dawson viu a expresso no rosto dela se fechar.
- Minha me tem o dom de me fazer questionar tudo.
- Voc est falando de ns - disse ele, o n de medo se apertando em seu
estmago.
- Estou falando de mim - prosseguiu ela, a voz um mero sussurro. - Mas, sim,
tambm estou falando de ns. Porque eu quis dizer tudo isso a ela. Quis dizer
essas coisas mais do que tudo, porque elas so verdade. - Amanda balanou a
cabea como se tentasse se livrar dos resqucios de um sonho. - Mas quando
minha me comeou a falar minha vida real voltou a toda a velocidade e, de
repente, me ouvi dizendo algo completamente diverso. Foi como se houvesse
dois rdios sintonizados em duas estaes diferentes. Eu me ouvi dizendo que
no queria que Frank soubesse de nada disso. E que meus filhos esto me
esperando em casa. E que, por mais que eu dissesse ou tentasse explicar a eles,
ainda haveria algo de egosta em tudo isso.
Quando ela se deteve, Dawson a observou girar sua aliana, distrada.
- Annette ainda  uma garotinha - continuou ela. - No consigo me imaginar
abandonando-a e, ao mesmo tempo, tambm no consigo me imaginar tirando-a
do pai. Como poderia explicar uma coisa dessas a ela? De que maneira ela
compreenderia? E quanto a Jared e Lynn? Os dois so quase adultos, mas ser
que as coisas seriam mais fceis para eles? Saber que abandonei nossa famlia
para poder ficar com voc? Como se estivesse tentando retomar minha
juventude? - Sua voz estava angustiada. - Eu amo meus filhos e partiria meu
corao v-los olhar decepcionados para mim.
- Eles amam voc - falou Dawson, engolindo o n em sua garganta.
- Eu sei. Mas no quero coloc-los nessa posio - disse ela, cutucando um pedao
de tinta descascada na cadeira de balano. - No quero que me odeiem ou se
decepcionem comigo. E meu marido... - Ela inspirou, trmula. - Sim, ele tem
problemas. E, sim, eu vivo em conflito com o que sinto por ele, mas Frank no 
um homem ruim e sei que parte de mim sempre se importar com ele. s vezes
acho que  s por minha causa que ele ainda consegue seguir adiante de alguma
forma. Mas no  o tipo de homem que se recuperaria se eu o deixasse por causa
de outra pessoa. Ele jamais conseguiria se reerguer depois de um golpe desses.
Isso simplesmente... o destruiria. E depois? Ele passaria a beber mais do que j
bebe? Ou entraria em uma depresso profunda da qual no conseguiria sair? No
sei se posso fazer isso com ele. - Seus ombros se encurvaram. - E,  claro, ainda
tem voc.
Dawson pressentiu o que estava por vir.
- Este fim de semana foi maravilhoso, mas no  a vida real. Foi mais como uma
lua de mel e, depois de um tempo, o entusiasmo vai passar. Podemos tentar nos
convencer do contrrio, fazer todas as promessas que quisermos, mas 
inevitvel. E, depois disso, voc nunca mais vai me olhar da maneira como me
olha agora. Eu no serei a mulher com quem voc sonha, ou a garota que amou
um dia. E voc tambm vai deixar de ser meu amor perdido, a nica verdade em
minha vida. Vai se tornar algum que meus filhos odeiam por ter arruinado
nossa famlia, e ento me ver como realmente sou. Em poucos anos, eu serei s
uma mulher beirando os 50, com trs filhos que talvez a odeiem e que
possivelmente acabar se odiando por conta disso. E, no fim das contas, voc a
odiar tambm.
- Isso no  verdade. - A voz de Dawson permanecia firme.
Amanda se esforou ao mximo para ser corajosa.
- , sim - disse ela. - As luas de mel sempre acabam.
Dawson estendeu a mo, pousando-a em sua coxa.
- Quando penso em ficarmos juntos, no estou falando em lua de mel. Estou
falando de voc e de mim, duas pessoas reais. Quero acordar de manh com voc
ao meu lado, quero chegar  noite e jantar com voc. Quero compartilhar com
voc cada detalhe bobo do meu dia e ouvir cada detalhe do seu. Quero rir junto
com voc e dormir com voc em meus braos. Porque voc no  s algum que
amei no passado. Voc era minha melhor amiga, a melhor parte de quem eu sou,
e no consigo me imaginar desistindo disso outra vez. - Ele hesitou, buscando as
palavras certas. - Eu lhe dei o melhor de mim e, depois que voc foi embora,
nada jamais voltou a ser o mesmo.
As palmas das mos de Dawson estavam midas.
- Sei que est com medo - prosseguiu ele. - Eu tambm estou. Mas se fingirmos
que nada aconteceu, se deixarmos esta chance passar, no sei se teremos outra. -
Ele ergueu a mo, afastando uma mecha de cabelo dos olhos dela. - Ainda somos
jovens. Ainda temos tempo de consertar isso.
- J no somos to jovens assim...
- Somos, sim - insistiu Dawson. - Ainda temos o resto da vida pela frente.
- Eu sei - sussurrou ela. -  por isso que preciso que voc faa algo por mim.
- Qualquer coisa.
Ela apertou a ponte do nariz, tentando conter as lgrimas.
- Por favor... no me pea para ir com voc, porque, se fizer isso, eu vou. Por
favor, no me pea para contar a Frank a nosso respeito, porque eu tambm o
farei. Por favor, no me pea para abandonar minhas responsabilidades ou
minha famlia. - Ela respirou fundo, sorvendo o ar como se estivesse se afogando.
- Eu te amo e, se voc tambm me ama, no pode me pedir para fazer essas
coisas. No vou ser capaz de dizer no.
Quando ela terminou, Dawson ficou calado. Embora no quisesse admitir,
entendia a verdade nas palavras dela. Separar sua famlia mudaria tudo, mudaria
a prpria Amanda e, por mais que isso o assustasse, lembrou-se da carta de Tuck.
Talvez ela precisasse de mais tempo, escrevera ele. Ou talvez tudo tivesse
realmente acabado e Dawson devesse seguir em frente.
Mas isso no era possvel. Ele pensou em todos os anos que passara sonhando em
reencontr-la, pensou no futuro que talvez nunca tivessem juntos. No queria
lhe dar tempo, queria que ela o escolhesse ali mesmo, naquele instante. Mas, por
outro lado, sabia que Amanda precisava disso, que talvez nunca tivesse precisado
tanto de algo na vida. Ele suspirou, esperando que de alguma forma isso tornasse
as palavras mais fceis de dizer.
- Est bem - sussurrou ele enfim.
Ento Amanda comeou a chorar. Lutando contra as emoes que se debatiam
dentro dele, Dawson se levantou. Amanda fez o mesmo e ele a puxou para perto,
sentindo-a desmoronar contra seu corpo. Enquanto o cheiro dela invadia suas
narinas, um turbilho de imagens comeou a passar por sua cabea: o sol contra
os cabelos de Amanda quando ela saiu da oficina no dia em que ele chegou  casa
de Tuck; a graciosidade com que ela caminhou entre as flores silvestres em
Vandemere; o instante voraz, congelado no tempo, em que seus lbios se
tocaram pela primeira vez no calor de uma cabana que ele nem mesmo sabia
existir. Agora aquilo tudo estava acabando e era como se ele observasse o ltimo
cintilar de uma luz na escurido de um tnel sem fim.
Eles passaram muito tempo abraados na varanda. Amanda escutando o corao
de Dawson, segura de que nada jamais pareceria to perfeito em sua vida.
Desejando inutilmente poder comear tudo de novo. Faria a coisa certa desta
vez, ficaria com ele e jamais o abandonaria. Eles eram feitos um para o outro.
Ainda havia tempo para eles dois. Quando sentiu as mos de Dawson em seus
cabelos, quase disse essas palavras. Mas no conseguiu. Em vez disso, tudo o que
pde fazer foi murmurar:
- Foi muito bom ter reencontrado voc, Dawson Cole.
Dawson sentia a sedosidade quase extravagante dos cabelos de Amanda.
- Quem sabe no nos vemos outra vez?
- Talvez - disse ela, limpando uma lgrima do rosto. - Quem sabe? Posso mudar
de idia e simplesmente aparecer na Louisiana um dia. Eu e meus filhos, quero
dizer.
Ele forou um sorriso, uma esperana aflita e v saltando em seu peito.
- Eu farei o jantar - falou ele. - Para todos.
Mas estava na hora de ela ir embora. Enquanto saam da varanda, Dawson
estendeu a mo e ela a segurou, apertando-a quase at doer. Tiraram as coisas
dela do Stingray antes de se encaminharem lentamente para o carro de Amanda.
Os sentidos de Dawson pareciam aguados - o sol da manh ardia em sua nuca, a
brisa parecia leve como uma pluma e as folhas das rvores farfalhavam, mas era
como se nada fosse real. Tudo o que ele sabia era que aquilo era o fim.
Amanda agarrava sua mo. Quando chegaram ao carro, Dawson abriu a porta e
se virou para ela. Beijou-a com carinho antes de correr os lbios pela sua face,
seguindo o caminho de suas lgrimas. Traou o contorno da sua mandbula,
pensando nas palavras que Tuck havia escrito. Ento compreendeu, com
repentina clareza, que nunca conseguiria seguir em frente, independentemente
do que Tuck lhe pedira. Ela era a nica mulher que ele amaria na vida, a nica
que quisera amar.
Pouco depois, Amanda se obrigou a recuar um passo. Ento, deslizando para trs
do volante, deu partida no motor e fechou a porta, baixando a janela em seguida.
Os olhos de Dawson brilhavam, cheios de lgrimas, assim como os dela.
Relutante, ela engatou a r. Ele se afastou sem dizer nada, a dor que sentia
gravada em sua expresso de angstia.
Ela manobrou o carro, apontando-o na direo da estrada. Seu mundo estava
borrado pelas lgrimas. Quando comeou a dobrar a curva, olhou pelo retrovisor
e conteve um soluo  medida que a imagem de Dawson ficava cada vez menor.
Ele no tinha se movido nem um centmetro.
Quanto mais o carro ganhava velocidade, mais ela chorava. As rvores se
fechavam ao seu redor. Ela quis fazer o retorno e voltar para Dawson, dizer-lhe
que tinha coragem de ser a pessoa que queria ser. Sussurrou seu nome e, embora
Dawson no pudesse de forma alguma ouvi-la, ele ergueu o brao, dando-lhe um
ltimo adeus.

Sua me estava sentada na varanda da frente quando Amanda chegou.
Bebericava um copo de ch gelado e uma msica tocava baixinho no rdio.
Amanda passou por ela sem dizer nada, subindo as escadas em direo ao quarto.
Ligou o chuveiro, tirou as roupas e ficou nua em frente ao espelho. Sentia-se
esgotada, um jarro vazio.
O jato d'gua forte aoitou sua pele como um castigo. Quando finalmente saiu do
banho, vestiu uma cala jeans e uma blusa de algodo simples antes de guardar o
restante de suas coisas na mala. O trevo, Amanda o depositou em um
compartimento com zper em sua bolsa de mo. Como de hbito, tirou os lenis
da cama e os levou para a rea de servio. Ento os jogou dentro da mquina de
lavar, agindo no piloto automtico.
De volta ao quarto, deu prosseguimento  lista de coisas a fazer. Lembrou-se de
que o refrigerador de casa precisava ser consertado. Esquecera-se de
providenciar isso antes de sair. Tambm precisava comear a se preparar para o
evento de arrecadao de fundos. Vinha adiando aquilo fazia algum tempo, mas,
quando menos percebesse, j seria setembro. Precisava contratar um buf e seria
boa idia comear a pedir doaes para comprar presentes. Lynn precisava se
inscrever no curso preparatrio para os exames seletivos para a faculdade e ela
no conseguia se lembrar se tinha ou no feito o depsito para o alojamento de
Jared. Annette voltaria para casa no fim de semana e provavelmente iria querer
algo especial para o jantar.
Fazer planos. Deixar o fim de semana para trs, retornar  vida real. Como a gua
do chuveiro lavando o cheiro de Dawson de sua pele, isso parecia uma espcie de
castigo.
Porm, mesmo quando sua mente comeou a desacelerar, Amanda se deu conta
de que no estava pronta para descer. Em vez disso, sentou-se na cama
observando a luz do sol se espalhar delicadamente pelo quarto. Lembrou-se da
maneira como Dawson havia ficado parado em frente  casa de Tuck. A imagem
era clara, to vivida como se estivesse acontecendo novamente - e, contra a
prpria vontade e contra tudo, ela teve a sbita certeza de estar tomando a
deciso errada. Ela ainda poderia voltar para Dawson e eles encontrariam uma
maneira de fazer tudo dar certo, por maiores que fossem os percalos. Com o
tempo, seus filhos iriam perdo-la. Com o tempo, ela mesma iria se perdoar.
Mas, ainda assim, Amanda continuou paralisada, incapaz de um s movimento.
- Eu te amo - sussurrou ela no quarto silencioso, sentindo seu futuro ser soprado
para longe como gros de areia, um futuro que j lhe parecia quase um sonho.

                                       16

Marilyn Bonner estava parada na cozinha de casa observando preguiosamente
os trabalhadores ajustarem o sistema de irrigao no pomar. Apesar do temporal
do dia anterior, as rvores ainda precisavam ser regadas e ela sabia que os
homens passariam o dia inteiro l fora, embora fosse fim de semana. Acreditava
que o pomar fosse como uma criana mimada, sempre precisando de um pouco
mais de cuidados, um pouco mais de ateno, nunca satisfeito.
Mas o verdadeiro corao do negcio ficava alm do pomar, na pequena fbrica
em que envasavam geleias e compotas. Nos dias teis, havia uma dzia de
pessoas ali, mas nos finais de semana o lugar ficava deserto. Ela se lembrava de
que, quando a construra, os moradores de Oriental ficaram dizendo  boca
mida que seu negcio jamais suportaria os custos de uma instalao como
aquela. E talvez tivesse sido um passo maior do que as pernas na poca, mas,
pouco a pouco, as pessoas foram parando de falar. Ela no havia ficado rica
fazendo geleias e compotas, mas sabia que o negcio era bom o suficiente para
que ela o deixasse para os filhos e eles tivessem uma vida confortvel. No fim das
contas, era s o que desejava.
Ela ainda estava com a mesma roupa que usara para ir  igreja e ao cemitrio.
Geralmente trocava-a assim que chegava, mas desta vez no havia conseguido
reunir foras para isso. Tampouco estava com fome, o que tambm era incomum.
Um desavisado poderia achar que ela estivesse ficando doente, mas Marilyn sabia
muito bem o que a estava incomodando.
Dando as costas para a janela, inspecionou a cozinha. Ela a reformara fazia
alguns anos, assim como os banheiros e boa parte do andar de baixo, e se viu
pensando que a velha casa de fazenda havia finalmente comeado a parecer um
lar - ou melhor, o tipo de lar com o qual Marilyn sempre sonhara. Antes da
reforma, era apenas a casa de seus pais, algo que lhe causava desconforto agora
que estava mais velha. Muitas coisas lhe causaram desconforto  medida que
atravessava, a duras penas, a vida adulta. Mas, por mais rduos que tivessem sido
aqueles anos, ela havia aprendido com as experincias. Apesar de tudo, tinha
menos arrependimentos do que as pessoas poderiam imaginar.
Ainda assim, sentia-se incomodada com o que tinha visto mais cedo e indecisa
quanto ao que fazer a respeito. Ou talvez no devesse fazer nada. Sempre poderia
fingir que no sabia o significado daquilo e deixar o tempo fazer seu trabalho.
Mas havia aprendido na prpria pele que ignorar uma situao nem sempre era a
melhor sada. Ao pegar sua bolsa, ela soube de repente o que deveria fazer.

Depois de enfiar a ltima das caixas no banco do carona, Candy voltou para
dentro de casa e tirou a estatueta do Buda de ouro do peitoril da janela da sala de
estar. Por mais feia que fosse, sempre havia gostado dela e imaginava que lhe
trouxesse sorte. Tambm era sua aplice de seguro e Candy pretendia penhor-la
quanto antes, quer fosse um amuleto, quer no, pois sabia que iria precisar de
dinheiro para recomear.
Embrulhou o Buda em um jornal e o guardou no porta-luvas antes de recuar
para analisar a arrumao. Ficou impressionada por ter conseguido colocar tudo
dentro do Mustang. O porta-malas mal fechava, a pilha de bagagens no banco do
carona estava to alta que seria impossvel enxergar atravs da janela e havia
objetos enfiados por todo canto. Precisava parar de comprar pela internet. No
futuro, necessitaria de um carro maior, ou fugas rpidas como aquela ficariam
mais difceis.  claro que sempre poderia deixar algumas coisas para trs: a
mquina de cappuccino, por exemplo. Mas precisava dela em Oriental, nem que
fosse apenas para no sentir que estava isolada em um fim de mundo - um
pequeno toque cosmopolita, por assim dizer.
De qualquer forma, aquela parte estava resolvida. Depois que acabasse seu turno
no Tidewater naquela noite, pegaria a estrada e seguiria para o sul assim que
chegasse  Interestadual 95. Tinha decidido voltar para a Flrida. Ouvira muitas
coisas promissoras sobre South Beach - parecia o tipo de lugar em que poderia
acabar ficando por um bom tempo. Talvez at definitivamente. J dissera isso
antes e no tinha sido bem assim, mas uma garota precisava ter sonhos, no?
Em termos de gorjeta, a noite de sbado tinha sido farta, mas sexta-feira fora
decepcionante, por isso decidira ficar mais uma noite. A sexta tinha comeado
bem - ela havia colocado uma camiseta e um short curto e os caras estavam
praticamente esvaziando suas carteiras para conseguir sua ateno, mas ento
Abee aparecera e estragara tudo. Ele havia sentado a uma mesa, parecendo muito
doente e suando como se tivesse acabado de sair de uma sauna, e passara a meia
hora seguinte encarando-a com aquele seu olhar enlouquecido.
Ela j havia visto aquilo acontecer antes - uma espcie de cime paranico -, mas
Abee tinha passado dos limites na noite de sexta. Candy no via a hora de o fim
de semana acabar. Tinha a sensao de que Abee estava prestes a fazer alguma
idiotice, talvez at algo perigoso. Naquela noite, teve certeza de que ele iria
comear alguma confuso, e talvez fosse mesmo, mas felizmente seu celular
havia tocado e ele sara do bar s pressas. Candy em parte esperara encontr-lo
em frente  sua casa na manh de sbado, ou no bar  noite, mas, estranhamente,
ele no havia aparecido. Para seu alvio, tampouco aparecera hoje. O que era
bom, j que o carro entulhado de bagagem deixaria seus planos bem bvios - o
que no o agradaria nem um pouco. Embora Candy no gostasse de admitir,
Abee a assustava. E havia assustado metade do bar na sexta, tambm. O lugar
comeara a ficar mais vazio assim que ele chegou, o que explicava a escassez de
gorjetas. Mesmo depois de ele ter ido embora, os clientes demoraram a voltar.
Porm aquilo estava quase acabado. Mais um turno e ela daria o fora dali. E
Oriental, como todos os outros lugares em que tinha morado, logo no passaria
de uma lembrana.

Para Alan Bonner, os domingos eram sempre um pouco deprimentes, pois
significavam que o fim de semana estava prestes a acabar. Trabalhar, ele havia
descoberto, no era tudo aquilo que as pessoas diziam.
No que tivesse muita escolha. A me fazia questo de que ele "ganhasse o
prprio sustento", ou fosse l como ela dizia, o que era um p no saco. Seria
timo se ela o contratasse como gerente da fbrica, ento ele poderia ficar
sentado em seu escritrio com ar condicionado, dando ordens e supervisionando
o trabalho dos outros, em vez de entregar salgadinhos a lojas de convenincia.
Mas o que ele poderia fazer? Mame era a chefe e estava reservando o cargo para
a irm dele, Emily, que, ao contrrio de Alan, tinha feito faculdade.
Mas no era de todo ruim. Ele tinha casa prpria, graas  mame, e as contas
eram pagas pelo pomar, o que significava que qualquer dinheiro que ganhasse
era basicamente seu. Melhor ainda, ele podia entrar e sair quando bem
entendesse, o que definitivamente era um avano em relao aos anos em que
morara com a me. Alm do mais, trabalhar para ela, mesmo em um escritrio
com ar condicionado, no teria sido fcil. Primeiro, eles ficariam juntos o tempo
todo, o que no seria agradvel para nenhum dos dois. Somando-se a isso o fato
de que a me adorava um trabalho burocrtico - o que nunca tinha sido seu forte
-, ele sabia que era melhor as coisas continuarem como estavam. No geral, Alan
podia fazer o que quisesse, quando quisesse, e tinha as noites e os fins de semana
s para ele.
Sexta  noite tinha sido especialmente boa, pois o Tidewater no estava nem de
longe to cheio quanto de costume. No depois de Abee aparecer, pelo menos.
Quando ele chegou, os clientes se mandaram. Mas Alan ficou no bar e, por
algum tempo, foi simplesmente... agradvel. Pde conversar com Candy, que
parecia interessada de verdade no que ele dizia.  claro que Candy flertava com
todos os caras, mas Alan teve a impresso de que ela gostava dele. Esperava
receber mais do mesmo no sbado  noite, mas o lugar estava um verdadeiro
zoolgico. O bar estava lotado, com pessoas se acotovelando e todas as mesas
ocupadas. Ele mal conseguia ouvir os prprios pensamentos, quanto mais falar
com Candy.
Mas, todas as vezes que fazia um pedido, ela lhe abria um sorriso por cima das
cabeas dos outros sujeitos, o que lhe dava esperanas para a noite de hoje. O bar
nunca ficava cheio no domingo e Alan havia passado a noite inteira reunindo
coragem para cham-la para sair. No sabia ao certo se Candy diria sim, mas o
que ele tinha a perder? Afinal, ela no era casada nem nada.

Longe dali, a trs horas de viagem na direo oeste, Frank estava parado no
campo de golfe perto do buraco nmero 13, bebendo sua cerveja enquanto Roger
se preparava para encaapar uma bola. Roger vinha jogando bem, muito melhor
do que ele. Mas hoje Frank no parecia capaz de acertar uma tacada nem se sua
vida dependesse disso. Suas tacadas longas estavam pendendo demais para a
direita e as curtas no iam longe o suficiente.
Tentou se lembrar de que no estava ali para se preocupar com o resultado do
jogo. Aquela era sua chance de escapar do trabalho e passar um tempo com o
melhor amigo, uma oportunidade de respirar um pouco de ar fresco e relaxar.
Infelizmente, esses lembretes no estavam ajudando. Qualquer um sabia que a
verdadeira alegria do golfe era acertar uma tacada maravilhosa, fazer a bola
descrever um longo e perfeito arco pela parte central do campo ou conseguir
deix-la a trs palmos do buraco. At o momento, Frank no tinha acertado nem
uma s tacada decente e, no oitavo buraco, precisara de cinco tentativas. Cinco!
Do jeito que estava jogando, seria melhor ir para o campo de minigolfe mais
prximo e tentar acertar a bola em um daqueles moinhos ou na boca do palhao.
Nem mesmo o fato de que Amanda voltaria para casa naquela noite estava
melhorando seu humor. Pelo andar da carruagem, nem sabia ao certo se iria
querer assistir ao jogo mais tarde. At parece que conseguiria se divertir.
Frank deu outra golada na cerveja, terminando aquela e pensando que
felizmente tinha abastecido o cooler. Aquele seria um longo dia.

Jared adorara o fato de a me estar fora da cidade, pois isso significava que ele
podia ficar na rua at quando bem entendesse. Aquela histria de ter hora para
voltar para casa era ridcula. Ele estava na faculdade e l ningum tinha hora
para voltar, mas, pelo jeito, sua me no fora informada disso. Quando ela
voltasse de Oriental, Jared iria precisar esclarecer essa questo.
No que isso tivesse sido um problema nos ltimos dias. Quando seu pai dormia,
era como se morresse para o mundo, de modo que Jared pudera voltar  hora que
quisesse. Na sexta, tinha ficado na rua at as duas e, na noite anterior, s havia
voltado para casa depois das trs. O pai no havia percebido nada. Ou talvez
houvesse, mas Jared no tinha como saber. Quando acordou, ele j estava no
campo de golfe com o amigo Roger.
Mas as noitadas tinham acabado com ele. Depois de vasculhar a geladeira em
busca de algo para comer, Jared decidiu voltar para o quarto e tirar uma soneca.
s vezes no havia nada melhor do que um cochilo no meio da tarde. Sua
irmzinha estava na colnia de frias, Lynn tinha viajado com uma amiga e seus
pais estavam fora. Em outras palavras, a casa estava silenciosa, ou pelo menos
mais silenciosa do que tinha estado durante todo o vero.
Espreguiando-se na cama, ficou na dvida sobre se deveria ou no desligar o
celular. Por um lado, no queria ser incomodado, mas, por outro, Melody
poderia ligar. Eles tinham sado na sexta  noite, depois ido a uma festa juntos no
sbado - e, embora no estivessem namorando h muito tempo, Jared gostava
dela. Na verdade, gostava muito.
Ele deixou o telefone ligado e se deitou na cama. Poucos minutos depois, havia
cado no sono.

Assim que acordou, Ted sentiu uma dor lancinante na cabea e, embora as
imagens fossem fragmentadas, elas aos poucos foram se juntando. Dawson, seu
nariz quebrado, o hospital. O gesso em seu brao. A noite anterior, esperando na
chuva enquanto Dawson se mantinha longe, rindo dele.
Dawson. Rindo. Dele.
Ele se sentou com cuidado, a cabea latejando, o estmago embrulhado. Ted se
encolheu, mas at isso doa, e, quando tocou o rosto, a dor foi excruciante. Seu
nariz estava do tamanho de uma batata e ondas de nusea o invadiam. Ele se
perguntou se conseguiria chegar at o banheiro para tirar gua do joelho.
Pensou novamente na chave de roda se chocando contra seu rosto, pensou
tambm na desgraa de noite que tinha passado na chuva e sentiu a raiva
comear a aumentar. Ouviu o beb gritar na cozinha, o choro agudo abafando a
barulheira da tev. Ele fechou os olhos, tentou sem sucesso bloquear os sons,
ento finalmente se levantou, cambaleante, da cama.
Sua viso escureceu. Ele se apoiou na parede para no cair. Respirou fundo,
rangendo os dentes  medida que o beb continuava a chorar, perguntando-se
por que diabo Ella no calava a boca daquele moleque. E por que a droga da tev
estava to alta.
Cambaleou at o banheiro, mas, quando ergueu o gesso rpido demais para se
apoiar ao sair, foi como se o brao estivesse preso a um fio desencapado. Deu um
grito e a porta do quarto se escancarou. O choro da criana foi como uma faca
enterrada entre seus ouvidos e, quando Ted se virou, viu duas Elias e dois bebs.
- D um jeito nesse moleque, ou eu mesmo vou fazer isso - rosnou ele. - E
desligue essa merda de tev!
Ella saiu do quarto. Ted fechou um olho ao se virar, tentando encontrar sua
arma. Aos poucos, foi parando de enxergar em dobro e vislumbrou a pistola em
cima do criado-mudo, ao lado das chaves da caminhonete. Precisou de duas
tentativas para peg-la. Dawson tinha levado vantagem sobre ele o fim de
semana inteiro, mas estava na hora de resolver aquilo de uma vez por todas.
Ella o encarou assustada quando ele saiu do quarto. A mulher tinha feito o beb
parar de chorar, mas se esquecera da tev. O som martelava na cabea de Ted.
Ele entrou vacilante na pequena sala de estar e chutou o televisor, jogando o
aparelho no cho. Sua filha de 3 anos comeou a gritar e Ella e o beb desataram
a chorar tambm. Quando saiu de casa, seu estmago j havia recomeado a
incomodar e ele voltou a ficar enjoado.
Num espasmo, inclinou-se e vomitou na beirada da varanda. Limpou a boca
antes de enfiar a arma no bolso. Agarrou o corrimo e desceu com cautela os
degraus. A caminhonete era apenas um borro, mas Ted se encaminhou na
direo dela.
Dawson no iria se safar. No desta vez.

Abee estava parado na janela de casa enquanto Ted cambaleava em direo 
caminhonete. Sabia muito bem aonde o irmo ia, embora tentasse chegar ao
veculo pelo caminho mais longo. Oscilava de um lado para outro, incapaz de
andar em linha reta.
Por pior que tivesse se sentido na noite anterior, h dias Abee no acordava to
bem. Os remdios de uso veterinrio deviam ter funcionado, pois a febre havia
passado e, embora o corte em sua barriga ainda estivesse sensvel ao toque, no
parecia to vermelho quanto no dia anterior.
No que ele estivesse 100%. Longe disso. Mas estava bem melhor do que Ted,
sem dvida, e a ltima coisa que queria era que o restante da famlia visse o
estado de seu irmo. J andavam falando de como Dawson tinha levado a melhor
sobre Ted outra vez, o que no era nada bom. Porque talvez estivessem se
perguntando se no poderiam levar a melhor sobre ele tambm - e Abee no
precisava nem um pouco disso.
Algum tinha que cortar aquele mal pela raiz. Abee abriu a porta e foi atrs do
irmo.
                                       17

Depois de lavar o Stingray, Dawson largou a mangueira e foi at o riacho atrs da
casa de Tuck. Havia esquentado  tarde e o calor agora era forte demais para que
as tainhas saltassem, o que deixava a superfcie da gua to inerte quanto uma
lmina de vidro. No havia o menor movimento, e Dawson se viu recordando
seus ltimos instantes com Amanda.
 medida que ela se afastava, Dawson teve que se esforar para no sair correndo
atrs dela e tentar mais uma vez convenc-la a mudar de idia. Queria lhe dizer
novamente quanto a amava. Mas, em vez disso, ficou observando-a ir embora,
sabendo, no fundo do corao, que aquela seria a ltima vez que a veria e
perguntando-se como fora capaz de deix-la partir de novo.
Ele no deveria ter voltado a Oriental. No pertencia quele lugar e nunca havia
pertencido. No havia nada ali para ele. Era hora de partir. Sabia que estava
abusando da sorte ao ficar tanto tempo na cidade tendo os primos atrs dele.
Dando as costas para o riacho, ele contornou a lateral da casa e seguiu em
direo a seu carro. Tinha s mais um lugar para ir. Depois disso, deixaria
Oriental para sempre.

Amanda no sabia ao certo quanto tempo tinha ficado no quarto. Uma ou duas
horas, talvez mais. Sempre que olhava pela janela, via a me sentada na varanda
com um livro aberto no colo. Ela cobrira a comida para manter as moscas
afastadas. No tinha subido nenhuma vez para ver se a filha estava bem desde
que Amanda voltara para casa, mas Amanda no esperava por isso. As duas se
conheciam bem o suficiente para saber que ela desceria quando estivesse pronta.
Frank havia ligado mais cedo, do campo de golfe. No se alongara na conversa,
mas Amanda ouvira a bebida em sua voz. Dez anos a haviam ensinado a
reconhecer os sinais. Por mais que ela no estivesse disposta a conversar, Frank
no havia notado. No porque estivesse bbado, o que obviamente estava, mas
porque, embora tivesse comeado jogando muito mal, tinha terminado a partida
com uma mdia de tacadas excelente. Provavelmente pela primeira vez na vida,
Amanda ficara feliz por ele estar bebendo. Sabia que Frank estaria to cansado
quando ela chegasse que quase com certeza pegaria no sono bem antes de ela ir
para a cama. A ltima coisa que queria era encontr-lo pensando em sexo. No
conseguiria suportar, no naquela noite.
Ainda assim, no estava pronta para descer. Em vez disso, levantou-se da cama,
foi ao banheiro, vasculhou no armrio de remdios e encontrou um frasco de
colrio. Pingou algumas gotas nos olhos vermelhos e inchados e ento passou
uma escova pelos cabelos. No adiantou muita coisa, mas ela no deu
importncia: sabia que Frank no iria notar.
Mas Dawson teria notado. E, com Dawson, ela se importaria com sua aparncia.
Amanda tornou a pensar nele, como no deixara de fazer desde que voltara para
a casa da me, mas tentava manter as emoes sob controle. Ao olhar para as
malas que tinha feito mais cedo, viu a beirada de um envelope despontando da
bolsa. Ela o puxou, notando seu nome escrito no garrancho trmulo de Tuck.
Voltando a sentar-se na cama, rompeu o lacre e tirou a carta do envelope,
pensando, estranhamente, que Tuck teria as respostas de que precisava.

Querida Amanda,
Quando ler estas palavras, voc provavelmente estar se debatendo com algumas
das escolhas mais difceis de sua vida e, sem dvida, ter a sensao de que seu
mundo est desmoronando.
Se estiver se perguntando como sei disso, digamos apenas que passei a conhec-
la muito bem ao longo dos ltimos anos. Sempre me preocupei com voc,
Amanda. Mas no  sobre isso que quero falar. No posso lhe dizer o que fazer e
duvido que consiga acrescentar algo que a faa se sentir melhor. Em vez disso,
quero lhe contar uma histria. Ela tambm  sobre mim e Clara, mas uma que
voc ainda no conhece, pois nunca consegui encontrar a maneira certa de
cont-la. Tive vergonha e acho que temi que voc parasse de me visitar por
pensar que eu estivesse mentindo o tempo todo.
Clara no era um fantasma. Isso no quer dizer que eu no a visse nem ouvisse.
No estou dizendo que essas coisas no aconteam, porque aconteceram. Tudo o
que est na carta que escrevi para voc e Dawson  verdade. Eu a vi no dia em
que voltei  cabana e, quanto mais cuidava das flores, mais claramente conseguia
enxerg-la. O amor pode evocar muitas coisas, mas, no fundo, eu sabia que
aquela no era a Clara real. Eu a via porque desejava isso e a escutava porque
sentia sua falta. Acho que o que estou tentando dizer  que ela foi criao minha,
s isso, mesmo que eu tenha tentado enganar a mim mesmo e pensar o contrrio.
Talvez voc esteja se perguntando por que decidi lhe contar isso agora, ento 
melhor ir direto ao assunto. Eu me casei com Clara aos 17 e ns passamos 42
anos juntos, unindo nossas vidas de tal forma que pensei que elas jamais
pudessem ser separadas. Quando ela morreu, os 28 anos seguintes foram to
dolorosos para mim que a maioria das pessoas - eu inclusive - pensou que eu
tivesse enlouquecido.
Amanda, voc ainda  jovem. Pode no se sentir dessa forma, mas, para mim,
ainda  apenas uma criana com uma longa vida pela frente. Acredite quando
lhe digo: vivi com a Clara de verdade e com o fantasma dela; uma me encheu de
alegria, enquanto o outro foi apenas um tnue reflexo. Se voc der as costas para
Dawson agora, vai passar o resto da vida com o fantasma do que poderia ter sido
seu. Sei que, nesta vida,  inevitvel magoarmos pessoas inocentes por conta das
decises que tomamos. Pode me chamar de velho egosta, mas nunca quis que
voc fosse uma delas.
Tuck

Amanda guardou a carta de volta na bolsa, certa de que Tuck tinha razo. A
verdade calava mais fundo nela do que qualquer outra coisa que tivesse sentido
na vida, e ela mal podia respirar.
Com uma sensao de urgncia que nem sequer conseguia entender, Amanda
juntou suas coisas e as carregou para o andar de baixo. Normalmente, ela as teria
deixado ao lado da porta at que estivesse pronta para ir embora. Em vez disso,
ela se viu girando a maaneta e seguindo direto para o carro.
Jogou a bagagem no porta-malas antes de dar a volta at o lado do motorista. Foi
s ento que percebeu a me em p na varanda, observando-a.
Amanda no falou nada, sua me tampouco. Ficaram simplesmente paradas,
olhando uma para a outra. Amanda teve a sensao de que a me sabia
exatamente para onde ela estava indo, mas, com as palavras de Tuck ainda
ecoando em seus ouvidos, nada disso lhe importava. Tudo o que sabia era que
precisava encontrar Dawson.
Ele talvez ainda estivesse na casa de Tuck, mas Amanda achava que no. Dawson
no demoraria muito para lavar o carro e ela sabia que, com seus primos  solta,
no iria ficar na cidade.
Mas ele tinha dito que talvez fosse a um ltimo lugar...
De repente as palavras dele lhe vieram  cabea, de forma quase inconsciente, e
ela foi para trs do volante certa de onde ele estaria.

No cemitrio, Dawson saiu do carro e cruzou a pequena distncia at a lpide de
David Bonner.
No passado, sempre que visitava o lugar, ele o fazia em horrios de pouco
movimento e se esforava ao mximo para passar despercebido.
Daquela vez, no entanto, isso no seria possvel. Os fins de semana costumavam
ser concorridos e havia grupos de pessoas vagando pelas lpides. Ningum
parecia lhe dar ateno enquanto passava, mas Dawson manteve a cabea baixa
assim mesmo.
Quando enfim chegou ao local, notou que as flores que havia deixado na manh
de sexta-feira ainda estavam ali, mas tinham sido movidas para o lado.
Provavelmente pela pessoa que cortara a grama. Agachando-se, Dawson
arrancou algumas das folhas mais longas que haviam sobrado perto da lpide.
Seus pensamentos se voltaram para Amanda e ele foi invadido por uma enorme
solido. Dawson sabia que sua vida havia sido amaldioada desde o incio e,
fechando os olhos, fez uma ltima orao por David Bonner, sem notar que
outra sombra tinha acabado de se unir  sua. Sem notar que havia algum parado
bem atrs dele.

Quando chegou  rua principal que cortava Oriental, Amanda parou no
cruzamento. Se dobrasse  esquerda, passaria pela marina e, alguns quilmetros
depois, chegaria  casa de Tuck. Se dobrasse  direita, sairia da cidade e acabaria
chegando  rodovia que levava de volta  sua casa. Seguindo em frente, depois de
uma cerca de ferro batido, estaria no cemitrio. Era o maior da cidade e onde o
Dr. David Bonner tinha sido enterrado. Ela se lembrou de que Dawson dissera
que talvez passasse por l quando fosse embora.
Os portes do cemitrio estavam abertos. Ela correu os olhos pela meia dzia de
veculos no estacionamento, procurando pelo carro alugado de Dawson, e ficou
sem flego quando o viu. Trs dias atrs, ele o estacionara ao lado do seu ao
chegar  casa de Tuck. Mais cedo naquela mesma manh, ela havia parado ao
lado daquele mesmo carro enquanto ele a beijava uma ltima vez.
Dawson estava ali.
Ainda somos jovens, ele tinha dito. Ainda temos tempo de consertar isso.
Seu p estava no freio. Na rua principal, uma minivan passou ruidosamente em
direo ao centro, tapando sua viso por um instante. Fora isso, a rua estava
deserta.
Se ela cruzasse a rua e estacionasse, sabia que conseguiria encontr-lo. Pensou na
carta de Tuck, nos anos de sofrimento que ele havia suportado sem Clara, e teve
certeza de que tinha tomado a deciso errada antes. No conseguia imaginar uma
vida sem Dawson.
Amanda j via a cena em sua mente. Ela surpreenderia Dawson diante do
tmulo do Dr. Bonner. Diria que tinha agido errado ao partir. Podia at sentir a
felicidade que experimentaria quando ele a tomasse nos braos outra vez,
sabendo que eles haviam nascido para ficar juntos.
Se Amanda fosse atrs de Dawson, no tinha dvidas de que iria segui-lo aonde
quer que ele fosse. Ou de que ele a seguiria. Mas, ainda assim, suas
responsabilidades continuavam a pesar em suas costas e, muito devagar, ela tirou
o p do freio. Em vez de seguir em frente, Amanda se viu girando o volante, um
soluo prendendo-se em seu peito  medida que pegava a estrada na direo de
casa.
Ela comeou a acelerar, mais uma vez tentando se convencer de que era a
deciso certa, a nica realista. Atrs dela, o cemitrio se afastava.
- Me perdoe, Dawson - sussurrou, desejando que ele pudesse de alguma forma
ouvi-la, desejando que nunca tivesse precisado dizer essas palavras.

Um farfalhar s suas costas arrancou Dawson de seus pensamentos e ele se
levantou depressa. Surpreso, ele a reconheceu na mesma hora, mas se viu sem
palavras.
- Voc est aqui - afirmou Marilyn Bonner. - No tmulo do meu marido.
- Me desculpe - falou ele, baixando o olhar. - No deveria ter vindo.
- Mas veio - disse Marilyn. - E tambm esteve aqui recentemente. - Quando
Dawson ficou calado, ela meneou a cabea para as flores. - Sempre venho aqui
depois da missa. Elas no estavam aqui no fim de semana passado e esto frescas
demais para terem sido trazidas no comeo da semana. Ento deve ter sido... na
sexta?
Dawson engoliu em seco antes de responder.
- Sim, pela manh.
O olhar dela continuava firme.
- Voc tambm costumava fazer isso muitos anos atrs. Depois que saiu da priso.
Era voc, no era?
Dawson no falou nada.
- Achava mesmo que fosse - disse ela, suspirando enquanto dava um passo em
direo  lpide.
Dawson se afastou, abrindo espao, enquanto Marilyn se concentrava na
inscrio da pedra.
- Muitas pessoas trouxeram flores para David depois que ele morreu. E
continuaram trazendo por um ou dois anos, mas depois acho que pararam de vir.
Exceto eu. Durante um tempo, s eu trazia flores. Ento, cerca de quatro anos
depois de ele morrer, voltei a ver outras. No o tempo todo, mas o suficiente
para me deixar intrigada. No fazia idia de quem as estivesse trazendo.
Perguntei aos meus pais, aos meus amigos, mas eles negaram. Durante algum
tempo, cheguei a cogitar a possibilidade de que David tivesse uma amante. Pode
imaginar uma coisa dessas? - Ela balanou a cabea e respirou fundo. - Foi s
quando as flores deixaram de aparecer que entendi que era voc o responsvel.
Sabia que tinha sado da priso e que estava em condicional. Cerca de um ano
depois, tambm fiquei sabendo que tinha ido embora da cidade. Eu senti muita...
raiva ao pensar que tinha sido voc o tempo todo.
Aquela lembrana pareceu incomod-la e ela cruzou os braos, como se tentasse
se fechar.
- E ento, hoje de manh, tornei a ver as flores - continuou Marilyn. - Tive
certeza de que isso significava que voc tinha voltado. No sabia bem se viria
aqui hoje... mas, como era de esperar, voc veio.
Dawson enfiou as mos nos bolsos, desejando de repente estar em qualquer
parte, menos ali.
- No vou mais visitar o tmulo de seu marido nem deixar flores de novo -
murmurou ele. - Eu lhe dou minha palavra.
Ela o encarou.
- E voc acha que isso compensa o fato de ter vindo aqui, para comeo de
conversa? Levando em conta o que fez? Levando em conta que meu marido est
enterrado aqui, e no vivo e ao meu lado? Que ele perdeu a chance de ver nossos
filhos crescerem?
- No - respondeu ele.
-  claro que no - disse ela. - Porque se sente culpado pelo que fez.  por isso
que vem nos mandando dinheiro durante todos esses anos, no ?
Dawson queria mentir para ela, mas no conseguiu.
- H quanto tempo a senhora sabe?
- Desde o primeiro cheque - falou Marilyn. - Voc tinha passado na minha casa
poucas semanas antes, lembra? No foi to difcil somar dois mais dois. - Ela
hesitou. - Queria se desculpar, no foi? Pessoalmente. Quando bateu  minha
porta naquele dia.
- Sim.
- E eu no deixei que fizesse isso. Falei... muitas coisas naquele dia. Coisas que
talvez no devesse ter dito.
- A senhora tinha todo o direito de diz-las.
A sombra de um sorriso se formou em seu rosto.
- Voc tinha 22 anos. Eu vi um homem adulto na minha varanda, mas, com o
passar do tempo, fui passando a acreditar que as pessoas no crescem de verdade
antes de chegarem no mnimo aos 30. Meu filho  mais velho do que voc era na
poca, mas ainda penso nele como uma criana.
- A senhora fez o que qualquer pessoa faria.
- Talvez - disse Marilyn, encolhendo muito de leve os ombros. Ento se
aproximou de Dawson. - O dinheiro que voc nos deu ajudou, e muito, nesses
anos que se passaram, mas no preciso mais dele. Ento, por favor, pare de envi-
lo.
- Eu s quis...
- Eu sei o que voc quis - interrompeu ela. - Mas nem todo o dinheiro do mundo
poderia trazer David de volta nem apagar o desamparo que senti depois que ele
morreu. E no pode dar aos meus filhos o pai que eles nunca conheceram.
- Eu sei.
- E o dinheiro no pode comprar o perdo.
Dawson sentiu seus ombros se encurvarem.
-  melhor eu ir embora - disse ele, virando-se para partir.
-  - falou ela. - , talvez seja melhor mesmo. Mas, antes, preciso lhe dizer outra
coisa.
Quando Dawson se virou, Marilyn atraiu o olhar dele para o seu.
- Sei que foi um acidente. Sempre soube disso. E sei que voc daria qualquer coisa
para mudar o passado. Tudo o que fez desde ento no deixa dvidas disso. E,
sim, admito que tive raiva, medo e que me senti sozinha quando voc apareceu
na minha casa, mas nunca acreditei que tivesse havido qualquer maldade de sua
parte no que aconteceu naquela noite. Foi s mais uma dessas coisas terrveis que
acontecem s vezes e, quando o vi bater  minha porta, eu descontei em cima de
voc. - Ela fez uma pausa, permitindo a Dawson assimilar suas palavras, e
quando prosseguiu sua voz soou quase gentil: - Estou bem agora e meus filhos
tambm esto. Ns sobrevivemos. Estamos bem.
Quando Dawson desviou o olhar, Marilyn esperou at ele voltar a encar-la.
- Vim at aqui para lhe dizer que voc no precisa mais do meu perdo - falou ela
lentamente. - Mas tambm sei que esse nunca foi o verdadeiro motivo disso
tudo. A questo nunca fui eu, nem minha famlia. Sempre foi voc. H muito
tempo que voc vem sendo perseguido por um erro terrvel e, se fosse meu filho,
eu lhe diria que est na hora de finalmente virar a pgina. Ento, Dawson, vire
essa pgina - disse Marilyn. - Faa isso por mim.
Marilyn Bonner o fitou nos olhos, certificando-se de que ele a havia entendido,
ento se virou e foi embora. Dawson ficou paralisado enquanto ela se afastava,
seguindo pelo corredor de lpides at finalmente sumir de vista.
                                        18

Am anda dirigia no piloto automtico, alheia ao trfego lento de fim de semana.
Famlias em minivans e utilitrios, alguns rebocando barcos, abarrotavam a
rodovia depois do fim de semana na praia.
Atrs do volante, ela no conseguia se imaginar voltando para casa e tendo que
fingir que os ltimos dias no tinham acontecido. Compreendia que no poderia
contar nada a ningum, porm, estranhamente, no sentia culpa. O que sentia,
na verdade, era arrependimento, a ponto de se ver desejando ter agido de outra
forma. Se soubesse desde o incio como o fim de semana terminaria, teria
passado mais tempo com Dawson na primeira noite em que se encontraram e
no teria desviado o rosto quando suspeitou que ele fosse beij-la. Teria ido v-lo
na sexta  noite tambm, independentemente de quantas mentiras precisasse
contar  me, e daria tudo para ter passado o sbado inteiro em seus braos.
Afinal de contas, se tivesse cedido aos seus sentimentos antes, o sbado poderia
ter terminado de maneira diferente. Talvez tivesse sido capaz de ultrapassar as
barreiras erguidas pelos seus votos matrimoniais. E por pouco no fora.
Enquanto danavam na sala, a nica coisa em que Amanda conseguia pensar era
fazer amor com ele. Quando se beijaram, ela soube exatamente o que iria
acontecer. Ela o desejava, queria que ficassem juntos como antes.
Amanda chegou a acreditar que conseguiria - acreditou que, assim que
chegassem ao quarto, poderia fingir que sua vida em Durham no existia, nem
que fosse apenas por uma noite. Enquanto ele a despia e a carregava at a cama,
Amanda pensou que poderia no pensar em seu compromisso. Mas, por mais que
quisesse ser outra pessoa naquela noite, livre de responsabilidades e promessas
que j no se sustentavam, por mais que desejasse Dawson, sabia que estava
prestes a cruzar uma linha a partir da qual no haveria retorno. Apesar do anseio
no toque de Dawson e da sensao do corpo dele contra o seu, Amanda no
conseguiu se entregar aos seus sentimentos.
Dawson no ficou irritado. Em vez disso, a abraou, correndo os dedos pelos seus
cabelos. Beijou seu rosto e sussurrou docemente em seus ouvidos. Disse que
aquilo no importava, que nada jamais mudaria seus sentimentos por ela.
Eles ficaram dessa forma at serem vencidos pelo cansao, quando o cu j
comeava a clarear. Logo antes do amanhecer, ela finalmente adormeceu
aninhada em seus braos. Quando acordou na manh seguinte, sua primeira
reao foi tatear a cama em busca de Dawson. Mas, quela altura, ele j havia
sado do quarto.
No bar do clube, bem depois do final da partida de golfe, Frank fez sinal pedindo
mais uma cerveja, sem perceber o olhar interrogativo que o garom lanou para
seu amigo. Roger, que j havia passado para a Diet Coke, simplesmente deu de
ombros. Relutante, o garom colocou outra cerveja na frente de Frank enquanto
Roger se inclinava para a frente, tentando se fazer ouvir em meio ao barulho. Ao
longo da ltima hora, o bar tinha ficado lotado. Na tev, o jogo estava empatado.
- No se esquea de que vou encontrar Susan para jantar, ento no vou poder
lev-lo para casa. E voc tambm no est em condies de dirigir.
- , eu sei.
- Quer que eu chame um txi?
- Vamos ver o jogo. Depois a gente decide, OK?
Frank ergueu a garrafa e tomou outro gole, sem desgrudar os olhos vidrados da
tela.

Abee estava sentado na cadeira ao lado da cama do irmo, perguntando-se mais
uma vez por que Ted vivia em um buraco daqueles. O lugar fedia a uma mistura
de fraldas sujas, mofo e s Deus sabe o que mais poderia ter morrido ali dentro.
Se voc somasse a isso o beb que nunca parava de chorar e Ella zanzando pela
casa como uma assombrao, era de espantar que Ted no fosse ainda mais
maluco.
Ele nem sabia ao certo por que continuava ali. Ted havia passado a maior parte
da tarde inconsciente, desde que desabara no cho antes de chegar 
caminhonete. Ella j estava gritando que eles deveriam lev-lo de volta para o
hospital quando Abee o levantou e o levou para dentro de casa.
Se Ted piorasse, ele acabaria levando o irmo, mas no havia muita coisa que os
mdicos pudessem fazer. Ted s precisava descansar, da mesma forma como
descansaria no hospital. Tinha sofrido uma concusso e deveria ter pegado leve
na noite anterior. Como no tinha feito isso, agora estava pagando o preo.
A questo era que Abee no queria passar outra noite no hospital com o irmo,
no agora que ele mesmo estava se sentindo melhor. Ora, no queria nem estar
ali com Ted, mas tinha um negcio para tocar, um negcio que dependia de
ameaas e violncia, e Ted era parte muito importante disso. Tinha sido sorte o
restante da famlia no ter visto o que acontecera e ele ter conseguido trazer Ted
de volta para casa antes que algum o visse cado.
Meu Deus, como aquele lugar fedia. Parecia um esgoto - e o calor de fim de tarde
s deixava o cheiro ainda mais forte. Ele sacou o celular e foi passando sua lista
de contatos at chegar ao nome de Candy. Ento pressionou o comando de
chamar. Havia ligado para ela mais cedo, mas a garota no tinha atendido e
tampouco retornara a ligao. Abee no estava gostando de ser ignorado dessa
forma. No estava gostando nem um pouco.
Mas, pela segunda vez naquele dia, o telefone de Candy apenas tocou sem parar.

- Que porra  essa? O que est havendo? - falou Ted de repente, sua voz um
grasnido. Parecia que ele tinha levado uma marretada na cabea.
- Voc est na sua cama - falou Abee.
- O que aconteceu?
- Voc no conseguiu chegar at a caminhonete e acabou comendo um punhado
de terra. Eu o arrastei at aqui.
Ted se sentou lentamente na cama. Esperou a tonteira chegar, mas, quando ela
veio, no foi to violenta quanto pela manh. Ele limpou o nariz.
- Voc encontrou Dawson?
- No fui atrs dele. Passei a tarde inteira cuidando do seu rabo.
Ted cuspiu no cho perto de uma pilha de roupas sujas.
- Ele ainda deve estar pela cidade - disse Ted.
- Talvez. Mas duvido. J deve saber que estamos atrs dele. Se for esperto, j est
longe daqui.
- Bem, mas talvez no seja to esperto. - Apoiando-se com fora na coluna da
cama, Ted finalmente se levantou, enfiando a arma na cintura da cala. - Voc
dirige.
Abee sabia que Ted no iria deixar aquilo em branco. Mas talvez fosse bom que a
famlia soubesse que Ted estava de p e pronto para voltar ao trabalho.
- E se ele no estiver aqui?
- Ento ele no est. Mas eu preciso saber.
Abee o encarou, preocupado com o fato de Candy no ter atendido seus
telefonemas e querendo saber onde ela estava. Pensou no cara que tinha visto
flertando com ela no Tidewater.
- Est bem - disse ele. - Mas, depois, vou precisar que voc faa uma coisa por
mim tambm.

Candy estava parada no estacionamento do Tidewater com seu telefone nas
mos. Duas chamadas de Abee. As duas no atendidas e, at o momento, no
retornadas. V-las na tela deixava Candy nervosa e ela sabia que deveria ligar de
volta. Era s falar doce e dizer as coisas certas, mas ento ele poderia resolver
passar no seu trabalho para v-la, e essa era a ltima coisa que ela queria. Ele
provavelmente veria seu carro cheio de malas e perceberia que ela planejava dar
o fora - e s Deus sabia o que aquele psicopata poderia fazer.
Ela deveria ter feito as malas mais tarde, depois do trabalho, mas no havia
pensado direito e seu turno estava prestes a comear. E, embora talvez tivesse
dinheiro para comida e uma semana em um hotel simples, precisava das gorjetas
daquela noite para o combustvel.
No poderia de jeito nenhum parar o carro na entrada - no onde Abee
conseguisse v-lo. Ento engatou a r e saiu do estacionamento, dobrando a
curva da rodovia e voltando em direo ao centro da cidade. Atrs de um dos
antiqurios nos limites de Oriental havia um pequeno estacionamento, de modo
que Candy entrou nele e parou numa vaga fora de vista. Melhor assim. Mesmo
que ela precisasse andar um pouco.
Mas e se Abee aparecesse e no visse seu carro? Isso tambm poderia ser um
problema. Candy no queria que ele ficasse fazendo perguntas. Pensando
melhor, decidiu que, se ele tornasse a ligar, ela atenderia e talvez mencionasse de
forma casual que havia tido um problema com o carro e passara o dia tentando
resolv-lo. Poderia ser um problema, mas Candy tentou se consolar com o fato
de que faltavam apenas cinco horas para ela partir. Naquela noite, deixaria tudo
para trs.

Jared ainda estava dormindo s 17h15, quando seu telefone comeou a tocar.
Rolando na cama, ele o apanhou, perguntando-se por que o pai estaria ligando.
S que no era o pai. Era o parceiro de golfe dele, Roger, pedindo-lhe que fosse
buscar Frank no clube, porque ele havia bebido e no tinha condies de dirigir.
Srio?, pensou ele. Meu pai? Bebendo?
Por mais que quisesse, Jared no disse o que pensou. Apenas prometeu que
chegaria dali a uns 20 minutos. Saindo da cama, ele vestiu o short e a blusa que
tinha usado mais cedo e calou os chinelos. Pegou as chaves e a carteira na
escrivaninha. Ento desceu as escadas bocejando, j pensando em telefonar para
Melody.

Abee no seu deu o trabalho de esconder a caminhonete na estrada em frente 
casa de Tuck e de atravessar a mata a p, como fizera na noite anterior. Em vez
disso, subiu a toda a velocidade a trilha irregular e parou bem diante da casa,
espalhando o cascalho do caminho de acesso, dirigindo como o lder de uma
equipe da SWAT numa misso importante. Saiu do veculo com a arma em
punho antes de Ted, mas o irmo desceu da caminhonete com uma agilidade
surpreendente, ainda mais levando-se em conta sua aparncia. As marcas
debaixo de seus olhos j haviam assumido um tom arroxeado escuro.
No havia ningum por ali, como Abee j esperava. A casa estava deserta e no
havia nem sinal de Dawson na oficina. O desgraado do primo havia se safado,
isso sim. Era uma pena que tivesse passado todos aqueles anos fora da cidade. Ele
poderia ter sido muito til para Abee, por mais que isso fosse deixar Ted louco da
vida.
Ted tambm no se surpreendeu que Dawson tivesse ido embora, mas nem por
isso ficou menos irritado. Os msculos de sua mandbula se retesavam em um
ritmo constante, enquanto o dedo alisava o gatilho da pistola. Depois de passar
um minuto fervendo de raiva em frente  casa, ele marchou em direo  porta e
a arrombou com um chute.
Abee se recostou na caminhonete, resolvendo deix-lo em paz. Dava para ouvir
o irmo xingando e atirando coisas pela casa. Enquanto Ted dava seu ataque,
uma cadeira velha atravessou voando uma janela, o vidro explodindo em um
milho de cacos. Ted finalmente apareceu no vo da porta de entrada, mas mal
diminuiu o ritmo, andando furioso em direo  oficina.
Havia um Stingray clssico parado l dentro. No estava l na noite anterior,
outro sinal de que Dawson tinha passado por ali. Abee no sabia bem se Ted j
havia deduzido isso, mas imaginava no ter importncia. Era melhor deix-lo
extravasar sua raiva. Quanto mais cedo ela passasse, mais cedo as coisas
voltariam ao normal. Precisava que Ted comeasse a se concentrar menos no que
queria e mais no que Abee lhe mandava fazer.
Ele observou Ted pegar uma chave de roda da bancada. Erguendo-a acima da
cabea, desceu a ferramenta contra o para-brisa dianteiro do carro com um
rugido. Ento comeou a golpear o cap, amassando-o imediatamente. Quebrou
os faris e arrancou os retrovisores, mas estava s comeando.
Durante os 15 minutos seguintes, Ted destroou o carro usando todas as
ferramentas  sua disposio. O motor, os pneus, o estofado e o painel foram
quebrados ou rasgados em pedacinhos. Ted deu vazo  sua fria contra Dawson
com uma intensidade enlouquecida.
Era uma pena, refletiu Abee. O carro era lindo, um verdadeiro clssico. Mas no
era seu e, se aquilo fosse fazer Ted se sentir bem, ele imaginava que fosse melhor
assim.
Quando o irmo finalmente seu deu por satisfeito, lanou um olhar para Abee.
Estava menos cambaleante do que o esperado e respirava com dificuldade, os
olhos ainda um pouco alucinados. Ocorreu-lhe que Ted poderia simplesmente
apontar a arma para ele e atirar por pura raiva.
Mas Abee no havia se tornado o chefe da famlia por fraquejar, nem mesmo
quando o irmo estava em seus piores momentos. Ele continuou recostado na
caminhonete com calculada indiferena enquanto Ted se aproximava. Abee
cutucou os dentes. Em seguida, examinou seu dedo, sabendo que o irmo estava
bem ali.
- J acabou?

Dawson estava na marina atrs do hotel em New Bern. Barcos se estendiam em
suas vagas em ambos os lados. Tinha ido diretamente para l depois de sair do
cemitrio, sentando-se  beira da gua enquanto o sol comeava a se pr.
Era o quarto lugar em que ele ficava em quatro dias e o fim de semana o deixara
esgotado fsica e emocionalmente. Por mais que tentasse, no conseguia
visualizar seu futuro. Amanh, depois de amanh e a interminvel seqncia de
semanas e anos no pareciam ter sentido algum. Tivera seus motivos para
escolher a vida que levava, mas agora esses motivos no existiam mais. Amanda,
e agora Marilyn Bonner, o haviam libertado para sempre e Tuck estava morto. O
que lhe restava? Seguir em frente? Ficar onde estava? Continuar no emprego?
Tentar algo novo? Qual era seu propsito, agora que tudo o que orientava sua
existncia tinha desaparecido?
Sabia que no conseguiria encontrar as respostas ali. Levantando-se, caminhou
penosamente para o saguo do hotel. Seu vo era cedo na segunda-feira e ele
sabia que precisaria acordar muito antes do nascer do sol para poder devolver o
carro alugado a tempo de fazer o check-in no aeroporto. De acordo com o
itinerrio, chegaria a Nova Orleans antes do meio-dia e estaria de volta a sua casa
pouco depois disso.
Quando retornou ao quarto, deitou-se na cama sem tirar as roupas, sentindo-se
mais perdido do que nunca e relembrando a sensao dos lbios de Amanda nos
seus. Talvez ela precise de tempo, escrevera Tuck. Antes de cair em um sono
agitado, Dawson se agarrou  esperana de que, de alguma forma, seu amigo
tivesse razo.

Parado em um sinal vermelho, Jared olhou para o pai pelo retrovisor. Devia ter
enchido mesmo a cara, concluiu. Alguns minutos atrs, ao estacionar no clube, o
encontrara recostado em uma das colunas, com o olhar turvo e desfocado e um
bafo que poderia acender uma churrasqueira - o que provavelmente explicava
por que ele estava calado. Sem dvida queria esconder quanto havia bebido.
Jared j estava acostumado quele tipo de situao. Os problemas do pai o
deixavam mais triste do que zangado. Sua me, por outro lado, ficaria no estado
de sempre: tentando agir com naturalidade enquanto o marido se arrastava pela
casa bbado feito um gamb. Por mais que no valesse a pena se irritar, ele sabia
que, por trs daquela fachada, ela estaria fervendo de raiva. A me iria se
esforar ao mximo para manter a civilidade no tom de voz, mas,
independentemente de onde Frank se sentasse, ela iria para outro cmodo, como
se isso fosse a coisa mais normal do mundo na vida de um casal.
A coisa ficaria feia naquela noite, mas Jared deixaria isso nas mos de Lynn,
supondo que ela chegasse antes de seu pai apagar. Quanto a ele, j havia ligado
para Melody e os dois iriam nadar na casa de um amigo.
O sinal finalmente ficou verde e Jared, com a imagem de Melody na cabea,
pisou fundo no acelerador, sem perceber que outro carro ainda atravessava
correndo o cruzamento.
O outro veculo se chocou contra o dele com um estrondo ensurdecedor,
espalhando cacos de vidro e lascas de metal por toda parte. A armao da porta,
destroada e retorcida, explodiu para dentro em direo ao peito do rapaz no
mesmo instante em que o air bag foi acionado. Jared se debateu contra o cinto de
segurana, a cabea sendo jogada de um lado para o outro  medida que o carro
comeava a girar pelo cruzamento. Vou morrer, pensou ele, mas no conseguiu
reunir flego suficiente para produzir qualquer som.
Quando o carro enfim parou, Jared precisou de um instante para entender que
ainda estava respirando. O peito doa, ele mal conseguia mexer o pescoo e
achou que fosse sufocar por conta do cheiro fortssimo causado pelo
acionamento do air bag.
Tentou se mexer, mas foi invadido por uma dor lancinante no peito. A porta e o
volante estavam prendendo seu corpo e ele lutou para se soltar. Contorcendo-se
para a direita, Jared se libertou de repente do peso que o esmagava.
L fora, outros veculos paravam no cruzamento. As pessoas estavam saindo de
seus carros, algumas j com os celulares em punho, ligando para a emergncia.
Atravs do vidro trincado, Jared percebeu que o cap de seu carro estava erguido
como uma pequena tenda.
Ouvia pessoas gritando para que ele no se movesse, mas suas vozes pareciam vir
de muito longe. Jared virou a cabea mesmo assim, pensando de repente no pai,
e viu a mscara de sangue que cobria o rosto de Frank. Foi s ento que comeou
a gritar.

Amanda estava a uma hora de casa quando o celular tocou. Estendendo a mo
para o banco do carona, teve que revirar a bolsa para encontr-lo, atendendo
apenas no terceiro toque.
Enquanto ouvia a voz trmula de Jared relatar o ocorrido, ficou paralisada. De
um jeito confuso, ele lhe contou sobre a ambulncia no local do acidente, sobre
todo o sangue que cobria Frank. Tranquilizou-a dizendo estar bem, mas que os
paramdicos estavam mandando que entrasse na ambulncia com Frank. Os dois
seriam levados para o hospital da Universidade Duke.
Amanda agarrou firme o telefone. Pela primeira vez desde a doena de Bea, ela
sentiu um medo avassalador se apoderar dela. Medo de verdade, do tipo que no
deixa espao para pensar ou sentir mais nada.
- Estou a caminho - disse. - Chegarei o mais rpido possvel...
Mas ento, por algum motivo, a ligao foi cortada. Ela rediscou o nmero no
mesmo instante, mas ningum atendeu.
Jogando o carro para a outra faixa, ela acelerou e, piscando os faris, ultrapassou
o veculo  frente. Precisava chegar ao hospital imediatamente. Mas o trfego
ainda estava pesado no litoral.

Depois de sua visitinha  casa de Tuck, Abee percebeu que estava faminto. No
vinha tendo muito apetite desde a infeco, mas agora ele havia voltado com
tudo, outro sinal de que os antibiticos estavam funcionando e muito bem.
Quando chegaram ao Irvin's, acabou pedindo um cheesebrguer, acompanhado
de rodelas de cebola fritas e batatas com queijo derretido e pimenta. Embora
ainda no tivesse acabado de comer, sabia que iria limpar os pratos. Talvez at
sobrasse espao para um pedao de torta ou um sorvete depois.
Ted, por outro lado, no estava to bem. Tambm tinha pedido cheese- brguer,
mas estava dando mordidas pequenas e mastigando devagar. Detonar o carro
parecia ter esgotado suas ltimas reservas de energia.
Enquanto esperavam pela comida, Abee havia telefonado para Candy. Dessa vez
ela atendeu ao primeiro toque e os dois conversaram por um tempo. Ela lhe disse
que j estava no trabalho e se desculpou por no ter retornado suas ligaes,
mencionando que havia tido um problema com o carro. Candy pareceu feliz em
ouvir sua voz, flertando com ele como sempre. Quando desligou, Abee se sentiu
muito melhor e inclusive se perguntou se no estaria tirando concluses
precipitadas sobre o que tinha visto algumas noites atrs.
Talvez fosse a comida e o fato de estar se sentindo melhor, mas, enquanto
mastigava o sanduche, ele se pegou pensando na conversa com Candy, tentando
entender o que o estava incomodando. Porque havia algo naquela ligao que o
incomodava. Em parte, era o fato de Candy ter falado que havia tido problemas
com o carro, no com o telefone. Afinal, por mais ocupada que tivesse estado,
poderia ter retornado suas ligaes. Mas Abee no estava convencido de que
fosse isso.
Ted chegou  metade de sua refeio e foi ao banheiro. Enquanto seu irmo
voltava para a mesa, Abee pensou que ele poderia muito bem estar no elenco de
algum filme de terror barato, mas os outros clientes do restaurante se esforavam
ao mximo para ignor-lo, preferindo se concentrar em seus pratos. Ele sorriu.
Era bom ser um Cole.
Ainda assim, no conseguia parar de pensar na conversa com Candy e, lambendo
os dedos entre as mordidas, refletia sobre o assunto.

Frank e Jared tinham sofrido um acidente.
As palavras se repetiam na cabea de Amanda, deixando-a mais agitada a cada
minuto. Os ns de seus dedos estavam brancos de tanto apertar o volante
enquanto ela piscava repetidas vezes os faris, pedindo passagem.
Eles tinham sido levados em uma ambulncia. Jared e Frank estavam sendo
levados s pressas para o hospital. Seu marido e seu filho...
O carro  sua frente mudou de faixa e Amanda passou zunindo por ele,
aproximando-se depressa do veculo que estava mais adiante.
Ela se lembrou de que a voz de Jared lhe parecera apenas trmula, nada mais que
isso.
Mas o sangue...
Em tom de pnico, Jared mencionara que Frank estava coberto de sangue.
Amanda agarrou o telefone com fora e tentou ligar para o filho novamente.
Poucos minutos atrs, ele no havia atendido, mas ela tentou acreditar que era
por estarem dentro da ambulncia ou na emergncia do hospital, onde telefones
so proibidos. Lembrou a si mesma que havia paramdicos, mdicos ou
enfermeiras cuidando de Frank e Jared. Queria se convencer de que, quando o
filho finalmente atendesse, ela sem dvida se arrependeria de seu pnico
desnecessrio. No futuro, essa seria uma histria para ser contada  mesa do
jantar, sobre como mame tinha dirigido at o hospital como uma louca, sem o
menor motivo.
Mas novamente Jared no atendeu e Frank tambm no. Quando ambas as
ligaes caram na caixa de mensagens, Amanda sentiu o n em seu estmago se
apertar mais do que nunca. De repente, teve certeza de que o acidente de carro
tinha sido srio, muito pior do que o filho tinha deixado transparecer. No sabia
de onde vinha essa certeza, mas no conseguia afastar esse pensamento.
Largou o telefone no banco do carona e pisou fundo no acelerador, correndo at
estar a centmetros de distncia do carro  sua frente. O motorista enfim lhe deu
passagem e ela o deixou para trs a toda a velocidade, sem nem ao menos menear
a cabea para agradecer.

                                       19

No sonho, Dawson estava de volta  plataforma no momento em que a srie de
exploses comeava a sacudi-la, mas dessa vez o silncio era total e os
acontecimentos se desenrolavam em cmera lenta. Ele observou a sbita ruptura
do tanque de armazenamento seguida pelas chamas que saltaram em direo ao
cu e acompanhou a fumaa negra assumir lentamente o formato de um
cogumelo. Viu as ondas de choque atravessarem o convs, engolindo sem pressa
tudo o que havia em seu caminho, arrancando as colunas e as mquinas de seus
suportes. Nas exploses seguintes, homens foram lanados ao mar, cada espasmo
de seus braos perfeitamente visvel. O fogo consumia o convs em ritmo lento.
Tudo ao seu redor estava sendo destrudo pouco a pouco.
Mas ele continuava parado no mesmo lugar, imune s ondas de choque e aos
destroos, que milagrosamente se desviavam do seu corpo. Logo em frente, perto
do guindaste, ele viu um homem surgir de uma nuvem oleosa de fumaa, mas,
como Dawson, ele era imune  devastao ao redor. Por um instante a fumaa
pareceu se agarrar a ele, mas ento foi afastada como se fosse uma cortina.
Dawson arquejou de espanto ao reconhecer o homem de cabelos pretos com seu
casaco azul.
O estranho parou de se mover, seus traos indistintos  luminosidade fraca ao
longe. Dawson quis cham-lo, mas nenhum som saiu de seus lbios; quis se
aproximar, mas seus ps pareciam colados ao cho. Em vez disso, eles ficaram
simplesmente olhando um para o outro na plataforma e, apesar da distncia,
Dawson achou que comeava a reconhec-lo.
Foi ento que acordou, correndo os olhos ao redor enquanto uma onda de
adrenalina inundava seu corpo. Ele estava no hotel em New Bern, logo em
frente ao rio, e, embora soubesse que tinha sido apenas um sonho, sentiu um
calafrio percorrer sua coluna. Sentando-se na cama, apoiou os ps no cho.
O relgio mostrava que ele dormira por mais de uma hora. L fora o sol tinha
quase acabado de se pr e as cores do quarto estavam esmaecidas.
Como em um sonho...
Dawson se levantou e olhou  sua volta, encontrando a carteira e as chaves ao
lado da tev. Quando as viu, algo se acendeu em sua memria e, atravessando o
quarto, ele revirou os bolsos do palet que havia usado. Tornou a conferi-los
para se certificar de que no estava enganado, ento remexeu sua bolsa. Por fim,
pegou a carteira e as chaves e desceu as escadas apressado em direo ao
estacionamento.
Vasculhou cada centmetro do carro alugado, examinando minuciosamente o
porta-luvas, o porta-malas, os espaos entre os bancos, o cho. Porm j estava
comeando a recordar o que tinha acontecido mais cedo.
Ele havia deixado a carta de Tuck na bancada depois de l-la. A me de Amanda
tinha passado na frente da oficina e ele voltara sua ateno para ela, que estava
na varanda, ento se esquecera de pegar a carta de volta.
Ainda devia estar l. Podia deix-la para trs,  claro... S que no conseguia se
imaginar fazendo uma coisa dessas. Era a ltima carta que Tuck lhe escrevera,
seu ltimo presente, e Dawson queria lev-la para casa.
Sabia que Ted e Abee estariam procurando por ele na cidade inteira, mas ainda
assim se viu cruzando a ponte em seu carro, voltando para Oriental. Estaria l
em 40 minutos.

Alan Bonner respirou fundo, tomou coragem e entrou no Tidewater. O bar
estava ainda mais vazio do que o esperado. Havia dois caras no balco e alguns
outros perto da mesa de sinuca dos fundos; apenas uma das mesas estava
ocupada, por um casal que contava dinheiro, parecendo prestes a ir embora. Bem
diferente da noite de sbado, mais ainda da noite de sexta. Com o jukebox
tocando ao fundo e a televiso perto da registradora ligada, o lugar estava quase
aconchegante.
Candy enxugava o balco e sorriu para ele antes de acenar com seu pano. Ela
estava de cala jeans e blusa de malha, o cabelo preso em um rabo de cavalo. E,
embora no estivesse to embonecada como de costume, continuava mais bonita
do que qualquer outra garota da cidade. Ele sentiu um frio na barriga ao se
perguntar se ela aceitaria ou no jantar com ele.
Alan se empertigou, pensando: No aceite desculpas. Iria sentar-se no bar, agir
normalmente e, pouco a pouco, conduzir a conversa ao ponto em que pudesse
convid-la a sair. Lembrou a si mesmo que Candy tinha decididamente flertado
com ele antes e, embora talvez fosse da natureza dela agir assim, Alan tinha
certeza de que no era s isso. Ele tinha percebido. Sabia. Ento, respirando
fundo uma segunda vez, foi andando em direo ao balco.

Amanda cruzou a porta da emergncia do hospital como um furaco, lanando
olhares alucinados para os pacientes e as famlias que estavam ali. Continuara
telefonando sem parar para Jared e Frank, mas nenhum dos dois havia atendido.
Finalmente, ligara para Lynn em total desespero. A filha ainda estava a algumas
horas dali. Ela desmoronara ao ouvir a notcia e prometera chegar o mais rpido
possvel.
Ainda parada, Amanda correu os olhos pela sala, na esperana de encontrar
Jared. Rezou para que sua preocupao fosse infundada. Ento, surpresa, avistou
Frank do outro lado do recinto. Ele se levantou e comeou a ir em sua direo,
parecendo menos machucado do que ela esperava. Amanda olhou por sobre o
ombro de Frank, tentando localizar o filho. Mas Jared no estava ali.
- Onde est Jared? - perguntou com urgncia assim que Frank chegou ao seu
lado. - Voc est bem? O que aconteceu? O que est havendo?
Ela ainda vociferava perguntas quando Frank pegou seu brao e a levou para
fora.
- Jared foi internado - disse ele.
Apesar das horas que haviam transcorrido desde que Frank sara do clube, sua
voz continuava arrastada. Amanda percebia que ele estava tentando parecer
sbrio, mas o cheiro acre de lcool saturava seu hlito e seu suor.
- No sei o que est acontecendo - continuou Frank. - Ningum diz nada. Mas a
enfermeira mencionou algo sobre um cardiologista.
As palavras dele amplificaram a ansiedade que invadia Amanda.
- Por qu? Qual o problema?
- No sei.
- Jared vai ficar bem?
- Ele parecia timo quando chegamos aqui.
- Ento por que est sendo examinado por um cardiologista?
- No sei.
- Ele me falou que voc estava coberto de sangue.
Frank tocou a base inchada do nariz, onde uma mancha preta e azul cercava um
pequeno corte.
- Bati feio com o rosto, mas eles conseguiram estancar o sangramento. No foi
nada de mais. Vou ficar bem.
- Por que no atendeu seu telefone? Eu liguei 100 vezes!
- Meu celular ainda est no carro...
Mas Amanda tinha parado de ouvir  medida que registrava o peso de tudo o que
Frank tinha dito. Jared havia sido internado. Era seu filho quem tinha se ferido.
Seu filho, no seu marido. Jared...
Sentindo-se como se tivesse levado um soco no estmago e subitamente enojada
de Frank, ela o deixou falando sozinho e marchou em direo  enfermeira que
estava atrs da mesa da recepo. Esforando-se ao mximo para controlar sua
histeria crescente, Amanda exigiu saber o que estava acontecendo com o filho.
A enfermeira tinha poucas respostas e limitou-se a repetir o que Frank j havia
contado. O bbado do Frank, pensou ela novamente, incapaz de conter a onda
de fria. Ento espalmou as duas mos com fora sobre a mesa, assustando todos
os presentes.
- Preciso saber o que est acontecendo com meu filho! - exclamou. - Agora!

Problemas com o carro, pensou Abee. Era isso que o estava incomodando na
conversa que tivera mais cedo com Candy. Se o carro estava com problemas,
como a garota tinha ido para o trabalho? E por que no lhe pedira que a levasse
at l ou lhe desse uma carona de volta para casa?
Ser que alguma outra pessoa a levara? Aquele cara do bar?
No, Candy no seria to idiota. Abee poderia ligar e perguntar,  claro, mas
havia uma maneira melhor de desvendar aquilo. O Irvins no ficava muito longe
da pequena casa em que ela morava, de modo que ele poderia
muito bem dar uma passada para conferir se o carro dela estava por l. Porque, se
estivesse, significaria que algum a levara ao trabalho - e ento eles teriam uma
conversa muito sria.
Ele jogou algumas notas em cima da mesa e fez sinal para que o irmo o seguisse.
Ted no falara muito durante o jantar, mas Abee tinha a impresso de que ele
estava um pouco melhor, apesar da falta de apetite.
- Para onde estamos indo? - perguntou Ted.
- Quero conferir uma coisa.
A casa de Candy ficava a poucos minutos dali, no final de uma rua um tanto
deserta. Era um barraco decrpito, com fachada de lminas de alumnio e
cercado de arbustos malcuidados. No era grande coisa, mas Candy no parecia
se importar. Tampouco se esforara para deix-lo mais aconchegante.
Quando Abee chegou em frente  casa, viu que o carro no estava l. Talvez ela
tivesse conseguido coloc-lo para funcionar, raciocinou ele, mas, enquanto
ficava ali sentado na caminhonete, percebeu que havia algo de estranho. Algo
faltando, por assim dizer, e demorou alguns instantes at descobrir o que era.
A estatueta do Buda no estava l, a que ficava na janela da frente, enquadrada
por uma abertura nos arbustos. Seu amuleto da sorte, como Candy a chamava, e
no havia motivo para que ela a tivesse tirado dali. A no ser que...
Ele abriu a porta da caminhonete e desceu. Quando Ted lanou-lhe um olhar
interrogativo, Abee apenas balanou a cabea.
Ele atravessou os arbustos malcuidados e entrou na varanda. Espiando pela
janela da frente, confirmou que a estatueta no estava mesmo ali. O resto parecia
igual.  claro que isso no significava muita coisa, j que ele sabia que o imvel
era mobiliado. Mas o fato de o Buda ter sumido o incomodava.
Abee deu a volta na casa, espiando pelas janelas, embora as cortinas bloqueassem
em grande parte sua viso. No dava para ver muito l dentro. Quando se cansou
daquilo, simplesmente arrombou a porta dos fundos com um chute, como Ted
havia feito na casa de Tuck.
Ento entrou, perguntando-se que diabo Candy poderia estar aprontando.
Como vinha fazendo de 15 em 15 minutos desde que chegara  sala de espera,
Amanda foi at o posto de enfermagem perguntar se tinham mais notcias. A
enfermeira respondeu com pacincia que j lhe dera toda a informao que
possua: Jared havia sido internado, estava sendo examinado por um
cardiologista e o mdico sabia que os pais estavam ali, esperando. Assim que
tivesse mais alguma informao, Amanda seria a primeira a saber. Havia
compaixo na voz da mulher ao dizer isso e Amanda meneou a cabea em
agradecimento antes de virar-lhe as costas.
Mesmo estando no hospital, ela ainda no conseguia compreender o que estava
fazendo ali, como tudo aquilo poderia ter acontecido. Embora Frank e a
enfermeira tivessem tentado lhe explicar, suas palavras no significavam nada
naquele momento. Amanda no queria que lhe dissessem o que estava
acontecendo, queria falar com Jared. Precisava v-lo, ouvir sua voz para saber
que ele estava bem. E, quando o marido tentou colocar a mo em suas costas para
consol-la, Amanda se afastou dando uma sacudidela brusca, como se tivesse
sofrido uma queimadura.
Era por culpa de Frank que Jared estava ali. Se ele no tivesse enchido a cara, o
filho teria ficado em casa, ou sado com uma garota, ou ido  casa de algum
amigo. Passaria longe daquele cruzamento e nunca teria ido parar no hospital.
Ele estava apenas tentando ajudar. Estava sendo responsvel.
Mas Frank...
Amanda no conseguia olhar para ele. Precisava se conter para no comear a
gritar.
O relgio na parede parecia contar os minutos em cmera lenta.
Por fim, depois de uma eternidade, ela ouviu a porta que conduzia ao
consultrio se abrir e, quando se virou, viu um mdico usando um uniforme
cirrgico atravess-la. Ficou observando enquanto ele se aproximava da
enfermeira de planto, que assentiu e apontou para ela. Amanda congelou de
medo  medida que o mdico se aproximava. Analisou seu rosto em busca de um
sinal do que ele iria lhe dizer, mas sua expresso no deixou transparecer nada.
Ela se levantou e Frank fez o mesmo.
- Eu sou o Dr. Mills - falou ele, sinalizando para que o acompanhassem atravs
das portas duplas que conduziam a outro corredor.
Quando as portas se fecharam s suas costas, o Dr. Mills se virou para encar-los.
Apesar dos fios grisalhos em sua cabea, Amanda percebeu que o mdico
provavelmente era mais jovem do que ela.
Amanda precisaria de mais do que uma conversa para absorver por completo o
que ele lhes disse, mas compreendeu o bsico: embora externamente parecesse
estar bem, Jared havia sofrido uma leso devido ao impacto da porta do carro
contra seu trax. O plantonista detectara um sopro no corao e suspeitara que
pudesse ser conseqncia do trauma, ento internara o rapaz para avaliao. L
dentro, o quadro de Jared piorara de forma rpida e acentuada. O mdico
prosseguiu, dizendo palavras como "cianose", e lhes informou que haviam
implantado um marca-passo transvenoso, mas que a capacidade cardaca de Jared
continuava diminuindo. A suspeita era de que a vlvula tricspide houvesse se
rompido. Era quase certo que o rapaz precisaria de uma operao para substitu-
la. Ele estava respirando com a ajuda de aparelhos, explicou o mdico, mas agora
necessitavam da permisso dos pais para a cirurgia. Sem ela, concluiu o Dr. Mills
sem rodeios, Jared iria morrer.
Jared iria morrer.
Amanda se apoiou em uma parede para no cair enquanto o mdico olhava
primeiro para Frank e ento de volta para ela.
- Preciso que a senhora assine este formulrio de consentimento - falou o Dr.
Mills.
Naquele instante Amanda teve certeza de que o mdico tambm sentira o cheiro
de lcool no hlito de Frank. Foi ento que comeou a odiar o marido, odi-lo de
verdade. Como se estivesse em um sonho, foi com um movimento quase
involuntrio que ela assinou o papel que o mdico lhe estendia.
O Dr. Mills os conduziu a outra parte do hospital e os deixou em uma saia de
espera vazia. A mente de Amanda estava entorpecida pelo choque.
Jared precisava de uma cirurgia, ou iria morrer.
Ele no podia morrer. Tinha apenas 19 anos e a vida inteira pela frente.
Fechando os olhos, ela se afundou em uma poltrona, tentando, sem sucesso,
compreender o mundo que desmoronava  sua volta.

Candy no precisava daquilo. No naquela noite.
O rapaz na ponta do bar, Alan, Alvin, ou sabe-se l como se chamava, queria
tanto cham-la para sair que estava praticamente ofegante. E o que era pior: o
movimento estava to fraco naquela noite que pelo jeito ela no conseguiria
gorjeta suficiente para encher o tanque do carro. Perfeito. Simplesmente
perfeito.
- Ei, Candy!
Era o rapaz outra vez, debruando-se sobre o balco como um cachorrinho
carente.
- Pode me trazer outra cerveja, por favor?
Ela forou um sorriso enquanto abria uma garrafa e andava at ele para entreg-
la. Enquanto se aproximava da outra extremidade do balco, ele fez um
pergunta, mas, de repente, faris iluminaram a porta - ou de um carro que
passava ou de algum parando no estacionamento - e ela se surpreendeu olhando
para a entrada. Esperando.
Quando ningum entrou, suspirou aliviada.
- Candy?
A voz do rapaz chamou sua ateno de volta. Ele afastou da testa o cabelo preto e
lustroso.
- Me desculpe. O que foi?
- Perguntei como est sendo seu dia.
- Maravilhoso - respondeu ela com um suspiro. - Simplesmente maravilhoso.
Frank sentou na poltrona em frente  de Amanda, ainda oscilando um pouco e
com o olhar perdido. Ela se esforou ao mximo para fingir que ele no estava
ali.
Fora isso, tudo em que conseguia se concentrar eram seus medos e seus
pensamentos sobre Jared. No silncio da sala de espera, anos inteiros da vida do
filho foram condensados como em um passe de mgica. Ela se lembrou de como
ele lhe parecera pequeno em seus braos nas primeiras semanas de vida.
Lembrou-se de como era pentear seu cabelo e se viu colocando um sanduche
em uma merendeira do Parque dos Dinossauros em seu primeiro dia no jardim
de infncia. Lembrou-se do nervosismo de Jared antes do primeiro baile no
ensino mdio e da maneira como ele sempre bebia leite direto da caixa, por mais
que ela o proibisse de fazer aquilo. Vez por outra, os sons do hospital a
arrancavam de seu devaneio e, com um sobressalto, Amanda recordava que lugar
era aquele e o que estava acontecendo. Ento o medo voltava a domin-la.
Antes de sair, o mdico lhes dissera que a cirurgia poderia levar horas, que talvez
se estendesse at a meia-noite, mas ela imaginou que provavelmente algum lhes
daria alguma notcia antes disso. Queria saber o que estava acontecendo. Queria
que algum lhe explicasse a situao de uma maneira clara, mas o que realmente
queria era que algum a abraasse e prometesse que seu garotinho - embora ele
j fosse quase um homem - ficaria bem.

Abee estava parado no quarto de Candy, seus lbios formando uma linha cerrada
 medida que ele compreendia o que estava acontecendo.
O closet estava vazio. As gavetas estavam vazias. A porra do armrio do banheiro
estava vazio.
No era de espantar que ela no tivesse atendido o telefone mais cedo. Candy
estava ocupada fazendo as malas. Mas e quando finalmente atendeu? Ora, a
pobrezinha devia ter se esquecido de mencionar os planos de sair da cidade.
Mas ningum abandonava Abee Cole. Ningum.
E se fosse por conta daquele novo namorado dela? E se eles planejassem fugir
juntos?
A idia o enfureceu de tal forma que ele saiu como um raio pela porta dos fundos
destroada. Contornando a casa, voltou s pressas para a caminhonete, certo de
que precisava ir ao Tidewater imediatamente.
Candy e o namoradinho iriam aprender uma lio naquela noite. Os dois. E seria
o tipo de lio que eles dificilmente esqueceriam.
                                       20

Dawson no conseguia se lembrar de uma noite mais escura do que aquela. No
havia lua, apenas uma escurido sem fim, pontuada pelo tnue cintilar das
estrelas.
J estava se aproximando de Oriental e no conseguia deixar de sentir que voltar
era um erro. Precisaria atravessar toda a cidade para chegar  casa de Tuck e
sabia que seus primos poderiam estar  sua espera em qualquer parte.
Mais adiante, depois da curva na qual sua vida havia mudado para sempre,
Dawson notou o brilho das luzes da cidade erguendo-se por sobre as copas das
rvores. Se fosse mudar de idia, precisava faz-lo agora.
Inconscientemente, ele tirou o p do acelerador. Foi ento,  medida que o carro
desacelerava, que Dawson sentiu que era observado.

Abee apertava o volante com fora enquanto a caminhonete cruzava a cidade em
disparada, cantando os pneus. Deu uma guinada para a esquerda e entrou no
estacionamento do Tidewater, fazendo o veculo derrapar ao pisar fundo no freio
e parar em uma vaga para cadeirantes. Pela primeira vez desde que detonara o
Stingray, at mesmo Ted mostrava sinais de vida, a expectativa de violncia
pairando no ar dentro da caminhonete.
O veculo mal havia parado quando Abee saltou, com Ted seguindo-o de perto.
Abee no conseguia aceitar que Candy pudesse mentir para ele. Obviamente
vinha planejando a fuga fazia algum tempo e acreditava que ele no iria
descobrir. Estava na hora de mostrar a ela quem dava as cartas por ali. E pode ter
certeza de que no  voc, Candy.
Enquanto seguia, furioso, em direo  porta de entrada, Abee notou que o
Mustang conversvel de Candy no estava no estacionamento, o que significava
que ela o havia deixado em outro lugar. Na casa de algum sujeito. Os dois
provavelmente tinham rido pelas costas de Abee. Conseguia ouvir Candy
zombando da sua cara, do idiota que ele era, e isso lhe dava vontade de entrar no
bar como um furaco, apontar sua arma e simplesmente sair puxando o gatilho.
Mas no faria desse modo. Ah, no. Porque primeiro ela precisava entender o
que exatamente estava acontecendo. Precisava entender que quem dava as cartas
era ele.
Ao seu lado, Ted mantinha-se extraordinariamente firme, quase empolgado. O
som da msica do jukebox vinha baixinho de l de dentro e a corda de neon que
formava o nome do bar tingia seus rostos de um vermelho luminoso.
Abee assentiu para Ted, ergueu a perna e escancarou a porta com um chute.

Dawson desacelerou a carro at quase parar, cada nervo de seu corpo em estado
de alerta. Ao longe, conseguia ver as luzes de Oriental. Ento foi invadido por
uma sensao repentina de dj-vu, como se j soubesse o que estava por vir e
no pudesse evit-lo, mesmo que quisesse.
Ele se debruou sobre o volante. Se apertasse os olhos, poderia ver a loja de
convenincia, a mesma pela qual havia passado durante sua corrida matinal. A
torre da igreja batista, iluminada por holofotes, parecia pairar sobre o centro
comercial. A luz dos postes emprestava um brilho sinistro ao asfalto, realando o
caminho que levava  casa de Tuck e provocando-o com a possibilidade de talvez
no conseguir chegar l. As estrelas que vira antes tinham desaparecido. O cu
que agora cobria a cidade era de um negrume quase sobrenatural. Mais adiante, 
direita, erguia-se o prdio atarracado que substitura o bosque quase no meio da
curva da rodovia nos limites da cidade.
Dawson vasculhou o cenrio com ateno, esperando... algo. Quase
imediatamente, foi recompensado com um lampejo de movimento alm da
janela do carona.
Ali estava ele, parado logo depois dos fachos de luz dos faris, no matagal que
margeava a rodovia. O homem de cabelos pretos.
O fantasma.

Aconteceu to rpido que Alan nem ao menos conseguiu entender.
L estava ele, conversando com Candy - ou pelo menos tentando - enquanto ela
se preparava para lhe servir outra cerveja, quando de repente a porta do bar foi
escancarada com tanta fora que a metade de cima foi arrancada da dobradia.
Antes que Alan pudesse se encolher, Candy j havia reagido. Como se um raio
tivesse passado por seu rosto, ela entendeu o que estava acontecendo,
interrompeu o movimento de lhe entregar a cerveja, fez um "Merda!" com a
boca e largou a garrafa.
Quando o vidro se despedaou no cho de concreto, Candy j estava fugindo aos
gritos.
Atrs dela, um rugido ecoou:
- QUEM VOC PENSA QUE , PORRA?!
Alan se encolheu enquanto Candy corria para a extremidade oposta do bar, em
direo ao escritrio do gerente. O rapaz freqentava o Tidewater havia tempo
suficiente para saber que l a porta era de ao reforado e tinha trincos de
segurana, por causa do cofre.
Recuando de medo, Alan observou Abee passar correndo com a arma apontada
para Candy, perseguindo-a at o outro extremo do bar. Abee tambm sabia para
onde ela estava indo.
- AH, NO, VOC NO VAI FAZER ISSO, SUA PIRANHA!
Candy lanou um olhar aterrorizado por sobre o ombro antes de agarrar a
maaneta do escritrio. Com um grito, ela se lanou pela porta aberta.
Fechou-a assim que Abee se apoiou no balco e saltou por sobre ele. Garrafas
vazias e copos saram voando. A registradora se espatifou no cho, mas ele
conseguiu esticar as pernas para a frente.
Ou quase. Aterrissou cambaleando, derrubando garrafas da prateleira  frente do
espelho como se fossem pinos de boliche. Elas mal conseguiram desaceler-lo.
Num piscar de olhos, Abee j havia fincado os ps no cho e estava diante da
porta do escritrio.
Alan observou tudo, cada cena se desenrolando individualmente com uma
preciso surreal, violenta. Mas, quando seu raciocnio alcanou o que de fato
estava acontecendo, o pnico invadiu cada centmetro do seu corpo.
Isto no  um filme.
Abee comeou a esmurrar a porta, atirando-se contra ela, sua voz um trovo.
- ABRA ESTA DROGA DE PORTA!
Isto  real.
Ele ouvia os gritos histricos de Candy vindo do escritrio trancado.
Ai, meu Deus...
Nos fundos do bar, os caras que estava jogando sinuca dispararam em direo 
sada de emergncia, largando seus tacos no caminho. Foi o estalo dos tacos se
chocando contra o cho de concreto que fez o corao de Alan saltar no peito,
acordando um instinto primitivo de sobrevivncia.
Ele precisava sair dali.
Precisava sair dali imediatamente!
Alan saltou de onde estava sentado como se tivesse sido apunhalado, fazendo o
banco cair para trs e agarrando-se ao balco para manter o equilbrio. Virando-
se na direo da porta cada, pde ver o estacionamento l fora. Para alm dele, a
estrada principal o chamava. O rapaz saiu correndo naquela direo.
Percebia de forma muito vaga que Abee estava esmurrando a porta do escritrio
e gritando que iria matar Candy se ela no a abrisse. Mal notou as mesas e
cadeiras viradas. A nica coisa que importava era alcanar a sada e dar o fora do
Tidewater o mais rpido possvel.
Ouvia o barulho de seus tnis batendo no cho de concreto, mas a porta cada
no parecia se aproximar nem um centmetro. Como se fosse uma daquelas
sadas das casas mal-assombradas de parques de diverses...
Muito ao longe, ouviu Candy gritar:
- Me deixe em paz!
Ele nem chegou a ver Ted, ou a cadeira que veio em sua direo, antes que ela se
chocasse contra suas pernas, derrubando-o. Alan tentou amortecer a queda, por
instinto, mas no conseguiu interromp-la. Sua testa bateu com fora no cho e
o impacto o atordoou. Ele viu clares de luz branca antes de mergulhar na
escurido.
Foi aos poucos que o mundo voltou a entrar em foco.
Alan sentia gosto de sangue enquanto lutava para livrar as pernas da cadeira e
virar de barriga para cima. Uma bota desceu com fora em sua mandbula e sua
cabea foi pressionada contra o cho.
Sobre ele, Ted Cole apontava uma arma em sua direo, parecendo achar aquilo
divertido.
- Aonde voc pensa que vai?

Dawson parou o carro no acostamento. De certa forma, esperava que o vulto
desaparecesse nas sombras quando descesse do veculo, mas o homem de cabelos
pretos continuou no mesmo lugar, cercado pelo mato que chegava  altura dos
joelhos. Estava a uns 50 metros de distncia, perto o suficiente para que Dawson
notasse a brisa noturna agitando seu casaco. Se desse um pique, poderia alcan-
lo em menos de 10 segundos, mesmo correndo pelo mato alto.
Sabia que no era sua imaginao. Conseguia sentir aquela presena com tanta
clareza quanto sentia seu corao bater. Sem desgrudar os olhos do homem,
Dawson estendeu o brao para dentro do carro e desligou o motor, apagando os
faris. Mesmo na escurido, conseguia ver a camisa branca que ele usava,
emoldurada pelo casaco aberto. Mas, como sempre, no era possvel distinguir
seu rosto.
Dawson saiu da estrada, pisando na faixa de cascalho estreita que a ladeava. O
homem no se moveu.
Ento ele seguiu em frente, adentrando o matagal, e o vulto continuou parado
ali, impassvel.
Mantendo o olhar fixo no homem, Dawson foi lentamente diminuindo a
distncia entre os dois. Cinco passos. Dez. Quinze. Se fosse dia, j conseguiria
enxerg-lo perfeitamente, seria capaz de discernir os traos de seu rosto. Mas,
naquela escurido, os detalhes permaneciam ocultos.
Mais perto ainda. Ele se movia com cautela, sentindo-se invadido por uma onda
de descrena. Nunca havia estado to prximo daquele vulto fantasmagrico,
perto o bastante para agarr-lo num s pique.
Continuou a observ-lo, imaginando quando deveria comear a correr. Mas o
estranho pareceu ler seus pensamentos, pois recuou um passo.
Ele se deteve. O vulto fez o mesmo.
Dawson deu outro passo e observou o homem de cabelos pretos recuar
novamente. Ento, ao arriscar mais dois passos rpidos, viu seus movimentos
serem imitados com preciso.
Mandando a cautela s favas, Dawson disparou a correr. O homem de cabelos
pretos se virou e tambm saiu correndo. Dawson acelerou, mas a distncia entre
os dois permanecia estranhamente constante, o casaco azul se agitando como se
quisesse provoc-lo.
Dawson apertou ainda mais o passo e o estranho fez uma curva, mudando de
direo. Deixando de se afastar da estrada, ele comeou a correr paralelamente a
ela e Dawson fez o mesmo. Estavam seguindo em direo a Oriental, rumo ao
prdio quadrado e atarracado perto da curva.
A curva...
Dawson no conseguia diminuir a distncia, mas o homem de cabelos pretos
tampouco se afastava. O vulto havia parado de mudar de direo e, pela primeira
vez, Dawson teve a impresso de que ele tinha um propsito em mente ao
conduzi-lo adiante. Havia algo de desconcertante nessa idia, mas, em meio 
perseguio, no teve tempo de refletir sobre o assunto.

A bota de Ted pressionava com fora o rosto de Alan. Ele sentia suas orelhas
sendo esmagadas e o salto da bota cortar-lhe dolorosamente o queixo. A arma
apontada para sua cabea parecia enorme, tapando todo o resto da viso, e ele
sentiu o intestino revirar de repente. Vou morrer, pensou.
- Agora que j viu isto aqui - falou Ted, balanando a arma sem deixar de apont-
la para ele -, se eu deixar voc se levantar, no vai tentar sair correndo, vai?
Alan tentou engolir, mas a garganta no obedeceu.
- No - grasnou.
Ted colocou mais peso ainda sobre a bota. A dor foi intensa e Alan gritou. Suas
orelhas estavam em chamas e pareciam ter sido achatadas at virarem dois discos
de papel. Estreitando os olhos em direo a seu agressor enquanto balbuciava um
pedido de misericrdia, notou que o outro brao de Ted estava em uma espcie
de gesso e que seu rosto estava preto e roxo. Incompreensivelmente, se pegou
imaginando o que teria acontecido a ele.
Ted se afastou.
- Levante-se - disse.
Alan se esforou para livrar as pernas da cadeira e se levantou devagar, quase
caindo para a frente ao sentir uma pontada forte no joelho. A porta aberta estava
a poucos metros de distncia.
- Nem pense nisso - rosnou Ted. Ele gesticulou, apontando para o bar. - Pra l.
Alan mancou de volta ao balco. Abee continuava diante da porta, xingando e
atirando-se contra ela. Ento se virou na direo de Alan.
Abee entortou a cabea para um lado, encarando-o. Parecia fora de si. Alan
sentiu o intestino revirar mais uma vez.
- Estou com seu namorado aqui fora! - gritou ele.
- Ele no  meu namorado! - gritou Candy de volta, mas o som estava abafado. -
Estou ligando para a polcia!
A essa altura, Abee j contornava o bar, aproximando-se de Alan, que ainda
estava sob a mira da arma de Ted.
- Achou que vocs dois poderiam simplesmente fugir? - vociferou Abee.
Alan abriu a boca para responder, mas o terror lhe roubou a voz.
Abee ento se abaixou, apanhando um taco de sinuca. Alan ficou observando-o
girar o taco na mo, como um batedor de beisebol preparando-se para assumir
sua base, mas louco e fora de controle.
Deus, por favor, no...
- Achou que eu no iria descobrir? Que no sabia o que estavam planejando? Eu
vi vocs dois na sexta!
A poucos passos de distncia, Alan ficou paralisado, incapaz de se mover
enquanto Abee inclinava o taco para trs. Ted recuou meio passo.
Ah, Deus...
- No sei do que voc est falando - respondeu Alan com dificuldade.
- Ela deixou o carro na sua casa? - perguntou Abee. --  l que ele est?
- O qu?... Eu...
Antes que Alan pudesse acabar de falar, Abee foi para cima dele brandindo o
taco. A madeira se chocou contra sua cabea, enchendo o mundo de exploses de
luz ofuscantes antes de a escurido retornar.
O rapaz caiu no cho, enquanto Abee o atacava com o taco uma segunda vez e
depois uma terceira. Alan tentou se proteger, mas apenas ouviu o som nauseante
de seu brao se quebrando. Quando o taco se partiu em dois, Abee lhe deu um
pontap forte na cara com o bico de ao da bota. Ento Ted comeou a chutar-
lhe os rins, causando exploses de dor.
Quando Alan desatou a gritar, a surra comeou para valer.

Correndo pelo matagal, eles se aproximavam do prdio atarracado. Dawson
conseguia ver alguns carros e caminhes na sua frente e, pela primeira vez,
notou um tnue brilho vermelho em cima da entrada. Lentamente, eles
comearam a tomar aquela direo.
 medida que o estranho de cabelos pretos se deslocava sem o menor esforo 
sua frente, Dawson tinha a incmoda sensao de que o conhecia. Os ombros
relaxados, o ritmo constante dos braos, a cadncia das passadas... Dawson j
tinha visto aquele jeito de correr, e no apenas na mata atrs da casa de Tuck.
Ainda no conseguia se lembrar de onde, mas a resposta parecia cada vez mais
prxima, como bolhas que subissem  superfcie da gua. O estranho olhou por
sobre o ombro, como se atento a cada pensamento de Dawson. Ento, pela
primeira vez, ele pde ver com clareza seus traos. E teve certeza de que tinha
visto aquele homem antes.
Antes do dia da exploso.
Dawson tropeou e voltou a se aprumar enquanto um calafrio percorria suas
costas.
No era possvel.
Tinham se passado 24 anos. Desde ento, Dawson tinha sido preso e posto em
liberdade, trabalhara em plataformas de petrleo no golfo do Mxico, amara e
perdera o amor por duas vezes, dera adeus ao homem que o acolhera e que a
velhice tinha levado embora. Mas o estranho - pois era isso que ele era e sempre
tinha sido, um estranho - no havia envelhecido um s dia. Estava idntico ao
que era na noite em que sara para correr na estrada molhada depois de atender
seus pacientes no consultrio. Agora Dawson percebia quem ele era: o rosto
surpreso que tinha visto ao dar uma guinada para fora da estrada, quando
transportava os pneus de que Tuck precisava, no caminho de volta para
Oriental...
Fora ali, lembrou-se mais uma vez Dawson. Fora ali que o Dr. David Bonner,
marido e pai, tinha sido morto.
Dawson respirou fundo e tropeou novamente, mas o homem mais uma vez
pareceu ler seus pensamentos. Ele assentiu sem sorrir assim que chegou ao
caminho de cascalho do estacionamento. Tornando a virar para a frente, o
homem acelerou, passando a seguir em paralelo  fachada do prdio. Dawson
sentia o suor em seu corpo  medida que tambm alcanava, cambaleante, o
estacionamento. Mais  frente, o estranho - o Dr. Bonner - havia parado de
correr e estava perto da entrada do prdio, banhado pela luz vermelha sinistra do
letreiro de neon.
Dawson se aproximou, concentrando-se no Dr. Bonner, enquanto o fantasma lhe
dava as costas e entrava.
Ele apertou o passo, atravessando poucos segundos depois a porta de um bar mal
iluminado, mas, a essa altura, o mdico tinha desaparecido.
Dawson precisou de apenas um instante para registrar a cena: as mesas e cadeiras
viradas, o som abafado de uma mulher gritando ao fundo enquanto a tev
continuava no ltimo volume. Seus primos Ted e Abee estavam curvados sobre
algum no cho, espancando-o com selvageria, de forma quase ritualstica, at
pararem de repente e erguerem os olhos em sua direo. Dawson vislumbrou a
figura ensangentada no cho e a reconheceu de imediato.
Alan...
Dawson estudara o rosto daquele jovem em inmeras fotos ao longo dos anos e,
naquele momento, notou sua impressionante semelhana com o pai - o homem
que Dawson vira durante todo aquele tempo, o homem que o conduzira at ali.
 medida que ele apreendia a cena, tudo se paralisou. Ted e Abee congelaram,
aparentemente incapazes de acreditar que algum - quem quer que fosse -
tivesse entrado ali de repente. O som da respirao dos dois era rascante, ambos
encarando Dawson como lobos interrompidos durante um banquete.
O Dr. Bonner o salvara por um motivo.
Este pensamento invadiu sua mente no mesmo instante em que os olhos de Ted
brilharam, prenunciando uma reao. Seu primo comeou a erguer a arma, mas,
quando puxou o gatilho, Dawson j estava saltando para trs de uma mesa,
saindo do percurso da bala. De repente ele compreendeu por que tinha sido
levado at ali - e talvez at o sentido de toda a sua vida.

A cada respirao gorgolejante, Alan tinha a sensao de ser apunhalado.
No conseguia sair do cho, mas, apesar da vista embaada, enxergava o que
estava acontecendo.
Desde que o estranho entrara correndo no bar, girando a cabea de um lado para
outro como se estivesse perseguindo algum, Ted e Abee tinham parado de
surr-lo e, por algum motivo, voltado sua ateno para o recm-chegado. Alan
no entendia o motivo disso, apenas se encolheu e comeou a rezar quando
ouviu tiros. O estranho tinha se jogado atrs de algumas mesas e Alan j no o
via, mas, quando se deu conta, garrafas de bebida estavam voando por cima da
sua cabea em direo a Ted e Abee, enquanto tiros ricocheteavam pelo bar.
Ouviu Abee gritar e o som abafado de madeira se partindo enquanto pedaos de
uma cadeira se despedaavam  sua volta. Ted sara de seu campo de viso, mas o
som de sua arma disparando permanecia, incessante.
Quanto a ele mesmo, tinha certeza de que estava morrendo.
Dois dos seus dentes estavam no cho e sua boca estava cheia de sangue. Ele
sentira as costelas se quebrarem onde Abee o havia chutado. A parte da frente de
sua cala estava mida - ou ele tinha se molhado ou estava sangrando por conta
dos golpes no rim.
Notou o som de sirenes ao longe, mas, convencido de que estava  beira da
morte, no conseguiu reunir energias para se importar com isso. Ouvia cadeiras
se quebrando e garrafas retinindo. De algum lugar muito distante, escutou Abee
grunhir quando uma garrafa de bebida se chocou contra algo slido.
Os ps do estranho passaram correndo por ele em direo ao balco. Ento
vieram gritos e um tiro que despedaou o espelho da parede ao fundo. Alan
sentiu a chuva de cacos de vidro cortar sua pele. Outro grito e mais sons de
briga. Abee comeou a soltar um berro agudo, interrompido de forma abrupta
pelo barulho de algo sendo batido contra o cho.
A cabea de algum?
Mais sons de briga. Do cho, Alan viu Ted cambalear para trs, por pouco no
pisando em seu p. Ted gritava enquanto tentava se equilibrar, mas Alan achou
ter ouvido um vestgio de temor em sua voz quando outro tiro ecoou pelo bar.
Alan fechou os olhos, ento tornou a abri-los no instante em que outra cadeira
passava voando. Ted disparou outro tiro desesperado em direo ao teto e o
estranho foi para cima dele como um touro, empurrando-o contra a parede. Uma
arma deslizou ruidosamente pelo cho quando Ted foi arremessado para o lado.
O homem estava em cima de Ted, que tentava se arrastar para longe, enquanto
Alan continuava sem conseguir se mover. Atrs dele, o som de um punho se
chocando contra um rosto se fez ouvir repetidas vezes. Ao ritmo dos golpes em
seu queixo, os gritos de Ted eram abafados ou voltavam a ecoar. Ento Alan
comeou a ouvir apenas os socos e Ted se calou. Ouviu mais um murro, seguido
por outros dois, cada vez mais lentos.
Por fim, tudo o que restou foi a respirao pesada de um homem.
O som das sirenes estava mais prximo agora, mas Alan, cado no cho, sabia que
o resgate havia chegado tarde demais.
Eles me mataram, ouviu em sua cabea  medida que sua viso escurecia. De
repente, sentiu que algum o agarrava pela cintura e comeava a levant-lo.
A dor era excruciante. Ele gritou ao sentir seu corpo ser erguido, enlaado por
um brao. Milagrosamente, sentiu suas pernas se moverem por conta prpria 
medida que o homem meio o arrastava, meio o carregava em direo  entrada.
Alan via o cu escuro l fora, mas mal enxergava a porta cada para a qual
estavam seguindo.
Embora no houvesse necessidade, surpreendeu-se dizendo com a voz rouca:
- Meu nome  Alan. - Ele se apoiou contra o homem. - Alan Bonner.
- Eu sei - respondeu o estranho. - Vim tirar voc daqui.

Vim tirar voc daqui.
Quase inconsciente, Ted no conseguiu registrar por completo as palavras, mas,
por instinto, sabia o que estava acontecendo. Dawson estava se safando outra
vez.
A fria que sentiu era mais forte do que a prpria morte.
Forou-se a abrir um olho empapado de sangue enquanto Dawson mancava em
direo  porta escorando o namorado de Candy. Aproveitando que o primo
estava de costas, Ted vasculhou a rea ao redor em busca da arma. L estava ela.
A poucos metros de distncia, debaixo de uma mesa quebrada.
As sirenes j estavam perto.
Reunindo suas ltimas reservas de energia, Ted se jogou na direo da pistola,
satisfeito ao segur-la firme e sentir seu peso. Girou a arma para a porta,
apontando-a para Dawson. No fazia idia de quantos tiros restavam, mas sabia
que aquela era sua ltima chance.
Ele mirou. E ento puxou o gatilho.

                                      21

E r a meia-noite, Amanda estava entorpecida. Esgotada mental, fsica e
emocionalmente, tinha passado horas de exausto e desassossego na sala de
espera. J havia folheado revistas sem registrar absolutamente nada e andara para
l e para c de forma compulsiva, tentando conter o pavor que sentia ao pensar
no filho. No entanto,  medida que a meia-noite se aproximava, sentiu sua
ansiedade se esvair, deixando apenas uma casca vazia.
Lynn havia chegado uma hora antes e seu pnico era evidente. Concentrando-se
em Amanda, bombardeou a me com uma srie interminvel de perguntas que
ela no sabia responder. Em seguida, voltou-se para Frank, angustiada por ouvir
detalhes do acidente. Um motorista havia atravessado o cruzamento em alta
velocidade, dissera ele, encolhendo os ombros com impotncia. A essa altura j
estava sbrio, mas, embora estivesse claramente preocupado com Jared, no
mencionou por que o filho tinha passado por aquele cruzamento, para comeo
de conversa, ou mesmo por que estava levando o pai para casa.
Amanda no dirigira a palavra a Frank durante as horas que os dois passaram na
sala de espera. Sabia que Lynn notara o silncio entre os dois, mas a filha
tambm estava calada, absorta em preocupaes com o irmo. Em determinado
momento, perguntou a Amanda se deveria ir buscar Annette na colnia de
frias. Amanda lhe pediu para esperar at que tivessem uma noo mais definida
do que estava acontecendo. Annette era nova demais para entender todas as
implicaes daquilo e, para ser franca, Amanda no se sentia em condies de
cuidar de sua caula naquele momento. Precisava de todas as suas foras s para
no desmoronar.
A 00h20 daquela que era a noite mais longa da vida de Amanda, o Dr. Mills
finalmente entrou na sala de espera. Estava obviamente cansado, mas havia
trocado seu uniforme cirrgico antes de ir falar com eles. Amanda se levantou,
seguida de Lynn e Frank.
- A cirurgia foi um sucesso - disse ele sem rodeios. - Estamos muito confiantes de
que Jared ir ficar bem.

Fazia horas que Jared havia sido operado, mas Amanda s pde ver o filho
quando ele finalmente foi transferido para a UTI. Embora o setor estivesse
normalmente fechado para visitas noturnas, o Dr. Mills abriu uma exceo.
A essa altura, Lynn tinha levado Frank para casa. Ele tinha dito que a pancada
no rosto lhe causara uma dor de cabea muito forte, mas prometera voltar na
manh seguinte. Lynn se oferecera para retornar ao hospital depois e ficar com a
me, mas Amanda vetara a idia. Ela passaria a noite com Jared.
Durante as horas seguintes, Amanda permaneceu sentada ao lado da cama do
filho, escutando os bipes do monitor cardaco e o chiado artificial do respirador
que bombeava ar para seus pulmes. Sua pele tinha a cor de plstico velho e suas
bochechas pareciam ter murchado. Aquele no se parecia com o rapaz de que se
lembrava, com o menino que havia criado; era um estranho naquele ambiente
to alheio  vida cotidiana da famlia.
Apenas suas mos pareciam intactas e Amanda segurou uma delas, retirando
foras de seu calor. Quando a enfermeira trocou o curativo, ela vislumbrou o
corte profundo que marcava seu tronco e teve que desviar os olhos.
O mdico dissera que Jared provavelmente acordaria mais tarde naquele mesmo
dia e, ao lado do seu leito, ela se perguntou quanto o filho se lembraria do
acidente e da chegada ao hospital. Teria ficado com medo quando seu quadro
piorou de repente? Teria desejado que ela estivesse ali? Esse pensamento foi
como um soco no estmago e Amanda jurou que ficaria ao lado de Jared o tempo
que fosse preciso.
No havia dormido nem por um instante desde que chegara ao hospital. A
medida que as horas passavam sem que o rapaz desse sinal de que fosse acordar,
ela comeou a ficar sonolenta, ninada pelos sons constantes e ritmados dos
equipamentos da UTI. Inclinou-se para a frente, apoiando a cabea na barra da
cama. Vinte minutos depois, uma enfermeira a acordou, sugerindo que fosse
para casa descansar um pouco.
Amanda balanou a cabea, tornando a olhar para o filho, tentando transferir
suas foras para seu corpo debilitado. Para se consolar, pensou no que o Dr. Mills
dissera: assim que se recuperasse, Jared levaria uma vida praticamente normal.
Poderia ter sido pior, dissera-lhe o mdico, e Amanda repetia essa opinio como
um mantra para afastar as chances de uma tragdia mais grave.
O hospital comeava a voltar  vida  medida que a luz do sol surgia no cu.
Enfermeiras trocavam de turnos, carrinhos com o caf da manh passavam,
mdicos comeavam a fazer suas rondas. O nvel de barulho foi aumentando at
se tornar um burburinho constante. Uma enfermeira avisou enfaticamente a
Amanda que precisava verificar o cateter, de modo que ela saiu com relutncia
da UTI e seguiu em direo  lanchonete. Talvez um pouco de cafena lhe desse
a energia de que precisava. Tinha de estar ali quando Jared finalmente acordasse.
Embora fosse muito cedo, a fila j estava longa, cheia de pessoas que, como ela,
haviam passado a noite em claro. Um homem que beirava os 30 parou atrs de
Amanda.
- Minha mulher vai me matar - confidenciou quando os dois alinharam suas
bandejas.
Amanda ergueu uma sobrancelha.
- Por qu?
- Nosso beb nasceu na noite passada e ela me pediu para vir aqui pegar um caf
para ela. Disse para eu me apressar, porque a falta de cafena estava lhe dando
dor de cabea, mas no pude deixar de parar no berrio para dar mais uma
olhadinha.
Apesar de tudo, Amanda sorriu.
- Menino ou menina?
- Menino - respondeu ele. - Gabriel. Gabe.  nosso primeiro filho.
Amanda pensou em Jared. Pensou em Lynn e em Annette. Pensou em Bea. O
hospital tinha sido palco tanto dos dias mais felizes quanto dos mais tristes de sua
vida.
- Meus parabns - disse ela.
A fila se arrastava enquanto as pessoas escolhiam sem pressa. Amanda conferiu
as horas depois de enfim conseguir pagar seu caf. Tinha passado 15 minutos
fora. Tinha quase certeza de que no poderia entrar com o copo na UTI, ento se
sentou a uma mesa perto da janela e observou enquanto o estacionamento em
frente comeava a encher aos poucos.
Quando terminou de beber o caf, foi ao banheiro. A imagem que viu no espelho
refletia algum cansado e que obviamente no dormira, uma pessoa quase
irreconhecvel. Jogou gua fria no rosto e no pescoo e passou os minutos
seguintes se esforando ao mximo para ficar mais apresentvel. Pegou o
elevador para subir de volta e refez seus passos em direo  UTI. Quando se
aproximou da porta, uma enfermeira se levantou e bloqueou seu caminho.
- Sinto muito, mas a senhora no pode entrar agora - disse ela.
- Por que no? - perguntou Amanda, estacando.
A enfermeira no quis responder, a expresso em seu rosto inflexvel. Amanda se
sentiu novamente tomada pelo pnico.
Ficou esperando quase uma hora diante da porta da UTI, at que o Dr. Mills
finalmente saiu para falar com ela.
- Sinto muito - disse ele mas houve uma complicao sria no quadro do seu
filho.
- M-m-mas eu estava com ele agora mesmo - gaguejou ela, incapaz de pensar em
outra coisa para dizer.
- Ele teve uma isquemia no ventrculo direito - disse o mdico, balanando a
cabea.
Amanda franziu o cenho.
- No sei o que o senhor est dizendo! Fale de um jeito que eu entenda!
A expresso em seu rosto era de compaixo e sua voz era branda.
- O seu filho... - disse ele enfim. - Jared... sofreu um infarto agudo.
Amanda piscou, sentindo as paredes do corredor se fecharem ao seu redor.
- No - falou ela. - Isso no  possvel. Ele estava dormindo... estava se
recuperando quando eu sa.
O Dr. Mills ficou calado e Amanda se sentiu zonza, quase fora do prprio corpo,
enquanto continuava falando:
- O senhor disse que ele iria ficar bem. Que a cirurgia tinha sido um sucesso.
Disse que ele acordaria mais tarde.
- Sinto muito...
- Como Jared pode ter tido um ataque cardaco? - protestou, incrdula. - Ele s
tem 19 anos!
- No sei ao certo.  quase garantido que tenha sido um cogulo. Pode estar
relacionado ou ao trauma original ou ao trauma da cirurgia, mas no temos como
afirmar - explicou o Dr. Mills. -  raro, mas tudo pode acontecer quando o
corao sofre uma leso to grave. - Ele tocou seu brao. - O que posso lhe dizer
 que, se tivesse acontecido em qualquer outro lugar que no a UTI, ele talvez
no tivesse sobrevivido.
A voz de Amanda comeou a tremer.
- Mas ele sobreviveu, certo? Vai ficar bem, no vai?
- No sei dizer. - O rosto do mdico tornou a se fechar.
- Como assim, no sabe dizer?
- Estamos tendo dificuldade em manter o ritmo sinusal.
- Pare de falar como mdico! - exclamou ela. - S me diga o que preciso saber!
Meu filho vai ficar bem?
Pela primeira vez, o Dr. Mills desviou o olhar.
- O corao do seu filho est falhando - disse ele. - Sem uma... interveno, no
sei por quanto tempo ele poder resistir.
Amanda cambaleou, como se as palavras fossem golpes. Apoiou-se na parede,
tentando digerir o que o mdico dizia.
- O senhor no est dizendo que ele vai morrer, est? - sussurrou ela. - Ele no
pode morrer.  jovem, saudvel e forte. O senhor precisa fazer alguma coisa.
- Estamos fazendo todo o possvel - falou o Dr. Mills, soando cansado.
De novo, no, era s nisso que ela conseguia pensar. J perdemos Bea.
Jared no, por favor.
- Ento faam mais! - insistiu Amanda, meio implorando, meio gritando. - Faam
uma cirurgia, tudo o que for preciso!
- Uma cirurgia est fora de cogitao no momento.
- Ento faam o que for preciso para salv-lo! - gritou Amanda, sua voz falhando.
- No  to simples assim...
- Por que no? - Seu rosto refletia sua incompreenso.
- Preciso convocar uma reunio de emergncia com a comisso de transplantes.
Ao ouvir essas palavras, o pouco de calma que restava em Amanda desapareceu
subitamente.
- Transplante?
- Sim - falou o Dr. Mills, lanando um olhar na direo da porta da UTI e ento
voltando a encar-la. Ele suspirou. - Seu filho precisa de um corao novo.

Logo depois, Amanda foi levada de volta para a mesma sala de espera em que
havia ficado durante a primeira cirurgia de Jared.
Dessa vez no estava sozinha. Havia outras trs pessoas l, todas com a mesma
expresso tensa e desamparada de Amanda. Ela se deixou cair em uma poltrona,
tentando, sem sucesso, reprimir a terrvel sensao de dj-vu.
No sei por quanto tempo ele poder resistir.
Ah, meu Deus...
De repente j no suportava ficar presa naquela sala de espera. O cheiro de
antissptico, as pavorosas luzes fluorescentes, os rostos cansados e ansiosos... Era
uma repetio das semanas e meses que eles tinham passado em salas idnticas
quela, durante a doena de Bea. O desespero, a agonia... Ela precisava sair dali.
Levantando-se, ela jogou a bolsa no ombro e desceu pelos corredores azulejados
e impessoais at encontrar uma sada. Quando chegou a um pequeno terrao ao
ar livre, sentou-se em um banco de pedra e respirou fundo o ar matinal. Ento
sacou o celular. Conseguiu pegar em casa Lynn e Frank, que j estavam de sada
para o hospital. Amanda relatou o ocorrido enquanto cada um ouvia de uma
extenso. Lynn fez outra srie de perguntas irrespondveis, mas Amanda a
interrompeu para pedir que telefonasse para a colnia de frias em que Annette
estava e tomasse as providncias para buscar a irm. A viagem de ida e volta
duraria trs horas e Lynn protestou, dizendo que queria ver Jared, mas Amanda
respondeu com firmeza que precisava que a filha fizesse aquilo por ela. Frank
no disse uma s palavra.
Depois Amanda telefonou para a me. Explicar o que havia acontecido nas
ltimas 24 horas de alguma forma tornou o pesadelo ainda mais real e ela
desabou antes que conseguisse terminar.
- Estou a caminho - limitou-se a dizer sua me. - Estarei a o mais rpido
possvel.

Quando Frank chegou, eles se reuniram no consultrio do Dr. Mills no terceiro
andar para discutir a possibilidade de Jared receber um corao.
Embora Amanda tivesse escutado e compreendido tudo o que o Dr. Mills dissera
sobre o procedimento, s dois detalhes permaneceram em sua mente.
O primeiro foi que Jared poderia no ser aprovado pela comisso de transplantes
- apesar da gravidade do quadro do rapaz, no havia precedentes de uma vtima
de acidente de trnsito que fosse aceita na lista de espera. O Dr. Mills no podia
garantir que Jared conseguisse entrar.
O segundo foi que, mesmo que Jared fosse aprovado, a nica coisa que poderia
determinar se haveria ou no um corao adequado disponvel seria a sorte - e
eles precisariam de muita.
Em outras palavras, as chances eram mnimas em ambos os casos.
No sei por quanto tempo ele poder resistir.
No caminho de volta para a sala de espera, Frank parecia to atordoado quanto
ela. A raiva de Amanda e a culpa de Frank formavam uma barreira
intransponvel entre os dois. Uma hora mais tarde, uma enfermeira surgiu para
atualiz-los, dizendo que o quadro de Jared tinha se estabilizado por enquanto e
que os dois poderiam visitar a UTI se quisessem.
Estabilizado. Por enquanto.
Amanda e Frank pararam ao lado do leito do filho. Ela conseguia ver a criana
que ele havia sido e o jovem que se tornara, mas mal podia relacionar essas
imagens  pessoa inconsciente prostrada na cama. Frank sussurrou suas
desculpas, pedindo a Jared para "agentar firme", e suas palavras desencadearam
em Amanda uma onda de ira e incredulidade que ela teve de lutar para conter.
Frank parecia ter envelhecido 10 anos desde a noite anterior. Desalinhado e
cabisbaixo, ele era a tristeza em pessoa, mas Amanda no conseguiu sentir
nenhuma compaixo por ele, que certamente se culpava do que havia
acontecido. Em vez disso, ela apenas correu os dedos pelos cabelos de Jared,
acompanhando o ritmo dos bipes digitais dos monitores.
Enfermeiras pairavam sobre outros pacientes, verificando cateteres e ajustando o
fluxo de medicamentos como se aquele fosse um dia perfeitamente normal.
Podia ser um dia normal na rotina de uma UTI, mas no havia nada de normal
naquilo tudo. Daquele dia em diante, a vida de Amanda e de sua famlia nunca
mais seria a mesma.
A comisso de transplantes se reuniria em breve. No havia precedentes de
incluso de um paciente como Jared na lista de espera. Se dissessem no, seu
filho iria morrer.

Lynn chegou ao hospital com Annette, que abraava seu bicho de pelcia
favorito, um macaco. Abrindo uma rara exceo, as enfermeiras permitiram que
as irms entrassem juntas na UTI para ver Jared. Lynn ficou plida e deu um
beijo na bochecha do irmo. Annette deixou o macaco ao lado dele no leito.

Na sala de reunies vrios andares acima da UTI, a comisso de transplantes
estava prestes a realizar uma votao de emergncia. O Dr. Mills apresentou o
perfil de Jared e o histrico do caso, assim como o carter urgente da situao.
- Diz aqui que ele sofre de insuficincia cardaca congestiva - falou um dos
membros da comisso, franzindo as sobrancelhas para o relatrio que tinha
diante de si.
O Dr. Mills assentiu.
- Como detalhei no relatrio, o infarto causou danos graves ao ventrculo direito
do paciente.
- Um infarto que muito provavelmente foi originado pelas leses sofridas em um
acidente de carro - rebateu o outro mdico. - Como regra geral, vtimas de
acidentes no recebem coraes.
- S porque em geral elas no vivem tempo suficiente para se beneficiarem do
procedimento - assinalou o Dr. Mills. - Esse paciente, no entanto, sobreviveu.
Ele  jovem, saudvel e tem excelentes possibilidades de recuperao. Ainda no
conhecemos a verdadeira causa do infarto e, como sabemos, insuficincia
cardaca congestiva satisfaz os requisitos para um transplante. - Ele ps o
relatrio de lado e se inclinou, encarando os colegas um por um. - Sem um
transplante, duvido que o paciente sobreviva outras 24 horas. Precisamos inclu-
lo na lista. - Um qu de splica se insinuou em sua voz. - Ele ainda  jovem.
Precisamos lhe dar a chance de viver.
Alguns dos membros da comisso trocaram olhares descrentes. O Dr. Mills sabia
no que estavam pensando: aquele no s era um caso sem precedentes, como
tambm o tempo disponvel era muito curto. As chances de encontrarem um
doador a tempo eram quase nulas, o que significava que, qualquer que fosse a
deciso que tomassem, ainda assim seria provvel que o paciente morresse. No
entanto, havia outra questo que nenhum dos membros da comisso
mencionara, um clculo mais frio que tinha a ver com dinheiro. Se Jared fosse
acrescentado  lista, seu nome contaria ou como um sucesso ou como um
fracasso do programa de transplantes como um todo - e ter uma taxa de sucessos
mais alta conferia melhor reputao ao hospital. Mais verbas para pesquisas e
cirurgias. Mais dinheiro para transplantes no futuro. Em um contexto mais
amplo, significava que, a longo prazo, mais vidas poderiam ser salvas, mesmo que
uma precisasse ser sacrificada agora.
Mas o Dr. Mills conhecia bem seus colegas e sabia, no fundo do corao, que
cada paciente e conjunto de circunstncias eram especiais. Eles entendiam que
nem sempre a situao se resumia a nmeros. Eram profissionais que s vezes
corriam riscos para ajudar um paciente. Para a maioria daqueles homens, assim
como para ele, esse era o motivo que os levara a escolher a medicina. Eles
queriam salvar vidas e, naquele dia, resolveram tentar mais uma vez.
No fim das contas, a incluso de Jared foi aprovada por unanimidade pela
comisso de transplantes. Em menos de uma hora, o rapaz foi classificado como
paciente de prioridade mxima - caso, por algum milagre, surgisse um doador.

Quando o Dr. Mills lhes deu a notcia, Amanda levantou-se de um salto e o
abraou, agarrando-se a ele com uma fora desesperada.
- Obrigada - disse ela com um suspiro. - Obrigada. - Amanda repetia a mesma
palavra sem parar. Tinha medo de dizer qualquer outra coisa, de externar sua
esperana no milagre de encontrarem um doador.

Quando Evelyn chegou  sala de espera, precisou olhar somente uma vez para a
famlia traumatizada para saber que algum precisava chamar para si a
responsabilidade de cuidar deles. Algum que pudesse apoi-los, no que
precisasse de apoio.
Ela os abraou um por um, demorando mais no abrao de Amanda. Ento, dando
um passo para trs para analisar o grupo, perguntou:
- Bem, quem precisa de um lanche?

Sem demora, Evelyn levou Lynn e Annette para lanchar, deixando Frank e
Amanda sozinhos. Amanda no conseguia nem mesmo pensar em comer.
Quanto a Frank, ela pouco se importava. Tudo o que conseguia fazer era pensar
em Jared. E esperar. E rezar.
Quando uma das enfermeiras da UTI passou pela sala de espera, Amanda saiu
correndo atrs dela, alcanando-a no corredor. Com a voz trmula, fez a
pergunta bvia.
- No - respondeu a moa -, sinto muito. At o momento, no temos notcias de
nenhum doador em potencial.

Ainda parada no corredor, Amanda levou as mos ao rosto.
Sem que ela percebesse, Frank tinha sado da sala de espera e se postara ao seu
lado enquanto a enfermeira se afastava s pressas.
- Vo encontrar um doador - disse Frank.
Quando ele tentou toc-la, Amanda virou para o outro lado.
- Vo encontrar - repetiu ele. Os olhos de Amanda flamejaram.
- Se tem algum que no pode me prometer isso,  voc.
- No,  claro que no...
- Ento no diga nada - falou ela. - No diga coisas sem sentido.
Frank tocou o nariz inchado.
- S estou tentando...
- Tentando o qu? Fazer com que eu me sinta melhor? Meu filho est morrendo!
- Sua voz ecoou pelo corredor azulejado, fazendo cabeas se virarem em sua
direo.
- Ele  meu filho tambm - disse Frank baixinho.
A raiva que Amanda estava reprimindo explodiu, vindo  tona de repente.
- Ento por que o fez sair de casa para buscar voc? - gritou ela. - Por que se
embebedou a ponto de no conseguir voltar sozinho?
- Amanda...
- A culpa  sua! - vociferou ela.
Dos dois lados do corredor, pacientes esticaram as cabeas para espiar pelas
portas de seus quartos e enfermeiras pararam de andar no ato.
- Ele no deveria estar no carro! No tinha motivo para estar ali! Mas voc ficou
to bbado que no pde se virar sozinho! De novo! Como sempre faz!
- Foi um acidente - tentou defender-se Frank.
- No foi! Ser que voc no entende? Voc comprou a cerveja, voc a bebeu...
voc provocou tudo. Foi voc quem colocou Jared naquele carro!
A respirao de Amanda estava pesada e ela agora nem sequer percebia a
presena de qualquer outra pessoa no corredor.
- Eu lhe pedi que parasse de beber - sibilou ela. - Implorei que parasse. Mas voc
nunca parou. Nunca deu importncia ao que eu queria ou ao que era melhor
para as crianas. A nica coisa em que sempre pensou foi em si mesmo e em
como sofreu depois da morte de Bea.
O ar entrou de um jato em seus pulmes quando ela respirou fundo para
prosseguir:
- Quer saber de uma coisa? Eu tambm fiquei arrasada. Fui eu quem deu  luz
aquela garotinha. Fui eu quem a pegou no colo, amamentou e trocou fraldas
enquanto voc estava no trabalho. Fui eu que estive o tempo todo ao lado dela
quando ela ficou doente. Fui eu, no voc. Eu. - Amanda bateu com seu dedo no
peito. - Mas, por algum motivo, foi voc quem no conseguiu lidar com a morte
dela. E sabe o que aconteceu? Junto com a minha filha, eu acabei perdendo o
homem com quem me casei. Mas mesmo assim encontrei uma maneira de seguir
adiante e tentar melhorar as coisas.
O rosto de Amanda estava contorcido de amargura e ela deu as costas a Frank.
- Meu filho est respirando por aparelhos e o tempo dele est se esgotando
porque eu nunca tive coragem de largar voc - desabafou. -  isso que eu deveria
ter feito h muito tempo.
Na metade do seu desabafo, Frank tinha baixado os olhos e agora encarava o
cho. Esgotada, Amanda comeou a descer o corredor, afastando-se dele.
Ela parou por um instante, virou-se e acrescentou:
- Eu sei que foi um acidente. Sei que est arrependido. Mas seu arrependimento
no  suficiente. Se no fosse por voc, no estaramos aqui. Ns dois sabemos
disso.
Suas ltimas palavras ecoaram por toda a ala do hospital e Amanda esperou que
ele fosse retrucar. Mas ele permaneceu calado e ela finalmente foi embora dali.

Quando os familiares receberam permisso para visitar novamente a UTI,
Amanda e as meninas se revezaram para sentar ao lado de Jared. Amanda ficou
quase uma hora com ele. Saiu assim que Frank chegou. Evelyn entrou para ver o
neto em seguida, ficando apenas alguns minutos.
Depois que Evelyn conduziu o restante da famlia para fora da UTI, Amanda
voltou sozinha para o lado do leito do filho e continuou ali at depois da troca de
planto das enfermeiras.
Ainda no havia notcias de um doador.

A hora do jantar chegou e passou. Mais tarde, Evelyn foi at a UTI e arrastou
Amanda para a lanchonete. Embora pensar em comida quase lhe embrulhasse o
estmago, sua me fez questo de vigiar enquanto ela comia um sanduche em
silncio. Engolindo cada bocado sem gosto com um esforo mecnico, Amanda
finalmente empurrou a ltima mordida goela abaixo e amassou a embalagem de
celofane.
Em seguida, levantou-se e voltou para junto do filho.

s oito da noite, quando o horrio de visitas se encerrava, Evelyn determinou
que seria melhor as meninas voltarem para casa por um tempo. Frank as
acompanhou, mas Amanda, graas a uma nova exceo aberta pelo Dr. Mills,
continuou com Jared na UTI.
Ao cair da noite, a atividade frentica do hospital desacelerou. Amanda
permanecia sentada, imvel, ao lado do leito do filho. Entorpecida, notou a troca
de planto das enfermeiras, mas no conseguiu se lembrar dos nomes delas.
Implorava a Deus a todo momento que salvasse a vida de seu filho, da mesma
forma como havia implorado que salvasse Bea.
Sua nica esperana era que desta vez Ele a ouvisse.

Pouco depois da meia-noite, o Dr. Mills entrou na sala.
- A senhora deveria ir para casa descansar um pouco - disse ele. - Prometo que
ligo se tiver alguma notcia.
Amanda se recusava a largar a mo de Jared, erguendo o queixo com teimosia.
- No vou deix-lo sozinho.

Eram quase trs da manh quando o Dr. Mills voltou  UTI. A essa altura,
Amanda j estava exausta demais para se levantar.
- Aconteceu.
Amanda se virou para encar-lo, de repente certa de que o mdico lhe diria que
a ltima chance deles tinha se esgotado. No tem mais jeito, pensou ela,
entorpecida.  o fim.
Em vez disso, viu algo parecido com esperana no rosto do Dr. Mills.
- Encontramos um doador compatvel - disse ele. - As chances eram uma em um
milho, mas, de alguma forma, ele apareceu.
Amanda sentiu um fluxo de adrenalina percorrer seus membros, cada nervo seu
despertando  medida que ela tentava entender o que ele dizia.
- Um doador compatvel?
- Sim, um corao. Ele est sendo transportado para o hospital agora mesmo e a
cirurgia j foi marcada. A equipe est se reunindo neste exato momento.
- Isso significa que Jared vai viver? - perguntou Amanda, com a voz rouca.
- O plano  esse.
Pela primeira vez desde que chegara ao hospital, Amanda comeou a chorar.

                                      22

Diante da insistncia do Dr. Mills, Amanda finalmente voltou para casa.
Disseram-lhe que Jared seria levado para o pr-operatrio para ser preparado
para a cirurgia e que ela no poderia acompanh-lo. Depois disso, o transplante
em si levaria entre quatro e seis horas, dependendo de haver ou no
complicaes.
- No - acrescentou o Dr. Mills, antes mesmo que ela pudesse perguntar. - No
h motivo para esperarmos nenhuma complicao.
Por mais que ainda sentisse raiva, ela ligou para Frank depois de receber a
notcia e antes de deixar o hospital. Como Amanda, ele no havia dormido e -
embora ela tivesse esperado ouvir a voz arrastada de sempre - estava sbrio
quando atendeu o telefone. Ficou obviamente aliviado com a notcia e lhe
agradeceu por ter ligado.
Ela no viu o marido ao chegar em casa e suspeitou que, j que sua me estava no
quarto de hspedes, ele estivesse dormindo no sof da saleta. Embora estivesse
exausta, o que precisava mesmo era de um banho e passou um bom tempo
debaixo do delicioso jato d'gua antes de finalmente ir para a cama.
Ainda faltavam cerca de duas horas para o amanhecer e, enquanto fechava os
olhos, Amanda disse a si mesma que no iria dormir muito, s um pequeno
cochilo antes de voltar ao hospital.
Em vez disso, caiu num sono pesado por seis horas.

Sua me estava segurando uma caneca de caf quando Amanda veio s pressas
pelo corredor, louca para voltar ao hospital e tentando lembrar onde havia
deixado as chaves.
- Liguei para l h pouco - disse Evelyn. - Lynn disse que no h nenhuma
notcia alm do fato de Jared ainda estar sendo operado.
- Preciso ir assim mesmo - balbuciou Amanda.
- Claro que precisa. Mas no antes de tomar um caf. - Evelyn estendeu a caneca
para ela. - Preparei para voc.
Amanda revirou as pilhas de correspondncias e quinquilharias em cima dos
balces, ainda procurando suas chaves.
- No tenho tempo...
- Voc vai levar uns cinco ou 10 minutos para beber este caf - disse a me em
um tom que no admitiria protestos.
Distrada, Amanda viu a caneca fumegante surgir em sua mo.
- No vai mudar nada - prosseguiu Evelyn. - Ns duas sabemos que, assim que
chegar ao hospital, tudo o que voc vai poder fazer  esperar. E o que importa
para Jared  que voc esteja a seu lado quando ele acordar, mas isso s vai
acontecer daqui a muitas horas. Ento pare alguns minutos antes de sair
correndo. - Sentando-se em uma das cadeiras da cozinha, sua me apontou para
o lugar ao seu lado. - Tome um caf e coma alguma coisa.
- No posso tomar caf da manh enquanto meu filho est sendo operado! -
argumentou Amanda.
- Sei que est preocupada - falou Evelyn, seu tom surpreendentemente gentil. -
Eu tambm estou. Mas sou sua me e tambm me preocupo com o seu bem-
estar, porque sei quanto o restante desta famlia depende de voc. Ns duas
sabemos que voc funciona muito melhor depois de comer e tomar um caf.
Amanda hesitou e ento levou a caneca aos lbios. Estava mesmo uma delcia.
- A senhora acha mesmo que isto est certo? - Ela franziu as sobrancelhas,
indecisa, enquanto sentava ao lado da me e apoiava a caneca na mesa.
-  claro. Voc tem um longo dia pela frente. Na hora em que Jared acordar, vai
precisar que voc esteja forte.
Amanda agarrou a caneca.
- Estou com medo - admitiu.
Para surpresa de Amanda, Evelyn cobriu as mos da filha com as suas.
- Eu sei. Tambm estou.
Amanda olhou para as prprias mos, que ainda envolviam a caneca de caf,
cercadas e protegidas pelas mos minsculas e bem cuidadas da me.
- Obrigada por ter vindo.
Evelyn se permitiu abrir um pequeno sorriso.
- No tive escolha - falou ela. - Voc  minha filha e precisava de mim.

Juntas, Amanda e a me foram de carro at o hospital, encontrando o restante da
famlia na sala de espera. Annette e Lynn correram para lhe dar um abrao,
enterrando os rostos em seu pescoo. Frank se limitou a menear a cabea e
murmurar um ol. Percebendo na mesma hora a tenso entre os dois, Evelyn se
apressou em tirar as meninas dali, levando-as para almoar antes da hora.
Quando Amanda e Frank ficaram sozinhos, ele se virou para encar-la.
- Sinto muito - disse. - Por tudo. Amanda olhou para o marido.
- Eu sei.
- Deveria ter sido eu, no Jared. Amanda ficou calada.
- Posso deix-la sozinha, se quiser - disse ele, quebrando o silncio. - Posso
encontrar outro lugar para me sentar.
Amanda suspirou antes de balanar a cabea.
- Fique. Ele  seu filho. Seu lugar  aqui. Frank engoliu em seco.
- Eu parei de beber, se isso significa alguma coisa. Desta vez  pra valer. Eu juro.
Amanda o interrompeu com um gesto.
- No faa isso, est bem? No quero entrar nesse assunto agora. No  a hora
nem o lugar e s vai servir para me deixar mais irritada ainda. J ouvi essa
histria antes e no tenho condies de lidar com mais isso ainda por cima.
Frank assentiu. Dando-lhe as costas, voltou para seu lugar. Amanda se sentou em
uma poltrona junto  parede oposta. Nenhum dos dois falou mais nada at
Evelyn voltar com as crianas.

Pouco depois do meio-dia, o Dr. Mills entrou na sala de espera. Todos se
levantaram. Amanda avaliou seu rosto esperando o pior, mas seu medo foi quase
imediatamente atenuado pela expresso de cansao e alegria do mdico.
- A cirurgia correu bem - comeou ele, antes de explicar os detalhes do
procedimento.
Quando ele terminou, Annette puxou sua manga.
- Jared vai ficar bem?
- Sim - respondeu o mdico com um sorriso. Ele estendeu a mo para tocar sua
cabea. - Seu irmo vai ficar bem.
- Quando poderemos v-lo? - perguntou Amanda.
- Ele ainda est se recuperando, mas talvez daqui a algumas horas.
- Ele vai estar acordado?
- Sim - respondeu o Dr. Mills. - Ele estar acordado.

Quando a famlia foi informada de que poderia entrar para visitar Jared, Frank
balanou a cabea.
- V primeiro - disse ele a Amanda. - Ns esperamos. Podemos entrar depois.
Amanda seguiu a enfermeira at a sala de ps-operatrio. Mais adiante, o Dr.
Mills a aguardava.
- Ele est acordado - falou o mdico, meneando a cabea e acompanhando seus
passos. - Mas devo alert-la de que tem muitas perguntas e no aceitou muito
bem a notcia. Preciso pedir que faa todo o possvel para no perturb-lo.
- O que devo dizer?
- Apenas converse com seu filho - respondeu ele. - A senhora sabe o que dizer. E
a me dele.
Diante da sala de ps-operatrio, Amanda respirou fundo e o Dr. Mills abriu a
porta. Ela entrou no recinto bem iluminado, localizando imediatamente o filho
em um leito com as cortinas abertas.
Jared estava branco como uma folha de papel, com as bochechas mur- chas.
Virou a cabea para o lado e um breve sorriso se abriu em seu rosto.
- Oi, me - sussurrou, os resqucios da anestesia deixando suas palavras
engroladas.
Amanda tocou seu brao, tomando cuidado para no mexer nos inmeros tubos,
esparadrapos e aparelhos conectados ao seu corpo.
- Oi, querido. Como voc est?
- Cansado - murmurou ele. - Dolorido.
- Eu sei - disse ela. Amanda afastou o cabelo da testa de Jared antes de se sentar
na cadeira de plstico ao seu lado. - E deve continuar sentindo dor por alguns
dias. Mas no vai precisar ficar aqui por muito tempo. S uma semana, mais ou
menos.
Ele piscou, suas plpebras movendo-se devagar. Como costumava fazer quando
criana, logo antes de ela apagar as luzes na hora de dormir.
- Colocaram outro corao em mim - falou ele. - O mdico disse que era minha
nica chance.
- Era - ela confirmou.
- Como vai ser? - Jared sacudiu o brao, agitado. - Eu vou ter uma vida normal?
-  claro que vai - disse Amanda, tranquilizando-o.
- Tiraram meu corao, me. - Jared agarrou o lenol. - Me disseram que vou
precisar tomar remdios pelo resto da vida.
Seu rosto jovem se encheu de perplexidade e medo. Ele sabia que seu futuro
tinha sido irrevogavelmente alterado e, por mais que Amanda desejasse proteger
o filho dessa nova realidade, sabia que era impossvel.
- Sim, voc fez um transplante de corao - falou ela, mantendo o olhar firme. -E
sim, vai passar o resto da vida tomando remdios. Mas isso significa que voc
est vivo.
- Por quanto tempo? Nem os mdicos sabem dizer.
- E tem mesmo importncia?
-  claro que tem - retrucou Jared. - Eles me disseram que os rgos
transplantados duram em mdia 15 ou 20 anos. Da eu provavelmente vou
precisar de outro corao.
- E ns vamos encontrar outro. E, nesse meio-tempo, voc vai viver. Depois
viver mais um pouco. Como todas as pessoas neste mundo.
- Voc no est entendendo, me. - Jared virou a cabea para o outro lado, em
direo  parede.
Amanda notou sua reao e buscou as palavras certas para ajud-lo a aceitar
aquele novo mundo no qual havia despertado.
- Sabe no que eu fiquei pensando enquanto esperava aqui no hospital durante os
ltimos dois dias? - comeou a falar. - Fiquei pensando que existem tantas coisas
que voc ainda no fez, tantas experincias que ainda no teve. Como a
satisfao de terminar a faculdade, a emoo de comprar uma casa, a alegria de
conseguir um bom emprego ou conhecer a garota dos seus sonhos e se apaixonar.
Jared no deu nenhum sinal de ter escutado, mas sua imobilidade tensa dizia a
Amanda que ele estava ouvindo.
- Voc ainda vai poder fazer todas essas coisas - prosseguiu ela. - Vai cometer
erros e lutar, como todo mundo, mas, quando estiver ao lado da pessoa certa,
sentir uma felicidade quase completa, como se fosse o maior felizardo do
mundo. - Ela estendeu a mo para afagar seu brao. - E, no fim das contas, o
transplante de corao no tem nada a ver com nenhuma dessas coisas. Porque
voc ainda est vivo e isso significa que ir amar e ser amado... E, no fim, isso 
tudo o que importa.
Jared ficou imvel na cama por tanto tempo que Amanda se perguntou se o
torpor ps-operatrio no o havia feito pegar no sono. Ento ele virou a cabea
devagar.
- Voc acredita mesmo nisso tudo? - perguntou ele, hesitante.
Pela primeira vez desde que recebera a notcia do acidente, Amanda pensou em
Dawson Cole. Ela se aproximou do filho.
- Em cada palavra.

                                        23

Morgan Tanner estava parado na oficina de Tuck, as mos entrelaadas diante de
si enquanto examinava o monte de sucata que um dia havia sido o Stingray. Ele
fez uma careta, pensando que o dono no iria gostar nem um pouco daquilo.
Estava na cara que o estrago era recente. Uma chave de roda se projetava da
lataria do carro num pedao em que ela havia sido parcialmente arrancada.
Morgan tinha certeza de que nem Dawson nem Amanda o teriam deixado
daquele jeito. Eles tampouco poderiam ser responsveis pela cadeira que tinha
sido atirada pela janela em direo  varanda. Tudo aquilo parecia ser obra de
Ted e Abee Cole.
Embora no tivesse nascido em Oriental, Morgan estava a par do que acontecia
na cidade. O tempo lhe ensinara que, se ficasse ouvindo com ateno no Irvin's,
poderia aprender muita coisa sobre a histria daquela parte do mundo e sobre as
pessoas que viviam ali. E claro que, em um lugar como o Irvin's, era preciso
desconfiar um pouco de qualquer informao. Boatos, fofocas e insinuaes eram
to comuns quanto a verdade propriamente dita. Mesmo assim, ele sabia mais
sobre a famlia Cole do que a maioria das pessoas poderia esperar. Incluindo
bastante coisa a respeito de Dawson.
Depois que Tuck lhe contara sobre seus planos para Dawson e Amanda, Tanner
se preocupara o suficiente com a prpria segurana para descobrir o mximo
possvel sobre os Cole. Embora Tuck tivesse garantido que Dawson tinha bom
carter, Tanner havia se dado o trabalho de conversar com o xerife que o
prendera e tambm com o promotor e o defensor pblico. A comunidade
jurdica do condado de Pamlico era pequena e no foi nada difcil conseguir que
os colegas lhe falassem sobre um dos crimes mais clebres de Oriental.
Tanto o promotor quanto o defensor pblico acreditavam que houvera outro
carro na estrada e que Dawson tivera que desviar dele e acabara saindo da pista.
Mas, como o juiz e o xerife da poca eram amigos da famlia de Marilyn Bonner,
no puderam fazer muita coisa a respeito. Isso bastou para desiludir Tanner
quanto  justia nas cidades pequenas. Em seguida, ele conversou com um
carcereiro aposentado da unidade correcional em Halifax, que por sua vez lhe
informou que Dawson tinha sido um detento-modelo. Tambm telefonou para
alguns dos antigos chefes de Dawson na Louisiana, para verificar sua idoneidade.
Foi s ento que concordou em aceitar o pedido de ajuda de Tuck.
Agora, depois de finalizar os detalhes referentes  propriedade de Tuck - e
resolver a questo do Stingray seu papel naquela histria chegaria ao fim.
Levando em conta tudo o que havia acontecido, inclusive as prises de Ted e
Abee Cole, Morgan considerava uma sorte que seu nome no tivesse surgido em
nenhuma das conversas que entreouvira no Irvin's. E, como bom advogado que
era, ele no deixara nada escapar da prpria boca.
Ainda assim, toda aquela situao o perturbava mais do que ele deixava
transparecer. Nos ltimos dias, tinha chegado at a fazer algumas ligaes muito
incomuns, que no o deixaram nada  vontade.
Dando as costas ao carro, ele vasculhou a bancada, procurando a ordem de
servio. Encontrou-a na prancheta e precisou apenas correr os olhos por ela para
descobrir tudo de que precisava. Mas, quando a estava devolvendo  bancada,
notou algo familiar.
Ele o pegou, sabendo que o vira antes. Analisou-o por alguns momentos e
refletiu sobre as conseqncias, ento enfiou a mo no bolso e pegou seu celular.
Buscou o nome na lista de contatos e selecionou o comando de chamada.
Do outro lado da linha, o telefone comeou a tocar.

Amanda havia passado a maior parte dos ltimos dois dias no hospital com Jared
e estava ansiosa para dormir na prpria cama naquela noite. A cadeira ao lado do
leito era incrivelmente desconfortvel e o prprio Jared pedira que ela fosse
embora.
- Preciso de um tempo sozinho - dissera ele.
Enquanto ela ficava sentada no pequeno jardim coberto aproveitando um pouco
de ar fresco, Jared estava no andar de cima, tendo sua primeira consulta com a
psicloga, para alvio de Amanda. Fisicamente, ela sabia que o progresso do filho
estava sendo muito bom. O lado emocional, no entanto, era outra histria.
Embora Amanda quisesse acreditar que a conversa dos dois tivesse aberto a Jared
uma porta, ou pelo menos uma fresta, para uma nova maneira de pensar sobre
sua condio, o rapaz estava em conflito, debatendo-se com a sensao de que
muitos anos tinham sido tirados de sua vida.
Seu filho queria de volta o que tinha antes: um corpo perfeitamente saudvel e
um futuro relativamente descomplicado, mas isso j no era possvel. Ele estava
tomando imunossupressores para que seu organismo no rejeitasse o novo
corao e, uma vez que esses medicamentos o deixavam suscetvel a infeces,
doses cavalares de antibiticos tambm estavam sendo administradas, alm de
um diurtico para evitar a reteno de lquidos. E, embora o rapaz fosse receber
alta na semana seguinte, teria que realizar consultas regulares durante no
mnimo um ano para monitorar seu progresso. Tambm teria que fazer
fisioterapia e seguir uma dieta rigorosa. Alm de tudo isso, precisaria se consultar
semanalmente com uma psicloga.
O caminho  frente seria desafiador para toda a famlia, mas onde antes havia
apenas desespero agora Amanda sentia esperana. Jared era mais forte do que
imaginava. Levaria tempo, mas ele encontraria uma maneira de superar aquilo
tudo. Ao longo dos ltimos dois dias, ela havia vislumbrado essa fora, ainda que
o prprio filho no tivesse se dado conta dela. E Amanda sabia que a terapia
tambm iria ajud-lo.
Frank e Evelyn vinham cuidando de trazer Annette para o hospital e de lev-la
de volta para casa - Lynn vinha de carro sozinha. Amanda sabia que estava
passando menos tempo do que deveria com as meninas. Estava ciente de que elas
tambm sofriam, mas no tinha escolha.
Decidiu que naquela noite iria comprar uma pizza a caminho de casa. Mais
tarde, talvez vissem um filme juntas. No era grande coisa, mas, quela altura,
era tudo o que ela poderia fazer. Assim que Jared recebesse alta, as coisas
comeariam a voltar ao normal. Ela telefonaria para a me e lhe contaria sobre
seus planos...
Enfiando a mo na bolsa, ela sacou o celular e notou um nmero desconhecido
na tela. O cone de mensagem de voz tambm estava piscando.
Ligou para o nmero. Tanner atendeu imediatamente.
- Obrigado por retornar minha ligao - disse ele com a mesma formalidade
cordial que demonstrara quando Amanda e Dawson o haviam conhecido. -
Antes de eu comear, permita-me dizer que sinto muito por entrar em contato
em um momento to difcil para a senhora.
Amanda piscou, confusa, perguntando-se como ele teria ficado sabendo.
- Obrigada, mas Jared est melhor. Estamos muito aliviados.
Tanner ficou calado, como se tentasse interpretar o que ela acabara de dizer.
- Bem, ento... Estou ligando porque fui at a casa de Tuck hoje pela manh e,
enquanto examinava o carro...
- Ah, sim - interrompeu-o Amanda. - Eu ia falar sobre isso com o senhor.
Dawson terminou de consert-lo antes de ir embora. Est pronto para ser
entregue ao dono.
Novamente, Tanner demorou alguns segundos para prosseguir.
- O que quero dizer  que encontrei a carta que Tuck escreveu para Dawson -
continuou ele. - Ele deve t-la deixado aqui e eu no sabia bem se deveria ou no
encaminh-la  senhora.
Amanda passou o celular para a outra orelha, perguntando-se por que Tanner
teria ligado para ela.
- A carta era para Dawson - disse ela. - Seria melhor envi-la para ele, o senhor
no acha?
Ela o ouviu suspirar do outro lado da linha.
- Suponho que a senhora no tenha sido informada sobre o ocorrido - falou ele
devagar. - Na noite de domingo. No Tidewater.
- O que aconteceu? - Amanda franziu as sobrancelhas, totalmente confusa.
- Detesto ter que lhe contar isso ao telefone. A senhora poderia vir ao meu
escritrio hoje  noite? Ou amanh pela manh?
- No - respondeu ela. - Eu j voltei para Durham. O que est havendo? O que
aconteceu?
- Eu realmente preferiria lhe dar a notcia pessoalmente.
- No vai ser possvel - disse ela, comeando a perder a pacincia. - Apenas me
diga o que est havendo. O que aconteceu no Tidewater? E por que o senhor no
pode simplesmente enviar a carta para Dawson?
Tanner hesitou antes de finalmente pigarrear.
- Houve um... confronto no bar. O lugar foi basicamente destrudo e vrios tiros
foram disparados. Ted e Abee Cole foram presos e um jovem chamado Alan
Bonner ficou gravemente ferido. Bonner ainda est no hospital, mas, pelo que
sei, vai ficar bem.
Ouvir aqueles nomes um atrs do outro fez o sangue latejar nas tmporas de
Amanda. Ela sabia, naturalmente, que outro nome interligava todos eles.
- Dawson estava l? - perguntou ela, sua voz pouco mais que um sussurro.
- Sim - respondeu Morgan Tanner.
- O que aconteceu?
- Pelo que consegui descobrir, Ted e Abee Cole estavam atacando Alan Bonner
quando Dawson entrou de repente no bar. Ento os dois largaram o rapaz e
foram atrs dele. - Tanner se deteve. - A senhora precisa entender que a polcia
ainda no divulgou o boletim oficial...
- Dawson est bem? E s isso que eu preciso saber.
Ela conseguia ouvir a respirao de Tanner do outro lado da linha.
- Dawson estava ajudando Alan Bonner a sair do bar quando Ted conseguiu
disparar um ltimo tiro. Ele foi baleado.
Amanda sentiu cada msculo de seu corpo se retesar, preparando-se para o que
sabia estar por vir. Aquelas palavras, como tantas que tinha ouvido nos ltimos
dias, pareciam incompreensveis.
- A bala... Ele foi atingido na cabea. No teve a menor chance, Amanda. Quando
chegou ao hospital, j havia sofrido morte cerebral.
Enquanto Tanner falava, Amanda sentiu sua mo se afrouxar em volta do
telefone, que caiu no cho. Ela ficou olhando para o aparelho, antes de
finalmente estender o brao e pressionar o boto para encerrar a chamada.
Dawson. No Dawson. Ele no pode estar morto.
Mas ento tornou a ouvir o que Tanner tinha dito. Ele fora ao Tidewater. Ted e
Abee estavam l. Ele salvara Alan Bonner e agora estava morto.
Uma vida por outra, pensou ela. O truque cruel de Deus.
Amanda vislumbrou de repente a imagem deles dois de mos dadas, passeando
por um campo de flores silvestres. E, quando as lgrimas finalmente vieram,
chorou por Dawson e por todos os dias que eles nunca passariam juntos. At,
talvez, como Tuck e Clara, o momento em que suas cinzas de alguma forma se
encontrassem em um campo ensolarado, muito longe do velho caminho de suas
vidas comuns.

                                    Eplogo

Dois anos depois

Amanda guardou duas travessas de lasanha na geladeira e foi conferir o bolo no
forno. Embora Jared s fosse completar 21 anos dali a alguns meses, ela passara a
considerar o dia 23 de junho uma espcie de segundo aniversrio dele. Nessa
mesma data, dois anos atrs, seu filho havia recebido um corao novo, outra
chance de viver. Se isso no fosse motivo para comemorao, ela no sabia o que
mais poderia ser.
Ela estava sozinha em casa. Frank estava no trabalho, Annette tinha dormido na
casa de uma amiga depois de uma festa do pijama e Lynn ainda no havia
voltado da loja onde conseguira um emprego temporrio. Enquanto isso, antes
que seu estgio em uma firma de gesto de capitais comeasse, Jared planejava
aproveitar um de seus ltimos dias livres jogando bola com um grupo de amigos.
Amanda o alertara de que o dia estava muito quente e o fizera prometer se
hidratar bastante.
"Vou me cuidar", dissera ele ao sair, para tranquiliz-la. Ultimamente, talvez por
estar amadurecendo, ou talvez por conta de tudo o que lhe havia acontecido,
Jared parecia entender que as preocupaes de Amanda eram algo intrnseco 
maternidade.
Nem sempre ele tinha sido to tolerante. Logo aps o acidente, parecia
interpretar tudo de forma equivocada. Quando Amanda o olhava com
preocupao, ele dizia que a me o estava sufocando; quando tentava manter
uma conversa, ele estourava de raiva. A me entendia os motivos por trs de
tanto mau humor: a recuperao era dolorosa, os remdios muitas vezes o
deixavam nauseado e msculos que antes eram rgidos estavam fracos, apesar da
fisioterapia, o que s aumentava sua sensao de desamparo.
A recuperao emocional fora dificultada pelo fato de que, ao contrrio da
maioria dos pacientes transplantados, que haviam esperado e torcido pela chance
de ganharem alguns anos de vida, Jared no conseguia deixar de sentir que, no
caso dele, os anos haviam sido perdidos. s vezes era grosseiro com amigos que
iam visit-lo e, poucas semanas depois do acidente, Melody, a garota na qual
pensara tanto durante aquele fatdico fim de semana, lhe informara que estava
namorando. Visivelmente deprimido, o rapaz decidira se dar frias da faculdade.
Tinha sido um caminho longo e s vezes desanimador, mas, com a ajuda da
terapeuta, Jared comeara a dar a volta por cima. A terapeuta tambm havia
sugerido a Frank e Amanda que se consultassem com ela regularmente para falar
sobre os desafios de Jared e sobre qual a melhor maneira de ajudar o filho a
enfrent-los. Com um histrico de problemas no relacionamento, s vezes era
difcil para os dois deixarem de lado seus conflitos de modo a dar a Jared a
segurana e o incentivo de que ele precisava, mas, no fim das contas, o amor que
sentiam pelo filho falou mais alto. Eles fizeram o possvel para apoi-lo enquanto
ele atravessava perodos de tristeza, desamparo e raiva, at chegar ao ponto em
que finalmente conseguiu aceitar sua nova condio.
No comeo do ltimo vero, o rapaz se matriculara em um curso de extenso na
rea de economia numa faculdade prxima e, para orgulho e alvio de Amanda e
Frank, logo em seguida anunciara que, no outono, retomaria seu curso integral
na Davidson. Mais tarde naquela mesma semana, em tom quase despreocupado,
ele mencionara durante o jantar que tinha lido sobre um homem que vivera 31
anos depois de um transplante de corao. Uma vez que a medicina avanava a
cada ano, Jared calculava que fosse viver ainda mais tempo.
Voltar a estudar fizera muito bem a seu estado de esprito. Depois de se consultar
com um mdico, ele tambm comeara a correr, chegando ao ponto de fazer
quase 10 quilmetros por dia. Passara a freqentar a academia trs a quatro vezes
por semana e aos poucos recuperara a forma fsica. Fascinado pelo curso que
havia feito durante o vero, decidira se concentrar em economia quando
retornou  Davidson. Semanas depois de voltar  faculdade, conheceu outra
aluna de economia, uma garota chamada Lauren, e os dois se apaixonaram
perdidamente. J comeavam inclusive a falar em casamento logo depois que se
formassem. Tinham passado as duas ltimas semanas juntos em uma misso
humanitria no Haiti organizada pela igreja que Lauren freqentava.
Exceto pelo fato de ter de tomar sua medicao  risca e se abster de lcool, Jared
levava a vida normal de um jovem de 21 anos. E no se incomodara com o desejo
da me de lhe fazer um bolo para celebrar o transplante. Depois de dois anos,
finalmente chegara ao ponto em que, apesar de tudo, se considerava um
felizardo.
No entanto, havia uma mudana recente no modo de pensar de Jared com o qual
Amanda ainda no sabia muito bem como lidar. Algumas noites atrs, enquanto
ela colocava os pratos no lava-loua, Jared se juntara a ela na cozinha,
recostando-se no balco.
- E ento, me? Voc vai fazer aquela parada beneficente para a Duke este
outono?
O rapaz sempre se referira aos almoos de arrecadao de fundos que a me
organizava como "parada beneficente". Por motivos bvios, desde o acidente ela
havia deixado de participar do evento e tambm de trabalhar como voluntria
no hospital.
- Sim. - respondeu. - Eles me pediram para assumir a organizao novamente.
- Porque os dois anos sem voc foram um fiasco, no ? Pelo menos foi o que a
me de Lauren disse.
- Os eventos no foram um fiasco. S no deram to certo quanto o planejado.
- Fico feliz que voc volte a fazer isso. Quero dizer... por Bea.
Ela sorriu.
- Eu tambm.
-  bom para o hospital, tambm, no ? Esse dinheiro faz falta...
Ela pegou um pano de prato e secou as mos, analisando-o.
- Por que tanto interesse de repente?
Jared coou, distrado, a cicatriz debaixo da camisa.
- Andei pensando que talvez voc pudesse usar seus contatos no hospital para
descobrir uma coisa para mim - respondeu ele. - Algo que eu tenho me
perguntado ultimamente.

Enquanto o bolo esfriava em cima do balco, Amanda saiu para a varanda dos
fundos e inspecionou o jardim. Apesar dos irrigadores automticos que Frank
instalara no ano anterior, a grama estava ressecada em alguns trechos. Naquela
manh, antes que o marido sasse para trabalhar, ela o vira parado, carrancudo,
diante de uma parte amarronzada e sem vida do gramado. Nos ltimos dois anos,
Frank desenvolvera uma obsesso por ele. Diferentemente da maioria dos
vizinhos, ele insistia em cuidar pessoamente do jardim. Dizia que aquilo o
ajudava a relaxar depois de um dia inteiro tratando cries e moldando coroas.
Embora Amanda imaginasse haver alguma verdade nisso, tambm enxergava
algo de compulsivo naquele hbito. Chovesse ou fizesse sol, Frank cortava a
grama dia sim, dia no, formando um padro quadriculado.
Apesar da incredulidade inicial de Amanda, Frank no tomara uma s cerveja,
ou mesmo um gole de vinho, desde o dia do acidente. No hospital, ele havia
jurado que pararia de vez e vinha cumprindo a promessa. Depois de dois anos,
Amanda j no esperava que ele pudesse ter uma recada, o que explicava em
grande parte o fato de os dois estarem se dando melhor. No era um
relacionamento perfeito, de forma alguma, mas tampouco era to ruim quando
havia sido. Nas semanas que se seguiram ao acidente, o casal discutira quase
todos os dias. A dor, a culpa e a raiva haviam transformado suas palavras em
verdadeiras lminas e tornado os ataques verbais uma rotina. Durante meses
Frank passara as noites no quarto de hspedes e, ao longo do dia, era raro que os
dois chegassem a estabelecer contato visual.
Por mais difceis que tivessem sido aqueles meses, Amanda nunca havia
conseguido ser capaz de dar o passo final e pedir o divrcio. Levando em conta o
estado emocional de Jared, ela no suportava se imaginar traumatizando-o ainda
mais. O que no percebia era que sua determinao em preservar a famlia no
estava surtindo o efeito desejado. Poucos meses depois de Jared voltar do
hospital, Frank estava conversando com o filho na sala de estar quando Amanda
chegou. Como de hbito quela altura, Frank se levantou e foi embora. Jared o
observou sair e se virou em direo  me:
- No foi culpa dele - falou. - Era eu quem estava dirigindo.
- Eu sei.
- Ento pare de culp-lo.
Ironicamente, foi a terapeuta do rapaz quem acabou por convencer Amanda e
Frank a buscarem ajuda profissional para seu relacionamento. A tenso dentro
de casa estava afetando a recuperao de Jared, assinalara ela, e, se eles realmente
quisessem ajudar o filho, deveriam tentar uma terapia de casal. Sem um
ambiente familiar estvel, seria mais difcil que o rapaz aceitasse sua nova
condio e aprendesse a lidar com ela.
Amanda e Frank por fim cederam. Em carros separados, seguiram para sua
consulta inicial com o terapeuta. Na primeira sesso, tudo o que conseguiram foi
discutir, como vinham fazendo havia meses. J na segunda, foram capazes de
conversar sem levantar suas vozes. E, acatando o pedido gentil porm firme do
terapeuta e para alvio de Amanda, Frank comeou a freqentar tambm
reunies do AA. No comeo, ia cinco vezes por semana, mas ultimamente os
encontros tinham passado a ser semanais. Inclusive fazia trs meses que Frank
era padrinho de um dos membros. Encontrava-se regularmente para tomar caf
da manh com um bancrio de 34 anos recm-divorciado que, ao contrrio dele,
ainda no conseguia se manter sbrio. Antes disso, Amanda no havia se
permitido acreditar que Frank teria sucesso a longo prazo.
Era indiscutvel que Jared e as meninas tinham se beneficiado da melhora na
atmosfera dentro de casa. Em alguns momentos Amanda at chegava a
considerar aquela fase um recomeo para o casal. Nos ltimos tempos, o passado
quase nunca era o assunto principal de suas conversas. Agora, os dois j
conseguiam rir de vez em quando na companhia um do outro. Saam juntos
todas as sextas-feiras - outra recomendao do terapeuta - e, embora isso ainda
parecesse forado s vezes, sabiam que era importante. Sob vrios aspectos,
depois de muitos anos, estavam se conhecendo novamente.
Havia algo de gratificante nisso, mas Amanda sabia que nunca haveria paixo no
casamento deles. Frank simplesmente no era assim, nunca seria - mas isso no a
incomodava. Ela havia conhecido o tipo de amor pelo qual valia a pena arriscar
tudo, o tipo de amor que era to raro quanto um vislumbre do paraso.

Dois anos. Dois anos tinham se passado desde seu fim de semana com Dawson
Cole, dois longos anos desde o dia em que Morgan Tanner lhe telefonara para
dar a notcia de que ele havia morrido.
Ela guardou as cartas junto com a fotografia de Tuck e Clara e com o trevo de
quatro folhas, escondendo-os no fundo da sua gaveta de pijamas, onde Frank
jamais mexeria. s vezes, quando a dor da perda lhe parecia forte demais, ela
tirava aqueles objetos de seu esconderijo. Relia as cartas e segurava o trevo de
quatro folhas, perguntando-se quem exatamente eles haviam sido um para o
outro naquele fim de semana. Tinham se amado, mas no chegaram a ser
amantes; tinham sido amigos, mas tambm estranhos depois de tantos anos
separados. S que a paixo havia sido real, to presente quanto o cho sob seus
ps.
No ano anterior, alguns dias depois do aniversrio de morte de Dawson, Amanda
fizera uma viagem a Oriental. Parando o carro no cemitrio, ela caminhara at o
limite da propriedade, onde uma pequena subida dava vista para um bosque de
rvores frondosas. Era ali que os restos mortais de Dawson estavam enterrados,
longe dos Cole e mais longe ainda dos jazigos das famlias Bennett e Collier.
Parada diante da lpide simples, olhando para os lrios recm-cortados que
algum deixara ali, ela imaginara que, se por algum capricho do destino, fosse
enterrada no jazigo dos Collier naquele mesmo cemitrio, suas almas acabariam
se encontrando - como haviam se encontrado em vida, no s uma, mas duas
vezes.
Antes de sair, Amanda tinha ido at o tmulo do Dr. Bonner para prestar
condolncias no lugar de Dawson. E ali, diante da lpide, vira um buqu de lrios
idntico ao primeiro. Marilyn Bonner, imaginou ela. Ento lgrimas brotaram de
seus olhos e ela voltou para o carro.
O tempo no havia diminudo em nada suas lembranas de Dawson. Ao
contrrio, seus sentimentos por ele pareciam ter ficado mais fortes. Por mais
estranho que parecesse, o amor dele lhe dera a determinao de que precisava
para superar as dificuldades dos ltimos dois anos.
Sentada na varanda enquanto o sol de fim de tarde atravessava as rvores, ela
fechou os olhos e enviou uma mensagem silenciosa para Dawson. Lembrou-se de
seu sorriso e da sensao de ter a mo dele contra a sua, pensou no fim de
semana que os dois tinham passado juntos. Nada mudaria no dia seguinte: ela iria
se lembrar de tudo novamente. Esquecer-se dele ou de qualquer detalhe daquele
fim de semana seria uma traio. E se havia algo que Dawson merecia, era
lealdade - do mesmo tipo que ele lhe dedicara durante os longos anos que
ficaram separados. Ela o amara no passado e voltara a am-lo outra vez. Nada
jamais conseguiria mudar esse sentimento. Dawson renovara sua vida de uma
forma que Amanda nunca havia imaginado ser possvel.

Amanda j havia posto a lasanha no forno e estava preparando uma salada
quando Annette entrou em casa. Frank chegou poucos minutos depois. Aps dar
um beijo na esposa, trocou algumas palavras com ela e foi mudar de roupa.
Annette a ajudou a pr cobertura no bolo enquanto tagarelava sem parar sobre a
festa na casa da amiga.
Jared foi o prximo a chegar, acompanhado de trs amigos. Depois de beber um
copo d'gua, deixou os rapazes no sof da sala jogando videoga- me e foi tomar
banho.
Lynn apareceu meia hora depois, tambm trazendo duas amigas. Antes que
Amanda se desse conta, todos os jovens haviam migrado para a cozinha, os
amigos de Jared flertando com as amigas de Lynn, perguntando o que as garotas
iriam fazer mais tarde e dando a entender que poderiam ir junto. Annette deu
um abrao no pai, que tinha voltado  cozinha, e implorou que ele a levasse para
ver um filme teen. Frank deu um gole em seu ch diet gelado e comeou a
provoc-la com promessas de que, em vez disso, a levaria para ver algo com
armas e exploses, o que fez a menina soltar gritinhos de protesto.
Amanda observava tudo aquilo com um sorriso distrado iluminando seu rosto.
Reunir a famlia para jantar no era exatamente raro, mas tambm no era to
comum assim. E o fato de haver mais pessoas presentes s tornava a refeio
mais animada para todos.
Servindo-se de uma taa de vinho, ela saiu devagar para a varanda dos fundos e
ficou observando um casal de pssaros saltar de galho em galho.
- Vamos? - chamou Frank do vo da porta da varanda. - As crianas esto ficando
inquietas.
- Diga que j podem se servir - disse ela. - Vou ficar um pouco aqui fora.
- Quer que eu arrume seu prato?
- Quero, obrigada. - respondeu ela, assentindo. - Mas pode deixar que eles se
sirvam primeiro.
Frank se afastou da porta e, pela janela, Amanda o observou se misturar aos
demais na sala de jantar.
Atrs dela, a porta tornou a se abrir.
- Oi, me. Voc est bem?
O som da voz de Jared fez com que ela se virasse.
- Estou tima.
Depois de um instante, ele fechou a porta com cuidado atrs de si e caminhou
at ela.
- Tem certeza? - perguntou. - Parece que tem alguma coisa incomodando voc.
- S estou um pouco cansada. - Ela conseguiu abrir um sorriso tranquilizador. -
Onde est Lauren?
- Vai chegar daqui a pouco. Quis passar em casa para tomar um banho antes.
- Ela se divertiu?
- Acho que sim. Acertou a bola, pelo menos. Ficou muito empolgada por ter
conseguido.
Amanda olhou para Jared, acompanhando o contorno de seus ombros, do
pescoo, das faces, ainda conseguindo ver o garotinho que ele tinha sido um dia.
Ele hesitou.
- Ento... Eu queria perguntar se voc acha que poderia me ajudar com aquilo.
No chegou a me responder naquela noite. - Ele chutou um pequeno arranhado
no cho da varanda. - Queria mandar uma carta para a famlia. Para agradecer,
sabe? Se no fosse pelo doador, eu no estaria aqui.
Amanda baixou os olhos, lembrando-se da pergunta que Jared lhe fizera algumas
noites atrs.
-  natural querer descobrir quem doou seu corao - disse ela enfim, escolhendo
suas palavras com cuidado. - Mas existem bons motivos para manterem o
anonimato.
Havia alguma verdade nas palavras de Amanda, mesmo que no fosse a verdade
inteira.
- Ah. - Os ombros de Jared caram um pouco. - Achei mesmo que fosse o caso -
disse ele. - Tudo o que me contaram foi que o doador tinha 42 anos quando
morreu. Eu s queria... descobrir mais sobre ele.
Eu poderia lhe contar, pensou Amanda. Muito mais. Havia suspeitado da
verdade desde a ligao de Morgan Tanner. S precisava de alguns telefonemas
para confirmar. Acabara descobrindo que, naquela noite de segunda-feira, dois
anos antes, os aparelhos que sustentavam a vida de Dawson tinham sido
desligados. Mesmo depois que os mdicos tiveram certeza de que no havia
chances de recuperao, eles ainda o mantiveram nos aparelhos, porque Dawson
era doador de rgos.
Amanda sabia que ele tinha salvado a vida de Alan - mas, no fim das contas,
tambm salvara a de Jared. E para ela isso significava... tudo. Eu lhe dei o melhor
de mim, Dawson lhe dissera certa vez, e, a cada batida do corao de seu filho,
ela sabia que era exatamente isso o que havia feito.
- Que tal um abrao antes de voltarmos l para dentro? - pediu ela.
Jared girou os olhos, mas abriu os braos assim mesmo.
- Eu te amo, me - murmurou ele, puxando-a para perto.
Amanda fechou os olhos, sentindo o ritmo constante no peito do filho.
- Eu tambm te amo.
